Avalanche Tricolor: que a exceção não se transforme em regra

 

 

São Jose 2×0 Grêmio
Gaúcho – Passo da Areia

 

 

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Bola para frente. Percalços fazem parte da vida de todos nós. Perder uma aqui, empatar outra ali, acontece. Voltar a perder, acontece também. A boa notícia é que isso não é regra. É exceção. Verdade que neste domingo, tive de encarar exceções de mais. E em duas frentes: no futebol e no esporte eletrônico.
 

 

Comecei a maratona esportiva na torcida pelo time de League of Legends do qual meu filho mais novo é treinador. Os cinco jogadores que formam a equipe dele não tinham perdido uma só série nos dois anos em que estiveram juntos. Se separaram e agora estão reunidos novamente. Estrearam com uma vitória acachapante, fim de semana passado. A aposta de todos era que a série invicta se estenderia por mais algum tempo. Porém, como para qualquer um dos mortais, o dia de perder haveria de chegar: foi hoje. Por curiosidade para um adversário que veste azul, preto e branco, mas não é o Grêmio.
 

 

Diante do insucesso no campo digital apostei minhas fichas no Grêmio que teria de encarar um gramado artificial. O piso, o vento e a chuva frustraram meus planos de, ao menos no fim do domingo, comemorar uma vitória. Sejamos justos: o piso, o vento, a chuva e a bola … pois que dificuldade para dominá-la e entregá-la ao colega mais próximo em condições de fazer o jogo fluir. Estava tão difícil quanto chutá-la no gol. E você sabe bem o ditado futebolístico: quem não faz, leva.
 

 

Os resultados alcançados pelos meninos, que foram levados ao sacrifício neste início de temporada, ficaram aquém do esperado. Imaginava-se que eles entregariam o bastão aos titulares com alguns pontos a mais na tabela de classificação. Não conseguiram! E, excepcionalmente, assistimos a uma sequência de quatro partidas sem vitória. Que se saiba trabalhar a cabeça (e o pé) de cada um deles para que essa série ruim não os influencie no restante da temporada.
 

 

Nem tudo foi tempo perdido, porém. Do time de transição, algumas figuras esboçaram potencial e vão merecer oportunidade no time principal quando, mais entrosados e com gente madura ao lado, tendem a subir de produção. Já no próximo sábado, os titulares voltam a campo (com grama de verdade) e trazem com eles a expectativa de uma retomada das vitórias, para que não permitam que a exceção se transforme em regra.

Avalanche Tricolor: jovens, aprendizes da vida

 

Grêmio 3×5 Caxias
Gaúcho – Arena Grêmio

 

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Os guris da VivoKeyd em foto da Riot Games

 

Foi um sábado destinado aos mais jovens. Todos envolvidos em competições e com seus desafios próprios. Fui observador (e torcedor) em todos esses momentos, mesmo porque, por mais que creia na longevidade que me será oferecida, já passei dos tempos em que era um jovem competidor. Não me incomoda esse fato, posso lhe garantir, caro e raro leitor desta Avalanche. Pois vivi intensamente aquela fase, seja no futebol seja no basquete – neste por muito mais tempo. Em uma ou outra modalidade, dediquei-me a vestir a camisa do Grêmio, do colégio Rosário, no qual estudei boa parte da vida escolar, e do Rio Grande do Sul, nas poucas oportunidades para as quais fui convocado. Jogos e títulos perdi muito mais do que ganhei. Experiência e valores para a vida, ganhei muito mais do que desperdicei.

 

Logo no início da tarde de sábado, estive no estúdio em que foi disputada a partida de abertura do CBLol2018, competição nacional de League of Legend, a mais proeminente modalidade de e-Sports que temos notícia. Se duvida no que escrevo, arrisque assistir às transmissões ao vivo no canal SporTV, sábados à uma da tarde. Você vai se surpreender. É só deixar esse preconceito besta de lado. A cada ano que passa – e eu os acompanho ao menos há quatro – é melhor, maior e mais confortável a estrutura oferecida aos pro-players, que são os atletas que formam cada uma das oito organizações credenciadas a disputar o título nacional da “primeira divisão”.

 

Prometo que não me estenderei em explicações sobre o assunto, pois temo perder a atenção do leitor que caiu neste texto acreditando que falaríamos só de futebol. Mas devo dizer que minha presença na competição eletrônica justifica-se pelo envolvimento de meus dois filhos na atividade, um como jornalista e admirador e o outro como “head coach” (sim, eles costumam ser chamados assim em vez do nome em português para a função). Esse último é um dos comandantes do time favorito ao título de 2018 e estreou com uma “sonora vitória” – como descreveu o site do SporTV. Deixou-me feliz e me deixará mais anda se seguirem nesta toada, pois ainda lembro dele e seus comandados – muito já em outros times – tristes e com lágrimas nos olhos quando perderam a final do ano passado, no primeiro semestre.

 

É sempre melhor ver jovens sorrindo e satisfeito com suas conquistas. É revigorante. Pois sabemos que para conquistarem o direito ao sorriso, muitos passaram por dificuldades, às vezes tiveram de dar as costas à família que não entendia sua opção de jogar em lugar de se formar doutor, sofreram em treinamentos exaustivos para melhorar a técnica e o físico, se frustraram ao não serem chamados para compor o time principal, caíram em depressão com a crítica contundente ou choraram diante da derrota.

 

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Os guris do Grêmio em foto de Lucas Uebel/Grêmio Oficial

 

Na minha segunda etapa como observador (e torcedor), diante da televisão onde o Grêmio se apresentava com sua equipe de garotos, os sentimentos de alegria e tristeza se misturaram. Via-se o sorriso dos guris quando seguiam em direção ao ataque; quando conseguiam se livrar do adversário com a bola grudada no pé ou uma gingada de corpo; quando deixavam o companheiro mais bem colocado para o gol. O sorriso era gigantesco na comemoração do tento: e sorriram assim por três vezes, todas no primeiro tempo de partida.

 

No entanto, a alegria de jogar bola se desfez a medida que o adversário reagia, empatava, virava e ganhava a partida. Um dos nossos chorou antes de deixar o gramado. Saiu com a camisa escondendo o rosto. Outros devem ter acordado neste domingo sem ainda entender o que aconteceu? Talvez estejam com vergonha de sair de casa. De trocar mensagens com os amigos no WhatsApp. E temem pelo que ouvirão de seus superiores na volta aos treinos. Sem contar o que estão ouvindo nas redes sociais de gente incapaz de perceber que eles são apenas jovens diante de enormes desafios. Jovens em busca de afirmação, obrigados a tomar decisões, carregar nossas pretensões e amadurecer muito antes do que cada um de nós. Simplesmente, jovens. Que vão vencer, sorrir, perder, chorar. Vão viver!

 

O importante é que sejam capazes de aprender com cada um desses momentos. Se conseguirem, não perderam. Aprenderam. É o que desejo, tanto aos jovens que saíram vencedores, no Lol, quanto aos que sentiram o dissabor da derrota, no futebol.

Seu filho não é um viciado, está apenas empolgado com o videogame

 

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Imagem Pixabay

 

 

Minha experiência com eSport e videogame é caseira. Verdade que fui jogador eventual, mas sem pretensão nem talento. O que mais aprendi foi na convivência com meus guris. Eles se dedicam ao tema (e aos jogos). Divertem-se, estudam, testam estratégias, praticam à exaustão e um deles até se profissionalizou. De minha parte, hoje, leio o que posso, mesmo porque preciso entender o mundo em que eles vivem.

 

Nesta semana mesmo, conheci Will Partin, PHD em comunicação da Universidade da Carolina do Norte, através de artigo no qual explica o que chama de “árdua” e “intransigente” relação entre esportes tradicionais e eletrônicos. É um bem referendado texto que trata do tema na medida certa e se baseia no histórico prazer que a humanidade tem de competir.

 

Leia aqui o artigo “Esports is Dead! Long live  Esposrts!”

 

Essa discussão eterna se eSport pode ser considerado esporte é muitas vezes contaminada pelo preconceito que tem na origem a falta de conhecimento e, pior, de interesse em conhecer. Algo do tipo: não conheço, não quero conhecer e tenho raiva de quem conhece. Colabora com a divergência a distância que existe entre gerações: pais que nasceram na era pré-internet ou nos tempos da internet à carvão tentam reproduzir com os filhos a educação que lhes foi oferecida. E claro que a coisa não pode dar certo!

 

Sempre que comento sobre as atividades digitais de meus filhos e o tempo que eles destinam ao uso do computador, pais me olham desconfiados. Alguns confessam que já entraram em confronto com seus filhos na tentativa de limitar o uso dessas máquinas, outros questionam os riscos deles se transformarem em pessoas anti-sociais e os mais assustados trazem argumentos jamais comprovados de que as crianças ao jogarem jogos violentos tendem a ficar violentas. Coisa de louco!

 

Como sei que essa briga vai longe e o risco de a desinformação só piorar o embate dentro de casa – e nas minhas conversas com amigos -, aproveito o Blog para chamar atenção para a reportagem publicada pela BBC Brasil, nesta terça-feira, que, aliás, já está entre as 10 mais lidas de seu site.

 

“Pela primeira vez, vício em games é considerado distúrbio mental pela OMS”

 

Essa é a manchete da reportagem assinada por Jane Wakefield que nos informa que a 11a. Classificação Internacional de Doenças (CID), que será publicada neste ano, identificará esse vício como “distúrbio de games”. O problema é descrito como padrão de comportamento frequente ou persistente de vício em videogames, tão grave que leva “a preferir os jogos a qualquer outro interesse na vida”.

 

As pessoas diagnosticadas com essa doença não têm controle de frequência, intensidade e duração com que jogam videogame; e continuam ou aumentam ainda mais essa frequência, mesmo após ter tido consequências negativas desse hábito, relata a BBC.

 

Viu só, Mílton? Eu avisei!

 

Caro e raro amigo, antes de você me condenar e espalhar a informação rasa e incompleta nos seus grupos de WhatsApp, Facebook e afins, vamos aos detalhes da notícia.

 

Médicos ouvidos pela BBC, que entendem a importância de a OMS reconhecer o vício em videogame, pedem precaução aos pais.

 

“As pessoas acreditam que as crianças estão viciadas em tecnologia e nessas telas 24 horas por dia a ponto de abdicarem de outras atividades. Mas sabemos que não é o caso (…) Nossas descobertas mostram que a tecnologia tem sido usada em alguns casos para apoiar outras atividades, como tarefas de casa, por exemplo, e não excluindo essas atividades das vidas das crianças (…) Assim como nós, adultos, fazemos, as criança espalham o uso da tecnologia digital ao longo do dia, enquanto fazem outras coisas.

 

Killian Mullan, da Universidade de Oxford

 

 

 

“(A decisão da OMS) pode levar pais confusos a pensarem que seus filhos têm problemas, quando eles são apenas “empolgados” jogadores de videogame (…)”

 

Richard Graham, do Hospital Nightingale, de Londres

 

Anotou o recado?

 

Então, vamos combinar o seguinte: esteja atento aos hábitos de seus filhos, acompanhe suas atividades e faça suas recomendações. É papel dos pais. Mas, por favor, não seja intolerante e não use argumentos falsos para justificar suas ideias. Como disse Dr Grahan, seu filho muito provavelmente não é um viciado, está apenas empolgado! E saiba, por experiência própria, esta empolgação  pode ser o caminho para uma carreira, para novos negócios ou, pelo menos, para uma grande diversão da qual você pode participar.

Um manual para os pais da geração gamer

 

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foto divulgação da Riot Games

 

Comecei brincando no Atari, na casa de dois amigos de adolescência. E só voltei ao videogame muitos anos depois, já em São Paulo. Foi presente do pai que era viciado em Tetris. Eu preferia o cartucho com jogos de basquete. Foi nesse mesmo SuperNintendo que os meninos começaram a praticar sua paixão pelos jogos eletrônicos. Não me perdoam até hoje por eu ter doado o console e todos os cartuchos para alguém que sequer merecia a confiança da família.

 

Jogamos juntos e nos divertimos por anos a fio. Levei-os a todo tipo de campeonato e em qualquer lugar que se realizasse na cidade: Mário Kart, Super Mario Striker, Mario Tennis … Se não me engano cheguei a competir em equipe com o mais novo: naquela época, ninguém apostava muito nele. Se soubessem no que ia dar, estariam arrependidos. Fui me afastando dos “games” a medida que evoluíam (os filhos e os jogos). Preferi deixar a coisa nas mãos dos profissionais aqui de casa.

 

De jogador amador transformei-me em assistente, um torcedor. Já meus dois filhos avançaram nos consoles, desenvolveram-se nos jogos mobile e, de repente, estavam envolvidos até o pescoço nos esportes eletrônicos. Um foi escrever sobre o assunto e o outro se profissionalizou. Hoje é técnico de uma das equipes de esports no cenário nacional.

 

Nunca me assustei com a inserção deles nesse mundo virtual, mesmo com a pressão de parentes, amigos e “especialistas” que vislumbravam um futuro nebuloso para esses guris que não saíam da frente do computador. Cuidado! Isso não pode dar boa coisa, alertavam os mais próximos. Sabe aquele menino americano que matou os coleguinhas? Ele jogava computador! – alardeavam. É claro que jogava. Todos eles jogam computador: os que matam, os que morrem e os que vivem firme e forte. É da geração deles.

 

Dos meus cuido eu (e minha mulher), pensava cá com os meus teclados. E cuidava mesmo. Desde pequeno sempre estivemos ao lado deles. Em casa, mantivemos até hoje os computadores em uma mesma sala. O que eu faço, eles sabem. O que eles fazem, eu aprendi. Logo percebi que ao contrário das previsões pessimistas, eles não ficavam o dia inteiro no computador jogando “joguinhos”. Eles ficavam o dia inteiro no computador jogando “joguinhos”, assistindo a videos, lendo notícias, compartilhando conteúdo, pesquisando assuntos de seu interesse e outros nem tão interessantes assim, mas obrigatórios na escola. Eles jogavam “joguinhos”, mas também se informavam, aprendiam e conversavam com amigos, colegas de escola e professores. Viviam em frente ao computador.

 

Por conhecer o mundo em que vivem, ou me esforçar para entender, é que aceitei com mais facilidade – e uma tremenda dor no coração – a escolha do meu mais novo: ele trocou nossa casa pela imersão em uma game house quando ainda estava com 17 anos. Foi comandar uma equipe de Lol. Abriu mão da faculdade pela realização de um sonho – e enquanto sonha ainda fatura uma grana.

 

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Restou-me associar-me ao Fã Clube de Pais Sonhadores de Sonhos de Filho, como bem definiu Thereza Rodrigues, autora do “Manual de sobrevivência para pais da geração gamer”. Livro que escreveu com propriedade e criatividade. Ela é mãe do MicaO, um dos maiores jogadores profissionais de League of Legend do Brasil. Sofreu pela desinformação, aprendeu pela convivência, escutou reclamações, entrou em contradições, mas soube compreender a realidade desta garotada que vive em um mundo virtual. E com o “Manual” pretende quebrar parte do preconceito que ainda causa desavenças familiares.

 

Senti-me muito bem representado nos relatos de Thereza Rodrigues, a quem conhecia apenas como a mãe do MicaO e agora sei que é professora e escritora. Em livro, ela traduz boa parte das coisas que penso sobre essa geração e as barreiras que precisam superar em casa, na família e na escola. Põe no papel – força do hábito, pois o “Manual” foi publicado apenas em e-book – o que tenho dito a muitos pais que encontro em meu cotidiano. Uma turma assustada com o fato de seus filhos estarem sendo dominados pela tela do computador, por campeões virtuais e por disputas em cenários irreais.

 

Digo sempre e repito aqui: ficamos assustados diante do desconhecido e como esse mundo explorado por nossos filhos não nos pertence, em lugar de nos aproximarmos deles, queremos que eles se voltem para o nosso passado. Batalha perdida. Game over.

 

Aliás, preciso confessar mais uma coisa que o livro me ajudou a refletir: sempre espalhei por aí que ao decidirmos por deixar os computadores em uma mesma sala e compartilharmos nossas atividades aqui em casa, estávamos protegendo nossos filhos. Ledo engano. Estávamos protegendo os pais deles do pior de todos os males: a ignorância. GG.

 

Leia também: “O que aprendi com os meninos que não saem da frente do computador”

Assistindo à batalha do esporte eletrônico

 

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Algumas coisas se atravessam no nosso caminho e para não sermos atropelados pela ignorância, nos cabe a busca do conhecimento. Foi assim que os esportes eletrônicos entraram na minha vida. Praticado pelos filhos, no início os assistia de revesgueio, pois estava na tela do computador deles, que fica sobre a mesa que compartilhamos em casa. Em breve, o tema passou a fazer parte de nossas conversas na mesa da cozinha (onde almoçamos e jantamos juntos) e dos sonhos que eles construíam: um deles disposto a seguir o jornalismo e o outro ensaiando carreira de psicólogo e analista; ambos propensos a se dedicar ao eSport.

 

A primeira coisa que eles fizeram questão de me ensinar é que esporte eletrônico não é videogame. Melhor, videogame não é sinônimo de esporte eletrônico. Pra ser mais preciso: nem todo videogame é esporte eletrônico.

 

Jogar Super Mario Bros é jogar videogame. Jogar Donkey Kong é jogar videogame. Até mesmo o NBA Live que me fez companhia nos primeiros meses em que morei em São Paulo e no qual brinquei muito de jogador de basquete é só videogame. Não é considerado esporte eletrônico, apesar de inspirado em uma modalidade esportiva.

 

O eSport se caracteriza pela formação de comunidades no entorno dele, criação  de equipes e organização de campeonatos. O jogo e seus criadores por si só não são capazes de sozinhos transformarem um videogame em esporte eletrônico.

 

Street Fighter era diversão no Fliperama, onde os fãs começaram a disputar competições por conta própria, a ponto de chamarem a atenção da Capcom, sua criadora, para o potencial que havia na organização de campeonatos.

 

Clash Royale já começou “mal intencionado” e seus desenvolvedores instigam os praticantes a participarem de disputas. Nesse fim de semana, teve campeonato transmitido ao vivo pelo canal Esporte Interativo, direto de São Paulo.

 

League of Legends (LoL) parece ter nascido disposto a ser esporte eletrônico, mas só se capacitou ao titulo de eSport mais praticado do mundo graças a comunidade que se criou em torno dele e a formação de organizações que disputam campeonatos nacionais e internacionais.

 

Foi o LoL quem me trouxe para o mundo do eSport. Os meninos aqui de casa jogavam, gostavam e me contavam detalhes das disputas. Assisti a campeonatos em São Paulo e me impressionei com a quantidade de pessoas envolvidas. Mais ainda com o nível de organização.

 

O jogo tem uma empresa, a Riot, que funciona como uma espécie de Fifa – perdão por traçar paralelo com o futebol, mas é a referência que nós brasileiros temos quando o assunto é esporte. É ela quem organiza os eventos em todo o mundo, desenvolve os mapas onde as disputas ocorrem e impõe as regras para o jogo e para as organizações que surgem a partir dele. Chega a distribuir U$ 2,5 milhões em prêmios no seu principal campeonato.

 

Os times são formados por cinco jogadores, fora os reservas, que costumam ficar confinados em game houses onde treinam sob orientação de técnico, analista, psicólogo e, em alguns casos, nutricionista e preparador físico. Têm torcidas fanáticas que vibram com seus ídolos, jovens que se dedicam 24 horas à atividade e patrocinadores que sustentam e se beneficiam desta adoração.

 

Um dos donos de equipe aqui no Brasil com quem tive oportunidade de conversar  tentou me definir a organização como sendo o “Flamengo do esporte eletrônico”. Queria me mostrar que, da mesma forma que um clube de futebol, o time dele tem sede, diretoria, jogadores e infraestrutura para capacitá-los. Sempre bom guardar as devidas proporções, é lógico.

 

Há alguns meses estive na final do Campeonato Brasileiro – CBLoL – realizada no ginásio do Ibiraquera com todos seus assentos tomados por pouco mais de 10 mil jovens entusiasmados e engajados. Assim como eles, vibrei com a vitória da INTZ, uma das principais organizações do país que, neste fim de semana, também garantiu presença do Mundial de LoL, que se realizará em outubro e novembro, nos Estados Unidos.

 

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A vitória dos brasileiros não apenas garantiu-lhes a viagem como espantou fantasmas. Já haviam disputado duas vezes a etapa classificatória para o Mundial, representando o Brasil, mas não foram adiante. Na primeira, perderam para um time turco. No sábado, não bastasse terem conquistado a vaga ainda o fizeram em cima de uma equipe da Turquia. DoubleKill – se é que você me entende.

 

A disputa final, contra os turcos da Dark Passage, foi em melhor de cinco, com vitória por 3×2, diante de torcedores que gritavam o nome do Brasil e entoavam o já tradicional “eu acredito” nos momentos mais difíceis, na Ópera de Arame, em Curitiba. A partida foi assistida por milhares de pessoas na internet ou na SporTV, que dedicou seis horas de sua programação à competição.

 

Fiquei grudado na tela. Comemorei os ataques e os objetivos alcançados pelos brasileiros e sofri toda vez que o adversário derrubava nossas torres ou abatia nossos campeões. Curti a história daqueles jovens que sob forte pressão superaram seus medos e calaram, com esforço, talento e estratégia, os críticos de sempre – aquela turma que tem como esporte preferido atacar reputações e destruir qualquer um que se sobressaia em sua área.

 

Continuo não entendendo os golpes, contra-golpes e feitiços usados pelos jogadores nas batalhas campais. Mas me sai bem melhor agora do que das primeiras oportunidades. Já fui capaz de perceber que mais importante do que abates, são a derrubada de torres e dragões e o acúmulo de riqueza. Enxerguei melhor as estratégias, seja pela transcrição dos narradores seja pelos alertas dos meus conselheiros particulares.

 

Claro que apenas me dediquei a assistir ao LoL na televisão por envolvimento familiar. Não é a minha praia, mesmo admirando a organização da modalidade. Cresci em outra geração, tendo os esportes tradicionais como atração: especialmente o futebol e o basquete. Há, porém, uma legião de jovens que têm sua cultura forjada pelo cenário digital, que talvez nunca tenham tido a oportunidade ou a vontade de assistir a uma partida de futebol, no estádio.

 

É por causa dessa nova turma que emissoras como SporTV e Esporte Interativo têm dedicado parte de sua grade de programação às disputas dos jogos eletrônicos. A ação, como já era de se esperar, sofre críticas de grupos que não entendem porque canais de esporte tratam de eSport. Usam todo tipo de alegação e comparação para provarem que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Perda de tempo total.

 

Muito provavelmente o esporte tradicional e o eletrônico jamais conviverão em alguns cenários, por exemplo nos Jogos Olímpicos como chegam a imaginar os fãs do eSport – e corro sério risco de queimar a língua com esta frase. Isso também não importa. Tem espaço e público para todas as modalidades, digitais ou não.

 

Quem for mais bem organizado e competente que se estabeleça.