Avalanche Tricolor: suplício, sofrimento e um herói improvável!

Grêmio 1×1 ABC

Copa do Brasil – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Suárez comemora gol de Galdino, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Eita, seu! Que coisa! Tudo que eu queria, depois de um dia de trabalho duro, era sentar diante da TV  a espera de 90 minutos de entretenimento e tranquilidade. Aí a bola começa a rolar e você vai vendo a coisa degringolar. O passe não passa como deveria ser passado, o chute não chuta como deveria ser chutado  e a marcação não marca como deveria ser marcada. Todas as vezes que é atacado, um susto. Você fica só chuleando para se ver livre de um gol tomado. Mas é claro que ele vai aparecer. Como apareceu ainda no primeiro tempo. E o jogo que era só pra carimbar passagem para a próxima fase, vira suplício.

Verdade que o Grêmio tentou reduzir o risco ficando mais tempo com a bola no pé, especialmente no segundo tempo. Para isso tem de ter alguém pra conduzir essa bola, outro para se aproximar e um mais à frente para se deslocar. Mas se quem conduz passa errado, quem se aproxima, só tira espaço para a bola fluir e quem se desloca não recebe, a estratégia vai para o ralo. E o que deveria  ser simples, tranquilo e divertido, ganha ares de sofrimento.

Haja sofrimento! A cada escapada do adversário, o perigo era iminente. Você assistia à bola cruzando a sua área e logo imaginava um desvio para as suas redes e a ameaça de termos de decidir tudo nos penaltis. Observava o adversário se jogando para dentro da área e o medo de um pé descontrolado cometer uma penalidade  — como diz o ditado: cachorro mordida por cobra tem medo de linguiça. Aí veio o lance do lado direito que passou por cima de nossos dois defensores e foi para diante do atacante deles. Confesso, ali não via nenhuma possibilidade de a bola não entrar. Pois não é que não entrou. Chocou-se no travessão e se perdeu pela linha de fundo. Foi o ápice do desespero.

Se eu, aqui distante, já estava impaciente, imagine o torcedor na Arena. Cada bola mal passada ou mal marcada era motivo de reclamação, buchichos e vaias. Dentro do campo era perceptível o nervosismo do time. Do lado do campo, também o era a irritação do treinador.

Foi então que o herói improvável apareceu para alívio de todos. 

Everton Galdino, que na partida anterior pela Copa do Brasil havia errado praticamente todos os lances que participou, a ponto de tropeçar na bola em um contra-ataque, recebeu um presente de Suarez na entrada da área —- em tempo, que partida fez o nosso gringo preferido. Galdino poderia escolher: devolver para o nosso craque, o mais provável. Ou encontrar Bitello que entrava pelo outro lado. Não. Galdino ajeitou a bola e bateu lá de fora para estufar a rede, empatar o jogo e acabar com qualquer risco de desclassificação.

O Grêmio empatou e manteve a invencibilidade na Arena. Poderia até ter perdido por um e se classificaria assim mesmo. Independentemente do placar, o que importa é que avançou mais uma casa em direção ao título da Copa do Brasil. Vai precisar repor suas peças, consertar a parte física de jogadores importantes e reorganizar a forma de jogar. Não pode continuar sacrificando seu maior jogador, Luis Suárez, obrigando-o a sair da área, buscar a bola na intermediária e ensinar os colegas mais próximos como funciona um jogo coletivo de alta performance. 

Teremos tempo para os consertos e o departamento médico haverá de liberar, em breve, jogadores especialmente do meio de campo que tem toque mais refinado da bola. Por enquanto, é comemorar a classificação depois de um jogo sofrido em vários sentidos.

Avalanche Tricolor: enferrujado!

Cruzeiro 1×0 Grêmio

Brasileiro – Independência, BH/MG

Suárez ensaia arrancada em direção ao gol em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBA

Começo com uma confissão, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche. Estou enferrujado! Talvez algum de vocês possa pensar que é a proximidade dos 60 anos — duvido muito. Haverá alguém que colocará a culpa na falta de atividade física — posso provar que treino com regularidade e forte. E o que dirá: “deixa de bobagem, Mílton, você está muito bem”. Mesmo que não tenha razão, aceitarei o elogio porque ouvi de meu colega e filósofo Mário Sérgio Cortella que a modéstia é nojenta, por falsa que soa e porque diante dela você obriga o outro a elogiá-lo novamente.

De volta à ferrugem que impede o funcionamento de algumas engrenagens que desenvolvi ao longo dos muitos anos escrevendo essa Avalanche. Os que me leram no passado — quando os leitores eram caros, mas não raros — sabem que desde a criação desta coluna, em janeiro de 2008, com as exceções de sempre, sou bastante disciplinado em meu propósito: falar do Grêmio! E falar bem, porque mal tem muita gente que já é craque em fazê-lo. Escrevi a Avalanche em alguns dos mais tristes momentos da nossa história como o rebaixamento (toc-toc-toc) de 2021. Fui fiel a escrita mesmo diante de algumas goleadas acachapantes. Resiliente, mantive-me tão firme que houve época em que esta coluna era reproduzida em outros blogs gremistas que estavam cansados dos corneteiros.

Neste ano, convenhamos, não tem sido difícil elogiar o Grêmio. Fizemos a maior contratação do futebol brasileiro, reforçamos o time, tivemos bons desempenhos em campo e, mesmo quando a bola não rolava redonda nos gramados, vencemos uma atrás da outra. Já conquistamos dois títulos regionais e seguimos em frente na Copa do Brasil. Nestes meses todos de 2023 — estamos no fim de abril —, só havíamos tido uma derrota e, mesmo assim, sem muita importância. Foi fácil me virar nas palavras. 

O fato é que deparo com a segunda derrota do ano, a primeira no Campeonato Brasileiro, e já na segunda rodada da competição. De tão desacostumado em ter de driblá-la, fiquei sem palavras para explicá-la, a tal ponto que só estou escrevendo essa Avalanche no domingo, um dia depois do mau resultado. Espero manter a ferrugem para essas situações e não ter de me acostumar com o fato!

Avalanche Tricolor: Grêmio completa 700 vitórias diante de uma torcida que faz a diferença!

João Pedro comemora o gol da vitória, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Grêmio 1×0 Santos

Brasileiro – Alfredo Jaconi, Caxias/RS

“Muito feliz com o desempenho da torcida” — disse Nathan, naquela entrevista feita logo após o apito final do árbitro, ainda no calor da partida. Costuma ser a mais difícil de todas e injustamente cobrada de jogadores que nem sempre têm habilidade com as palavras. O batimento cardíaco está em alta, mal deu tempo de respirar fundo para pensar no que acabou de acontecer e o repórter dispara uma pergunta que, convenhamos, tende a ser mais longa do que deveria, considerando que tudo que ele gostaria de saber é “o que você achou do jogo?”.

O recém-chegado meio campista do Grêmio respondeu no microfone da televisão com a mesma sensibilidade e talento que havia apresentado em campo desde que entrou aos 26 do segundo tempo em lugar de Cristaldo.  Foram dele três dos principais e raros lances de ataque na etapa final —dois em que foi o protagonista do chute a gol e um terceiro, já nos acréscimo, quando desarmou o adversário e entregou a bola limpa para Suárez concluir.

Ao exaltar o torcedor, que havia tomado quase todas as dependências do Alfredo Jaconi, em Caxias, e vibrou mesmo diante da pressão maior do adversário, Nathan fez justiça aos gremistas que, já no ano passado, entenderam sua importância para o clube e tomaram para si a responsabilidade de nos levar de volta à Série A. Ascensão  conquistada e o orgulho recuperado, nesta temporada de 2023, os torcedores souberam dar a resposta ao esforço da diretoria que montou um elenco qualificado e, principalmente, contratou um dos maiores goleadores do mundo, Luis Suárez. 

Cada jogo é uma nova festa. Da Recopa Gaúcha a Copa do Brasil, do campeonato Gaúcho ao Brasileiro, tomamos as arquibancadas e aumentamos exponencialmente o número de sócios. Estamos com o Grêmio onde o Grêmio estiver. A despeito de algumas recaídas, com vaias pontuais a determinados jogadores, canta e embala a equipe, faz nosso time se desdobrar em busca da vitória, e a resistir quando necessário. No fim deste domingo, foi fundamental para dar força a equipe que estava tendo dificuldades para dominar a bola, especialmente no segundo tempo. E reconheceu quem se doou em busca do resultado, como fez com Kannemann que teve seu nome gritado enquanto estava caído e extasiado no gramado.

De minha parte, queria chamar atenção para a boa atuação dos três laterais que vestiram nossa camisa. Na direita, João Pedro que fez o gol da vitória, batendo de fora da área com pé trocado e tendo seus últimos desempenhos premiados neste momento importante da vida, às vésperas do primeiro bebê nascer. Thomas Luciano, de apenas 21 anos, que substituiu o autor do gol no intervalo, tomou para si a responsabilidade de combater o principal atacante adversário e cumpriu com precisão seu papel, além de ter sido o responsável por provocar a expulsão dele. E, finalmente, Diogo Barbosa, que se faz melhor nas últimas partidas e hoje foi essencial na movimentação de ataque pelo lado esquerdo.

O futebol jogado pelo Grêmio ficou aquém da expectativa mas havia na partida de hoje algo muito mais importante a se comemorar: a volta à Série A. Volta que se deu com uma vitória histórica porque é a de número 700 desde que as competições nacionais foram unificadas, em 1959 — estatística registrada logo após ao jogo pelo canal História Grêmio, no YouTube.

Avalanche Tricolor: precisamos falar de Bitello 

ABC 0x2 Grêmio

Copa do Brasil – Frasqueirão, Natal/RN 

Bitello comemora o gol em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

João Paulo de Souza Mares é o nome de batismo. Dito assim, porém, talvez poucos sejam os gremistas capazes de dizer quem é e qual a importância deste jogador para o time. João Paulo já chegou ao clube marcado pelo apelido de infância que surgiu de uma brincadeira com um amigo na sala de aula, Bitello. E é por Bitello que gritamos na arquibancada para reverenciar aquele que  atualmente é o melhor jogador do elenco gremista.

Alguém haverá de precipitadamente me criticar pela afirmação feita na última frase do parágrafo anterior, afinal no comando do ataque temos um dos maiores goleadores do mundo. “Como, Milton, você acha que Bitello é melhor do que Suárez ?” Explico. Luisito, por tudo que estamos vendo nos gramados, pela sua história e méritos, é “hour concour”, expressão que costumávamos usar para aqueles que de tão especial que nasceram estão acima de qualquer comparação. E Suárez está entre eles, está em um patamar diferenciado, só oferecido àqueles que nasceram abençoados pelos Deuses do Futebol.

Dito isso, voltemos a Bitello, o craque do momento. 

Na noite de ontem, ele brilhou em um jogo de futebol ofuscado pela qualidade do gramado e pela forma desconsertada que o Grêmio entrou em campo, devido as dificuldades para escalar o time. Especialmente no segundo tempo foi o responsável pela melhoria na qualidade do jogo, cadenciando a bola, se deslocando para se aproximar dos companheiros, melhorando a troca de passe e permitindo que o Grêmio dominasse a partida, praticamente anulando os riscos de o adversário chegar ao nosso gol. 

Foi de Bitello o segundo e mais bonito gol da partida, ao acertar no ângulo um chute de fora da área, depois de uma cobrança de escanteio ensaiada. Um gol que nos trouxe tranquilidade, em uma partida de alto risco — cabe lembrar que o adversário já havia eliminado um time da séria A, na fase anterior da Copa do Brasil, e não perdia, frente a sua torcida, desde janeiro do ano passado.

Fazer golaços e gol decisivos, são duas tarefas que já aparecem no currículo de Bitello, apesar de ainda ser tão jovem.  Foi dele o gol que abriu a vitória gremista na final do Brasileiro de Aspirantes, em 2021, levando o Grêmio a um título inédito. Foi dele um golaço parecido com o de ontem, em um dos Gre-nais do Campeonato Gaúcho de 2022.  Ainda no ano passado, na segunda divisão, foi, também, a maior revelação do futebol brasileiro. E neste 2023 conquistou o bi no prêmio de Craque do Gauchão — sim, ainda com 22 anos já havia se destacado como o melhor da competição, logo que estreiou no time principal. 

O guri está jogando muito e fazendo a diferença com uma maturidade que chama atenção. Foi fundamental para a volta à Primeira Divisão e é peça essencial para nossa campanha no Campeonato Brasileiro que se inicia no fim de semana. Se não bastasse cumprir seu papel à risca, ainda demonstra irreverência nas comemorações, reproduzindo os gestos e danças de seus ídolos da NBA — o que demonstra ser craque de bola e ter excelente referências.

Vida longa para Bitello!

Avalanche Tricolor: o Campeonato Gaúcho não me faltará!

Grêmio 1×0 Caxias

Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Nos últimos dois anos, só o torcedor gremista é capaz de descrever como foi difícil acompanhar o futebol. A cada partida um sofrimento em particular. Mesmo quando o resultado chegava, o futebol não agradava. Pior ainda quando nem a bola entrava. Não bastava ser maltratada, conspirava contra nós. 

O curioso é que a despeito de tudo que pudesse ter dado errado, nas temporadas de 2021 e 2022, o Campeonato Gaúcho nunca nos decepcionou. Sempre esteve ali a nossa espera, de braços abertos para nos permitir um sorriso em meio a tantos sofrimentos.  Aliás, desde 2018, faça sol ou faça chuva, tenha grama ou buraco no meio do campo, nos capacitamos a disputar as finais estaduais e fizemos prevalecer o peso de nossa camisa. 

Neste 2023 que ainda se inicia para o futebol, lá estava o Grêmio mais uma vez na final, depois de fazer a melhor campanha entre todos os adversários. Diante de nós, um time bem treinado e organizado, tanto quanto aguerrido e tradicional, que se capacitou a decidir o título após derrubar quase todos que encontrou pela frente. Digo quase todos porque nem na primeira nem na última rodada do campeonato nos venceu — foram as únicas duas derrotas que sofreu na competição, demonstrando porque é, atualmente, a segunda melhor equipe  do  Rio Grande do Sul. A terceira, se não me engano, é o Ypiranga de Erechim (por favor, se eu estiver errado me corrija).

O hexacampeonato comemorado, neste início de noite de sábado, sem não antes algumas doses de sofrimento, foi ainda mais especial do que todos os títulos desta sequência. Nossa vitória agora chegou sob o signo da reconstrução e abençoada pelo grito de torcedores que resgataram o prazer de vibrar por um time que preza pela qualidade no futebol. — hoje havia ao menos 51 mil deles na Arena. Não que tenhamos tido uma apresentação de excelência. Houve alguns erros, passes precipitados e desejo de decidir antes da hora — justificável diante da vontade que esses jogadores estavam de atender a paixão do seu torcedor.

De Adriel, jovem goleiro com potencial de oferecer tudo aquilo que o futebol moderno espera de alguém que veste a camisa número 1, a Luiz Suárez, quinto maior goleador do futebol mundial em atividade, admirado em todos os continentes pelos quais passou e motivo de orgulho dos torcedores gremistas, o Grêmio montou uma equipe que tem condições de nos levar muito além das fronteiras gaúchas. 

Temos zagueiros que jogam com personalidade e segurança, um meio de campo bem qualificado, que tem esboçado um toque de bola que tende a melhorar a medida que a temporada avance e um ataque que se ajusta a qualificação de nosso goleador. Talvez sintamos falta de um ou outro jogador para compor o elenco, a medida que as fases decisivas se aproximem. Independentemente do que tenhamos de agregar ao grupo, temos consciência dos nossos predicados.

O que vai acontecer com ao Grêmio neste ano e o quanto a equipe atenderá as expectativas que não são apenas dos torcedores —- muitos dos analistas aqui no centro do país, de onde escrevo, têm se entusiasmado com as nossas possibilidades — somente saberemos mais à frente. De verdade, de verdade, o que posso garantir é que, como nos últimos cinco anos, o Campeonato Gaúcho não nos faltará! E isso me faz muito feliz e desejoso de sair por aí a cantarolar:

Da-lhe, Da-lhe, Da-lhe Tricolor!

Da-lhe, Da-lhe, Da-lhe Tricolor!

E Da-lhe, Da-lhe, Da-lhe, Da-lhe,

Da-lhe, Da-lhe, Da-lhe Êôô!

Da-lhe, Da-lhe, Da-lhe, 

Avalanche Tricolor: com dentadura em campo, Grêmio empata e decide o Hexa na Arena

Caxias 1×1 Grêmio

Gaúcho – Centenário, Caxias do Sul RS

Tinha torcedor no alto do prédio vizinho ao estádio. Cheiro estranho de churrasquinho na porta. Alambrado no entorno do gramado. E se tinha alambrado, claro, tinha gente gente pendurada nele, se não para que serviria o alambrado. Tinha até dentadura arremessada para dentro do campo — só não ficou ainda muito claro se propositalmente ou por descuido na emoção do grito de gol. Mais do que a ‘chapa’ – nome próprio da dentadura para os gaúchos —, que aterrissou próximo da linha lateral depois de se chocar com o braço do repórter, havia buracos no meio do caminho por onde o futebol deveria passar, o que sempre faz a bola desviar ou ajuda a prender o jogo. Foi nesse cenário que o Grêmio deu início a mais uma final que pode lhe garantir o sexto título Gaúcho consecutivo. 

Jogando no Centenário e diante do time da casa que está invicto desde a segunda rodada da competição — perdeu na estreia para o Grêmio —, encontramos todas as dificuldades que se pode querer em um campeonato estadual. A começar pelo próprio adversário, bem treinado, disciplinado e consciente de seu potencial, que cresce frente a sua torcida e não tem medo de cara feia como comprovou ao despachar o Inter na semifinal.

Sem contar que fomos a campo, pela segunda partida seguida, com um time meia boca. Titulares lesionados e com elenco sem muitas escolhas, recorremos até a jogador que estava praticamente descartado, caso de Lucas Silva, que, registre-se, esteve longe de comprometer e quase marcou o seu de fora da área. Claramente, porém, o entrosamento é diferente.

Tomamos o gol muito cedo, aos 8 minutos, após tropeço na bola e descuido do setor defensivo, o que faria tudo ficar ainda mais difícil. Por curioso, foi quando passamos a jogar melhor, colocando a bola no chão, trocando passes e pressionando a defesa adversária. Algumas tentativas de ataque e uma sequência de escanteios foram premiadas com o gol de Vina, nos acréscimos. O empate que levamos para o intervalo permaneceu até o fim da partida, mesmo tendo jogado a maior parte do segundo tempo com um jogador a mais. O time da casa teve uma expulsão, justa expulsão, aos oito minutos do segundo tempo.

Se sobrou paciência em alguns momentos para fazer a bola rodar de lá para cá, faltou repertório e sintonia nos movimentos, especialmente no tempo complementar quando tivemos de encarar uma forte e bem ajeitada retranca. Suárez bem que se esforçou, saiu da área, deu passes preciosos, chutou a gol mas não conseguiu marcar o seu. Bitello e Cristaldo também apareceram com frequência dentro da área, sem sucesso. 

Ao fim e ao cabo, levamos a decisão para a Arena, onde temos 100% de aproveitamento nesta temporada, com arquibancada cheia, sem alambrado e, espero, nenhuma dentadura solta no gramado — a não ser a de Luis Suárez.

O Grêmio está um jogo do Hexa! 

Avalanche Tricolor: e por falar em saudade!

Ypiranga 1×2 Grêmio

Gaúcho – Colosso da Lagoa, Erechim RS 

Homenagem a Lucas Leiva na camisa do Grêmio Foto LucasUebel/GrêmioFBPA

Saudade é sentimento complexo e contraditório, pois pode ser ao mesmo tempo doloroso e reconfortante, triste e bonito, nostálgico e esperançoso. Sente-se por algo ou alguém que está ausente, distante ou que não pode ser alcançado novamente. Lembro dela tomando meu coração nos primeiros meses de vida em São Paulo quando, em 1991, deixei para trás família, amigos e Porto Alegre. Havia semanas mais difíceis do que outras, especialmente quando a messe era pesada por aqui. Era como se a insegurança se torna-se solo fértil para a nostalgia, quase um desejo de voltar ao passado. Superei e hoje já moro há mais tempo em terras paulistanas do que morei na minha cidade natal.

O Grêmio é das coisas que trouxe comigo no coração — e isso qualquer um dos raros e caros leitores desta Avalanche sabem. Dele não tenho saudades porque está onipresente na minha vida. Não há um cenário que eu ocupe em que o tricolor gaúcho não seja citado. É minha referência. E neste domingo não havia outro programa a fazer a não ser sentar-me diante da televisão e assistir ao jogo disputado em Erechim, pela semifinal do Campeonato Gaúcho.

Entramos em campo com uma sequência rara de partidas invictas que começou ainda no fim do ano passado. Vinte jogos sem nenhuma derrota só havia acontecido uma vez nessas duas décadas do século 21. Portanto, a confiança tomava conta dos gremistas, mesmo tendo de enfrentar o adversário em sua casa e pisando em um gramado de baixa qualidade. A jogada que culminou no gol de Luis Suárez foi belíssima pelo talento demonstrado na troca de passes e no chute certeiro de nosso atacante. Era o prêmio para o time que até então tinha a supremacia técnica e tática na partida. E desenhava uma trajetória tranquila para mais uma final de campeonato.

Infelizmente, porém, o Grêmio não soube expressar essa superioridade em gols. Perdeu pênalti e perdeu oportunidades claras, no primeiro tempo. Para depois perder o ímpeto, perder a organização, perder na marcação, perder no tempo de bola, perder qualidade e se perder no jogo. Para quem estava tão bem acostumado com vitórias, haveria outras perdas a lamentar: jogadores lesionados e o capitão Kannemann expulso — sem contar aqueles que servirão suas seleções enquanto estivermos decidindo a vaga à final, no próximo fim de semana. Em especial no segundo tempo, o Grêmio fez uma apresentação que lembrou os times de 2021 e 2022. E desses times não tenho nenhuma saudade.

Em tempo: em uma tarde em que tudo deu errado, não quero esquecer de registrar a bela homenagem que o time fez a Lucas Leiva que anunciou a aposentadoria do futebol devido a um problema no coração, nesta semana. Todos os jogadores entraram em campo com o nome do nosso meio campo nas costas. E Suàrez ainda escreveu na camiseta que vestia embaixo da principal: “Lucas, o nosso coração está contigo, estamos juntos”. Lucas Leiva, este sim, deixará saudade!

Avalanche Tricolor: invicto, classificado e cada vez melhor

Grêmio 3×0 Ferroviário CE

Copa do Brasil – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Bruno Alves comemora o primeiro gol da vitória gremista

Foram três gols e poderiam ter sido muitos outros. O volume de jogo foi intenso do início ao fim da partida com sequências de jogadas de ataque, trocas de passes rápidas, deslocamento de jogadores e chegadas fortes na área. Uma partida gostosa de assistir na noite desta quinta-feira pela segunda fase da Copa do Brasil. Só não foi mais agradável porque desperdiçou-se muitas finalizações — inclusive um pênalti — e oportunidades demais foram oferecidas ao adversário. 

Das muitas boas noticias, começo por Cristaldo, meia que se destaca pelas assistências que colocam seus companheiros em condições de gol. Já nos acréscimos do primeiro tempo, foi dele a cobrança de falta, sutil e bem colocada, que permitiu Bruno Alves marcar de cabeça. Dos pés do argentino também partiu o chute forte que fez o goleiro oferecer rebote para Ferreirinha estufar a rede, no segundo tempo.

Pepê, Vina e Bitello completaram o meio de campo com vitalidade e qualidade no passe — um fundamento que vem sendo aprimorado pelo time desde o início desta temporada. A própria movimentação com Luis Suárez está mais bem sintonizada. É evidente a evolução no entrosamento dele com os demais colegas de equipe. 

Hoje, Luisito sofreu seu primeiro revés, desde que chegou ao Grêmio, ao ter sua cobrança de pênalti defendida pelo goleiro adversário. Como experiência e resiliência não faltam ao nosso atacante, insistiu de um lado, tabelou pelo outro e chutou a gol o quanto pode. Seu esforço foi premiado no segundo tempo quando aproveitou o vacilo de um dos defensores, driblou seu marcador e colocou a bola distante do goleiro.

A partida que nos levou à terceira fase da Copa do Brasil foi importante, também, porque sinalizou que temos a cada jogo um time mais bem entrosado e demonstrando características que nos permitem sonhar com um desempenho ainda melhor a medida que a temporada coloque no nosso caminho equipes mais fortes. Até aqui, o Grêmio foi superior a todos os seus adversários e se mantém invicto no ano.

Avalanche Tricolor: ainda bem que tinha o Coldplay na preliminar

Ypiranga 0x0 Grêmio

Gaúcho – Colosso da Lagoa, Erechim, RS

Foto:  Liamara Polli/GREMIO FBPA

Aqui perto de casa, onde moro desde 1993, começará daqui a pouco mais uma das seis apresentações que a banda britânica de rock Coldplay programou para São Paulo. A turma comandada pelo vocalista e pianista Chris Martin, depois do espetáculo que fez no Rock In Rio 2022, volta ao Brasil para repetir a fórmula que a transformou em um fenômeno de público por onde passa. Acabaram-se os ingressos para os shows no estádio do Morumbi assim como para Curitiba e Rio, onde encerrará a turnê brasileira. Um sucesso!

Após ter sido conquistado pelo desempenho de Chris no palco e pela performance digital que a produção preparou para “Music of the Spheres” — nome que marca o giro que a banda está dando no mundo —, assisti à apresentação que fizeram no Chile, em vídeo disponível no YouTube, na tarde deste sábado, à espera da partida do Grêmio, pelo Campeonato Gaúcho.

Os caras são incríveis — os do Coldplay, é claro! Ao lado de Chris, Jonny Buckland, Guy Berryman e Will Champion criam uma conexão com o público absurda. Exploram as possibilidades que a tecnologia oferece para engajar o público, tornando-o parte do espetáculo. Dá gosto de assisti-los. E eu já estou arrependido de não ter feito o mínimo de esforço para comprar ingresso para um dia que seja das apresentações aqui na cidade. Vou ter de me contentar com o”Ooh, ooh, ooh, ooh” de Viva La Vida ecoando na janela de casa.

Sem o prazer que o Coldplay poderia me proporcionar, restou-me assistir ao Grêmio, neste sábado. Fomos com o time reserva para uma partida que nada mais valia para a competição, a não ser manter a invencibilidade no campeonato, o que, convenhamos, só valerá mesmo se conquistarmos o título. Campeão invicto é título que soa bem. 

O futebol jogado foi a altura da importância da partida – se é que você me entende. Pouco acima apenas da qualidade do gramado do Colosso da Lagoa, o terceiro maior estádio do Rio Grande do Sul, construído sob o patrocínio do ditador gaúcho Emílio Garrastazu Médici e inaugurado em 1970. 

De tão maltratada, a bola negou-se a estufar a rede e serviu apenas para destacar as qualidades do goleiro gremista Brenno que perdeu, recentemente, a posição de titular para Andrey. Por curioso que pareça, Breno — com um ene só — era o nome do goleiro do Grêmio que enfrentou e foi derrotado pelo Santos de Pelé, no festival de abertura do estádio.

Outro nome que chamou atenção em meio a mediocridade da partida foi Zinho, um guri da base que entrou no segundo tempo para jogar pelo lado esquerdo. Foi atrevido, arriscou dribles, enfrentou os marcadores e foi autor do único, isso mesmo que você leu, o único chute no gol do adversário.

Nem dá para dizer que  o time frustrou as expectativas a medida que estas estavam ausentes diante da proposta gremista de apenas cumprir a tabela, já que a classificação em primeiro lugar havia sido garantida há algumas rodadas. Porém, é preciso que os “donos”do futebol pensem um pouco mais sobre o que têm a oferecer para o seu cliente, os torcedores. Quem foi ao Colosso neste sábado deve ter voltado para a casa com a certeza de que perdeu dinheiro. Pagou por um espetáculo que não foi entregue.

O futebol brasileiro ainda tem muito a aprender com os espetáculos que se realizam pelo mundo,  seja nas atividades esportivas seja nas musicais. Precisa entregar ao torcedor um mínimo de qualidade nem que seja do palco em que o espetáculo vai ser apresentado. Manter um estádio para mais de 20 mil pessoas e com um gramado em péssimo estado é um desperdício e um desrespeito ao torcedor e aos profissionais que se apresentarão. 

Avalanche Tricolor: valia um Gre-Nal e nós vencemos!

Grêmio 2×1 Inter

Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Vina comemora o primeiro gol em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Quiseram saber o que eu fazia domingo à noite. Neste domingo à noite. Respondi que assistia ao Gre-Nal. Tá valendo título? Foi a pergunta seguinte. Tá valendo Gre-Nal, meu amigo! E se você não sabe o que isso significa, talvez nunca saberá, porque você nunca viveu as emoções que me marcaram desde o começo da vida — ao menos desde que me conheço por gente na vida, que se iniciou lá no Rio Grande do Sul, na vizinhança do velho Olímpico Monumental.

O Grêmio entrou em campo com seis pontos à frente do seu adversário, e o primeiro lugar e a classificação à semifinal garantidos. Houve até quem acreditasse na escalação de um time reserva. Jamais me passou pela cabeça essa possibilidade. Esse seria o primeiro Gre-Nal desde a volta à primeira divisão, disputado com a Arena praticamente lotada, tendo Luis Suárez no comando do ataque e jogado praticamente um ano após o último clássico. Ninguém queria perder! Porque estava em jogo um Gre-Nal.

Vencer o clássico arruma a casa, salva emprego de técnico e dá novos rumos à temporada — não que o Grêmio estivesse precisando disso, após a excelente campanha invicta que faz até aqui no Campeonato Gaúcho. Mas seu efeito no destino de um time e de seus jogadores pode ser devastador. Você já pensou o que aconteceria com Thiago Santos e Thaciano que mal tinham entrado em campo quando o Grêmio levou o gol de empate? Tem ideia do que será a semana para Mano Menezes e seus comandados?

Mais do que os efeitos sobre o time, a vitória no Gre-Nal tem um poder extraordinário no ânimo do torcedor. Só você, amigo que queria saber o que estava em jogo na partida deste domingo à noite, não tem ideia do que significará a segunda-feira na vida dos gremistas. E o terror que será sair da cama para os colorados. A gente acorda feliz e, obrigatoriamente, veste a Tricolor. Amanhã seremos muitos também vestindo a Celeste que ganhou destaque na nossa coleção desde a chegada de Luisito. 

A camiseta do time é roupa de gala no dia seguinte à vitória no Gre-Nal. Desfila-se pelas ruas de Porto Alegre com o peito cheio. Olhar confiante. Passada firme. E aquele sorrisinho maroto de quem espera o amigo que torce para o adversário chegar na padaria. O amigo costuma não aparecer nesses dias. Inventa uma desculpa. Diz que vai chegar atrasado. Se estiver a seu alcance providencia um atestado. Diagnóstico: Gre-Nal 438 – sim o clássico gaúcho é tão importante que nós numeramos um por um desde o primeiro, aquele que ganhamos por 10 a 0. Vai dizer que você não sabe disso, amigo?!?

O Gre-Nal deste domingo começou com o Grêmio jogando um bolão. Tava bonito de ver a troca de passes. A movimentação de seus jogadores. Nem mesmo a saída de Villasanti por lesão ainda no primeiro tempo, impediu o bom futebol que nos colocou na cara do gol ao menos duas vezes. Ambas desperdiçadas por Bitello. Logo ele que tem se consagrado em gols neste campeonato.

Foi em uma dessas trocas de passes com qualidade que Vina — já nos acréscimos do primeiro tempo — bateu firme e bateu forte para às redes fazendo justiça a quem era superior em campo. O empate veio no pior momento da partida, pois acabávamos de fazer aquelas substituições para deixar o time mais consistente — o que no nosso caso era sinal de um time menos talentoso. 

Foi novamente nos acréscimos, do segundo tempo, que o Grêmio arrancou a vitória, após boa jogada de João Pedro, que entrara no lugar de Fabio, na lateral direita, que passou para Carballo completar nas redes.  O uruguaio — ainda jovem — havia substituído Villasanti lá no primeiro tempo e fez uma excelente partida que culminou com o gol no Gre-Nal.

Luisito ao fim do jogo foi perguntado pela jornalista sobre o fato dele não ter marcado gol no clássico. Nosso atacante respondeu quase do mesmo jeito que respondi ao meu amigo que conversava comigo assim que a partida tinha começado: ‘importante era ganhar. Não importa quem fez os gols. Clássico se vence, não importa como’. Luis Suárez está há pouco tempo no Rio Grande do Sul mas sabe muito bem o que vale vencer um clássico. Vale muito! Nesse caso, vale um Gre-Nal! E nós vencemos.