Esquiar é bem menos perigoso do que as notícias contam

 


Tropecei no esqui há dois anos quando tirei férias no Chile. Foi um desafio interessante, pois jamais imaginei ficar em pé sobre aquelas duas prancha deslizantes. Descer uma pista por mais simples que esta fosse me parecia impossível. Nos tempos de guri, por exemplo, mantive distância prudente do skate, preferindo apenas aplaudir as manobras que meu irmão mais novo, o Christian, fazia na calçada da Saldanha Marinho ou na pista do Parque Marinha do Brasil, ambos em Porto Alegre. A experiência chilena me mostrou que com um pouco de esforço e coragem se vai ao longe. Depois de alguns dias de aula já me sentia à vontade e com capacidade para desviar de obstáculos, encarar algumas curvas e realizar manobras mais simples. Foi quando aprendi, também, que na neve não tem vez para a prepotência, pois, confiante, fiz uma descida descuidada, caí no chão e desloquei o ombro.

 

Nos dois anos que se seguiram aquela queda, treinei em academia, me preparei fisicamente, reforcei o ombro e me senti pronto para voltar a pista de neve. Era a meta das última férias, passadas nos Estados Unidos, para desespero de amigos que não se cansaram de me alertar para os riscos do esporte. Não bastassem os alarmistas, assim que desembarquei em Nova York, me deparei com a triste notícia do acidente de Michael Schumacher, que completou esta semana um mês internado no Centro Hospitalar Universitário de Grenoble, na França, para onde foi levado após sofrer sérias lesões no cérebro, resultado de queda que teve ao descer fora da trilha normal da pista da estação de esqui de Meribel. Na sequência, veio o tombo da chanceler alemã Angela Merkel quando praticava esqui cross-country na estação em Engadina, na Suiça, com fratura na pélvis, que apesar de não ser grave reforçou a pressão contra minha nova aventura. Mesmo assim tentei mostrar que eu jamais me arriscaria como eles, pois estava ciente da minha capacidade (ou incapacidade). Somaram-se aos acidentes com celebridades barreiras naturais que me impediram de chegar ao Estado de Vermont onde me aguardavam as pistas de Stowe. Primeiro foi a Delta que cancelou o voo quando estava na porta do avião, conforme já contei para você neste blog, e depois uma nevasca que não deixou que eu saísse de carro pelas estradas americanas. Com tantos percalços no caminho e pedidos de desistência, me restou viajar 40 minutos até Patterson, no estado de Nova York, e no último dia de férias brincar no pé da montanha de Thunder Ridge e sob orientação de um instrutor. O risco era tão baixo quanto a emoção de esquiar naquele ambiente e velocidade, que estavam aquem da minha expectativa. Por outro lado, economizei doses de estresse nos meus companheiros de viagem e na parte da família que ficou no Brasil.

 

Trago essas lembranças pessoais provocado pelo choque com a notícia de mais um acidente grave no esporte, desta vez envolvendo a atleta brasileira Laís Souza que treinava, nos Estados Unidos, para participar das provas de esqui aéreo, nos Jogos Olímpico de Inverno, em Sochi, na Rússia. Ela está internada em estado grave no Hospital da Universidade de Utah, em Salt Lake City, onde foi submetida à cirurgia para realinhar a terceira vértebra da coluna cervical, que foi deslocada na queda que sofreu. Ao contrário do que se imagina, Lais não se acidentou quando fazia manobras arriscadas, mas ao descer a pista com seu treinador e a colega de esporte Josi Santos, também atleta da equipe brasileira. Fico na torcida de que ela se recupere o mais breve possível e com o mínimo de sequela que as lesões permitirem e a medicina ajudar.

 

Apesar da sequência de notícias ruins envolvendo o esporte, o esqui está distante de ser das práticas mais perigosas, como mostram as estatísticas. O “Postugraduate Medical Journal” ensina que as chances de alguém morrer esquiando é de uma em 1,4 milhão, sendo muito mais perigoso correr (uma em 1 milhão) e pedalar (uma em 140,8 mil). Não tenho os dados do legado deixado em sobreviventes dos acidentes nesses esportes, mas devem ter relação semelhante ao número de mortes. Usar equipamentos corretos, seguir as normas de segurança, andar nas pistas sinalizadas de acordo com a sua habilidade reduzem de forma considerável os perigos nesta e em todas as demais atividades da vida.

 

Dito isso e sem esquecer a máxima “no creo em las brujas, pelo que las hay, las hay” decidi recomeçar, sábado, os treinos de golfe.

Deslizando na arrogância

 

Esqui

Esquiar sempre foi considerado tarefa impossível para mim. Imaginava minha falta de habilidade e a neve lisa conspirando contra meu orgulho. Exceção feita ao surfe, que ao menos servia para tomar banho após a rebentação, os esportes radicais nunca foram meu forte. Lá em casa – entenda-se por Porto Alegre – quem era adepto às práticas mais arriscadas sempre foi o caçula, meu irmão Christian. Desde dirigir Kombi até andar de skate. Causava-me inveja vê-lo sair com os amigos para o Parque Marinha do Brasil, onde havia uma pista daquelas que mais se parecem com uma gigantesca e tortuosa piscina de cimento. Minha preferência era pelos esportes com bola, o futebol e o basquete, especialmente – apesar de que encarar alguns grandalhões no garrafão bem que poderia ser caracterizado como algo bastante radical.

Dito isso, fica claro que jamais pensei ser capaz de ficar em pé sobre aqueles dois pedaços de prancha usados para deslizar na neve, quanto mais deslizar na neve com os dois pedaços de prancha. Por isso, a viagem a uma estação de esqui, no Chile, estava sendo encarada como um desafio. Afinal, se você não esquia o que fazer por lá? Comer, rezar e amar. E beber, claro.

No primeiro dia de aula, a companhia dos dois filhos tornou a tarefa ainda mais constrangedora. Enquanto eles já sinalizavam habilidade natural, eu mais parecia um bebê cambaleante em seus primeiros passos. Pior, o olhar deles não era de solidariedade. Era de pena. Não abandonei meu propósito porque tirar as botas de esqui seria ainda mais complicado. Não sei se você já teve oportunidade de calçá-las, se não, pense que são ideais para presos em liberdade condicional. Impossível ir muito longe com aquilo nos pés.

Algumas horas depois, unhas do pé ardendo e uma comichão subindo as pernas comecei a me entusiasmar, apesar da insistência do treinador em franzir a testa e sacudir a cabeça enquanto me assistia. Aos berros de “cunha, paralelos, cunha, paralelos” ele tentava me convencer de que era possível fazer certo. Estar em pé e descer as primeiras rampas sem despencar para mim era suficientemente certo.

Foram oito horas de aula divididas em três dias. O suficiente para superar parte de meus medos, andar para um lado e outro da pista e ter a ideia de que esquiar era possível. Nem mesmo calçar as botas era mais problema, apesar da unha do pé dar sinais de que a situação ficaria preta, literalmente. Convidado por amigos aceitei ir mais alto, usar uma pista um pouco mais desafiadora para minha (in)experiência. Foi incrível a sensação proporcionada pelo domínio do equipamento, o controle da velocidade – “cunha, cunha” -, a possibilidade de mudar de direção conforme a posição das pernas e meu desejo. E de repente: um tombo espetacular deixa meu braço fora de seu lugar de origem e com uma dor que só foi maior no orgulho perdido.

Poucos dias de esqui são suficientes apenas para você aprender que a prepotência jamais será perdoada. Na primeira ilusão de que você domina alguma habilidade, a realidade o desmente. O tombo é inevitável, a dúvida é a dimensão dele. Quanto maior a soberba, maior o prejuízo. O que, convenhamos, não é preciso arriscar-se na montanha de neve para descobrir. Basta viver.