Nem sempre o final é fim

Diego Felix Miguel

Planta
Foto: Jefferson Breves/Flickr

Prezada leitora e prezado leitor,

Tomo a liberdade de começar com uma pergunta pessoal: você cultiva plantas em sua casa? Além da ideia blasé de “eu falo com elas”, você tira alguns minutos por dia para admirá-las?

Eu sempre gostei de plantas, talvez por conta dos meus pais, que, desde a minha infância, cultivavam dois grandes jardins que davam vida à casa onde nasci e vivi até completar 18 anos, quando busquei minha independência.

Desde cedo, era nesse jardim que eu refletia sobre a vida, as rejeições que sofria por ser um garoto gordo e a discriminação por não ser como os demais meninos da minha idade. Era com as plantas, flores e árvores que meus pais cultivavam que eu me sentia reenergizado e acolhido em um mundo que não compreendia o meu jeito de ser e de me expressar — uma rejeição que punia de forma perversa a minha existência, tentando, dia após dia, anular a essência genuína que transbordava em mim.

Essas memórias me vieram à tona quando consegui fechar alguns ciclos e decidi finalizar outros. Mais uma vez, as dezenas de plantas que cultivo em meu apartamento foram o abraço de que eu precisava, enquanto as regava e removia folhas e galhos secos. É impressionante como não precisei de muito para deixá-las novamente bonitas e radiantes: bastou colocar água, retirar o que já não estava mais vivo e observá-las. Vi novas folhas brotando, mesmo em pequenos brotos quase imperceptíveis, que revelavam a transformação, a resposta ao cuidado que semanalmente dedico a elas.

Diferentemente da religiosidade — que prevê a realização de ritos religiosos e crenças —, a espiritualidade promove a conexão. Ela não demanda deuses, santos ou outras divindades, mas a conexão com algo superior que, no meu caso, representa o resgate da minha essência, compartilhada desde a infância com esses seres da natureza. Essa conexão nos eleva e proporciona respostas que não encontramos nas pessoas, mas dentro de nós mesmos. É a oportunidade de vivenciar a intensidade do autoconhecimento.

Foi exatamente aí que me peguei refletindo sobre a transformação da natureza e pensando que nem todos os términos são realmente o final.

A crisálida — processo de transformação da lagarta em borboleta — demonstra muito bem onde quero chegar.

Não podemos tratar com superficialidade e limitação o poder dos finais, pois é por meio deles que nos ressignificamos e permitimos que novos brotos, ou novas vivências, passem a fazer parte da nossa longevidade.

Afinal, envelhecer com vivacidade exige essa sabedoria: desapegar-se do que já não nos serve mais, honrar o que passou, guardando-o na lembrança saudosa da nossa trajetória, e permitir que a transformação — a nossa crisálida — faça a sua parte.

Os começos ou recomeços, mesmo quando doem, também podem ter um sabor amanteigado, com aroma de baunilha, como um delicioso café da tarde em um dia chuvoso, trazendo o prenúncio de que, muito em breve, o sol voltará a iluminar e aquecer nossos dias.

É um afago que recebemos da vida, permitindo-nos novas conexões e afetos, tornando-a muito mais intensa.

Olhando para a sua própria trajetória, quais términos você hoje consegue honrar como o início da sua própria crisálida?

Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP e especialista em Gerontologia pela SBGG. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

As estações que nos habitam

Por Juliana Leonel

@profa.julianaleonel

Foto de Andre Furtado

Já parou para pensar que nossas emoções são como as estações do ano… épocas estamos alegres e cheios de anseios, épocas, introspectivos e com medo, encantados ou nostálgicos.

Outono, estação de transição entre o calor e o frio, período de colheita, tempo de mudança, cores vividas e momento de preparação para dias frios/difíceis. No outono, nos sentimos em transformação, cheios de esperança advindas do ano novo e ressabiados em relação ao frio que virá.

Inverno, estação de noites mais longas e dias mais curtos. Estação onde as plantas adormecem, época de recolhimento, introspecção, conservação das energias e esperança de renovação. Comparo aos períodos de melancolia e tristeza, necessários para o crescimento e fortalecimento.

Primavera, minha estação preferida. Estação que as cores voltam a aparecer, céu azul, sol e brisa fresca. Período de renovação, as flores começam a florescem. Estação do romance, da esperança, da felicidade e da ansiedade pelo o que está por vir. Dias primaveris acordamos alegres, com capacidade de criar; os pensamentos fluem de forma livre e a resiliência se reforça.

Verão, a estação das estações, o momento de excitação pelos dias longos e quentes. Período do desejo, da satisfação, de empatia e de esperança. A vontade de fazer acontecer. O sentimento de encantamento com o novo, criança descobrindo um novo sabor de sorvete.

As estações do ano acontecem por períodos e nossos sentimentos são diários, mas metaforizar nos permite entender que dias coloridos, nos transformam; dias tristes existem, passam e nos fortalecem; dias românticos nos permitem desejar e dias quentes consentem a descoberta.

Não se aflija com raiva, tristeza, alegria, medo, nojo, ansiedade, tédio, vergonha, inveja, surpresa, felicidade, excitação, anseio, diversão, estranhamento, desejo, temor, horror, calma, empatia, duvida, encantamento, nostalgia, satisfação, adoração, admiração, apreço, inveja, romance, tristeza, surpresa, simpatia, triunfo, interesse … todas as emoções são necessárias para seu viver.

Procure conhecer suas estações, assim você não correrá o risco de necessitar de adubos tóxicos …  não sofrerá com medo da incerteza ou ausência … e sim, se tornará em um indivíduo resiliente, descobridor … um ser desejante e desejado.

Juliana Leonel, psicóloga pela Universidade Paulista, mestre em Psiquiatria e Psicologia Médica pela Universidade Federal de São Paulo e professora universitária em tempo integral. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung