Ferreirinha ajeita o copo para marcar o segundo gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
Um gol no primeiro tempo, um no segundo e a classificação à próxima fase da Copa do Brasil foi conquistada com a tranquilidade que esperávamos, considerando o adversário e os devidos cuidados a serem adotados para a sequência da temporada. De minha parte não havia nenhuma expectativa de goleada, como imaginavam os mais deslumbrados torcedores. Diante do que sofremos no ano passado, me bastava a passagem à segunda fase.
De verdade, para meus desejos se completarem faltou apenas o gol de Luis Suárez. Sim, porque hoje, para mim e imagino para um número considerável de gremistas, vamos a campo sempre a espera da vitória do Grêmio e do gol de nosso atacante. Queremos a alegria de vê-lo balançar as redes.
Nesta noite de quarta, Suárez não marcou, mas se fez necessário no gramado do Mané Garrincha. Sem contar a forma como se entrega e luta insistentemente para alcançar o gol, naturalmente ele chama atenção dos zagueiros, o que abre espaço para os companheiros que se aproximam da área.
Bom exemplo da importância da presença dele foi como abrimos o placar com quase meia hora de jogo. Suárez recebeu a bola de Cristaldo, foi seguido por dois marcadores e de calcanhar devolveu para o argentino, que estava livre para marcar. Poderia ter tentando o gol por conta própria, afinal é o centroavante de ofício. Mas atua com inteligência e tem uma capacidade acima da média para enxergar as jogadas.
O segundo gol veio quando a partida estava chegando ao fim e foi mérito de Ferreirinha. Nosso atacante pela esquerda se deslocou para receber na entrada da área, dominou a bola, driblou o marcador e colocou no canto do goleiro adversário. Um gol para dar confiança ao ponteiro que está retornando ao time após uma lesão no início deste ano.
O Grêmio fez o necessário e o que se esperava dele nesta etapa da competição. Que siga cumprindo o seu papel até alcançar os hexas que têm para conquistar neste ano: o da Copa do Brasil e o do Campeonato Gaúcho.
Juro que não foi proposital. Foi ocasional. Estou longe desta Avalanche há quatro jogos — coisa tão rara quanto os leitores dessa coluna — por uma série de fatores extra-campo. Férias, lançamento de livro e compromisso inadiável com amigos coincidiram com as últimas partidas disputadas pelo Grêmio. Nessa sexta, que era para ter sido sábado, tudo conspirou a favor e me permitiu voltar a assistir aos nossos jogos. E que jogo, amigos!
Desde os dois minutos, o Grêmio apresentava suas credenciais. Com jogada veloz, passes rápidos, cruzamento na área e Vina chegando forte para marcar, fizemos o primeiro de seis gols. Em sete minutos já estava três a zero fora o show. Tive até a felicidade de comemorar um gol de Kannemann, zagueiro que poucas vezes balançou a rede, mas merecia essa alegria por tudo que representa na história gremista. O quarto e o quinto vieram antes do encerramento do primeiro tempo.
Há muito não assistia a um jogo do Grêmio com tamanha tranquilidade e diante de futebol tão vistoso. O gol de Bitello, o terceiro gol gremista, resume bem o que foi esse jogo e o nosso desempenho de luxo. Foram seis toques na bola em uma jogada que se iniciou com Reinaldo passou por Bitello, Carballo, Suarez e de novo Bitello. Quase tudo de primeira, com muita movimentação e a conclusão precisa daquele que foi o melhor jogador dessa partida.
Por curioso que seja, mesmo com os cinco gols e a classificação em primeiro lugar garantida com antecedência, os torcedores gremistas ainda estavam a espera de um último presente para a sexta-feira ser completa: o gol de Suarez. Ultimamente tem sido assim. Não basta vencer, queremos gol de Suarez, também! E ele estufou a rede, aos 38 minutos, batendo de primeira uma bola cruzada rasteira dentro da área.
Com um ótimo futebol às vésperas das duas mais importantes partidas até aqui disputadas na temporada — estreia na Copa do Brasil e o clássico Gre-nal —, o Grêmio sextou!
Suárez cercado pelos marcadores em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Um jogo inteiro jogado se fez necessário para que os quase 30 mil torcedores que foram à Arena, no fim da noite de quarta-feira, tivessem a oportunidade de explodir em festa com o gol de Luis Suárez. Até aquele instante de felicidade, assistíamos à uma partida truncada, catimbada e violenta. Enquanto o adversário tinha como única intenção impedir que o futebol se realizasse, o Grêmio tentava, com paciência e pouco repertório, impor a sua superioridade.
Ao longo dos 90 minutos —- usar o tempo de jogo é apenas força do hábito, porque com tantas paralisações, sequer os 12 minutos de acréscimo no segundo tempo devem ter sido suficientes para completar a hora e meia regulamentar —-, o Grêmio era mais esforço do que entrosamento, o que se justifica diante da necessidade de o técnico reconstruir a equipe. Nem todo o esforço, porém, tornava o gol mais próximo.
Aos torcedores restava-nos, mais uma vez, esperar pela bola fatal, aquela que seria entregue a Suárez para que ele resolvesse, como já havia feito no fim de semana, em Caxias do Sul. Mas como fazer a bola chegar até ele, se o atacante uruguaio estava cercado por marcadores? Tentou-se de diversas formas e sem muito sucesso.
Às vezes, Suárez deixava a área em busca dos companheiros, mas por enquanto, ele dança milonga e os colegas vanerão. Os passos não estão suficientemente coordenados. A tabela não sai com a precisão que a retranca adversária exige. Restava ao atacante lamentar a falta de entrosamento. Para ter ideia da dificuldade gremista de chegar ao gol, até o gol propriamente feito, Kannemann era quem mais havia finalizado, graças a cabeceios sem muita direção, em lances de escanteio.
O primeiro tempo já havia ido embora —- em meio a um entrevero envolvendo Suárez e Piton, o goleiro adversário —, e o segundo recém estava de volta, quando uma falta dura ainda na nossa defesa, resultou em cartão vermelho e expulsão, deixando o Grêmio com vantagem numérica em campo. Nem isso foi suficiente para mudar a cara da partida.
Das muitas tentativas de trocas na equipe — as cinco substituições foram feitas —, a presença do estreante argentino Franco Cristaldo foi a que mais fez diferença, dando um outro ritmo para o nosso ataque. O meio de campo ganhou talento, o passe melhorou e a velocidade aumentou. Mas nada de o gol sair.
Nas arquibancadas, o incômodo se expressava em reclamações e vaias ensaiadas contra um ou outro jogador. A maioria de nós, porém, ainda estávamos a espera do lance genial. O problema é que o cronômetro seguia correndo contra nossas pretensões e o jogo parando diante da nossa indignação. Temíamos que o prazo de validade de Suárez fosse expirar antes do fim.
Com as dificuldades impostas, o atacante que demonstra um comprometimento contagiante com o time, desta vez, seria mantido até o apito final. E com isso nossa esperança se estendia mesmo com a partida quase se encerrando.
Os acréscimos começariam a ser contados no relógio do árbitro quando Bruno Alves, nosso zagueiro, fazendo às vezes de meio-campo, lançou para Ferreirinha que entrava pelo lado esquerdo da área. O ponteiro foi um dos jogadores mais acionados na partida e quase havia marcado um gol um pouco antes. Desta vez, em lugar de chutar direto, depois de vencer com velocidade o marcador, passou para Suárez.
O tempo, então, parou!
E fomos recompensados àquela hora da noite. Tivemos o privilégio de apreciar o que estaria por vir. O que aconteceu naquele pequeno espaço de grama, dentro da pequena área adversária, com marcadores por todos os lados e o goleiro quase aos pés de Suárez, foi esplêndido. Ele dominou a bola e tabelou com ele próprio, trocando a bola de pés, duas vezes, e impedindo com o corpo o assédio dos adversários. Com uma barreira de homens à sua frente, ele recorreu ao bico da chuteira para elevar a bola o mínimo possível para escapar das mãos do goleiro, o máximo necessário para não se chocar contra o travessão.
O estufar da rede acionou o botão euforia na Arena — aqui onde eu estava, também — e ofereceu aos torcedores o prazer que somente os craques são capazes de saciar. Uma alegria muito além da importância do jogo, do resultado e da competição. Que se expressava como êxtase pela presença de um dos gigantes do futebol mundial que agora é o dono da camisa 9 do Grêmio.
Adjetivos não faltariam para definir o que representa Suárez para os gremistas. Poderíamos explorar as hipérboles da língua portuguesa para descrever o sentimento de assistir à Suárez em campo. Quis, porém, a ironia que o destino oferecesse a uma das vítimas do atacante e protagonista do antijogo que imperava na Arena a oportunidade de melhor descrever, naquele instante, o fenômeno Suárez: : “o bicho é bom mesmo!”, disse o goleiro Marcelo Pitol, do Brasil de Pelotas.
Suárez comemora um dos três gols marcados, em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA
Um toque por cobertura, um tapa pelo lado e uma chapada com força para a bola estufar a rede. Em três lances, três gols! Em 37 minutos, Luis Suárez já havia feito sua melhor estreia da longa carreira dedicada ao futebol e havia entregado tudo o que o torcedor gremista poderia esperar para começar esta nova etapa em sua jornada esportiva.
A ansiedade pela estreia da maior contratação já feita pelo Grêmio em sua história estava por todo o canto, das esquinas de Porto Alegre às entranhas das redes sociais. As arquibancadas pulsavam desde cedo, antes mesmo de os portões da Arena se abrirem. Havia uma inquietude! Um desejo de definitivamente virar a página desconfortável dos dois últimos anos. Não esquecer essa página, porque é preciso lembrar-se da dura lição sofrida para que os erros não se repitam, mas olhar para a frente, se dar o direito à alegria.
Suárez personifica esse novo momento. Por isso, a comoção provocada pelo anúncio das negociações com o craque uruguaio. Por isso aquela multidão no aeroporto a espera do quinto maior goleador do mundo, na apresentação na Arena e nesta noite de estreia, quando mais de 49 mil torcedores foram assistir à final da Recopa Gaúcha.
A camisa 9 com o nome de Suárez às costas representa muito mais do que se possa imaginar. Sim, o nome do Grêmio ganha destaque no exterior, aumenta o número de sócios e crescem as vendas de material esportivo. Sim, os adversário têm a quem temer sempre que alçarmos a bola em direção ao ataque e nós temos a certeza de que haverá alguém lá na frente com categoria suficiente para concluir às redes.
Suárez no Grêmio é mais do que marketing ou, até mesmo, mais do que futebol. Neste momento, é a retomada do prazer que sentimos diante de uma paixão. É a esperança rediviva. É o renascimento da nossa crença. E, em particular, é a minha oportunidade de recuperar a ilusão e alegria daquele menino que aprendeu a gostar do Grêmio quando sequer nossa imortalidade havia sido testada.
Pelé no estádio Olímpico Foto publicada pelo perfil @Gremio no Instagram
A morte de Edson Arantes do Nascimento, aos 82 anos, nos traz à memória as incríveis histórias protagonizadas pelo Rei do Futebol. Todos lembramos dos grandes feitos do maior jogador do planeta terra — os recordes, os títulos, os dribles, o gol perdido, o gol 1.000, a guerra que parou ou os países e autoridades que o enalteceram. Cada um de nós, seus súditos, sem medo do sacrilégio cometido, também procuramos referências que nos aproximem dele: o jogo que assisti ao vivo, o dia em que o vi no Maracanã, a transmissão que ouvi no radinho portátil, a imagem que eternizei armazenando-a no arquivo do computador ou a réplica da camisa 10. Sim, somos tentados a produzir uma espécie de “eubituário”, em que nos colocamos ao lado da morto ilustre.
Nessa linha, poderia contar aqui o dia em que assisti a Pelé jogar no estádio Olímpico, em Porto Alegre, em 1974, em partida válida pelo Campeonato Brasileiro do ano anterior, em que o Grêmio venceu por 1 a 0. Meu pai me levou pela mão e mesmo tendo apenas 10 anos sou capaz de lembrar o local do estádio em que tive o privilégio de ver Pelé desfilando: as sociais do velho Olímpico, abaixo do reservado para as cadeiras cativas. Cinco anos antes foi o pai quem vivenciou o histórico gol 1.000, narrado por ele de uma cadeira de madeira colocada ao lado do gramado do Maracanã, pois não havia mais espaço nas cabines de rádio.
Fugirei dessa armadilha — mesmo que, no parágrafo acima, tenha ensaiado algumas linhas nesse sentido. Prefiro lembrar de um trecho da entrevista que o jornalista Luiz Zini Pires fez com Pelé, para o jornal Zero Hora, publicada em novembro de 2014. O rei confidenciou que quase jogou no Grêmio.
Quando estava no início da carreira, o Santos costumava emprestar seus jogadores mais jovens para que ganhassem experiência. O time paulista esteve em excursão no Sul, jogou em Pelotas e Rio Grande, no interior gaúcho, e foi consultado se alguns dos garotos poderiam ficar. Pelé era um deles.
“Quase que eu reinicio minha carreira no Grêmio”, disse ao repórter. Tivesse um cartola santista aceitado a proposta, naquela época, haveria a chance de Pelé ter se imortalizado no cenário futebolístico com a camisa do Grêmio e, provavelmente, nossas conquistas nacionais e projeção mundial teriam chegado mais cedo. Por outro lado, a facilidade com que alcançaríamos nossas façanhas impediria que forjássemos a nossa imortalidade. O destino quis que cada um construísse sua própria história.
Enquanto escrevia este texto, o perfil do Grêmio no Instagram, publicou trecho da entrevista em que Pelé confirma a história de que quase foi jogador do Grêmio:
Brasileiro B (pela última vez) – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS
Gabriel Santos, esperança para 2023
Eu merecia! Você merecia! Um jogo tranquilo, sem compromisso. Com jogadores soltos em campo, trocando passe sem medo do erro. Movimentando-se com leveza e destreza. Arriscando chutes de fora da área e tabelando na cara do gol. Com liberdade para criar e se movimentar. Assim foi a partida de despedida do Grêmio na Série B diante de sua torcida, na noite desta quinta-feira.
O primeiro a brilhar foi Guilherme que marcou um golaço ao se livrar do marcador e bater forte e bem colocado — o primeiro dele desde que vestiu a camisa tricolor. Depois, foi a vez de Gabriel Silva, com seu bigode de pós-adolescente e cabelo cortado à moda antiga, que está apenas desabrochando no futebol. Marcou duas vezes — o segundo gol mais lindo do que o primeiro.
Lá atrás, Adriel, com corpo esguio e movimentos seguros, pouco foi exigido, mas se fez presente quando requisitado. Mesmo que do goleiro se espere defesas precisas e bom posicionamento, confesso a você que me chamou atenção a forma como lança a bola com os pés e a intervenção que fez de cabeça em uma das poucas tentativas de contra-ataque do adversário. São sinais de um talento cada vez mais exigido à posição.
Na defesa, Bruno Alves apenas confirmou ter sido das boas contratações para a temporada, enquanto Kannemann, com todas as dificuldades físicas que encarou, tem de ter seu contrato renovado o mais rapidamente possível. Time que se preza não pode abrir mão de uma liderança como ele. Leonardo Gomes é outro nome que apareceu na reta final e precisa ser mantido na lateral direita.
No meio de campo, Villasanti é imprescindível; Lucas Leiva, necessário; e Bitello, uma revelação — foi nosso maior destaque no ano e fará diferença na Série A.
Fora do jogo, vi Diego Souza, nome mais importante de nosso ataque, que estava no camarote comendo pipoca, na tranquilidade de quem sabe que fez o que precisava para nos devolver à Primeira Divisão. Se permanecer no elenco será jogador importante pelo que representa ao grupo, apesar de não ter capacidade de ficar em campo por muito tempo.
Não vi Geromel, mas soube que treinou durante a semana, mesmo que tenha sido poupado depois da conquista alcançada. Hoje à noite, senti falta de uma homenagem ao capitão. Ele merecia essa menção, pois foi irretocável em todos os jogos que participou. O Grêmio lhe deve muito.
Tem ainda Biel e Ferreirinha, ambos em recuperação, que têm velocidade e podem dar ritmo ao time, em um esquema mais ajustado e num esquema mais bem treinado. Tem também Campaz — se o cito é porque ninguém pode ter custado tanto sem nunca nos oferecer muito. Quem sabe ano que vem não seja o ano em que seu futebol vai esplandecer.
O Grêmio precisará ir além para se fazer relevante nas competições que disputará em 2023. Por enquanto, vale o fato de termos nos credenciado a voltar para a elite do futebol brasileiro com duas rodadas de antecedência. Que a nova direção saiba fazer do Tricolor um grande time e nunca, nunca mais nos faça passar o que passamos neste ano.
Eu mereço! Você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, merece! Um time melhor. E um Governo muito melhor para 2023.
O abraço da vitória em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Greg,
Você e eu sabemos que o domingo foi estranho. E estamos cientes de que o próximo talvez seja ainda mais. As coisas que vêm acontecendo na política assustam e preocupam. Não estão do jeito que a gente gostaria. Acompanho de perto suas preocupações. Justificáveis, diante do País que você sonha viver: igualitário, justo e generoso — como você.
A despeito dos acontecimentos e dos sentimentos que afloram, hoje também era um dia de remexer na nossa memória afetiva. Retomar as emoções que vivenciamos há 17 anos, quando você e o Lo eram guris de calça curta e cabelo comprido. Mal sabiam ainda o que levava o pai a sofrer desesperadamente diante da televisão que transmitia um jogo de futebol. Entraram no quarto, onde eu assistia ao despedaçar do meu time na Segunda Divisão, para entender meus lamentos. Logo se uniram a mim, me abraçaram e assim ficamos até o instante final quando vencemos o que ficou conhecido por “Batalha dos Aflitos”. O pai chorou e vocês, constrangidos com a cena, foram solidários.
Foi lá que vocês foram forjados gremistas, mesmo que você tenha vestido uma camisa tricolor ainda nos tempos em que dormia em um berço, quando fomos campeões brasileiros, em 1996, o ano que você nasceu. Foi lá que você entendeu que aquele time tinha uma importância para o seu pai que se sobrepunha à razão. E nunca mais me deixou só nesse sofrimento.
Comemoramos títulos, vibramos com os gols, reclamamos dos jogos mal jogados e dos reveses nas nossas jornadas esportivas. Nos divertimos na final do Mundial e curtimos juntos a alegria dos torcedores pelas grandes vias e locais turísticos de Abu Dhabi. Ano passado, foi você quem me confortou na inevitável caminhada à Série B. E me ensinou que, independentemente da competição que estivéssemos disputando, seguiríamos vibrando com gols e lamentando as derrotas. Ou seja, nada nos faria deixar de ser gremista.
Neste ano, foi você quem esteve ao meu lado partida após partida. Ajudou-me a suportar o futebol enfadonho, encontrou consolo nos pontos perdidos fora de casa e na sequência de empates que nos impedia de acelerar a ascensão. Foi você quem me fez mais feliz a cada gol que comemorou comigo.
Neste domingo, não seria diferente. Sem ser indiferente a importância e a gravidade do que acontece no Brasil, lá estava você sentado comigo diante da televisão para assistirmos ao Grêmio contra o mesmo adversário e no mesmo estádio de 2005. As circunstâncias eram outras, é claro. Não era vida ou morte. Não havia arquibancada lotada. Nem o oponente tinha mais qualquer chance de se manter na competição. Mas a memória estava fervilhante e a ansiedade era enorme. Confirmar a passagem à Série A com duas rodadas de antecedência era o mínimo que merecíamos depois desta temporada ingrata de 2022.
A partida se fez fácil mesmo com o futebol difícil que jogamos. Quis o destino que a revelação do ano se sobressaísse aos seus: Bitello fez dois gols e renovou a esperança de que em 2023 vai brilhar no meio de campo gremista. Lucas Leiva, o volante cabeludo da “Batalha dos Aflitos”, que voltou da Europa para fazer parte desta campanha, agora jogando mais à frente, também marcou o seu para tornar ainda mais completa essa sua história com o Grêmio.
Foi o segundo gol, o de Lucas Leiva, que me fez acreditar que nada mais nos impediria de subir. Foi a cena dele abraçado, em comemoração, a Geromel —- ninguém mais merecia esse retorno do que nosso capitão —- e a Diego Souza —- minha reverência a nosso goleador —, três ‘veteranos’, que me fez cair em emoção.
O desejo era de virar criança mais uma vez, correr para abraçar o pai e ser abraçado por ele. O pai não está mais entre nós. Contive-me! Ou quase! Os olhos marejaram, a lágrima escapou e escorregou pelo rosto, sem que eu conseguisse esconder a vergonha daquele sentimento. Você, cúmplice, me poupou. Compartilhou sua alegria. E foi parceiro como sempre!
Ao seu lado, estamos de volta à Série A! E por ter sido ao seu lado, essa caminhada foi bem menos árdua do que poderia ter sido diante da conjuntura que enfrentamos — no futebol e no País.
Thiago Santos comemora gol em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
“É ruim contra ruim” disse o filósofo esportivo das redes sociais, Casimiro, há algumas rodadas, após assistir ao time de coração dele perder para o meu time de coração. Do seu jeito, eloquente e hiperbólico, que conquistou o Brasil — e meus guris aqui em casa —- definiu bem a “Maior Série B de Todos os Tempos” — foi esse o título que o pessoal do marketing batizou a competição que reúne seis ex-campeões brasileiros e põe em jogo quatro vagas de acesso à primeira divisão. Esqueceu de combinar com os times.
Dentre a criatividade dos publicitários e a fala crua do comentarista, fico com esse último. É a realidade de um campeonato em que ver seu time jogar fora de casa tem se transformando em um martírio. Com a exceção de praxe que toda regra nos impõe, os clubes de melhor desempenho não têm muito mais do que 50% de aproveitamento como visitante. Uma performance mediana, sinônimo de medíocre. Por isso, garantir os três pontos em casa faz diferença na competição.
O Grêmio perdeu dois pontos hoje à tarde, depois de um primeiro tempo em que jogou melhor e desperdiçou seus ataques. Foi punido com um gol nos acréscimos, no único lance em que o adversário impôs perigo. No segundo tempo, foi um deus-nos-acuda: o Grêmio subia de maneira desorganizada, tomava decisões erradas e sequer conseguia desperdiçar gols, pois não era capaz de proporcionar perigo dentro da área adversária.
No raro momento em que fizemos uma jogada de linha de fundo, Guilherme, que entrou no intervalo e não precisou de cinco minutos com a bola nos pés para ser vaiado pelo torcedor, fez um cruzamento preciso para Thiago Santos concluir de cabeça. Nosso volante, outro que havia entrado no intervalo para desespero de parcela da torcida, que até hoje o vê como símbolo do rebaixamento (em tempo: há gente muito mais culpada pelo que aconteceu com o Grêmio), estava predestinado a marcar. Momentos antes havia concluído para as redes, em um gol anulado devido a um impedimento na origem da jogada. E não teve mais uma chance, naquele que poderia ter sido o gol da virada, porque Diego Souza se precipitou sobre ele na conclusão de um lance de área, nos acréscimos.
O resultado final só não foi lamentado porque a combinação da rodada conspirou a favor, com o empate entre os outros dois times que buscam à classificação —- um deles, o de Casimiro —, em jogo, aliás, que não se encerrou devido a violência de torcedores e a invasão de campo. Cenas de entristecer e desmerecer o título que os marqueteiros deram ao Brasileiro B.
A três rodadas do fim do Campeonato, o Grêmio está mais próximo do acesso. Nem tanto pelo que tem feito nessas últimas partidas. Muito mais pelo que seus adversários deixam de fazer. A preocupar, o fato de dois desses jogos serem fora de casa e o Grêmio terá de mudar a rotina da B fazendo ao menos três pontos no estádio adversário —- um deles o do Náutico, no Recife, domingo que vem, o mesmo cenário da Batalha dos Aflitos. Aflitos? Sim, aflitos é como estamos nós torcedores nesses momentos finais de uma disputa que, como diz o filósofo Casimiro, “é ruim contra ruim”.
Diego comemora mais um gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA
O Grêmio pode garantir passagem à Série A daqui uma semana, jogando diante da torcida, foi o que disseram os jornalistas esportivos durante a jornada desta tarde de sábado. Vai depender da combinação de resultados dos demais jogos e, claro, de uma vitória em casa na próxima rodada.
Não me esforcei a entender essa matemática porque precisa tirar pontos daqui, colocar outros ali e somar onde é possível chegar. Perda de tempo, agora. A ascensão está próxima quase que por inércia. Mesmo que a campanha seja de altos e baixos, de vitórias, de algumas derrotas e de muitos empates, os adversários colaboram em seus tropeços. Se não der domingo que vem, dará na sequência. Temos três rodadas para alguma coisa dar certo. Talvez até consigamos subir enfrentando o Náutico, no Recife — o que, convenhamos, não seria uma novidade.
Hoje, foi mais do mesmo. Um time de contradições. Quando esteve melhor, não conseguiu transformar a performance em gol. Quando o desempenho piorou, marcou. Contou com a presença dentro da área de Diego Souza, o atacante que ainda tem torcedor com coragem de reclamar. Subiu mais alto e de cabeça concluiu para as redes. Como sempre.
No segundo tempo, o técnico decidiu “fechar a casinha” — no meu tempo chamavam isso de retranca. E foi aí mesmo que a “casinha” se abriu. Escalou nove jogadores da intermediária para trás: um goleiro, dois zagueiros, três laterais e três volantes. Com tal congestionamento não é de se surpreender que uma bola haveria de resvalar na mão de alguém. Pênalti visto pelo olho eletrônico. E cobrado no meio do gol. Gol! Como sempre.
De diferente mesmo só o fato de ter sido o primeiro ponto conquistado fora de casa sob o comando do novo-velho treinador — até aqui, longe da Arena, só havia somado derrotas. A despeito de tudo isso, voltaremos à Primeira Divisão, como sempre!
Lucas Leiva comemora o gol em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Dois têm 37 anos. O terceiro, tem 35. Os três têm muita história boa para contar. Têm dores e sofrimentos para compartilhar, também. Enxergam o futebol como poucos jogadores o fazem dentro de campo. E exercem uma liderança difícil de ser medida para quem nunca viveu o cotidiano do vestiário de futebol, local em que dramas pessoais, fragilidades emocionais e disputas internas contaminam o ambiente. Situações que precisam ser atendidas na conversa ao pé de ouvido, no puxão de orelha diante dos colegas e, às vezes, em uma chacoalhada de ânimo, naquela corrente de abraços que mais parece curso de autoajuda.
Geromel e Diego Souza (os de 37) e Lucas Leiva (o de 35) são os personagens desta vitoriosa e otimista Avalanche, escrita com sentimento bem diferente daquele que ecoava no inquieto coração deste escrevinhador (que, apenas por curiosidade, tem 59 anos), na semana passada. Lá havia um misto de frustração, tristeza e desencanto com o que havia assistido e ouvido de alguns dos nossos. Que por serem nossos queremos que sejam perfeitos, quando sabemos que as pessoas, por seres humanos que são, não são assim: erram, se omitem, pecam, traem tanto quanto acertam, transformam, glorificam e vencem. Nós somos assim, eles são assim, eu sou assim —- muito mais talvez do que todos os outros.
Lucas Leiva, o mais novo dos veteranos, pediu para voltar. Queria encerrar carreira no time pelo qual é apaixonado. Os torcedores, mesmo escolados com a decepção proporcionada por outros que, recentemente, tomaram a mesma decisão, oferecemos a ele o benefício da dúvida. Teve dificuldade para se readaptar ao futebol (mal) jogado na Série B e aos desacertos de um time que até agora não entendeu o que está fazendo na segunda divisão. Foi reposicionado em campo e dá a impressão que se redescobriu mais à frente, onde mata suas sede e fome de gol. Marcou o primeiro de hoje, o segundo dele nas duas últimas partidas disputadas.
Diego, nosso goleador, soube-se agora, além de enfrentar a violência, a pressão dos zagueiros e o peso da idade, precisa superar a dor de uma hérnia inguinal que entra em campo com ele, acompanha-o em cada disputa de bola e torna os movimentos ainda mais difíceis. Hoje, mais uma vez, subiu ao lado dele, mais alto do que todos os marcadores para, de cabeça, definir a vitória. Se o número de gols somos capazes de registrar —- foram 13 apenas nesse campeonato —, incontáveis foram as vezes em que vimos nosso atacante orientando companheiros, sinalizando o melhor caminho a percorrer, mostrando qual o comportamento adotar diante dos diversos desafios que temos pela frente. Um líder na tabela de goleadores gremistas tanto quanto um líder à frente do grupo de jogadores.
Geromel foi pouco exigido na noite desta terça-feira quando demos mais um passo importantíssimo à Série A. Foi eficiente, como costuma ser, nas poucas vezes em que a bola rondou o espaço ocupado por ele. Mas é personagem, sim, desta Avalanche porque ninguém, nenhum outro jogador, veterano ou novato, se dedicou de forma tão séria à missão de elevar o Grêmio a seu patamar quanto nosso zagueiro, nesta temporada. Em campo, nunca deixa qualquer um que esteja vestindo nossa camisa esquecer o significado de vesti-la. É respeitoso com o adversário. Elegante no comportamento. Sério na execução de sua tarefa. Preciso, muito preciso nos movimentos que realiza.
Lucas, Diego e Geromel, veteranos que escolhi para serem personagens desta Avalanche, são, por merecimento, protagonistas da história do Grêmio. E da nossa ascensão que está cada vez mais consolidada.