Dez Por Cento Mais: Leny Kyrillos explica por que você falou, falou e não disse nada

“Comunicação não é o que sai da minha boca. Comunicação é o que chega no seu ouvido.”

Uma conversa pode terminar em cooperação ou em conflito antes mesmo de o assunto ficar claro. O motivo, diz a fonoaudióloga Leny Kyrillos, está menos no conteúdo e mais no impacto que provocamos no outro: “É já nos primeiros segundos de contato que o outro gosta ou desgosta, confia ou desconfia”. O tema foi assunto de entrevista no programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Leny contesta um dos mitos mais repetidos sobre o tema. “Existe meio que um mito que comunicação é dom”, afirma. Para ela, essa crença atrapalha porque desestimula treino e desenvolvimento. “Nós todos, sem exceção, temos a oportunidade de desenvolvermos, de apurarmos essa competência.”

Quando a comunicação vira gatilho de conflito

Leny descreve a comunicação como um processo que cria percepção. “Quando nós nos comunicamos, nós construímos percepção.” E essa percepção tem três características que exigem atenção: acontece rápido, é inconsciente e gera reação.

“Assim que eu gero esse impacto, o meu interlocutor reage a mim.” Por isso, ela defende que não dá para terceirizar o efeito. “Nós percebemos que somos nós os responsáveis em gerarmos o impacto que a gente tá buscando.”

A consequência aparece no cotidiano, em cadeia. Leny explica como um estado emocional negativo pode distorcer a entrega e produzir respostas reativas: “Aquilo que eu digo e especialmente a maneira como eu digo, vai gerar um mal-entendido”. O desconforto não para ali. “O pobrezinho que passar perto de você depois desse processo, vai te pegar incomodada, chateada comigo, brava.”

Ela também chama atenção para o que fica preso na garganta. “Eu costumo dizer que a fala é terapêutica.” Segundo Leny, verbalizar ajuda a organizar emoção e regular o ambiente interno: “Na medida em que eu sinto algo e sou capaz de verbalizar aquilo que eu estou sentindo, eu consigo organizar a minha emoção”.

O trio que decide o que o outro entende

A percepção, explica Leny, nasce do encontro entre três grupos de recursos: verbal, não verbal e vocal. “O que constrói essa percepção é o resultado de um trio de recursos.” No verbal, temos palavras e organização da mensagem. No não verbal, postura, gestos, expressão e olhar. No vocal, velocidade, articulação, volume e tom.

Existe um pesquisa clássica que diz que 53% do impacto da comunicação está no não verbal, 38% no verbal e apenas 7% no vocal. Leny alerta sobre a interpretação errada que se costuma fazer diante desses dados publicados pelo doutor Albert Mehabian, da Universidade de Los Angeles. Os dados podem gerar distorção no comportamento do comunicador. Na explicação de Leny, o ponto central é a incoerência entre os sinais emtidios por esses recursos.

Ela dá um exemplo direto, com humor. Se alguém diz estar feliz, mas o rosto desmente, o rosto vence. “Você não vai acreditar, porque o não verbal grita mais alto do que o verbal.” E completa com uma cena comum: “Quantas vezes… a gente segura o palavrão na ponta da boca, mas a cara de brava e o tom agressivo, a gente não consegue disfarçar.”

Voz: identidade, corpo e emoção

Leny entra no território que domina há décadas: a voz. “A nossa voz é tão única quanto a nossa impressão digital.” Para explicar como produzimos nossa voz, a fonoaudióloga leva o ouvinte ao básico, sem perder a precisão: “Nós temos um tubo no pescoço que se chama laringe, dentro desse tubo tem as tais das cordas vocais”.

Ela conta que se decepcionou ao ver a estrutura pela primeira vez. “Eu tinha uma imagem mental… de umas oito cordas vocais… e quando eu fui lá… eu tive uma grande decepção, porque se trata… de uma estrutura extremamente simples.” São duas, em formato de V. O som nasce fraco e é ampliado pelas cavidades de ressonância: garganta, boca e cavidade nasal.

A voz, diz ela, revela três dimensões: física, psicoemocional e sociocultural. “Existem três dimensões que impactam nas nossas escolhas de produção de voz.” Corpo influencia o grave e o agudo. Personalidade colore o tom. Ambiente social marca o jeito de falar. “Quando eu utilizo a minha voz, eu te dou informações muito sólidas sobre essas três dimensões.”

Leny ainda demonstra como pequenos ajustes mudam a impressão de quem escuta — nasalidade, foco na garganta, retirada de ressonância. E mostra que, em certos contextos, a “distância” vocal pode ser uma escolha estratégica. “Às vezes, minha querida, isso é desejável.”

Inteligência artificial imita, mas não copia

O tema da voz leva inevitavelmente à tecnologia. Leny reconhece os avanços e cita aplicações importantes para pessoas que perderam a fala. “Eles conseguiam sintetizar a voz da pessoa… e esse texto seria lido com a voz sintetizada dela.”

Ela também relata um teste pessoal, com uma frase conhecida do rádio. “Eu gravei… eu falando a minha entrada habitual que é: ‘Boa tarde, Sardenberg. Boa tarde, Cássia. Boa tarde a todos’.” A semelhança enganou por alguns segundos, mas não sustentou. “Dá para perceber que não é a mesma coisa… era uma entonação diferente, uma pausa em lugar que habitualmente eu não utilizaria.”

No meio da entrevista, Abigail compartilha uma cena de supermercado: o Gerente fala, fala, e a Caixa resume o problema de forma certeira. “Falou, falou e não comunicou nada.” A conclusão puxa um conceito que Leny endossa: “Comunicação não é o que sai da minha boca.”

Para chegar mais perto do que o outro precisa, Leny coloca a escuta como condição: “Não dá para eu me comunicar bem sem escutar, sem perceber quem é você, quais são os seus anseios, o que você precisa naquela relação de comunicação comigo. Quanto mais eu tiver dados sobre isso, ou seja, quanto mais eu estiver aberta a uma escuta empática, ativa direcionada, mais eu consigo direcionar minha fala para atingir a sua necessidade”.

A conversa que você tem consigo mesmo

Leny amplia o tema para dentro da cabeça. “Eu quero chamar a atenção… para aquilo que a gente chama de autofala.” Ela cita frases comuns e duras que sabotam atitudes: “Ai, que burra… Ai, que droga… Ai, que medo que eu tô sentindo.”

E conecta pensamento, emoção e comportamento: “Cada pensamento que nós temos gera em nós uma emoção e essa emoção gera em nós uma atitude.” Depois, apresenta a “via de mão dupla”: atitude também mexe com emoção e pensamento. “A nossa atitude comunicativa também impacta… na nossa emoção.”

Ela descreve uma cena da TV: o repórter em um dia ruim, mas tendo que entrar ao vivo. Faço o quê? A orientação é prática: postura, voz, articulação, sorriso. O efeito vem na sequência em forma de agradecimento: “Nossa, Leni, você sabe que eu tô me sentindo melhor?” Para Leny, o corpo também informa o cérebro.

Ao fim da conversa, ela deixa um convite. “O convite é para que a gente procure desenvolver uma boa comunicação nas nossas relações.” E amarra com uma frase que aponta responsabilidade: “Uma boa comunicação é o resultado de algo que vem de uma boa pessoa. Então, que a gente se dedique a nos tornarmos seres humanos cada vez melhores, identificando os nossos pontos fortes e colocando-os a serviço das pessoas que estão ao nosso redor, porque o nosso talento tem que ser direcionado e colocado a serviço do outro”.

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Expressividade: a palavra certa é um agente poderoso

 

Começamos a semana com a quinta parte do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, publicado no livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. Trago esse texto para o Blog em homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz (16/04):

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Foto: Pixabay

 

A PALAVRA CERTA NA HORA CERTA

 

Mark Twain foi notável humorista, escritor, americano, que nasceu em 1835, batizado Samuel Langhone Clemens. Autor de “As aventuras de Tom Saywer” consagrou-se escrevendo para crianças e adolescentes. Sua crítica à política externa dos Estados Unidos fez com que outros trabalhos de excelência, que falavam com o público adulto, demorassem a chegar por aqui. Morto em 1910, seu talento aparece, atualmente, registrado nos principais livros de comunicação e repetidos exaustivamente em artigos e ensaios. De palestras a discursos, Twain é lembrado em frases que aos poucos foram sendo torcidas e retorcidas. Incontestável é sua qualidade em destacar a importância da palavra — não apenas pelo texto que expressa uma técnica essencialmente verbal, mas, também, por citações deixadas para a história:

“A palavra certa é um agente poderoso. Sempre que encontramos uma dessas palavras intensamente certas… o efeito resultante é físico e espiritual, além de imediato”.

O redator está sempre em busca da palavra certa. A que vai conquistar, marcar, que tem de ser percebida pelo interlocutor para que cumpra seu propósito. Entra, então, o papel do locutor, de quem se exige a interpretação correta. É fundamental que ele entenda o que está escrito e para isso tem de dominar os temas tratados no noticiário. À medida que compreende, transmite com precisão. A mensagem torna-se clara. Todos os significados implícitos da palavra se valorizam com a ênfase que dá expressividade à fala, a partir dos recursos disponíveis como entonação, intensidade, ritmo e pausa, entre outros. Resultado: a mensagem vence a batalha pela atenção do receptor. E convence.

 

Para que esse processo tenha seu objetivo atendido, é fundamental o papel do redator. Um texto bem escrito ajuda a locução. Leva o apresentador a entender o sentido da mensagem, possibilitando uma interpretação melhor. Quem escreve deve levar em consideração que a notícia no rádio e na televisão será falada, portanto deve ser redigida de maneira clara, objetiva e simples. Escrever como se fala. A compreensão tem de ser imediata, caso contrário, se perde. No jornal e na revista permite-se a reflexão simultânea e posterior ao ato da leitura — o leitor tem o direito de voltar ao texto, reinterpretá-lo. O ouvinte, não.

 

No Brasil, lê-se pouco, escreve-se menos ainda e se prepara mal os estudantes de jornalismo. Soma-se a estes fatores uma facilidade proporcionada pela informática: a ferramenta de copiar e colar. A fonte de boa parte dos textos de rádio e televisão são as agências de notícias que têm as informações redigidas com as normas da língua escrita. Como o ”control + c, control + v” tem sido utilizado indiscriminadamente e sem que a redação seja adaptada para a língua falada, a locução é prejudicada. As notícias têm frases longas, que dificultam a respiração, e palavras com sonoridade ruim, que se transformam em armadilhas para o locutor. A melhor maneira de o redator não impor esses riscos ao apresentador é ler em voz alta todo o texto escrito. O ouvido será um ótimo conselheiro.

 

O jornalista catalão Iván Tubau, doutor em filologia francesa, graduado em arte dramática e professor do Departamento de Jornalismo e Ciências da Comunicação da Universidade Autônoma de Barcelona, em seu livro “Periodismo oral”(Jornalismo oral), lançado em 1993, chama atenção para a necessidade de aqueles que escrevem os textos jornalísticos destinados a uma execução oral traduzirem a linguagem popular, sem destruí-la:

“Quem escreve para rádio e televisão deve ouvir a algaravia da rua, ordená-la e limpá-la um pouco e devolvê-la levemente melhorada a seus emissores primigênios, procurando que estes a sigam conhecendo como sua”.

Tubau, que em seu livro combina a teoria e a prática da arte de falar nos meios de comunicação, ensina que “ao escrever para quem ouve deve-se escrever como quem fala”. Ao mesmo tempo em que analisa a importância do redator na expressividade do texto oral, Tubau lembra a figura do locutor, a quem cabe a interpretação correta deste discurso, e, por isso mesmo, deve ser um bom escritor, também.

 

Para melhor percepção, a mensagem precisa ser entendida por completo. Não basta tê-la parcialmente. Registre mais esta de Mark Twain:

“A diferença entre a palavra certa e a palavra quase certa é a mesma diferença entre o relâmpago e o vaga-lume”

Só por curiosidade: Mark Twain foi um dos primeiros a comprar uma máquina de escrever —- aquela sobre a qual abri parênteses no capítulo anterior —- e consta que seu romance “As aventuras de Tom Saywer” foi o primeiro livro cujos originais chegaram datilografados aos editores.

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora você tem acesso clicando aqui

Por que falar é viver

 


Por Nei Alberto Pies
Ouvinte-internauta do Jornal da CBN

 

“A quem mais amamos, menos sabemos falar” (Provérbio inglês)

 

Todo tipo e forma de discriminação, além de ser um problema pessoal de quem os sofre, é também um problema social. A gagueira, como outros tantos limites humanos, deixa marcas e imprime jeitos de resistir para sobreviver socialmente. Como eu, pelo menos 1.700.000 pessoas em todo o nosso país apresenta algum grau de gagueira na sua comunicação, conforme dados do Instituto Brasileiro de Fluência. A gagueira ganhou também um dia internacional: dia 22 de outubro.

 

A fala é o meio mais eficaz e mais utilizado para a nossa comunicação e interação social, porém não a única. Esta é a maior descoberta para alcançarmos reconhecimento social, através da comunicação. Se não falamos fluentemente ou temos algum grau de timidez, arranjamos jeitos de ser reconhecidos e valorizados socialmente por alguma outra habilidade ou virtude. Se não somos “experts” na fala, podemos ser bons na escrita, no canto, na representação, no estudo, na convivência ou nas relações. A qualidade da nossa comunicação depende da interação de todos, inclusive do apoio e compreensão que temos de dar àqueles que sofrem para se comunicar.

 

O ser humano é especialista na arte de compensar. Sem compensar não sobreviveria, porque se não é possível ser bom em tudo, é necessário ser bom e útil em alguma coisa. Por isso a gente se faz “agarrando-se” ao que tem de bom, àquilo que tem facilidade e àquilo que nos renda reconhecimento dos outros. A gente inventa e re-inventa jeitos e trejeitos para ser querido, amado e promovido pelos outros. O reconhecimento social é uma das maiores necessidades humanas, pois ninguém sobrevive se não comprovar para si mesmo o quanto é útil, importante, querido e estimado pelos outros.

 

O resgate da auto-estima e a auto-aceitação são preponderantes para a cura ou convivência com a gagueira. A gagueira é influenciada por fatores neurobiológicos ou emocionais. Conhecer-se, estudar o seu problema, procurar auxílio e terapias, aumenta as possibilidades de conviver socialmente, sem maiores traumas. É fundamental, ainda, assumir publicamente os limites da fala e da comunicação sempre que se puder. Assumir os limites da fala propicia discernimento e tranqüilidade interior para lidar com os desafios de se comunicar melhor. Quem fala se liberta!

 

Falar é a forma mais concreta de nos apresentar ao mundo. Por isso mesmo, falar pressupõe primeiro aceitar-se como se é para depois buscar o reconhecimento junto aos outros. A felicidade de “seres humanos falantes” alicerça-se tanto nos fracassos e limites como nos êxitos e nas conquistas, pessoais e coletivos. Uma boa convivência social pressupõe a aceitação de todos os limites humanos e a superação de todas as formas de discriminação.

Falar eu falo, o problema é como

Por Abigail Costa

Já escrevi aqui mesmo. Ninguém é perfeito. Muito menos eu. E preparem os ouvidos. Aqui vai um desabafo. Falo na primeira pessoa.

Ouço isso desde criança: “Olha como você fala !”.

Para mim normal. Nos ouvidos dos outros, agressivo, de forma destorcida.

O que eu imagino ser tranquilo, mais tarde compreendo muitas vezes pela cara feia, pela tristeza dos outros que magoei. Fui fundo demais.

Aí numa terapia de mim pra mim mesma, busco respostas para algumas perguntas.
Será que sou tão grossa assim?

Será que quando eu disse, lá no fundo, a pessoa não tinha um problema e resolveu inverter o jogo?

Será que terei que repensar o que devo dizer? Ou o melhor é ficar de boca fechada?

Meu Deus, a vida é um estalo!  Como se pode perder tempo com isso? Não foram palavras de acusação. Na maioria das vezes uma constatação.

Para encurtar o assunto.

Eu prometo.

De hoje em diante vou pensar, analisar, e depois dizer ou não. Eu prometo idas mais constantes ao terapeuta. Prometo reforçar a dose do antidepressivo.

Só não prometo ser eu mesma, se isso servir para não magoar as pessoas que mais amo.

Abigail Costa é jornalista e às quintas-feira faz do blog uma espécie de BBB da própria alma.