#BAD2011: Um albergue para matar a fome

 

Seu Francisco vai mudar de endereço. Ele está sempre de mudança. Morava em casa, foi para a rua, consegue, vez em quando, um albergue. Chegou a vez do albergue se mudar de um número para outro na mesma Cardeal Arcoverde, rua de Pinheiros, primeiro bairro em que busquei abrigo quando cheguei em São Paulo. Ao contrário de Francisco, carroceiro, não precisei mudar muito de casa nem vivo na rua ou passo fome. Menos ainda sofri preconceito como ele e todos os que usam as dependências do albergue para serem acolhidos pela dignidade. Moradores do entorno os querem bem distantes dali, pois vão afugentar clientes, sujar o ambiente urbano e desvalorizar o patrimônio. Deveriam valorizar mais suas próprias vidas e privilégios conquistados -imagino, a duras penas – entendendo que nem todos têm os mesmos direitos e oportunidades.

Escrevo neste domingo sobre o caso de Pinheiros, destaque nos jornais e motivo de reportagem lá na rádio, aproveitando-me de campanha mundial que reúne mais de 1.500 blogueiros de 80 países, o Blog Action Day 2011. Desde 2008 participo desta manifestação digital – o BAD começou em 2007 – quando pessoas de todo o mundo se comprometem a escrever no dia 16 de outubro ao menos um post sobre tema previamente escolhido. O resultado tem sido excepcional a ponto de provocar reações de chefes de Governo e de Estado, além de celebridades, que falam do assunto e expõem suas ideias. No BAD já se tratou da pobreza, da mudança do clima e da água. Nesta edição, como hoje é o Dia Mundial da Alimentação, o combate a fome é o objetivo maior. Costumo convidar os ouvintes-internautas e os raros e caros leitores deste blog a publicarem textos, frases, fotos e vídeos sobre o assunto. E contamino a pauta do programa na rádio da mesma forma. Como este ano caiu em um domingo, quando estou fora do ar, assumi por minha conta e risco a responsabilidade de participar do BAD.

Calcula-se que cerca de 11,2 milhões de brasileiros não tenham o que comer, de acordo com a Pnad – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio. Número bem maior é daqueles que não se alimentam direito, 54,4 milhões, às vezes falta dinheiro ou sofrem alguma restrição. Mesmo assim, programas de distribuição de renda e políticas específicas reduziram pela metade a parcela da população que passa fome, na última década. Derrubaram, também, o índice de crianças de até 4 anos com peso abaixo do esperado – indicador usado para mensurar desnutrição infantil – de 4,2% para 1,8% – segundo dados do PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

Sempre que se fala de fome, lembramos de famílias que vivem no Norte e Nordeste. Não por acaso. As pesquisas mostram que lá estão 18,5% das pessoas mais afetadas pelo problema – muitas crianças e a maioria na zona rural. Porém, você não precisa ir longe para enxergar o tamanho desta tragédia. Aqui em São Paulo, não fossem iniciativas públicas e privadas, iríamos nos deparar com famílias inteiras de esfomeados. São pessoas que vivem na indigência com menos de R$ 79 por mês – dinheiro insuficiente para se ingerir o mínimo de calorias necessários para ficar em pé e tentar um trabalho.

Há alguns anos, conheci o belo projeto da União dos Moradores de Paraisópolis, segunda maior favela da capital, que mantém cozinha e um seleto grupo de cozinheiras, todos os dias, preparando pratos a base de doações generosas que recebem do comércio mais próximo e de moradores. Filas enormes se formam próximo do meio dia em busca das “quentinhas” que serão divididas com mais quatro ou cinco pessoas em cada casa. Soube de barracos que chegam a ter mais de uma família. Não fosse esta ajuda, o sofrimento seria ainda maior e a dificuldade para encontrarem um novo caminho bem pior.

Albergues como o que está no centro da polêmica em Pinheiros, frequentado pelo Seu Francisco, não apenas são lugares para passar a noite como única opção para se alimentar de boa parte dos moradores de rua e carroceiros. São extremamente importantes como programas de inserção (salvação) dessas pessoas. Porém, diferentemente da casa usada para alimentar os mais miseráveis que vivem em Paraisópolis, não estão escondidos dentro de uma favela. Estão na porta das nossas casas. Pela relevância, deveriam ser bem-vindos e não provocarem asco, como ficou claro na declaração de alguns moradores de Pinheiros. Teriam de ser apoiados, não renegados. Sei que é muito difícil conviver com estas diferenças; negá-las, contudo, não é a solução. Não mata a fome de ninguém. Mata pessoas e nosso sentido de solidariedade.

Leia mais aqui sobre a campanha contra a fome do Blog Action Day 2011

São Paulo terá caminhada contra a fome

Imagem da WFP/ONUImagine uma caminhada de 24 horas em volta do Mundo. É o que a ONU propõe a você neste domingo 07.06 e o primeiro passo, aqui no Brasil, será no Parque da Aclimação, em São Paulo, às 10 da manhã. O desafio é arrecadar fundos para combater a fome no mundo e não chega a ser tão difícil assim.

O Programa Mundial de Alimentos promove o ‘End Hunger: Walk the World’, com o apoio da TNT, Unilever e DSM, e mobiliza pessoas em 200 países que irão realizar passeios cobrindo os 24 fusos horários do planeta. Assim você só precisa dar seus passos na capital paulista e deixa para que o restante do percurso seja completado pelo pessoal que mora nas demais regiões que participarão do evento.

Serão vendidos bonés e camisetas a R$ 15 o conjunto. Todo o dinheiro será repassado a WFP, sigla em inglês do programa da ONU. De acordo com material promocional, a agência mundial alimenta mais de 100 milhões de pessoas em 80 países.