O sentimento de renúncia

Beatriz Breves

A ação de renunciar traz consigo o sentimento de renúncia, ainda que nem sempre ele seja percebido conscientemente. Trata-se de um sentimento muito mais comum do que se imagina e ao qual, talvez justamente por estar tão presente nas  escolhas cotidianas, acabamos prestando pouca atenção.

A renúncia é um sentimento frequentemente associado ao sacrifício de si mesmo. Entretanto, não aparece apenas nas grandes decisões da vida. Está presente sempre que, diante de duas ou mais possibilidades, escolhemos uma delas e, consequentemente, renunciamos às demais.

Imaginemos, por exemplo, uma pessoa que esteja amando e receba uma proposta de trabalho bastante promissora em outro país, com a condição de partir sozinha.

Diante dessa situação, terá de fazer uma escolha: permanecer por amor ou aceitar a oportunidade profissional.

Qualquer que seja a decisão, algo será deixado de lado. Haverá uma renúncia.

Se escolher permanecer, renunciará à oportunidade profissional e a tudo aquilo que ela poderia proporcionar. Se escolher partir, renunciará à permanência com a pessoa amada e às experiências que aquela relação poderia oferecer.

É justamente aí que a renúncia revela algo comum no universo dos sentimentos: ela não vibra isoladamente, mas pode coexistir com outros sentimentos.

O sentimento de renúncia pode se associar, ao mesmo tempo, ao grupo das tristezas e ao das alegrias. Uma escolha pode trazer satisfação, entusiasmo e esperança e, ao mesmo tempo, pesar, saudade e tristeza por aquilo que não foi escolhido.

Isso demonstra que sentimentos aparentemente contraditórios podem coexistir em nós.

No exemplo acima, a escolha é bastante evidente. O que muitas vezes não percebemos é que estamos fazendo escolhas a todo instante e, por meio delas, vivenciando o sentimento de renúncia, ainda que não tenhamos consciência disso. Até mesmo permanecer na rotina envolve renúncia.

Quando alguém acorda pela manhã e decide ir trabalhar, pode pensar: “Eu não tenho escolha. Se não trabalhar, posso ser demitido. E como vou viver?”. Ainda assim, mesmo diante de circunstâncias que limitam suas possibilidades, a pessoa toma uma decisão.

Ao ir trabalhar, aquela pessoa renuncia a outras possibilidades e, também, às experiências e aos sentimentos que poderiam acompanhá-las.

Isso não significa que desejemos conscientemente todas as alternativas que deixamos de viver. Significa apenas que toda escolha delimita um caminho e exclui outros.

Nesse movimento, a renúncia, tanto como ação quanto como sentimento, se faz presente. Junto ao ato de renunciar, coexiste o sentimento de renúncia.

Talvez seja por isso que algumas decisões, mesmo quando sabemos que foram acertadas, deixem em nós uma pequena tristeza, uma saudade ou a sensação de que alguma coisa ficou para trás.

A renúncia nos mostra, portanto, que escolher não é apenas decidir o que queremos viver, mas também aceitar aquilo que deixamos de viver.

Por isso, a renúncia é um dos sentimentos que nos ensina a colocar na balança, com cuidado, as nossas escolhas, pois cada uma delas estará sempre colorida pela presença do sentimento de renúncia.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

50 debates para o Brasil: educação domiciliar divide opiniões sobre liberdade e direitos das crianças

Ensinar os filhos em casa coloca em confronto a liberdade de escolha das famílias e o direito de crianças e adolescentes à convivência escolar e à proteção contra abusos. O tema foi discutido na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, por Carlos Vinícius Reis, presidente da Associação Nacional de Educação Domiciliar, e Ariel de Castro Alves, advogado e membro da Comissão Nacional de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Conselho Federal da OAB.

Carlos Vinícius defendeu que os pais possam escolher a educação domiciliar, desde que a prática seja regulamentada, avaliada e fiscalizada pelo poder público. Segundo ele, a modalidade permite um ensino mais personalizado e oferece uma alternativa às famílias que não consideram a escola convencional a melhor opção para os filhos.

“Quando falamos de educação domiciliar, estamos falando de liberdade educacional”, afirmou. Para Carlos, a decisão do Supremo Tribunal Federal de 2018 reconheceu a compatibilidade da prática com a Constituição, embora sua adoção dependa de uma lei que estabeleça regras. Ele ressaltou que a proposta não significa abandonar a supervisão estatal: “Estamos falando de liberdade com responsabilidade.”

Questionado sobre o risco de crianças submetidas a abusos ficarem afastadas de uma rede capaz de identificá-los, Carlos disse não haver dados que associem famílias adeptas da educação domiciliar à violência. Acrescentou que as escolas também registram episódios de agressão e sustentou que o debate deve oferecer opções às famílias, sem transformar o ensino em casa em oposição à educação escolar.

A escola como espaço de proteção

Ariel de Castro Alves afirmou que a educação dos filhos não está sob decisão exclusiva dos pais. Pela Constituição e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, explicou, família, Estado e sociedade compartilham a obrigação de proteger crianças e adolescentes e garantir sua formação.

“A escola, além do papel do ensino formal, do ensino curricular, tem o papel de formar crianças e adolescentes para a cidadania”, disse. Para ele, a convivência com colegas de diferentes origens, etnias e condições prepara o estudante para as relações sociais, para o mercado de trabalho e para as frustrações da vida adulta.

Ariel ressaltou ainda que professores e outros profissionais da educação ajudam a perceber sinais de violência doméstica, exploração do trabalho infantil e abuso sexual. “Dificilmente esses dados vão aparecer porque geralmente as escolas possuem protocolos específicos”, afirmou ao responder por que podem faltar registros de violência envolvendo crianças educadas apenas em casa.

O centro do debate está nos limites da autoridade familiar. Os defensores da educação domiciliar entendem que os pais devem poder escolher a forma de ensino, sob acompanhamento do Estado. Os críticos consideram que a escola oferece algo que não pode ser plenamente reproduzido dentro de casa: contato com a diversidade, formação cidadã e uma rede externa de proteção.

A discussão, portanto, não se resume ao lugar onde a criança aprende português ou matemática. Trata de quem decide sua educação, de como o Estado acompanha esse processo e de quais garantias devem prevalecer quando a escolha dos adultos pode afetar os direitos das crianças.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Quem lidera?

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

Fugir da dieta. Perder horas e horas no celular. Tomar um vinho ou alguns drinks para relaxar.

Comprar “porque eu mereço”. Explodir “porque não aguento mais”. Dormir “porque estou esgotado”.

Quando você faz essas coisas, quem escolhe o que você faz?

Quando você age, quem está na liderança?

Podemos não perceber, mas tomamos centenas de microdecisões ao longo do dia que, no fim, influenciam muitos dos resultados da nossa vida.

De repente, gastamos mais do que deveríamos, comemos mais do que gostaríamos, brigamos por tudo e com todos. Agimos por impulso e perdemos a consciência sobre nossas escolhas.

É gigantesco o preço por não conhecermos nosso mundo interior, por não percebermos o que sentimos e como esses sentimentos influenciam nossas atitudes. Aumentamos o risco de fazer escolhas das quais podemos nos arrepender. Surgem mágoas, perdas e frustrações.

Fugir das emoções também pode nos afastar dos nossos objetivos, nos distanciar de nossos sonhos. Fugir de nós mesmos compromete a autoliderança.

É preciso coragem. Olhar para dentro, perceber os movimentos que ocorrem e entrar em contato com os sentimentos que nos inundam costuma ser assustador. Quanto menos fazemos isso, mais medo temos, mais ficamos presos nos vícios aqui fora.

É aí que entra a coragem emocional. A essência da liberdade e das conquistas. É olhar para as emoções, compreender o que elas têm a dizer e, usando essa força como combustível, acelerar rumo à sua meta — fazer o que precisa ser feito para construir a vida que deseja viver.

Coragem emocional também é trabalhar agora para desfrutar momentos de realização e sucesso. Quem mergulha em seu próprio universo traz à tona uma versão sólida e potente de si mesmo.

Então, me conta: você tem coragem?

Quem lidera você?

Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Ninguém entende

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

Você escolheu mudar — de casa, cidade, emprego, relacionamento, aparência.
Você emagrece — está demais; você engorda — precisa se controlar.
Quer outra carreira — está enlouquecendo? Vai desperdiçar tudo o que já fez?
Decide dizer não para uma relação — está pensando o quê, que encontrará algo melhor?

Há coisas que ninguém entende. Decisões que ninguém apoia. Atitudes extremamente solitárias.

Pessoas têm seus temperamentos, traumas de vida, experiências prévias — e, a partir desse baú todo, constroem opiniões e conceitos, inclusive sobre “o que é certo e errado”.

Quando se forma um grupo de pessoas que convivem em um espaço, chamamos de sociedade. Surgem opiniões e conceitos do grupo — as regras sociais.

Carrinho de bate-bate: muitas vezes, suas percepções e suas vontades, como indivíduo único que é, baterão de frente com essas regras sociais. Choques e mais choques. Você estará sozinho.

É… ninguém entende. Há coisas suas que ninguém entenderá. E o dilema aparece: eu entendo, mas estou sozinho nessa. O que fazer?

Há momentos que nos exigem coragem. Coragem de reconhecer e assumir nossos desejos e sonhos, apesar de.

Apesar de os outros não gostarem, não concordarem, pontuarem problemas nas suas escolhas e ações.

Não é sobre ser ofensivo ou rebelde. É sobre poder ser você, em toda sua verdadeira e única essência.

Sustentar sua autenticidade tem um preço.
Não sustentá-la tem outro preço.

Ninguém entende.
Você, sim.

A Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Ação ou Reação?

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Reveja seus últimos meses de trabalho, convívio familiar, relacionamento amoroso… O que mais você vê: ação ou reação?

Ação: você pensa, elabora ideias, tem intenções e objetivos, escolhe que atitudes tomar e executa.

Reação: você percebe uma cobrança externa, um risco de perder algo ou alguém, uma crítica… qualquer situação que te incomoda ou te assusta e, então, dá uma resposta a isso, como uma defesa ou um contra-ataque.

Por fora, para quem está assistindo, parece tudo a mesma coisa – um ser humano fazendo movimentos, falando, indo ou voltando, iniciando projetos, e por aí vai.

Mas, por dentro… muda tudo. Por dentro, a motivação que inicia a atitude diz se estamos construindo, conscientemente, a vida que queremos viver, a reputação que queremos ter, o impacto que geramos no mundo; ou diz se estamos tampando buracos, apagando incêndios, empurrando como dá.

Reagir nos coloca em estado de alerta constante, porque estamos sempre vigilantes, resolvendo problemas, tentando provar que somos capazes, nos esforçando pra não perder o que (de repente) lembramos ser importante.

Viver de reações, de tentativas de responder rápido ao que percebemos não estar funcionando, é exaustivo – porque nos deixa com medo de perdermos, sermos descobertos em nossas faltas e falhas… uma escravidão sem fim.

Em sentido aposto, agir nos coloca no comando, porque temos clareza do que fazemos, o porquê fazemos, para onde pretendemos ir. Viver de ações nos dá segurança, confiança, firmeza em nós mesmos e na nossa história.

Ação ou Reação – projete seus próximos meses de trabalho, convívio familiar, relacionamento amoroso, vida… e me diga: escolherá qual caminho para você?

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center.  Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Por que escolhemos acreditar?

Dr Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Por que escolhemos acreditar?

Porque precisamos.

Acreditar é pensar que é possível, visualizar uma melhora, sentir esperança.

Quando acreditamos: tentamos estudar para evoluir na carreira; tentamos mudar a forma de trabalhar para conseguir mais retorno financeiro; tentamos desenvolver qualidades como disciplina e coragem para vencer nosso comodismo e nossos medos.

Para a vida ser construída, é necessário refletir, desejar algo, planejar o caminho até lá e executar. Percebe que é necessário muito movimento?

Então, escolhemos acreditar porque é isso que nos faz seguir em frente. Venhamos e convenhamos, não é nada fácil aguentar frustrações, fazer esforço, abrir mão de sombra, descanso, prazer…  Se não temos um motivo pelo qual tolerar isso tudo, dia a dia, empacamos. E quando empacamos, vai só ladeira abaixo.

Então, diga para mim: você tem selecionado com cuidado e intenção aquilo em que você acredita? Em quem você se espelha como referência? Que tipos de planos você constrói? Quais são os sonhos que enchem seus olhos de brilho?

Você acredita no que TE importa ou você compra as crenças da família, dos amigos que parecem bem-sucedidos, da sociedade?

Perceba que escolher acreditar e selecionar em que e em quem acreditar é a força motriz dos seus passos pela vida. Você pode não perceber, mas isso está moldando seu presente e seu futuro.

Já que precisamos acreditar (por uma questão de sobrevivência, inclusive), reflita bem sobre o que tem te movido. Para muito além de escolher acreditar, escolha concretizar um legado que seja seu – e que seja agradável de vivenciar, no hoje e no amanhã.

Escolha acreditar em ser, genuinamente, você.

Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Até onde ir?

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Encruzilhadas. Existem situações na vida que nos colocam em uma dúvida angustiante: fazer ou não fazer?

Existem situações na vida que testam nossas certezas. Para conseguir mais destaque, mais elogios, mais dinheiro, mais poder… até onde ir?

A pergunta é difícil porque a resposta certa não foi pré-definida por ninguém até hoje.

Quando limites são colocados, consequentemente existem perdas. Perda do contato de alguém importante para a carreira; perda do afeto de um amigo ou familiar; perda de uma chance de ganhar mais dinheiro ou fazer mais sucesso.

E o que você está disposto a perder para manter sua fidelidade a você mesmo?

Viver para agradar aos outros ou para ser bem visto e elogiado pela sociedade costuma ser um buraco sem fim. Queremos entrar nesse buraco? Queremos viver nesse buraco?

As sensações que temos no dia a dia – alegria, angústia, saudade, tristeza, raiva, serenidade, cansaço, bem-estar – dependem dessa decisão: escolher que vida quer viver e ter coragem de fazer acontecer.

Até onde ir? Até onde fizer sentido pra você. Até onde você entender que vale a pena, que te ajuda a construir uma vida boa de viver.

Ultrapassar esses limites cobra um preço pesado, destruidor, caro. Ultrapassar esses limites nos joga no tal buraco sem fim – escuro e cada vez mais profundo e difícil de sair.

Cuide por onde anda. Ande até onde for saudável para você.

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: quatro motivos que fazem o consumidor ser refém de uma marca

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“Crie condições para que os consumidores tenham bons motivos para escolher sua marca e não os mantenha com você apenas porque são reféns”

Cecília Russo

Um erro comum na relação com o consumidor, é acreditar que a permanência dele ao seu lado se dê por livre e espontânea vontade. Nem sempre é assim que a “banda toca”.  Os gestores das marcas precisam estar atentos para identificar se a “fidelidade” dele se dá por desejo próprio ou porque ele está prisioneiro daquela situação. Motivos não faltam para que isso ocorra.

Jaime Troiano e Cecília Russo identificaram ao menos quatro razões para o consumidor ser refém das marcas.

A primeira, mais básica, é quando a escolha se faz exclusivamente pelo preço.

“Ele filtra aquela marca que cabe no bolso. E aí não é bem uma escolha, é a única alternativa possível. Infelizmente, isso ainda é bem comum no nosso país”

Cecília Russo

A segunda razão pode ser ilustrada pela situação enfrentada por clientes de planos de saúde. Em alguns casos, o paciente se interna no hospital em que o plano autoriza o procedimento médico e não, necessariamente, na instituição de preferência dele. Outro exemplo é o do funcionário obrigado pela empresa a usar determinada marca de computador ou celular, mesmo que não esteja entre aquelas que mais admira.

A terceira razão para o cliente se transformar em refém de uma marca é quando ele tem de usar os serviços públicos. Nas cidades e nos estados, por exemplo, o cidadão pode ser cliente somente de uma companhia de água ou de energia elétrica. No passado, talvez o caro e rado leitor, já tenha esquecido, acontecia a mesma situação com os serviços de telefonia. A privatização acabou com esse monopólio estatal e o cliente ganhou o direito de escolher qual a empresa contratar.

A quarta situação em que o consumidor pode se transformar em refém de uma marca é quando faz parte, por exemplo, de um clube ou de um condomínio, em que é obrigado a usar determinados serviços como o provedor de internet. Também se encaixa nesse caso, o frequentador de bar que só tem uma marca de “refrigerante cola” ou de “cerveja” para consumir. Ou o profissional que só pode receber o salário pelo banco que a empresa dele têm contrato. 

“Quase ninguém gosta de ser refém. O consumidor, por princípio, quer escolher o que comprar. Queremos ser consumidores livres e não consumidores reféns”

Jaime Troiano

Na existência dessa relação perniciosa, dificilmente as pessoas se sentirão confortáveis com essas imposições, pois ferem o princípio básico de liberdade e independência. Há um alto risco de o consumidor não criar laços afetivos com a marca, mesmo que a utilize com frequência. E o perigo de tudo isso é que ao não forjarmos uma relação baseada no livre arbítrio, esta deixe de ser permanente e na primeira oportunidade o cliente a abandona, “pula fora”.

“Assim, na primeira folga de orçamento, consumidores abandonam as marcas de preço e vão para as de coração, trocam de plano de saúde para terem mais escolhas ou transferem o dinheiro da conta salário para um banco que os atendam melhores ou com o qual já tenham um bom relacionamento”. 

Jaime Troiano

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, que vai ao ar no Jornal da CBN, todos os sábados, às 7h50 da manhã:

Falta de vacina em 7 cidades é alerta para quem insiste em escolher imunizante

Foto: Governo do Estado de São Paulo

Escrevi dia desses sobre a turma que faz turismo em posto de saúde em busca da vacina de estimação. Escolhe vacina como se estivesse na gôndola de vinho. A esses que mantém a prática, que sirva de alerta o que acontece em sete capitais brasileiras, desde o início da semana —- cidades em que a vacinação da primeira e, em alguns casos, até da segunda dose teve de ser interrompida por falta de imunizante.

Hoje, entrevistamos no Jornal da CBN, o prefeito da cidade de Aracaju (SE), Edvaldo Nogueira, que acumula o cargo de presidente da Frente Nacional de Prefeitos: foi claro ao dizer que faltarão vacinas em outras capitais, em breve, especialmente naquelas que haviam conseguido avançar mais no calendário. Um dos problemas citados pelo prefeito — além da já sabida gestão incompetente do Governo Federal, que demorou para comprar vacina —- é a falta de previsão de entrega de vacinas pelo Ministério da Saúde. Segundo ele, a informação somente chega um ou dias antes da distribuição na cidade, prejudicando o planejamento:

“Precisamos de um calendário nacional de chegada de vacinas com quantitativo de doses’

Diante dos fatos e dos riscos, o que se entende é que, aqueles que ficarem escolhendo vacina, acabarão sem mel nem porongo — se é que essa expressão, que sempre ouvi do meu pai, faz algum sentido para você, caro e cada vez mais raro leitor deste blog.

Escrevi agora “sem mel nem porongo” e isso me remeteu a outra expressão, ou melhor, outra história que costumava ouvir no passado. Essa contada pela minha avó, Iva Guartieri.

Toda vez que abria a geladeira para escolher qual fruta pegar e me demorava diante da escolha, vó Iva repetia a lenda da “Escolha da Cruz”, contada na Umbria (ITA), em que um homem se lamentava da vida e considerava pesada de mais a cruz que tinha de carregar. Pedia a Deus que trocasse seu fardo. De tanto reclamar, foi atendido. Deus abriu a porta da sala das cruzes. O homem deixou a dele lá dentro e começou a escolher uma melhor: uma muito grande, outra áspera, havia cruz gelada de mais, quente de mais. A busca durou horas até que o homem deixou a sala feliz com uma cruz que lhe parecia apropriada e foi-se embora para a vida. Deus olhou, sorriu e pensou: “lá vai ele com a mesma cruz que entrou!”.

Assim como escolher qual cruz vamos carregar —- pois cada um tem a sua própria —-, é perda de tempo e risco de vida escolher a vacina. Tome a que estiver disponível e saia do posto de saúde feliz com a vacina que lhe cabe. Até porque, neste caso, nem todos teremos esse privilégio, infelizmente!

O que o passado nos ensina sobre as escolhas do presente

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagem de PixxlTeufel por Pixabay 

“O que poderia ter sido e o que foi

Apontam para um único fim, sempre presente.

Passos ecoam na memória 

Pelo caminho não escolhido

Rumo à porta que nunca abrimos.”

T.S.Eliot, “Burnt Norton”

Um dia você acorda e pensa: “e se eu tivesse aceitado aquela proposta de emprego e tivesse mudado de país?”. Ou então: “e se eu tivesse me casado com aquela pessoa por quem me apaixonei na adolescência, como teria sido a minha vida?”.

Temos a incrível capacidade de olhar para o nosso passado e, de certo modo, supor os rumos que nossa vida teria tomado caso tivéssemos agido de maneira diferente. Apesar desses pensamentos serem mera hipótese de uma vida não vivida e, por vezes, idealizada, o presente nos confronta com caminhos que exigem de nós uma escolha.

A tomada de decisão pode ser compreendida como a capacidade de escolher uma dentre as diversas opções possíveis, em situações que envolvam algum nível de risco ou incerteza. Entretanto, esse processo não é tão simples quanto parece e envolve a experiência de vida, a análise de custos e benefícios, bem como as consequências a curto e longo prazo para si e para outras pessoas. 

As neurociências têm desenvolvido modelos que permitem melhor entendimento de como o sistema nervoso realiza esse processo de tomada de decisão, levando em conta a participação de algumas funções cognitivas, como a atenção, a memória e o papel das emoções, especialmente a interface entre as reações emocionais – processadas no sistema límbico – e o controle dos impulsos e racionalidade na decisão, realizados, principalmente, pelo córtex pré-frontal. 

Os modelos sobre tomada de decisão se concentram, na grande maioria, nos benefícios passíveis de serem obtidos a partir das alternativas disponíveis. Nesses modelos, a pessoa teria todas as informações necessárias e, racionalmente, faria sua escolha; porém, pesquisas recentes apontam que muitas vezes essa decisão pode conduzir a resultados negativos. A escolha daquilo que nos satisfaça imediatamente, o medo do arrependimento e a avaliação com ênfase excessiva nas emoções atuais são alguns dos fatores que podem nos conduzir a decisões irracionais. 

Por um lado, podemos nos deixar influenciar excessivamente por nossas emoções; por exemplo, se sentimos um aperto no peito, acreditamos que seja um sinal de que não devemos escolher a alternativa em questão. Por outro, superestimamos as consequências de uma situação, acreditando ser possível sentir absoluta alegria com, por exemplo, aquela promoção, como uma linearidade de sentimentos, de duração indefinida.

Algumas reflexões podem nos auxiliar no processo de tomada de decisão: analisar nossas emoções atuais e levar em conta se, caso o estado emocional estivesse diferente, faríamos a mesma coisa; considerar o que avalia como importante para a vida – não adianta conseguir a promoção dos sonhos e não conseguir viajar com a família aos fins de semana, se isso for muito significativo; focar na gratificação a longo prazo. 

Não temos uma vida editada num roteiro. Se soubéssemos sobre o certo e errado em nossas decisões, bastaria seguir o script, o que convenhamos, roubaria de nós grandes surpresas que encontramos nesse caminho.

Olhamos em demasia para trás tentando enxergar como seria nossa vida e nos esquecemos que nossas escolhas – o melhor que poderíamos fazer naquele momento – construíram nossa história, nos permitiram ser exatamente quem somos. 

No fundo, maximizar ganhos, minimizar riscos e analisar os custos e benefícios se resumem em um desejo: ser feliz. Na impossibilidade de sabermos exatamente onde a felicidade está, abandonar as justificativas excessivas sobre o nosso passado pode nos encorajar a buscar caminhos que nos levem a benefícios almejados, não pela precisão do resultado, mas pelo simples fato de termos coragem para seguir em frente.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento no canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung