Avalanche Tricolor: a tentação de uma crônica

Foto de Dominika Roseclay no Pexels

Toda vez que penso em escrever, me imagino cronista — autor desse estilo de escrita que nos aproxima do cotidiano, que surgiu com a intenção de oferecer um relato cronológico dos fatos. Ao longo do tempo mudou, sua intenção e formato. Ficou a ideia de textos inspirados nos acontecimentos diários, que tiveram seu auge nos anos 50 e 60, publicados nos jornais brasileiros, atiçando o interesse do leitor que via o comezinho do seu entorno ganhar contornos de literatura, tornando-se ele também personagem do fato. 

Imediatamente à imagem que surge no meu pensamento, sou instado a encarar a realidade e minha limitação. Logo lembro de história contada por um dos bons cronistas deste tempo —- que por privilégio da profissão, posso conversar toda sexta-feira, ao vivo, na rádio. Em um dos comentários, ainda na época do Liberdade de Expressão, Artur Xexeo contou que, ao ser chamado para o palco onde receberia um prêmio de melhor cronista, iniciou sua fala de agradecimento com um ato de humildade: “eu nunca me vi cronista ….”. O que levou um dos que se viam como tal que estavam lá para prestigiar o evento, cochichar em alto e bom som:  “e não é mesmo!”. 

Registre-se: a despeito da arrogância do colega de palco, Xexeo é sim um excelente cronista na palavra escrita e falada —- e para quem ainda tem dúvidas, ligue o rádio às sextas-feiras, sete e pouco da manhã, ou abra O Globo aos domingos. 

Se o Xexeo pode ser questionado pelos cronistas de plantão, imagine então o tamanho de meu atrevimento pensar em fazer crônicas toda vez que começo a escrever neste blog. Para evitar constrangimento ao Xexeo, ao Rubem Alves, a Martha Medeiros, o Otto Lara Resende, a Rachel de Queiroz, ao Zuenir Ventura —- todos integrantes de uma rica lista de cronistas brasileiros —- recolho-me a minha insignificância e decido, imediatamente após imaginar-me cronista, limitar-me a ser um blogueiro, seja lá que isso signifique para você.

Travestido de blogueiro, escrevo a Avalanche Tricolor, desde 2008 (se não me falha a memória), que alguns podem confundir com crônica esportiva, apesar da minha confessa parcialidade na escrita. Relato minha paixão pelo Grêmio e me esforço para tê-la como único foco, sem jamais atacar ou até mesmo citar o adversário —- convenhamos, para falar mal dos outros já existem outros. Tento encontrar em cada jogo jogado uma inspiração, e cumpri essa tarefa em momentos bem difíceis desta jornada esportiva. Neste espaço, falo com o caro e raro leitor —- cada vez mais caro e raro —-, logo após as partidas disputadas. Poucas vezes adiei a tarefa. Mais raro ainda foi não dizer uma só palavra sobre nosso desempenho em campo. Pois não é que isso aconteceu nesta semana. 

Tivemos dois jogos disputados —- e nenhum deles aqui relatado. Um no domingo, às nove e meia da noite, goleamos; outro na quarta, às dez da noite, empatamos. Partidas que se encerraram tarde, muito tarde para coincidir com o toque de recolher em vigor no Rio Grande do Sul e impedir aglomeração de torcedor. Escrever me deixaria com pouco tempo de cama, já que às quatro da manhã tenho de estar em pé para trabalhar. No dia seguinte, tarefas de toda ordem me ocuparam o tempo, e a tristeza das notícias me roubaram inspiração. 

Nesta manhã de Sexta-Feira Santa, no silêncio de um dia de feriado, encontrei-me com o blog e com o desejo de escrever uma crônica. Quanta pretensão! Um pecado! Especialmente ao perceber que é tentação expressa em data na qual os católicos reservamos para refletir sobre a humildade de um homem santo que se entregou à cruz e à humilhação para nos salvar. Que Deus me perdoe! E os cronistas, também.

Avalanche Tricolor: (des)memórias de Porto Alegre que comemora 249 anos

Juventude 2×1 Grêmio

Gaúcho – Montanha dos Vinhedos, Bento/RS

A mais bela paisagem de Porto Alegre: a Arena Grêmio e o pôr do sol

Já vivo há mais tempo em São Paulo do que em Porto Alegre. São 30 anos aqui na capital de 57 de vida. Foi lá no Rio Grande, porém, que vivi os mais marcantes na formação de meu caráter e personalidade. De pequeno, segurando a mão do pai e da mãe; de criança, correndo com os amigos  na calçada da Saldanha; de adolescente, batendo bola nas quadras e beijando no escurinho do cinema; até ser jovem, primeiro sem muita responsabilidade, fazendo aquelas coisas que hoje nos fazem pensar “como é que eu sobrevivi?”, para depois ser do tipo que tinha de pagar as próprias contas.

Saí por acaso de Porto Alegre, quase sem querer, para uma viagem festiva em São Paulo, quando deparei com a oportunidade de ouro na vida profissional. Tive tempo de voltar para Porto Alegre, jogar todas as roupas na mala, colocar o fusca grená à venda e dar um beijo nos mais queridos. Ainda passei lá no Zelig, o bar do Pio, ponto de encontro, bebedeiras, namoros e choradeira de muitos anos, na Cidade Baixa. No dia seguinte, um primeiro de janeiro, desembarcava na cidade que, hoje, é cenário de outros momentos muito importantes na minha vida. Deles conto em outra conversa. 

Hoje, estou aqui ocupando o espaço de uma Avalanche —- em que o desafio seria garimpar valores e aprendizados na primeira derrota, lá em Bento Gonçalves, do time de jovens que está disputando o Campeonato Gaúcho — para falar de Porto Alegre porque minha cidade completa 249 anos, nesta sexta-feira, 26 de março. Aprendi na escola que a cidade foi fundada por casais açorianos que desembarcaram no Porto das Pedras, no século 18. Construí a fantasia  de que sendo casais, teriam chegado em pequenas embarcações a remo, nas quais as moças estariam de chapéu largo e vestindo longo, enquanto os moços vestiam-se elegantemente de cartola, casaco e colete. Impossível, tendo todos vindos de tão longe. 

Nossa imaginação é capaz de construir histórias que jamais vivemos e as contamos como se verdadeiras fossem. É efeito do cérebro que para rodar em alta velocidade deixa de lado algumas informações, inventa coisas e manipula pensamentos.

Se eu disparar a contar as experiência marcantes de Porto Alegre é possível que alguém mais próximo venha me cochichar no ouvido de que não foi bem assim que aconteceu.

O amor não era tão apaixonante, a beleza tinha lá suas distorções e as aventuras que acredito ter vivido eram até meio sem graça

Independentemente dessa realidade e sem saber ao certo o quanto do que lembro é ilusão, Porto Alegre é meu chão —- é onde tive meus primeiros traumas e prazeres. Muito do que experimentei lá, trago no meu comportamento, mesmo que hábitos tenham sido abandonados no meio do caminho. E agradeço de coração a todos que me ajudaram a viver e a aprender naquela cidade.

Quem sabe, para a passagem do próximo ano que nos levará a marcante data dos 250 anos, não dedique mais espaço neste blog para contar as histórias nas quais é provável tenha sido apenas um observador mas que as transformarei em memoráveis, até que me provem o contrário.

Avalanche Tricolor: o sonho de Pedro Lucas

São José 1×1 Grêmio

Gaúcho – Passo d’Areia, POA/RS

Pedro Lucas comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O início desta temporada tempestuosa do futebol, na qual sequer a bola deveria estar rolando, ao menos tem servido para nos apresentar nomes que há algum tempo estão na lista daqueles que podem ser craques vestindo nossa camisa.

Se no fim da semana passada, o goleiro Brenno deu mais um passo em direção ao time principal, neste início de semana, foi a vez de Pedro Lucas.  Verdade seja dita, o garoto de apenas 18 anos —- completará 19 em julho — havia apresentado visão de jogo, boa movimentação e toque de bola preciso na partida anterior, em que saiu como titular. Demonstrara em campo, a fama que trouxe das categorias de base —- onde já conquistou título mundial pelo Brasil.

Hoje, completou a sequência com um golaço, aos 27 do segundo tempo. Ferreirinha que ensaiou vários dribles pelo lado direito, às vezes insistindo além do necessário, desta vez, passou pelos marcadores e cruzou no tempo certo. Pedro Lucas vinha em direção à bola e de bate-pronto com o pé esquerdo —- o seu preferido —- encaixou no ângulo. Um chute tão preciso quanto difícil pela posição que estava na área.

Pedro Lucas Tapias Obermüller, nascido no Baixo Guandu, no Espírito Santo, chegou ao Grêmio com 12 anos. Das escolinhas ao primeiro gol entre os profissionais, não bastasse o guri ter demonstrado habilidade com a perna esquerda —- o que sempre difere o jogador em campo —, maturidade para ascender nas categorias e conquistar espaço na seleção brasileira, revelou-se gremista de coração e o desejo de, antes de pensar em colocar o pé na Europa, colocar a mão em uma taça com a camisa do Grêmio.

Ao fim do jogo, mostrou com fala segura, olhar focado e discurso bem elaborado que domina as palavras tanto quando a bola: 

“Eu tenho esse sonho de jogar no profissional do Grêmio. Desde os meus 12 anos quando cheguei aqui. Hoje, fazer meu primeiro gol como profissional é uma momento muito especial”

Tem sido especial também este momento de renovação. Os guris completaram quatro partidas invictos no Campeonato Gaúcho e colocaram o Grêmio na liderança da competição, mesmo tendo um jogo a menos do que seus adversários. Mais do que gols, pontos e classificação, o grande destaque no início da temporada tem sido a qualidade desta garotada que chega da base para conquistar seus sonhos no profissional.

Avalanche Tricolor: Brenno, simplesmente, Brenno do Grêmio!

Grêmio 2×0 Aimoré

Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Brenno em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Em uma partida resolvida ainda no primeiro tempo, na qual levamos a campo um time com idade média de 22,4 anos de idade, que alçou o Grêmio à liderança do campeonato e com 100% de aproveitamento, foi nosso goleiro quem mais se destacou. 

Brenno Oliveira Fraga Costa foi assim batizado em Sorocaba, cidade que fica logo depois da Região Metropolitana de São Paulo, a quarta mais populosa do estado, e há pouco mais de uma hora de viagem daqui onde moro, desde 1991.  Ele tem a idade do meu filho mais novo. Nasceu em 1º de abril de 1999. Em algumas semanas completará 22 anos. E, a partir de hoje, é considerado a principal esperança do torcedor gremista que, desde a saída de Marcelo Grohe, aguarda por um grande goleiro.

Com olhar sereno, semblante tranquilo, sorriso largo e cara de bom moço, Brenno —- assim mesmo com dois enes —- conseguiu um feito no jogo desta noite de sexta-feira. 

No primeiro momento, ensaiou o movimento de Gordon Banks, na defesa que consagrou o goleiro inglês, após a cabeçada de Pelé, na Copa do Mundo de 1966 — a defesa do século 20. No segundo, lembrou Marcelo Grohe, no milagre contra o Barcelona de Guayaquil, do Equador, na semifinal da Copa Libertadores, em que nos consagramos campeões, de 2017 — a defesa do século 21.

Exageros à parte, Brenno já havia se apresentado bem na sua estreia forçada, no Grenal 418 de 2019, em que vencemos por 1×0. Na segunda partida da Libertadores deste ano, na vitória por 2×1 contra o Ayacucho, no Equador, foi menos exigido mas sempre que precisamos dele, se fez presente e preciso. Hoje, foi magistral.

Ao longo da partida, ouvi Gustavo Millani da SporTV  chamá-lo de Brenno Banks. Em seguida, o repórter de campo, lendo as redes sociais, disse que um dos torcedores digitais havia lhe batizado de BreNeuer —- o que certamente deve ter soado bem aos ouvidos do guri que declarou, em 2020, ao site Minha Torcida:

“Meu maior ídolo é Neuer, pois quando eu comecei no futebol em 2014, nas categorias de base, ele arrebentou na Copa do Mundo”

Nem Banks nem Neuer. Nem mesmo Marcelo Grohe — por mais que tenha trejeitos dele em campo. Brenno é, por enquanto, um goleiro em ascensão, disposto a ser titular no Grêmio o mais breve possível, e, se tudo der certo, demonstrar autoridade e talento suficientes para entrar para a nossa história como Brenno, simplesmente, Brenno do Grêmio — o único time do mundo a dedicar seu hino a um goleiro.

Avalanche Tricolor: em meio a tantas voltas, uma vitória no Olímpico

Ayacucho 1×2 Grêmio

Libertadores — Olímpico Atahualpa, Quito/Equador

Ferreirinha em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Quantas voltas temos de dar para chegar ao que sonhamos. Assim é na vida, na profissão e no amor. Assim também é no futebol. As voltas do Grêmio nesta temporada 2021, começaram mais cedo do que nas anteriores. Até colocarmos o pé no que entendemos por Libertadores propriamente dito, tínhamos que passar por duas etapas de prévias. A primeira despachamos na noite de hoje —- a bem da verdade, despachamos na partida da semana passada quando goleamos de forma consciente o adversário peruano, em casa. 

Para confirmarmos a classificação, tivemos de dar uma volta na pária que o Brasil se transformou no mundo —- na América do Sul, inclusive. Como brasileiro não somos aceitos no Perú, dada a alta carga de contaminação que levamos em nossa reputação bolsonariana. Tivemos de viajar até Quito no Equador, a 2.850 metros de altitude, onde ainda somos aceitos. E em todas essa voltas não é que fomos cair em um estádio com o nome de nosso saudoso Olímpico?

Como prêmio pela classificação quase-antecipada, o Grêmio deu férias a seu elenco principal e sequer enviou Renato para ficar no banco de reservas — a estratégia foi usada para dar outra volta, desta vez no calendário de um futebol insano que não para nem mesmo diante da desgraça alheia. Só aqui no Brasil, somos quase 280 mil que perdemos a vida para a Covid-19, desgraçadamente. 

Em campo, guris escalados, demos a volta no adversário e no placar. Um minuto após tomar o primeiro gol, reagimos. Ferreirinha, após um passe genial do zagueiro Rodriguez, fez a bola dar voltas colada ao seu pé, cortou um, cortou dois e chutou fora do alcance do goleiro. No segundo tempo, já aos 41 minutos, a bola rolou com velocidade pela direita. Léo Chú e Pedro Lucas trocaram passes. O cruzamento chegou rasteiro na pequena área para Ricardinho bater de primeira e decretar a vitória de número 108 do Grêmio, em Libertadores —- é um dos dois times brasileiros com maior número de vitórias na competição. E só eu e você — caro e raro leitor desta Avalanche —- sabemos quantas voltas no continente tivemos que dar para alcançar essa marca, não é mesmo?

Nossa superioridade fez esta primeira volta da Libertadores 2021 ser bastante tranquila. Mas sabemos que foi apenas o princípio de uma jornada que esperamos nos faça colocar as mãos de volta a Taça Libertadores,.

Avalanche Tricolor: a boa safra de Bento

Esportivo 0x2 Grêmio

Gaúcho – Montanha dos Vinhedos

Bento Gonçalves, RS

Lucas Araújo comemora em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Era noite de conhecer gente nova. Bem nova. Coisa que só esse calendário louco do futebol brasileiro é capaz de nos fornecer. Em situação normal de pressão e temperatura, sem pandemia, estaríamos no quarto jogo do Campeonato Gaúcho e com os titulares em campo na campanha do Tetra. Jogamos pela quarta rodada mas era apenas o nosso segundo jogo e disputado entre uma decisão e outra da pré-Libertadores. Tudo isso menos de uma semana depois de nossa última partida válida pela temporada 2020. 

Se assim tem de ser —- e à espera da suspensão dos jogos a medida que o número de casos de Covid-19 só crescem —, era momento de aproveitar para entender quem são os novos guris que podem ficar à disposição de Renato em mais esta atribulada temporada de futebol.

Comecemos no gol. Brenno (21) foi testado duas vezes. A primeira, mostrou agilidade e impediu o gol de empate, no ângulo. Na segunda, segurança e boa colocação. Isso significa que temos um titular? Não, ainda não. Mas que, em breve, bem provado e amadurecido, pode surgir da base o goleiro que procuramos desde a saída de Marcelo Grohe. 

Na frente de Brenno, “velhos” conhecidos: Rodriguez (24) e Ruan (21) — aquele mais do que esse; e os dois precisando ainda contar com a experiência dos mais antigos ao lado. Ser zagueiro exige uma responsabilidade que a juventude nem sempre tem à disposição. Pelos lados do campo, o jovem e talentoso Vanderson (19) e o velho Cortez (34) de sempre

Do meio pra frente, Renato escalou Darlan (22), que já conhecemos o potencial. Depois, Thaciano (25) e Pinares (29) —- este uma esperança de camisa 10 e o outro que faz torcedores exalar ódio contra o técnico, e confesso que não sei por qual motivo. Aliás, foi ele, Thaciano, o Odiado, quem fez o primeiro gol, um golaço de cabeça, ao receber, bem colocado, o cruzamento de Vanderson. Que continue assim. Respondendo com gol e esforço sobrenatural às críticas e aos chatos.

O ataque gremista teve Gui Azevedo (19), Léo Chu (20) e Isaque (23) — uma formação diferente da que estamos acostumados. Guilherme dá sinais de que pode se revelar em 2021; Léo, pelo lado esquerdo, criou esperanças de uma ótima opção; e Isaque já conhecemos bem e estamos sempre na expectativa de que poderá fazer ainda mais do que fez até aqui.

Vieram do banco dois nomes que prometem excelente futebol: Lucas Araújo (21) e Léo Pereira (20). Foram deles o protagonismo do segundo gol quando o time cedia campo ao adversário. No passe de Lucas, Léo teve lance de gol interrompido pelo goleiro, em pênalti que o primeiro cobrou muito bem. 

Resumo da opereta de sábado à noite: surge um goleiro, o bom toque de bola prevalecerá, temos gente de talento e, também, quem saiba bater pênalti. Inspirado com o que assisti na Montanha dos Vinhedos — nome bonito de mais para um estádio vazio e sem graça —- restou-me fechar a noite com uma boa garrafa de vinho ao lado. Era de Bento e de boa safra —- como os guris que se apresentaram em campo.

Avalanche Tricolor: quero ver o WhatsApp do Teco bombando neste ano

Grêmio 6×1 Ayacucho

Libertadores – Arena Grêmio, POA/RS

Diego Souza em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

“Vai dormir” foi a resposta de meu amigo Luiz Gustavo Medina, o Teco, à terceira imagem de Diego Souza que enviei para ele pelo WhatsApp, nesta noite de quarta-feira. Claro que não fui. A começar pelo fato de que sequer nos piores momentos da nossa equipe dormi antes do apito final. É questão de honra acompanhar meu time até o fim

Jamais fui torcedor modinha — aquele que só aparece na hora do bem bom. Sofro, choro e me despedaço, seja qual for o resultado. Sou torcedor de todas as horas. Imagine se não o serei diante de uma goleada como a que marcou nossa estreia na Libertadores 2021. Fiquei acordado até o minuto final —- no caso, até os cinco minutos extras finais, assim determinados pelo árbitro da partida.

Você, caro e raro leitor desta Avalanche, deve estar se perguntando: o que o Teco tem a ver com isso? Eu explico. Desde que soube que o filho dele, o Gu, o mais jovem e o que mais números de gols marcou na família, era fã de Diego Souza, adotei o hábito de enviar pelo WhatsApp uma imagem de nosso atacante sempre que ele marcasse um gol com a camisa do Grêmio. Na temporada 2020, que se encerrou domingo passado, em pleno março de 2021, foram 28 ou 29, se não me falha a memória (confirma aí PVC).

Hoje, mandei a primeira imagem na cobrança de pênalti. A segunda, em uma bola que Diego Souza finalizou após atropelar os marcadores. E a terceira, já no segundo tempo, resultado da força e talento para concluir nas redes.  Foi após esse último gol que Teco me mandou para cama. Claro que não fui. Jamais desperdiçaria essa oportunidade de assistir ao Grêmio golear seu adversário. Nesta noite, repetimos o mesmo placar da maior goleada que havíamos alcançado, em Libertadores — contra o Universidad Los Andes, da Venezuela, em 1984.

Confesso que fiquei cabreiro com a forma como ele comemorou cada um dos gols. Acostumado a vê-lo dançando dentro das redes, me pareceu comedido. Quase como se estivesse ali fazendo apenas a sua obrigação. Como se o resultado nada representasse aos gremistas, afinal estamos acostumados mesmo a começar na fase de grupos da Libertadores e não nesta tal pré-Libertadores. Fiquei mais tranquilo quando o vi, no fim do jogo, pedindo a bola da partida para levar para a casa. Foi sinal claro da importância que Diego Souza deu ao seu desempenho — e a de seu time — afinal marcar três gols em jogos de Libertadores é pouco. Fazer 6 a 1, é ainda mais raro.

Além de Diego, marcaram David Braz — da velha guarda —, Ferreirinha e Gui Azevedo — dos novos talentos. Tivemos, também, excelente presença em campo de Pinares, o chileno que começa a ganhar espaço na equipe principal com passes precisos e uma entrega de causar orgulho na gente gremista.

Independentemente da qualidade do adversário, é animador começar com uma goleada a temporada 2021. E, a persistirem o sintoma, o WhatsApp do Teco vai bombar neste ano.

Avalanche Tricolor: no limite

Palmeiras 2 (€112,88mi) x 0 (€75,15mi) Grêmio

Copa do Brasil — Allianz Parque, SP/SP

Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Times têm limites. Podem ser técnicos; podem ser financeiros — em geral, o segundo leva ao primeiro. Há limites físicos, também. De talentos. E de visão estratégica. Dentro desses limites, cada time oferece o que pode ao seu torcedor. Às vezes, vai além de suas capacidades. Se supera. Surpreende o adversário. Alcança o impossível. O futebol nos dá essa oportunidade.

O Grêmio por muitas vezes foi além do que era capaz. Se superou. Da superação fez história e ao escrevê-la ganhou o apelido de Imortal. É essa história que nos faz gremista. É na lembrança de títulos improváveis; de resultados imprevisíveis; e de jogadores que conseguiram ser muito maiores do que eles próprios imaginavam que alimentamos nossa esperança a cada ano que se inicia.

Na atual e acidentada temporada de 2020, que só se encerrou neste primeiro domingo de março de 2021, fomos campeões gaúchos —- tri —-; avançamos bem na Libertadores, até o tropeço das quartas-de-final — muito mais dolorido do que poderia ter sido; fizemos um Campeonato Brasileiro mediano —- bem aquém das nossas possibilidades;  e chegamos à final da Copa do Brasil. 

Esperar muito mais do que isso —- e a gente sempre espera —– é esquecer dos limites deste time e do seu caixa; dos percalços fora de campo que limitaram a recuperação física de jogadores importantes, especialmente Geromel, um pilar da nossa defesa; e do desempenho abaixo da crítica de alguns talentos nos quais depositávamos confiança. 

Semana passada já havia compartilhado com você, caro e raro leitor desta Avalanche, que considerava a manutenção de Renato no comando da equipe a maior vitória que estava ao nosso alcance. O risco de uma temporada ruim, sem título nacional ou sul-americano, era jogar fora tudo que se construiu ao longo do tempo. Este erro poderia custar muito caro na temporada que, lembremos, já se iniciou com partida no meio da semana passada pelo campeonato estadual e terá decisão na quarta-feira próxima, na pré-Libertadores.

Renato terá, e sabe disso, que renovar a equipe, mudar peças chaves, abrir mão de alguns jogadores que levantaram troféus nos últimos quatro anos e meio, chacoalhar garotos que têm talento mas parecem amortecidos em campo e soltar a rédea daqueles que vêem da base e pedem passagem. Terá ainda de contar com contratações muito bem calculadas, que caibam no caixa do time e façam diferença em posições estratégicas. 

Em 2021, mais uma vez nosso desafio é superar os limites.

Avalanche Tricolor: uma estreia para respirar aliviado

Grêmio 4×1 Brasil RS

Gaúcho – Arena Grêmio

Foto Lucas Uebel Grêmio FBPA

Quase um ano após uma sequência de sufocos, sofrimentos e empates, bem que eu merecia assistir à tranquilidade de uma partida como desta noite, que marcou a estreia do Grêmio no Campeonato Gaúcho de 2021. Sim, o ano de 2020 ainda não se encerrou —- domingo temos a final da Copa do Brasil — e o ano novo do futebol já se apresenta com a mediocridade de sempre das competições estaduais.

Neste ano ao menos não teremos o que reclamar do público que costuma só se apresentar nas partidas finais —- e com toda razão. Com a Covid-19 influenciando comportamentos e escalações, as arquibancadas seguirão vazias no Gaúcho. De resto, é aquele jogo de futebol sem o glamour das competições principais. Não tem bola no pedestal para a entrada dos times no gramado.  Não tem banner com patrocinador fazendo cenário para a entrevista no intervalo. Não tem VAR para aliviar a culpa do árbitro. É futebol raiz, como costumam dizer. 

Independentemente das condições e do adversário, como disse na abertura desta Avalanche, eu e toda a torcida gremista estávamos mesmo precisando de um dia de calma. Com gol logo no início da partida e goleada antes de o intervalo chegar, respiramos aliviados mesmo com um time bastante modificado e a presença de vários jovens recém-saídos da base. Lucas Silva fez de pênalti, Ferreirinha de cabeça, Guilherme Azevedo só completou para as redes e Isaque eliminou qualquer risco de reação.

Para mim, por curiosidade que seja, nem era jovem nem marcou gols o jogador que mais se destacou: Pinares, chileno, prestes a completar 30 anos, que chegou com boa fama por ser titular da seleção do Chile, mas que teve poucas oportunidades na temporada, fez um partidaço, tomando conta do meio de campo, dominando a bola com qualidade e metendo duas assistências para consagrar os atacantes. 

Nem Pinares nem outro de seus companheiros desta noite devem sair jogando no domingo quando decidiremos o título da Copa do Brasil de 2020. O time de Renato já está escalado e teve uma rara semana de preparação, avaliação de erros, correção de problemas e mobilização interna. O desempenho nessa estreia e a goleada conquistada, porém, são importantes para desanuviar o ambiente pesado dos últimos tempos. Assim como é motivador saber que, independentemente do que acontecer domingo —- e torço para que o melhor se realize —- Renato permanecerá no comando da equipe.

Avalanche Tricolor: não vai deixar saudades

Bragantino 1×0 Grêmio

Brasileiro — Nabizão, Bragança Paulista/SP

Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Cuspida e escarrada! A última rodada foi a cara do Campeonato Brasileiro, que, ao longo da temporada, desdenhou a gravidade da pandemia, teve jogos suspensos devido a “contaminação em rebanho” em alguns times, jogadores expostos a risco e traduzindo essa apreensão no campo com performance abaixo da esperada, estádios com arquibancadas vazias e com aglomeração de torcedor do lado de fora.

O Covidão-2020, apelido que meu amigo Juca Kfouri deu ao campeonato, terminou sem direito a gol do título. O campeão perdeu na partida final, marcando uma campanha claudicante o suficiente para superar em pontos ganhos todos os demais adversários. Quem poderia ser campeão em lugar do campeão, não foi capaz de vencer mesmo jogando em casa e contra um time que nada mais tinha a ganhar. Quase ganhou, mas o VAR impediu que a injustiça fosse concretizada, primeiro em um pênalti sinalizado pelo árbitro, que voltou atrás ao ser chamado para rever na televisão, ao lado do campo, e depois em dois gols marcados em posição de impedimento, que foram anulados com o certificado do VAR.

Quem diria, depois de uma competição em que faltou verificação do VAR, houve erros com o apoio do VAR e descobrimos que o VAR só funciona se estiver bem calibrado, foi o VAR quem salvou a lisura do resultado nos acréscimos do Campeonato. Nesse caso, justiça seja feita, o auxiliar sinalizou a irregularidade do gol e se não foi agredido — como ameaçaram alguns jogadores — deve agradecer ao VAR que ele, aos gritos, anunciava que seria consultado.

Sem gol do título, sem torcida, sem futebol qualificado e com Covid-19, o Campeonato Brasileiro terminou com o mesmo campeão da temporada anterior. Ou seja, enfrentamos toda essa maratona para entregar o título ao mesmo time. Pode isso, Juca?

E se estou aqui a falar de dois jogos que não tinham a presença do Grêmio, protagonista de sempre nesta Avalanche, é porque nada tenho a registrar do desempenho do meu time na rodada final da competição.

O Campeonato Brasileiro de 2020, que já vai tarde, não me deixará saudades.