Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: as lições que aprendemos com os nossos pais

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“Meu caminho pelo mundo eu mesmo traço
A Bahia já me deu, graças a Deus, régua e compasso”

Gilberto Gil

Antes de dar início a esse texto, pense e responda a si mesmo: que lição você aprendeu com os seus pais que aplica hoje na sua vida profissional? Foi esse exercício que os meus dois colegas de Sua Marca Vai Ser Um Sucesso fizeram. As respostas foram incríveis. Do bolo feito pela mãe às planilhas de papel do pai, Jaime Troiano e Cecília Russo reuniram uma série de aprendizados que atualmente são aplicados na gestão das marcas. E não apenas delas.

Começa pelo formão que se destacava aos olhos de uma criança curiosa em meio as ferramentas bem organizadas na oficina de casa, mantida pelo pai do Jaime. Tão útil quanto perigoso, especialmente se for manuseado de maneira incorreta: 

“Assim, como formão machuca a madeira se não for bem usado, algumas ferramentas de comunicação podem fazer o mesmo. Exemplo, e é algo que me entristece, usar crianças em filmes de algumas marcas de carro, para comover os pais”.

Empatia foi uma das lições que a Cecília aprendeu com a mãe Anna Machado Russo e a avó Maria Isabel Salgado Machado. Lição essencial seja para a gestão de marcas seja para a psicologia, outra atividade exercida pela nossa comentarista. No branding, por exemplo, empatia é aquilo que faz você calçar os sapatos dos outros, daqueles que são os potenciais consumidores da marca. E assim ver o mundo, os desejos, os sonhos dessas pessoas a partir deles próprios.

“Num ambiente como o mundo atual, cada vez mais narcisista, a empatia é essencial para entender o papel que sua marca tem na vida dos outros”.

O palito sendo usado pela mãe para furar o bolo é imagem que Jaime jamais esqueceu. Quando criança imaginava ser um daqueles costumes que se tem sem que se saiba exatamente a razão. Curioso — lembra do olhar dele para o formão na oficina do pai? —, Jaime um dia perguntou à mãe o motivo daquele hábito: “se o palito sai seco é porque está na hora de desligar o forno”, disse a dona Julieta Curcio Troiano. Ou seja, se tirar do forno antes da hora, a massa fica embatumada:

“Vocês já devem ter visto por aí marcas embatumadas. Algumas que, como fruto da precipitação, digital em especial, atropelam as coisas. Pra mim, o próprio costume das versões beta é um palito que ainda não está seco”.

As planilhas de papel quadriculado sobre a mesa do pai Rubens Russo, que era engenheiro, influenciaram na forma planejada e organizada com que Cecília trabalha os projetos de branding.

“Branding é tudo, menos poesia. O sentido de organização com começo, meio e fim são essenciais. É como por porco do lado de cá pra sair linguiça do lado de lado”.

Da mesma forma que nossos pais nos influenciaram e deixaram sua lições a partir de hábitos do cotidiano, sempre bom lembrar que você também é referência para aqueles que vivem no seu entorno. Se não aos filhos, provavelmente aos colegas mais jovens. Já pensou, o que eles estão aprendendo com você?

Carta aberta para minhas filhas

Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

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Queridas filhas,

Onde foi que eu errei?

Antes que vocês respondam a essa pergunta, permitam-me expor o meu ponto de vista.

Ainda durante a gestação, tive que decidir sobre o tipo de parto que eu teria, com base numa enxurrada de informações que indicavam o que seria melhor para o bebê. Li artigos, conversei com médicos e com outras mulheres e, quando decidi que faria o parto natural, fui parabenizada por muitos. Seguia firme no meu propósito, afinal, de algum jeito, vocês teriam que sair da minha barriga.

Fui surpreendida pela ausência de dilatação e, após 14 horas de parto e com 42 semanas de gestação, evoluí para uma cesárea. Pelo menos eu havia tentado…

No fundo, não estava triste ou frustrada, mas suspirava aliviada após uma cesariana sem intercorrências, por não ter passado pela dor do parto sem anestesia. Não tive partos normais pela ausência de dilatação. Confrontada pela ausência de coragem, essa explicação me trazia conforto.

Nas primeiras semanas de amamentação, uma dificuldade tornou quase inviável o aleitamento materno. Eu não conseguia sequer imaginar a introdução da mamadeira… Exceto quando a dor parecia insuportável e eu pensava como a mamadeira poderia resolver o meu problema.

Bom mesmo era quando me elogiavam pela refeição saudável que eu oferecia para vocês. Mal sabiam que eu tinha saído voando de uma reunião no trabalho, passado na feira orgânica e, quase sem fôlego, chegado atrasada para buscá-las na saída da escola. Afinal, crianças precisam de pratos coloridos e saudáveis e eu não seria uma mãe preguiçosa, como aquelas que dão comidas prontas para os filhos!

Diante desses elogios eu engolia a seco, sabendo das vezes que tinha feito macarrão instantâneo. Falta de tempo ou preguiça mesmo.

Melhor ainda era chegar na escola e receber um feedback positivo das professoras e coordenadoras, dizendo que se todas as mães fossem como eu, as crianças seriam obedientes e responsáveis. Isso me validava para não permitir faltas, enrolação para fazer o dever de casa ou broncas quando vocês atrasavam – porque eu me atrasaria para minhas obrigações profissionais e sabia que responsabilidade é coisa para adultos.

E tinha muito mais.

Quando vocês se sentavam na bancada da cozinha, pequenininhas, a gente se divertia fazendo bolo, contando os ovos ou dizendo as cores dos ingredientes. Tinha o domingo na praia, os inúmeros (e minúsculos sapatinhos) das bonecas, os abraços apertados, os brigadeiros enrolados para as festas de aniversário, numa construção de memórias afetivas que nos enchem de saudade.

Mas se eu não fosse dura, não cuidasse da alimentação, do sono, dos riscos, dos desafios… O que seria de vocês?

Pois é, minhas filhas, aí talvez esteja o maior erro: eu acreditava que dependia excessivamente das minhas ações para que a vida de vocês fosse isso ou aquilo.

Eu acreditava que se fosse perfeita, não por um capricho, mas por uma preocupação enorme, vocês teriam vidas plenas e felizes.

Nessa busca pela perfeição, aceitei, assim como a maioria de nós mulheres, cobranças excessivas, sugestões indevidas, de uma sociedade que ainda dita regras de como nós devemos agir, numa atribuição de culpa pela falibilidade das mães.

Na ausência de perfeição em mim, em alguns momentos, talvez eu a tenha delegado para vocês, desejando que correspondessem às minhas expectativas e assim me ajudassem a diminuir o sentimento de ter falhado ao prestar contas à sociedade.

Para a minha sorte, vocês não atenderam ao meu desejo e questionaram esse sistema perverso e opressor.

Com a ajuda de vocês, descobri que não depende de mim. Podemos nos apoiar mutuamente, nos encorajar, viver plenamente, ainda que a vida seja isso, aquilo ou além.

Para encerrar, não precisam responder à pergunta inicial, ela ficou sem sentido… 

Mas não esqueçam de pegar o guarda-chuva e um casaco porque a frente fria está chegando… Eu sei, eu sei… Mãe é assim mesmo!

Vale então, queridas filhas, um último conselho?

Sejam vocês! É isso o que eu mais posso desejar.

Assista ao programa Dez Por Cento Mais, todas às quartas-feiras, 20h, no YouTube

Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite, no Blog do Mílton Jung.