Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: o que as marcas podem aprender com o time do coração

Gremio x Juventude
Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A relação mais estável da vida de muita gente não é com a cidade onde mora nem com a profissão que exerce: é com o time de futebol. Esse é o ponta pé inicial do comentário de Jaime Troiano e Cecília Russo no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, do Jornal da CBN, que se inspira nessa relação íntima do torcedor com seu time para extrair lições aos gestores de marcas.

Jaime começa fazendo um convite: “vamos pensar o seguinte: o que os donos de marcas esperam que seus clientes e consumidores sintam em relação a elas?”. Você dirá que é respeito, admiração, afeto, conexão, lealdade. A resposta parece óbvia, mas o caminho para construí-la é tudo menos simples. Por isso, Jaime propõe olhar para o território em que esses sentimentos são intensos, duradouros e, muitas vezes, irracionais: o futebol.

Vivemos em uma época em que quase tudo muda. Pessoas trocam de profissão, de cidade, de religião, de arranjo familiar. É a efemeridade descrita nos pensamentos de Zygmunt Bauman. Agora, quantas pessoas você conhece que mudaram de time de futebol? Se existem, são raridades. A comparação para as marcas é ainda mais cruel: quando um produto falha, o consumidor troca; quando o time cai para a segunda divisão, o torcedor continua. É só lembrar o caso do rebaixamento do Corinthians, em 2007, que acabou fortalecendo o laço com muitos dos seus torcedores e se transformou em um momento de comoção no ano seguinte.

Essa fidelidade absoluta é exatamente o tipo de vínculo que marcas gostariam de inspirar. Mas não se copia por decreto.

Cecília Russo retoma a discussão pelo lado emocional. Para ela, “as relações que ligam consumidores com marcas são acima de tudo de caráter emocional”. Características físicas e técnicas do produto ou serviço — como o nível técnico dos jogadores — são importantes, porém não sustentam sozinhas a conexão. O que mantém o vínculo é algo mais sutil, simbólico e intangível, que precisa ser cultivado com cuidado ao longo do tempo.

No comentário destacou-se também o papel da identidade. No futebol, o escudo, as cores, o uniforme e a bandeira carregam significados profundos, construídos em décadas de história. No universo das marcas, o paralelo está na identidade visual, no logo, nas embalagens e em todos os elementos que ajudam o consumidor a reconhecer de imediato quem está em campo. Marcas podem se atualizar, como times que lançam novos uniformes a cada temporada, porém sem desfigurar aquilo que é essencial. Quando essa essência é ameaçada, a reação costuma ser forte — e não apenas no estádio.

No fim, o paralelo com o futebol funciona como um espelho: mostra o quanto as marcas ainda estão distantes de construir relações tão sólidas quanto as dos torcedores com seus clubes.

A marca do Sua Marca

A ideia central do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso pode ser resumida assim: se querem torcedores, e não apenas compradores ocasionais, as marcas precisam cultivar vínculos emocionais, cuidar da identidade com rigor e jogar sempre para vencer, não apenas para “não perder”. Como resume Jaime, a expectativa do consumidor não é que a marca jogue pelo empate; é que ela se posicione bem em campo e dê orgulho de torcer por ela.

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.

Avalanche Tricolor: Vini da Pose e o TRI-GOL que fez o Grêmio sorrir de novo

Grêmio 3×1 Juventude
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Brasileirão - Grêmio x Juventude - 26/10/2025
Carlos Vinícius, o artilheiro, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Foi antes do desastre do fim de semana passado que tive a oportunidade de conversar com Luciano Périco e Diori Vasconcelos, no Show dos Esportes, da Rádio Gaúcha. Ainda embalados pela vitória anterior na Nossa Arena, foi uma verdadeira colher de chá que os dois jornalistas me ofereceram, numa sexta-feira à noite. Havia motivo de sobra para estar animado com o que víamos, especialmente pela performance de Arthur, o maestro que fez o Grêmio renascer no Campeonato Brasileiro.

No bate-papo radiofônico, falei sobre a transformação que o time vem apresentando desde a vitória no Gre-Nal — o renascimento de alguns jogadores, o domínio da bola (olha o Arthur aí, gente!) e a consistência defensiva. Difícil prever, naquele momento, o que nos aguardava no domingo seguinte, em Salvador.

Durante a conversa, um dos colegas me perguntou se eu via semelhanças entre Carlos Vinícius e Jael, o Cruel — aquele centroavante que marcou época no Grêmio entre 2017 e 2019, com 14 gols em 67 jogos. Concordei. Fisicamente, são parecidos. Encaram a pancada do zagueiro com um sorriso maroto no rosto. Têm gana pelo gol. E carisma para conquistar o torcedor.

Mas, com todo o respeito e carinho que Jael sempre merecerá, há diferenças que jogam a favor de Carlos Vinícius. Mesmo corpulento, ele se movimenta mais entre os zagueiros. Consegue equilibrar o jogo pesado da marcação adversária com a leveza de quem sabe conduzir a bola em direção ao gol. Em resumo: combina força e talento — e isso complica a vida de qualquer marcador.

O atacante nascido em Bom Jesus das Selvas (MA), que rodou por diversos clubes no exterior antes de voltar ao Brasil, chegou recentemente ao elenco gremista. Em sete partidas, marcou seis gols — o primeiro deles em um Gre-Nal, o que por si só já carrega um peso especial para o torcedor. Contra o São Paulo — aquele jogo que motivou minha conversa na Gaúcha — fez os dois da vitória.

E hoje, Carlos Vinícius voltou a mexer com nossa memória afetiva. Não pela semelhança com Jael, mas por algo ainda maior. Com os três gols que garantiram a vitória sobre o Juventude, o “Vini da Pose” — apelido que ganhou pelo gesto característico nas comemorações — nos fez lembrar de Luis Suárez, o último atacante gremista a anotar um hat-trick (ou, em bom gauchês, um TRI-GOL).

Avalanche Tricolor: o prazer de ver o Grêmio jogar futebol está de volta, na Nossa Arena

Grêmio 2×0 São Paulo
Brasileiro – Nossa Arena, Porto Alegre (RS)

“Vini da Pose” comemora mais um gol em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A melhor versão do Grêmio se fez presente, hoje, no belo gramado da sua Arena — que eu tomo a liberdade de, a partir de agora, chamar orgulhosamente de Nossa Arena. Há muito tempo não assistia a uma partida gremista em que a bola fosse tão bem tratada como na noite desta quinta-feira. Uma performance premiada com uma vitória, conquistada de maneira perene e tranquila, na qual o torcedor pôde sentir o prazer de torcer por um time, verdadeiramente, de futebol.

O suprassumo desse futebol que se expressou em Porto Alegre foi Arthur — meio-campista excepcional e essencial para a transformação da maneira de o Grêmio jogar. Desde que o filho pródigo voltou para casa, retomamos o domínio da bola e reconquistamos o protagonismo do jogo. Mesmo nas partidas em que sofremos reveses — e não foram poucas —, o bailado de Arthur no meio de campo se impunha e nos oferecia alguma esperança de transformação. Já se ouvem vozes pedindo sua presença na seleção brasileira.

Hoje, fomos além. Depois de alguns momentos de desacerto, a defesa ajustou seu posicionamento, o time diminuiu os espaços e reduziu os riscos — a ponto de terminar o jogo sem tomar gols, o que não acontecia há sete rodadas. Evidentemente, não foi apenas o ajuste defensivo que nos deu vantagem sobre o adversário. O meio de campo — com o já devido destaque a Arthur — se impôs também pela intensidade de Edenílson e pela atuação sempre regular de Dodi.

Lá na frente, aplaudir Carlos Vinícius, autor dos dois gols da partida, é fácil. Primeiro porque, desde que chegou, o atacante tem demonstrado um ímpeto que agrada ao torcedor. Depois, porque começou a ser protagonista com seus gols e a comemoração que lhe rendeu o apelido de Vini da Pose. Hoje, foi o farejador de gols que tanto desejamos. Com um só toque, concluiu para as redes a bola que havia rebatido na defesa, após o chute de Amuzu, abrindo o placar no primeiro tempo. E, no segundo, cobrou com segurança o pênalti sofrido por Edenílson.

Aliás, o ganês também merece destaque pelo que tem proporcionado nos últimos jogos. Atrevido, Amuzu provoca dribles, acelera o ataque e não tem medo de arriscar a gol. Parece cada vez mais à vontade em campo. Às vezes, é capaz de brincar com a bola — e isso torna o futebol muito mais divertido.

Como disse em parágrafos anteriores, aplaudir o goleador é fácil. Difícil é admitir que Pavón foi fundamental para a virada do Grêmio na partida de hoje. A entrada dele, ainda no primeiro tempo, após a lesão precoce de Alysson, mudou o domínio do jogo, que até então era do adversário. O atacante argentino, que por muitas razões causou desconforto no torcedor e foi vaiado com frequência — a meu ver, de forma exagerada —, fez o Grêmio melhor no ataque.

Quando falo das vaias, é porque, mesmo quando não conseguia apresentar um futebol mais qualificado — às vezes autor de jogadas bizarras —, Pavón sempre me mostrou algo que valorizo na vida: um esforço descomunal, uma entrega acima da média, uma dedicação que merecia ser recompensada com algo melhor. Hoje, ele foi premiado. E nós também.

Na noite em que o Grêmio, definitivamente, passou a ser o dono da Nossa Arena, o placar foi 2 a 0, mas o resultado maior foi outro: o reencontro com o prazer de ver o Grêmio jogar futebol.

Avalanche Tricolor: do inferno astral ao céu tricolor

Grêmio 3×1 Vitória
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

André comemora o primeiro gol Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

De repente, o que parecia um destino cruel começou a se desenhar em cores mais vivas. Sorte? Astros? Ou apenas futebol jogado com alma? O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche deve se lembrar que, às vésperas do aniversário gremista, eu falava de um tal “inferno astral”. Era tanto tropeço, tanta desclassificação e tanto perrengue que nem a astrologia parecia capaz de explicar.

Pois não é que, depois da festa, vencemos um Gre-Nal nas circunstâncias que vencemos, arrancamos um ponto improvável contra o atual campeão brasileiro e agora somamos mais três, dando um salto na tabela? Obra dos céus ou da bola?

Sem nunca esquecer que somos “imortais tricolores”, prefiro deixar de lado as explicações celestes. As razões estão aqui mesmo, no gramado. Uma delas atende pelo nome de Arthur, o filho pródigo. Ao voltar para casa, trouxe talento, cadência e ordem ao nosso meio-campo. Seja recuado, ajudando a defesa, seja avançado, ditando passes no ataque, ele nos lembra que quando há qualidade, a bola sempre encontra o melhor caminho.

Outro nome que se impõe é Marcos Rocha. Líder, dono de bom passe e especialista em transformar um arremesso lateral em estratégia de ataque. Foi assim que nasceu o primeiro gol, concluído pelo jovem André Henrique.

Também pesa a experiência de Mano Menezes. Mesmo sob críticas constantes, ele observa o cotidiano dos treinos e arrisca soluções que nem sempre agradam ao torcedor. Depois do empate sofrido, foram justamente suas mudanças que nos levaram à vitória. Trouxe de volta Cristaldo e Amuzu, nomes em quem poucos ainda acreditavam. E os dois corresponderam: Cristaldo com visão de jogo, Amuzu com drible e coragem. O belga fez o segundo gol e ainda serviu Aravena para o terceiro – atacante chileno que escolhido por Mano ao perceber que André Henrique não tinha mais fôlego para permanecer em campo. 

Seja pela lógica da bola ou pela magia dos céus, o torcedor voltou a sorrir. E se a tabela começa a nos mostrar caminhos para a Libertadores, que assim seja: sonhar é, afinal, parte da alma tricolor.

Avalanche Tricolor: um gol para Walter Kannemann

Grêmio 1×1 Botafogo
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Reprodução do canal Premiere

Thiago Volpi que me perdoe — e sei que há de entender —, mas se pudesse dedicar esse gol de empate no minuto final, entregaria a autoria a Walter Kannemann. O capitão do Grêmio fez uma partida colossal dentro da área: ganhou todas as disputas, não deixou sobrar espaço para os atacantes e lutou do jeito que só ele sabe lutar.

Logo no primeiro contra-ataque inimigo, ainda no início, foi Kannemann quem se atirou contra o adversário de forma espalhafatosa e necessária, impedindo a finalização certeira contra o nosso gol. A cena parecia a de um guarda-costas se jogando na frente do protegido para deter a bala fatal. No caso, a bola fatal. Minutos depois, já estava ele do outro lado, na área ofensiva, chutando forte e obrigando o goleiro rival a fazer defesa complicada.

Durante toda a partida, foi Kannemann quem mais bem representou o desejo do torcedor: devolver ao Grêmio o caminho da vitória em casa. Nos últimos três jogos na Arena havíamos perdido dois, empatado um e, pior, não marcado nenhum gol — sequência absurda para quem sempre transformou o estádio em diferencial.

Nada, no entanto, foi tão Kannemann quanto o momento em que ele arrancou do árbitro a marcação do pênalti que nos deu o empate. A bola mal havia saído para escanteio e nosso zagueiro já corria em direção ao juiz, gesticulando, denunciando a infração.

Sim, foi ele quem marcou aquele pênalti. Havia árbitro em campo, auxiliar na beira do gramado e VAR com câmeras de todos os ângulos. Mas, sinceramente, duvido que alguém tivesse visto a irregularidade se não fosse a eloquência do nosso capitão. O gestual teatral, a dança quase grotesca imitando o movimento dos homens da barreira, a braçadeira erguida com orgulho quando o juiz o mandou calar — tudo isso foi decisivo para que ninguém ousasse ignorar o que acontecera.

Kannemann brigou como um soldado disposto a morrer pela batalha, até a confirmação da penalidade. Depois, restou a Thiago Volpi a execução perfeita: frio, sereno, certeiro na cobrança, como já havia feito no Maracanã em situação semelhante.

Volpi tem nossos aplausos, claro, pelo que tem feito e decidido a nosso favor. Mas Kannemann, ah, esse merece uma homenagem especial. Foi ele quem transformou o empate em conquista, num jogo em que o resultado teve gosto de alívio diante da fase recente na competição. Ainda não ganhamos em casa, como desejávamos, mas como não vibrar ao assistir à bravura de Kannemann nos permitindo seguir em frente no Campeonato Brasileiro.

Avalanche Tricolor: o dia em que o Grêmio voltou a ser Imortal!

Inter 2×3 Grêmio
Brasileiro – Beira-Rio, Porto Alegre/RS

A foto é do mago das lentes: Richard Dücker @ducker_gremio

É difícil até saber por onde começar. Talvez pelas lágrimas que encheram meus olhos no apito final — daquelas que há muito tempo os resultados e o futebol jogado não me proporcionavam. Penso, porém, que seria egoísta começar por esse sentimento tão meu, após uma partida em que a força do coletivo se expressou de forma gigantesca.

Imagino que muitos artigos de jornais e mesas redondas de fim de domingo se dedicarão às decisões do árbitro que marcou três pênaltis contra o Grêmio. Três! Dois deles sequer percebidos em campo. Ainda expulsou Arthur ao reverter o cartão amarelo que ele mesmo havia considerado correto no momento da jogada. Vamos convir: ao fim, as marcações controversas só tornaram nossa conquista ainda maior. Não gastarei mais do que este parágrafo com esse descalabro.

Poderia começar pelo fim de uma sequência de oito Grenais sem vencer — a última vez havia sido em maio de 2023, na Arena, pelo Campeonato Brasileiro, época em que Suárez era nosso craque (3×1). Na casa do adversário, a distância de uma vitória era ainda maior: março de 2022 (0x3). Mas, convenhamos, o que são estatísticas senão números de um tempo que já passou? O passado é referência, eu sei. Mas não é suficiente para explicar a alegria do presente.

Os personagens do clássico deste fim de tarde de pôr do sol exuberante talvez merecessem o destaque inicial desta Avalanche. Carlos Vinícius, que marcou um gol após um ano e meio, logo em seu primeiro Gre-Nal, empatando a partida depois de termos sofrido o primeiro pênalti. E, para tornar tudo mais dramático, saiu lesionado em seguida. Ou André Henrique, o centroavante com a cara da humildade, que apareceu entre os zagueiros e empatou de cabeça após o segundo gol de pênalti deles — eles só fizeram gol de pênalti, né?

Ou Alysson, que precisou de apenas 45 segundos em campo para disparar, driblar os marcadores e mandar a bola no “fundo do poço” (saudade de ti, pai!). Apenas o segundo dele no time principal. O da virada. O da vitória — mesmo com mais um pênalti para eles antes do apito final.

Ou Willian, que estreou no Gre-Nal, participou diretamente dos dois primeiros gols e pode se transformar em peça importante na arrancada final do campeonato.

Ou Thiago Volpi, que fez ao menos três defesas muito difíceis, especialmente no segundo tempo, e impediu o empate quando já estávamos com um a menos. Teve ainda a sorte de ver a bola explodir no poste no último pênalti cobrado pelo adversário. Sim, foram três pênaltis contra o Grêmio!

Caro e cada vez mais raro leitor: começar esta Avalanche pelas minhas lágrimas, pelas decisões do árbitro, pelo fim de uma invencibilidade ou pelo brilho individual de quem vestiu a camisa do Grêmio não seria justo o suficiente para o feito deste domingo.

Se há algo que precisa ser exaltado logo de início é a retomada de uma mística. Aquele fenômeno que nos acompanha ao longo da história. Que surge quando o possível já não basta. Quando tudo conspira contra nós. Porque nada é maior do que o Grêmio, que volta a ser Imortal.

Sim, o Grêmio Imortal é que deveria abrir esta Avalanche. Mas é melhor eu encerrar por aqui, antes que o árbitro marque mais um pênalti contra a gente.

Avalanche Tricolor: o zodíaco não explica o Grêmio

Grêmio 0x1 Mirassol
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Arhur comanda o meio de campo em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Sou do tempo em que Zora Yonara era a autoridade em assuntos astrológicos — hoje seria chamada de influencer zodíaca ou algo do tipo. Suas análises eram motivo de conversa nas rodas de amigos, e o melhor a se fazer era prestar atenção no horóscopo do dia, mesmo que eu fosse um descrente. Cada um adaptava o que ouvia à sua circunstância. Fui tentar esse exercício na Avalanche de hoje para explicar o que vem acontecendo com o Grêmio, que voltou a perder em casa e, nesta segunda-feira, dia 15 de setembro, completará 122 anos.

Descubro que nem a astrologia dá conta de explicar o futebol que deixamos de jogar e a sequência de azares que nos perseguem. Pensei que fosse o tal do inferno astral, mas nem isso explica. Esse período, que antecede o aniversário e costuma ser sinônimo de confusão, não daria conta de justificar 18 meses de futebol capenga e resultados inconsistentes.

A última verdadeira alegria que os gremistas tiveram foi o título do Campeonato Gaúcho, em março de 2024. Alguém lembrará da felicidade recente de assumirmos a gestão da Arena, o que já nos garantiu um gramado de qualidade. Vamos convir, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, que por melhor que isso seja — e acredito que seja —, não influenciou em nada na qualidade do futebol apresentado.

O inferno futebolístico do Grêmio atravessa um tempo que nenhuma sabedoria extraterrena poderia prever. Nesse um ano e meio, uma penca de jogadores foi contratada e já estamos no terceiro técnico. Quando nos iludimos com uma contratação, uma lesão frustra as expectativas — caso mais recente do zagueiro Balbuena. Até mesmo jogadores contestados, mas necessários, como Braithwaite, caem vítimas dessa sina de contusões.

Se conseguimos um resultado mais animador, como na rodada anterior contra o Flamengo, logo a realidade nos joga ao chão com uma derrota caseira. Hoje, tivemos de suportar até jogador sendo substituído por engano.

Adoraria estar aqui comemorando a estreia de Arthur que, claramente, tem qualidade para mudar qualquer meio de campo. Mesmo sem entrosamento, mostrou como conduzir a bola com categoria e fazer o passe com precisão. Seria capaz de contagiar seus colegas de trabalho? Já não sei mais. E chega a me dar arrepio sobrenatural imaginar que ele também possa ser abatido por algum problema físico.

Apesar de tudo, insisto em negar a falência da esperança. Tento crer que, ao comemorarmos mais um aniversário nesta segunda-feira e diante de um clássico Gre-Nal — aquele jogo que dizem poder mudar o destino de qualquer clube —, no próximo domingo, sejamos capazes de iniciar um novo e vitorioso ciclo.

No fim, esperar é o que nos resta — e esperar, para o gremista, nunca foi pouco.

Avalanche Tricolor: entre o Sobrenatural e Veríssimo

Flamengo 1×1 Grêmio

Brasileiro – Maracanã, RJ/RJ

Volpi comemora gol de empate. Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

“Joga-se o futebol de rua mais ou menos como o Futebol de Verdade” — escreveu Luis Fernando Veríssimo.

Impossível começar um texto, hoje, que se atreva chamar de crônica, sem buscar referência em Luis Fernando Veríssimo, escritor gaúcho que se despediu de nós, neste fim de semana. Ainda mais em um domingo em que o Grêmio desafiou a lógica e empatou com o Flamengo, no Maracanã. Veríssimo, colorado confesso, talvez não comemorasse o resultado, mas com certeza entenderia o improvável — afinal, quem melhor do que ele para traduzir um jogo em que o “ruim que vai para o gol”, como dizia no texto “Futebol de Rua”, vira o herói da noite?

O dia começou com desconfiança. Confesso que temi um desastre desde o início da semana, ainda mais depois da goleada histórica do nosso adversário na última rodada, no Brasileiro. O Grêmio anda claudicante, sem confiança, e vínhamos de um empate em casa contra um time que estava tão mal classificado quanto nós. Nem a Velhinha de Taubaté, personagem crédula de Veríssimo, acreditaria em outro resultado que não fosse o fracasso.

Enfrentar um gigante, dentro de um estádio gigante, lotado por uma torcida gigante, era tarefa hercúlea. Bastaram 18 segundos para que as piores previsões começassem a se desenhar, com o primeiro chute contra o nosso gol. Mal tocávamos na bola e, quando tocávamos, era só para despachá-la o mais longe possível de nossa área. E comecei a dar razão à estratégia: cada tentativa de passe curto se perdia no meio da pressão adversária.

A defesa, no entanto, se virava como podia. O Flamengo envolvia: toque rápido, dribles pela esquerda e pela direita, cruzamentos que vinham de todos os lados. Nossos marcadores — os onze que estavam em campo — espantavam o perigo do jeito que dava. A despeito da superioridade do oponente, fomos para o intervalo com um honroso zero a zero.

O segundo tempo foi estonteante. Vieram os escanteios, um atrás do outro. As defesas impossíveis de Tiago Volpi. A sensação era de que só o Cristo Redentor poderia nos salvar – foi quando lembrei que ele é carioca. Até que, em um raro contra-ataque, em que cheguei a pensar no impossível, mostramos por que estamos tão mal na tabela: o passe errado, a transição lenta e a defesa desorganizada. Para o nosso azar, a bola sobrou para um dos goleadores do campeonato — e o Flamengo abriu o placar. Ali, parecia que restava torcer apenas por uma derrota magra.

Mas o futebol, felizmente, adora contrariar previsões. Foi quando um outro personagem da crônica esportiva brasileira entrou em campo. Claro que não seria obra de Veríssimo — ele jamais evocaria uma de suas criaturas para ajudar o Grêmio. Foi o Sobrenatural de Almeida, de Nelson Rodrigues, um tricolor carioca assumido, que resolveu dar uma força. Entregou a Pavón, que havia errado tudo até então, a chance de se redimir: cavar um pênalti na tentativa de cruzamento.

E, em um time que sofre para chegar ao gol, o Grêmio recorreu ao talento improvável de um goleiro. Negando a escrita — ou o escrito por Veríssimo —, Tiago Volpi bateu o pênalti com a frieza de um centroavante e silenciou o Maracanã.

O empate coloca o Grêmio na terceira partida sem derrota no Brasileiro. Ficamos um pouco mais longe daquela zona — você sabe qual — e, incrédulos e crentes, vimos o time conquistar mais um resultado positivo fora de casa: vitória contra o Atlético Mineiro, empate com o Flamengo.

Por mais problemas que tenha, o Grêmio insiste em me surpreender. E, lá do céu, desconfio que Verissimo está sorrindo. Não pelo empate — colorado que era —, mas porque só ele saberia explicar como o futebol de rua, o da pelada, o do improvável, às vezes se sobrepõe ao tal Futebol de Verdade.

Avalanche Tricolor: uma vitória a Fernandão

Atlético MG 1×3 Grêmio
Brasileiro – Arena MRV, Belo Horizonte MG

Balbuena comemora o gol da virada. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

17 de agosto de 2025. Guarde essa data, torcedor gremista! Tende a ser definitiva nos destinos do Grêmio, nesta titubeante temporada que estamos encarando. Para o calendário futebolístico, é o início da metade final do Campeonato Brasileiro. Um momento crucial para as pretensões de qualquer clube, em especial daqueles que, como nós, estão na parte de baixo da tabela. Se há um momento de reação, a hora é agora. E o Grêmio reagiu!

Lá em Minas, em momento de extrema tensão e pressão, superou-se e venceu de virada o adversário que contava com o apoio maciço de sua torcida. O Grêmio foi a campo depois de ter sido alvo de injustificáveis agressões por parte de um grupo violento de pessoas que se identifica como gremista. Esses trogloditas, que têm de ser expulsos da Arena e do clube, se sócios forem, invadiram a área reservada à delegação no aeroporto Salgado Filho, antes do embarque para Belo Horizonte. Atacaram o ônibus, ameaçaram agredir os jogadores e feriram Luis Fernando Cardoso, conhecido como Fernandão, segurança do Grêmio e da seleção brasileira.

Fernandão é uma dessas personagens que surgem no futebol e ganham destaque sem precisar entrar em campo ou jogar bola. Seu caráter e a excelência do seu trabalho se expressaram ao longo do tempo. Está onde o Grêmio estiver — menos neste fim de semana, quando precisou ficar em Porto Alegre, afastado pela violência da qual foi vítima. Seguidamente é visto na beira do gramado na saída dos jogadores; sempre que aparece alguma treta no caminho para os vestiários, lá está ele para proteger a todos. Ao contrário do que possa estar no imaginário de qualquer um de nós, é o tipo de segurança que está lá para cuidar das pessoas, não para agredir.

Lembro do carinho com que Fernandão tratou meu pai quando fomos à Arena do Grêmio comemorar seus 80 anos de vida. No fim da partida, estávamos a caminho do vestiário, onde o pai receberia de presente uma camiseta do tricolor, das mãos da diretoria e da comissão técnica. Fomos parados em uma das barreiras necessárias para controlar a movimentação de pessoas. E, sem que precisássemos dizer uma só palavra, assim que ele percebeu a presença do pai fez questão de se dirigir até nós e pedir licença a todos para que dessem passagem ao que ele tratou como uma lenda do jornalismo esportivo: “este é o grande Milton Ferretti Jung”. Um ato singelo que ficou no coração de todos nós.

Fernandão já deverá estar de volta à ativa para receber a delegação que chegará em Porto Alegre com uma rara vitória fora de casa na bagagem. Rara e muito importante, especialmente pela maneira como foi construída. Havia uma aparente consistência defensiva quando tomamos o primeiro gol — e como temos levado golaços nestes últimos tempos.

Parecia que estávamos prestes a assistir a mais uma derrota. Porém, sem desistir, conseguimos o empate ainda no primeiro tempo, com Edenilson cabeceando para as redes depois de uma cobrança de escanteio. No segundo tempo, mais uma vez, de uma bola que veio do escanteio, Balbuena aproveitou a sobra e virou o placar a nosso favor. Receosos — gato escaldado tem medo de água fria — só acreditamos que a vitória seria nossa após Aravena completar nas redes uma assistência de André Henrique, a partir de jogada iniciada por Riquelme no meio de campo.

Essa vitória — e por isso convido você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, a registrar a data de hoje — pode ser o ponto de inflexão que o Grêmio precisava para se recuperar de uma temporada ruim. Que seja também uma vitória dedicada ao Fernandão, símbolo de proteção, caráter e resistência gremista.

Avalanche Tricolor: com os olhos mais velhos e abertos

Fluminense 1×0 Grêmio
Brasileiro – Maracanã, RJ/RJ

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Foi um fim de semana de reencontro, abraços e presença da família. Completei 62 anos, na sexta-feira, e recebi a visita dos meus parentes de Porto Alegre. Um deles, meu irmão, ainda mora na casa da Saldanha, onde praticamente nasci. É o endereço vizinho ao saudoso estádio Olímpico, ambos parte de um território afetivo que ainda pulsa em mim — cenário de muitas das minhas histórias da infância e adolescência, algumas já confessadas nesse espaço.

Brinquei nas calçadas da Saldanha, joguei taco, bola de gude e futebol; andei de bicicleta, pulei corda (sempre desajeitado) e fiz mais um monte dessas coisas comuns para a época. O trajeto até o estádio, sem precisar da companhia dos pais, era sinal de autonomia, mesmo que a distância não fosse grande. Considerando que no início nem atravessar a rua era permitido, quando fui autorizado a ir ao Olímpico sozinho era como se tivessem expedido minha carteirinha de “gente grande”.

No Olímpico, vivenciei momentos marcantes. E não estou falando apenas das emoções dos dias de futebol. Fiz amizades, tive aprendizados, amadureci nas perdas e me lambuzei nas conquistas. Uma série de situações com as quais me deparei jogando futebol e basquete, mas, também, conversando com pessoas mais velhas, compartilhando confidências com mais jovens e observando o comportamento humano.

Parcela do que sou depois de mais de seis décadas de vida foi construída por lá. Isso explica por que o Grêmio se tornou tão importante para mim. Por outro lado, o tempo me fez trocar o fanatismo insano pela paixão racional. Gritava com o juiz antes mesmo do apito, encontrava um culpado externo para cada tropeço em campo e acreditava que bastava vestir a camisa para vencer. Hoje, continuo fanático — não perco um jogo, sofro a cada passe errado, vibro com cada gol. Mas minha paixão ganhou um contorno mais racional. Passei a entender melhor o que somos capazes de entregar, a reconhecer as limitações do time e a aceitar que, muitas vezes, a culpa não está lá fora, mas dentro de casa. Sigo acreditando, mas com os pés no chão e os olhos abertos.

E o que vi na noite de sábado, no Maracanã, me deixou pouco confiante em relação ao que podemos alcançar nas próximas rodadas do Campeonato Brasileiro — que as mudanças ocorram o mais breve possível. Consola saber que, na sala de casa, aqui em São Paulo, de onde assisti ao Grêmio, eu estava cercado pela família que veio comemorar meu aniversário.