50 debates para o Brasil: a expansão das escolas cívico-militares divide opiniões sobre a educação

A busca por uma escola mais segura e capaz de garantir aprendizagem de qualidade está no centro do debate sobre a expansão das escolas cívico-militares no Brasil. Hoje, são cerca de 1.500 escolas desta modalidade, em mais de 800 cidades. Na série 50 Debates para o Brasil, promovida pela CBN, discutimos esse tema com o professor do Departamento de Economia da Universidade Federal da Paraíba, Jevuks Mateus de Araújo, favorável à adoção desse modelo em determinadas situações, e a presidente-executiva do Todos Pela Educação, Priscila Cruz, que defendeu o fortalecimento da gestão pedagógica tradicional.

Ao defender as escolas cívico-militares, Jevuks ressaltou que elas não devem ser tratadas como uma solução para todos os problemas da educação, mas como uma alternativa para contextos específicos. Segundo ele, um estudo realizado sobre a experiência de Goiás identificou efeitos positivos sobre o desempenho dos estudantes. “O programa se insere em um leque de programas e oportunidades de políticas públicas. Ele não é uma solução mágica que vai resolver todos os problemas”, afirmou.

De acordo com o pesquisador, os resultados estão associados principalmente à redução da violência nas escolas. A pesquisa identificou queda nas ameaças a profissionais da educação, na presença de drogas e armas e nos casos de roubo, fatores que contribuíram para melhorar o ambiente escolar e favorecer a aprendizagem. Para ele, diferentes redes de ensino enfrentam desafios distintos e, por isso, devem dispor de diferentes instrumentos de gestão. “Esses programas não sejam excludentes e que atendam a realidades diferentes, a objetivos diferentes”, resumiu.

Priscila Cruz reconheceu a importância de estudos que avaliam políticas públicas, mas questionou se esse modelo responde aos objetivos mais amplos da educação. Segundo ela, a escola precisa formar cidadãos preparados para viver em diferentes ambientes sociais e profissionais, desenvolvendo autonomia, criatividade e liderança. “A escola tem que formar para um ambiente mais amplo, para uma gama muito maior de situações que esse jovem vai encontrar fora da escola”, afirmou.

Na avaliação da presidente-executiva do Todos Pela Educação, parte dos resultados obtidos em Goiás também pode estar relacionada ao maior investimento e à atenção recebida por essas unidades. Ela citou experiências em estados como Ceará e municípios como Sobral e Vitória, onde avanços na aprendizagem e na redução da violência ocorreram por meio da melhoria da gestão escolar e da formação de professores, sem recorrer à militarização. “A militarização não é a solução”, concluiu.

Ao longo do debate, os dois convidados convergiram em um ponto: a violência nas escolas representa um desafio que precisa ser enfrentado. A divergência esteve na estratégia. Enquanto Jevuks defendeu que o modelo cívico-militar pode ser uma resposta eficaz em determinados contextos, Priscila sustentou que os mesmos objetivos podem ser alcançados com investimento em gestão, formação docente e integração entre as áreas de educação e segurança pública.

A principal marca deste debate foi mostrar que a discussão não se resume a escolher entre dois modelos de escola. Ela passa por uma questão mais ampla: quais políticas públicas conseguem oferecer segurança, melhorar a aprendizagem e formar estudantes preparados para exercer a cidadania e enfrentar os desafios da vida.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente.