Avalanche Tricolor: Haja paciência !

 

Flamengo 2 x 0 Grêmio
Brasileiro – Engenhão (RJ)

A mão escorrega pelo rosto e puxa as bochechas para baixo, ao mesmo tempo em que os olhos se voltam para o céu, em busca de alguma explicação para o erro, enquanto os lábios se espremem impedindo que palavras impublicáveis se dirijam injustamente àquele que o assiste. De forma repetitiva, o gesto se expressa a cada chute com destino tortuoso, como se a bola ter ido a um lugar qualquer que não o seu objetivo fosse desejo próprio deste ser inanimado, nunca resultado da falta de habilidade ou desajuste do protagonista.

Tem sido assim, jogo após jogo, a reação de nossos Imortais a cada tentativa frustrada de ataque. Já deixei de contar as vezes em que não conseguimos sequer chutar em direção ao gol; são raros os momentos em que o goleiro adversário tem de fazer algum esforço para impedir a investida de nosso time; normalmente o destino da bola é o braço dos gandulas, quando esta não é despachada para um lugar qualquer. Inevitável, porém, é a cena do desespero (pela sua mediocridade, talvez) mal interpretada e destacada na televisão por nosso atores, como se aquilo fosse uma injustiça dos Deuses do Futebol, jamais resultado de sua incompetência.

E nós que só temos o poder de torcer, sofrer ? Passamos a mão no rosto, olhamos para o alto, esprememos os lábios, pensamos o quê? Deveríamos desenvolver um grau de paciência que vai além da capacidade de qualquer monge tibetano? Acreditar no poder de nossa mística ? Na história de um clube que nos apaixonou?

Você, caro e raro leitor deste blog, sabe o cuidado que tenho de sempre exaltar os méritos do tricolor, mesmo que estes se resumam a um chutão para a lateral ou uma roubada de bola. Sabe que o sofrimento a cada rodada sempre é visto por mim como o momento de provação que devemos ser expostos para alcançarmos a glória que nos aguarda na próxima esquina. No jogo desse sábado, no Rio, até parecia estarmos diante de um time diferente daquele que se apresentou nas últimas partidas.

Haja paciência, porém. Quando até mesmo nosso maior ídolo é constrangido pelo erro, defender quem – ou quem nos defende? Quando o comandante entende que toda crítica é política e se mostra incapaz à auto-crítica, esperar que a mudança venha de onde? Quando você olha para o banco e não vê opção, não enxerga confiança nos gestos de seu treinador, por que acreditar que haverá crescimento?

Paciência, muita paciência. E olhar para o que já enfrentamos e como solucionamos nossos dramas. São os caminhos que temos para continuar torcendo, sofrendo e acreditando.

NB: Logo após a derrota para o Flamengo, o presidente Odone disse que Wellington Paulista seria contratado e substituiria André Lima, que será sacado do time até melhor sua forma física. O ex-atacante do Palmeiras está ameaçado de não vir mais. Será obra da oposição, presidente Odone?

 

Avalanche Tricolor: E tudo começou com um carrinho

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Grêmio 2 x 2 Flamengo
Brasileiro – Olímpico Monumental

No grupo de jornalistas esportivo, um deles era gremista de quatro costados. E na roda o tema era o Grêmio, lógico. Assim que me aproximei, meu conterrâneo foi definitivo: “É consenso, Douglas e Souza não podem jogar juntos”.

Como entendo muito pouco das estratégias de jogo, das formações táticas, do estilo de cada um em campo e das combinações possíveis, e enxergo as partidas de meu time pelo coração, neguei-me a compactuar com aquela conspiração: “Não vejo problema nenhum – desde que joguem”, complementei.

O toque rápido de Souza que deixou Douglas em condições de marcar o primeiro gol do Grêmio me fez lembrar o diálogo de ontem à noite. O que devem ter pensado aqueles especialistas em futebol. Talvez preferissem outro qualquer em campo, como se estivéssemos com gente sobrando no elenco.

Douglas e Souza podem jogar juntos, sim, desde que joguem.

Hoje, enquanto os dois estiveram no time, estávamos na frente, graças, aliás, a outra bola de Souza que encontrou André Lima e rebateu nos pés do goleador Jonas. Aliás, André e Jonas também podem jogar juntos desde que façam os gols necessários. Nem sempre conseguem.

A propósito, depois que Souza saiu, Douglas não conseguiu jogar mais.

Conto toda está história, mas não posso deixar de citar o mais importante. A TV pouco destaque deu, na vez que mostrou parece ter sido sem querer, pretendia chamar atenção para outra coisa. Mas a crônica deste jogo começou com um carrinho de Adílson na intermediária que não se limitou a roubar a bola do adversário, serviu-a para Souza e o resto você já sabe.

Vamos precisar de muitos carrinhos de Adílson e companhia para seguir em frente.

Avalanche Tricolor: Aerosmith é nosso

 


Flamengo 1 x 1 Grêmio
Brasileiro – Olímpico Monumental

 

 

Boa parte do público que cantava um dos maiores clássicos do Aerosmith enlouqueceu quando viu o Manto Tricolor ser embalado de forma estonteante pelo vocalista Steven Tyler, no palco armado na Fiergs, em Porto Alegre, na sexta-feira. Trian Kept A-Rollin explodia nos ouvidos da plateia formada por quase 15 mil pessoas quando uma nova onda de gritos surgiu dos muitos gremistas que se encontravam no espetáculo.

 

Tyler talvez não tivesse ideia da importância do gesto dele, mas ao erguer a camisa que lhe foi jogada na passarela enaltecia o símbolo de uma das mais bonitas histórias do futebol. E se mostrava sintonizado com o gosto de astros mundiais como Bob Dylan que décadas atrás se encantou ao ouvir o hino do Grêmio que lhe foi apresentado pelo amigo, fã, jornalista e historiador Eduardo Bueno. Alucinado como sempre, Peninha convence qualquer dos seus interlocutores que o encantamento pela sonoridade da letra de Lupicínio Rodrigues fez Dylan compor algumas de suas mais belas músicas. Se duvidar, relembre Blowing In The Wind.

 

O delírio do público com a camisa tricolor no ponto mais alto do show do Aerosmith também provou que a Fiergs tinha maioria gremista, refletindo o que as pesquisas comprovam: temos a maior torcida do Rio Grande – também nos espetáculo de música. Torcida que no sábado à noite não chegou a embalar com o ritmo do futebol apresentado no Maracanã, mas que está consciente do potencial de seu time.

 

Bem verdade que foi o ‘veterano’ Rodrigo (30 anos) quem fez o nosso gol de empate, mas ao fim da partida, com um grupo ainda esfacelado pelas últimas batalhas, vimos mais uma vez uma garotada promissora. Dos 14 jogadores que entraram em campo, seis integram a nova geração: Adílson (23), Roberson (21), Maylson (21), Bruno Colaço (20), Bergson (19) e Fernando (18). Meninos que nasceram em uma época que os torna incapaz de entender a importância do Aerosmith para o hard rock, mas que sabem como poucos o orgulho de vestir este Manto.

Avalanche Tricolor: Por um goleiro

Grêmio 4 (9) x 1 Flamengo
Brasileiro – Olímpico Mionumental

Encerrei minha curta carreira de jogador de futebol no gol, na escolinha do Grêmio. Fui para lá indignado com a perda de um campeonato no ano anterior após uma sequência de frangos do nosso goleiro. Decidi que se fosse para perder assim, que o fosse por minha culpa, minha tão grande culpa. No ano seguinte, continuamos sem vencer mas ao menos não me consagrei um frangueiro. Quem jogou comigo deve lembrar muito mais dos carrinhos e chutes na canela que distribuía enquanto ocupava as posições de quarto zagueiro e lateral esquerdo.

Ter terminado por lá também deve ter sido obra do destino, afinal meu pai era goleiro de ofício – no colégio, na pracinha em frente de casa e no time da rádio. Tinha o pretensioso apelido de Aranha Negra, referência a alcunha de um dos maiores goleiros do mundo, o russo Yashin que se vestia de preto da cabeça aos pés.

Pensando bem, os goleiros fazem parte da minha vida. Torço alucinadamente pelo único time no mundo a colocar na letra do hino o nome de um jogador de futebol, Lara, o goleiro que morreu de amor por seu clube. E foi vestindo a mesma camisa que tantos outros se consagram e tem seus nomes lembrados pela torcida: Mazaropi e Danrley, são apenas dois de uma enorme lista.

Falar de goleiro no dia em que seu time goleia um tetracampeão brasileiro pode parecer heresia. Perea seria o personagem ideal para esta crônica que de lupa encontra heróis sempre que o Imortal está em campo, mesmo quando estes não existem. Fez o jogo de número 50 e retornava ao time depois de um ano, recuperado de grave lesão e quase tendo sido vendido. Fez o gol que abriu a goleada.

Réver não poderia ser deixado de lado. Jogando mais a frente do que de costume, usou suas pernas longas para fazer dribles desengonçados e completar uma das jogadas com o gol que pôs o Grêmio no caminho da vitória. Seria merecido o destaque, ainda, para a segurança das duas cobranças de pênalti de Jonas, o goleador que quanto mais gols marca mais parece ter de provar que pode ser o goleador titular.

Que me perdoem os amantes do futebol arte. Nem dribles, nem cruzamentos certeiros, nem cabeçadas fulminantes ou cobranças de pênalti seguras são maiores do que as defesas de Vítor. Ele é a esperança de que o gol certo pode ser evitado, é a certeza de que todos os erros do time podem ser perdoados. Nesta tarde, cada vez que ele se agigantava diante do adversário, se antecipava a jogada final ou estendia seus braços em direção aos pés do atacante – ainda considerado por alguns Imperador -, comemorei como se um gol a nosso favor fosse marcado. Foram cinco os “gols” de Vítor que teve seu heroísmo reconhecido pela torcida.

Para que sejamos justo com nosso goleiro, vamos combinar o seguinte: a partir de agora, cada defesa impossível do Vítor será comemorada com a avalanche que homenageia os goleadores gremistas.