Conte Sua História de São Paulo: a flor no ponto de ônibus

 

Por Pina Seminara Boffa

 

 

Eu nasci e fui criada em São Paulo, filha de imigrantes italianos. A minha infância toda, vi meus pais levantando cedo e voltando tarde do trabalho. Assim sendo, para mim era muito natural se dedicar ao trabalho com muito afinco. Eu mesma comecei a trabalhar aos 15 anos e modéstia à parte era muito responsável no meu trabalho: não faltava, não me atrasava nem mesmo quando tinha alguma indisposição. Isso era normal, todos que trabalhavam naquela época tinham esse senso de responsabilidade, afinal, estávamos na terra no trabalho.

 

Tudo isso para explicar, ou talvez justificar minha reação ao que me aconteceu há 37 anos, quando eu tinha 19 anos de idade. Eu trabalhava durante o dia e fazia faculdade à noite. Minha vida era uma correria. Mal tinha tempo de me olhar no espelho.

 

Um dia, eu aguardava um ônibus em frente ao cemitério da Lapa, para ir ao trabalho, no Jaguaré. Ansiosa pela demora, não me dei conta da aproximação de crianças que vendiam rosas. Quando a risada do grupo despertou minha atenção, observei então que se tratava de um grupo de cinco meninos de 12 a 15 anos , que vendiam rosas para as pessoas que entravam no cemitério a fim de visitar o túmulo de seus entes queridos .

 

De repente, um deles se aproximou de mim, ofereceu-me uma rosa e eu, sem sequer olhar para ele, respondi: “não, não vou entrar no cemitério, estou esperando meu ônibus”. Foi bem no momento em que o meu ônibus surgiu lá no início da rua para onde meu olhar se voltava. Foi então que ouvi a voz daquele menino: “não estou te vendendo essa rosa, não, estou te oferecendo uma rosa”.

 

Meu rosto queimou de vergonha. Olhei para aquele garoto magro, maltrapilho, nem sei ao certo qual era sua idade, pedi desculpas, me ofereci para pagar a rosa mas ele não aceitou. Disse-me que era para alegrar o dia de uma moça bonita. Aceitei e subi no ônibus segurando firme minha rosa. Enquanto o ônibus se afastava, eu pude ver as outros meninos do grupo brincando com ele, enquanto ele ainda acenava para mim com um sorriso lindo.

 

Senti as lágrimas rolarem nos meus olhos e pensei como um gesto de amor pode mudar nosso dia, pode nos deixar mais humanos, menos robôs. Como um garoto de rua pode me ensinar sobre o amor. Desde então meu comportamento mudou: passei a observar mais as árvores da cidade, os jardins floridos, o riso das crianças com suas mães, os pássaros que cantam e brincam e até mesmo os pedintes que perambulam pelas ruas de São Paulo em busca de uns trocados.

 

Viver em São Paulo é correria, sim, mas nunca devemos perder a ternura.

 


Pina Seminara Boffa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a interpretação de Mílton Jung. Envie seu texto para milton@cbn.com.br

De lotação

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça “De Lotação” na voz da autora

Maria Lucia

Ah, mihas rosas Foto: Maria Lucia

 

é preciso abrir espaço no vaso de rosas
pra que a prometida possa caber

é preciso abrir espaço na certeza
pra que a do outro venha contigo brincar

é preciso abrir espaço na saudade
pra que a lembrança de um amor imaginado engane a realidade

é preciso abrir espaço na tristeza
pra que a fantasia empurre pelas frestas um cadinho de beleza

é preciso abrir espaços no discurso
pra que a ideia do outro se junte à tua no percurso

é preciso abrir espaço no sonho
pra que o do outro pegue carona no escuro te envolva
e mude o enredo que até então era tristonho

é preciso abrir espaço na alegria
pra que a decência seja mantida pelo siso da nostalgia

e assim me faço entender
sem muita atenção pedir
esperando que você aceite
o que me vem de redigir

e antes que eu me esqueça

é preciso abrir espaço em mim
pra que eu me encha de chegada e me esvazie de despedida
e então quem sabe eu mereça dirigida por um Querubim
alcançar a Árvore da Vida
onde estamos juntos você e eu
enfim

E você, como vai o teu vaso de rosas?
Pense nisso, ou não, e até a semana que vem

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira. Aos domingos, nos oferece o prazer de assistir as ideias dela florescerem enquanto reescreve o livro “De Bem Com a Vida Mesmo Que Doa”

As “jóias” escondidas pela balbúrdia da avenida Paulista

Damas da noite

Flor no hospital

Deixe os ônibus que passam rente a calçada, o pessoal que caminha apressado para o trabalho ou fugindo dele, os ambulantes que tentam levantar dinheiro com alguma bugiganga qualquer e ao passar pelo Hospital Santa Catarina, na avenida Paulista, preste atenção nas “jóias” plantadas em seu jardim. Nesta semana, a repórter Michelle Trombelli da CBN esteve por lá para reportagem que faz parte das homenagens aos 455 anos da cidade de São Paulo e teve sensibilidade para observar estas flores. “Fiquei impressionada com a beleza do local”, escreveu ao enviar estas imagens para o blog.


Ouça as reportagens em homenagem a São Paulo