Avalanche Tricolor: o Papai Noel é azul e tem nome

Grêmio 1×0 São Paulo

Copa do Brasil — Arena Grêmio

Diego Souza comemora gol em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

O Papai Noel passou mais cedo aqui em casa. E vestido de azul. Porque essa é a tradição no Rio Grande, que começou lá pelo fim dos anos de 1950 como uma brincadeira de torcedores arqui-rivais. O resultado do último Gre-Nal do ano, que fechava o Campeonato Gaúcho, decidia nos costumes do nosso povo que cor seria o Papai Noel.

Em 1961, um jovem de apenas 22 anos havia sido escalado para ficar no vestiário a espera do apito final e invadir o gramado dos Eucaliptos — antigo estádio colorado —-  em caso de vitória tricolor, que veio em uma incrível virada de 3 a 2 com um homem a menos em campo —- sim, a imortalidade nos acompanha desde o início de nossa história. 

Após superar a barreira de policiais que tentavam impedir qualquer invasão de torcedores, o Papai Noel foi parar nos braços dos jogadores e erguido como um troféu para a história. Vestindo a parafernália do bom velhinho, naquele ano, estava o jovem que mais tarde se transformaria em um dos mais gremistas dos jornalistas gaúchos, Paulo Sant’Ana. Se não foi o primeiro Papai Noel azul certamente foi o mais famoso de todos até a noite de hoje.

Nesta ante-véspera de Natal, o Papai Noel azul que invadiu a sala de casa pela tela da televisão foi outro. Atende pelo nome de Diego Souza, mas pode chamá-lo de Goleador. O atacante que passou a partida sendo escorraçado pelos adversários teve uma e apenas uma chance de chutar a gol; e de costas para o gol. Tudo começou na sem-vergonhice de Ferreirinha, o guri driblador que Renato acabara de colocar em campo. Com cara de piá que ainda acredita em Papai Noel, Ferreirinha se lançou para cima do marcador e o deixou para trás com velocidade e talento no drible. Cruzou forte e fez a bola chegar a outro dos nossos guris, Pepê, que de cabeça jogou para dentro da pequena área, onde os zagueiros se atrapalharam para deleite de Diego Souza.

O gol de Diego não é definitivo para nos colocar em mais uma final de Copa do Brasil … 

A propósito: a performance do Grêmio nesta Copa é inacreditável. Fomos o primeiro campeão. Chegamos a semifinal em quase metade das edições disputadas. E vencemos cinco Copas do Brasil. Tem de respeitar.

Como dizia, caro e raro leitor desta Avalanche, o gol de Diego não é definitivo. Tem muito jogo pela frente na partida de volta no Morumbi. E um adversário bem treinado e embalado. Posso lhe garantir, porém, que independentemente do que vier acontecer, este ano o Papai Noel é azul, não só porque ganhamos o Campeonato Gaúcho lá no início da temporada, mas, principalmente, porque o “bom velhinho” tá batendo um bolão veste a camisa 29.

Avalanche Tricolor: minhas impressões

Sport 1×1 Grêmio

Brasileiro — Ilha do Retiro, Recife/PE

Pepê comemora gol, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A bola no pé e a cabeça distante do gramado. Assim o Grêmio jogou nesta rodada do Brasileiro disputada entre a desclassificação da Libertadores e a semifinal da Copa do Brasil. Parte do time titular estava em campo, mas não no jogo. A impressão é de que o passe demorava mais do que o normal para chegar ao colega, o deslocamento era mais lento do que costumamos fazer e a marcação mais distante. Haja vista que mesmo com o domínio total da bola, os chutes a gol, especialmente no primeiro tempo, foram raros —- substituídos por uma sequência de cruzamentos na área, sem conclusão. Em um deles, deu-se o contra-ataque adversário que resultou no gol. 

Nada do que disse até aqui significa que o time não se esforçou. Ao contrário, conseguiu se superar quando perdeu Kannemann, expulso aos sete minutos do segundo tempo. Pareceu-me que o cartão vermelho serviu de despertador e fez o Grêmio se jogar para frente, a ponto de conseguir pênalti que foi bem convertido por Pepê. A propósito: depois daquela sequência ruim na retomada do Campeonato Brasileiro, tenho a impressão de que o nível das cobranças melhorou consideravelmente.

Uma vitória nesta rodada não seria redentora, mas tornaria o ambiente melhor — no mínimo faria com que alguns “torcedores” de rede social deixassem de encher o saco. O peso da desclassificação da Libertadores —- da forma como ocorreu —- está claramente sobre o ombro dos jogadores. Em alguns mais do que outros. Jean Pyerre está cabisbaixo. Sentiu o golpe. E Renato certamente está a aconselhá-lo porque sabe que o talento de nosso camisa 10 é fundamental para subirmos o nível do futebol e chegarmos a final da Copa do Brasil.

O empate, levando em consideração como foi construído, não é ruim —- longe do desastre que alguns tentaram impor. O Grêmio ainda está na disputa do G4 no Brasileiro e mostrou, após a expulsão, o poder de reação de um time ainda abalado. Um time que tem muito futebol para jogar e precisará fazê-lo já na próxima quarta-feira. Eu confio — e isso não é um impressão.

Avalanche Tricolor: uma carta ao Greg

Santos 4×1 Grêmio

Libertadores — Vila Belmiro, Santos/SP

Thaciano comemora o único gol do Grêmio, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Greg,

Há três anos, nesta mesma data, estávamos juntos a caminho do Zayed Sports City, em Abu Dhabi. Em algumas horas, disputaríamos a final do Mundial de Clubes contra o Real Madrid. Em um momento daquela caminhada, diminuí o passo e você e o Lô seguiram firme em direção ao estádio. Ver os dois vestindo a camisa tricolor com o nome do vovô às costas, em uma homenagem àquele que nos colocou nesta jornada mas que já não tinha mais condições de estar ao nosso lado naquela aventura, foi uma das mais belas imagens que o Grêmio me proporcionou em todos esses anos em que sou um fanático torcedor.

Você e o mano, lado a lado, felizes pela oportunidade que nos foi proporcionada de disputar uma final de Mundial —- mesmo admitindo a superioridade do rico futebol europeu —-, foram o meu troféu. Qualquer que fosse o resultado daquele partida, eu já me sentia vitorioso e recompensado por todos os tempos de sofrimento que enfrentei na minha infância e adolescência. Imagine que só soube o que era ser campeão, quando já estava com 14 anos, e o título que conquistei naqueles tempos era um Estadual — igual a esse que ganhamos em 2020. A primeira taça nacional só venho quando estava com 18 anos. E as duas primeiras internacionais, aos 20 anos.

Nesta noite de quarta-feira, em que desperdiçamos a oportunidade de estar em outra semifinal da Libertadores, mais do que para o jogo, perdido nos primeiro segundos, olhei para você ao meu lado, no sofá e diante da televisão. Pode parecer estranho o que vou dizer. Ver sua reação, seu incômodo frente a malemolência da nossa marcação, esbravejando pela bola perdida, maldizendo o jogador que errou o passe, o chute, o escanteio, o cabeceio, o bote … tudo isso me fez sentir uma ponta de alegria. Orgulho. Não pelo time. Por você.

Hoje, você, Greg, me fez reviver o Miltinho das arquibancadas de cimento que seguia para o Olímpico de mãos dadas com o pai — o vovô. Que mesmo ciente do tamanho e da impossibilidade de vencer o desafio que se avizinhava, caminhava com convicção para o campo. Que vibrava a cada lance, apesar dos pesares. Que ficava a espera do milagre, mesmo sabendo que o que precisava era de um futebol mais bem jogado. Que suava a camisa de nervoso. Que molhava a camisa de tanto chorar. Que era consolado por amigos, pelo pai —- o vovô —-, pelo técnico e até por jogadores no vestiário. Em seu benefício e antes que seus amigos leiam esta Avalanche, registro que você não chegou a chorar como eu, mas sofreu tanto quanto.

Posso lhe garantir: aqueles eram tempos bem mais difíceis. Hoje, o Grêmio só se dá o direito de perder como perdeu —- diante de um grande time de futebol —-, porque se credenciou e se acostumou a disputar finais das principais competições nacionais e internacionais. Foi assim ano passado na semi; foi assim agora nas quartas da Libertadores. E muitas outras vezes sofreremos juntos pelo revés alcançado, porque não nos contentamos com posições intermediárias. Queremos sempre estar no topo. Com os vencedores. Entre os maiores do Brasil, da América e do Mundo.

E se queremos sempre mais e mais, saiba que é preciso apanhar, sofrer, errar, encarar a derrota … chorar se preciso —- eu choro agora enquanto escrevo. E amanhã acordar, juntar os trapos, ser resiliente à corneta do inimigo e dos amigos, aguentar firme, forte e crente de que somos capazes de dar a volta por cima. Porque somos gremistas e Imortais, graças a Deus — e ao vovô.

Avalanche Tricolor: … dito isso, vamos ao que interessa

Goiás 0x0 Grêmio

Brasileiro —- Estádio Hailé Pinheiro, Goiânia/GO

 

Ferreirinha de olho na bola em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Era jogo para três pontos, a despeito termos apenas cinco titulares em campo, ser fora de casa e contra adversário desesperado para sobreviver na primeira divisão. Quem assistiu ao primeiro tempo, chegou a imaginar que a vitória estava a alguns centímetros —- duas ou três bolas passaram bem perto do gol. Bastaria caprichar um pouco mais. Veio o segundo tempo e logo se percebeu que o caminho seria mais longo, tanta era a aglomeração na proximidade da área. Buscou-se algumas soluções, arriscou-se jogadas de toque de bola, chutes de fora e até acreditamos na possibilidade de um drible de Ferreirinha decidir o jogo. Nada do que se fez foi suficiente para impedir que registrássemos nosso 11º empate no campeonato.

Com o amontoado de clubes na zona da Libertadores, sairemos dessa rodada abaixo da posição que entramos, mas com as mesmas chances dos demais. Uma vitória na sequência e estaremos de volta à disputa. Por mais que nossas pretensões tenham sido frustradas neste sábado à noite, chegamos a 18 jogos sem derrota somando Brasileiro, Copa do Brasil e Libertadores —- uma boa marca, você haverá de convir.

Dito isso, vamos ao que interessa: quarta-feira tem mais uma decisão de Libertadores pela frente e a ideia é que tenhamos time completo para disputar vaga à semifinal —- e quando falo em time completo, leia-se com Jean Pyerre, que faz uma baita diferença. Uma vitória nos mantém na competição. Um empate com dois gols ou mais também garante a classificação. Se o empate for em um gol, leva a decisão para os pênaltis Qualquer coisa diferente disso …. melhor nem pensar.

Avalanche Tricolor: prepare-se, Dezembro está só começando

Grêmio 4×0 Vasco

Brasileiro — Arena Grêmio

Diego comemora, ele marcou dois gols, foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Escrevo antes de a rodada se encerrar porque mais do que a posição na tabela do Campeonato Brasileiro é a disposição do Grêmio em vencer partida após partida que me interessa, nesta Avalanche. Independentemente de quem esteja no campo, vê-se uma movimentação intensa dos jogadores, com troca de posição, deslocamento pelos lados e velocidade com e sem a bola. A recomposição na defesa chama atenção, também. Apesar de os alas subirem muito e chegarem à linha de fundo, se o adversário não for muito rápido no contra-ataque, logo quatro, cinco, seis jogadores já diminuíram o espaço lá atrás, para em seguida todo o restante fechar-se no sistema defensivo. 

Com um time que foi se ajustando ao longo da temporada, depois de uma série de desfalques no elenco e jogadores recém-chegados e sem o entrosamento para a movimentação, o Grêmio alcançou a marca de 16 jogos invictos, ciclo completado neste domingo com uma goleada na Arena. Até alcançar essa performance, ensaiou-se coro contra Renato acusando-o mais uma vez — além de algumas barbaridades como preguiça e desconhecimento — de ter aberto mão do Campeonato Brasileiro, sem perceberem que o que lhe faltava eram pernas: jogadores com ritmo, bem fisicamente, lesões curadas, livres de Covid e opção no elenco. 

A disposição de Renato e do Grêmio sempre foi ganhar; e ganhar tudo que estivesse no seu caminho. Nem sempre isso é possível. Difícil até de saber se é sustentável, dadas as condições da temporada. O jogo de hoje foi o primeiro de uma maratona que enfrentaremos em Dezembro: quatro decisões em mata-mata, na Copa do Brasil e na Libertadores, e quatro pelo Brasileiro. 

Hoje, Diego Souza foi o destaque com dois gols de cabeça —- mérito dele por se colocar bem dentro da área e saltar alto; mérito, também, de quem tem cruzado com perfeição para ele completar em gol. Nosso atacante marcou 20 vezes na temporada. Já Pinares e Lucas Silva tiveram o prazer de comemorar o primeiro gol de suas carreiras com a camisa do Grêmio. O chileno chegou há pouco e fez o mais bonito dos quatro gols com um chute colocado de perna esquerda —— jogou no lugar de Jean Pyerre e demonstrou ser excelente opção para o time. Já o nosso volante está há mais tempo, costuma arriscar à distância e em cobranças de falta. Desde a última partida, no entanto, tem colocado os pés dentro da área, em mais um sucesso da movimentação gremista que dá este espaço aos volantes. Semana passada, o chute dele explodiu no peito do goleiro; hoje, depois de assistir à bola se chocar com o poste, na jogada seguinte recebeu um passe dentro da área, tentou o drible e sofreu a falta: pênalti, bem cobrado.

Se levarmos em consideração que competições de pontos corridos fazem de cada partida uma decisão, das oito que temos marcadas para dezembro, a primeira já foi vencida. Estamos mais próximos dos líderes do Brasileiro, nas quartas de final da Libertadores e nas semifinais da Copa do Brasil. Como escrevi, não sei se este ritmo de jogos e de vitórias é sustentável. Por enquanto, Renato tem nos deixado sonhar: ao infinito e … além!

Avalanche Tricolor: voando alto!

Grêmio 2×0 Guarany 

Libertadores — Arena Grêmio

Rodrigues comemora e Renato sorri em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

 

A classificação do Grêmio a mais uma quarta de final da Libertadores começou a ser construída lá no Chaco e se materializou no Humaitá. Do Paraguaia trouxemos o resultado. E, em Porto Alegre, sacramentamos a classificação com um gol logo cedo, que o auxiliar tentou impedir, mas acabou confirmado no ‘photochart’ —- é assim que chamam o dispositivo eletrônico que determina diferenças milimétricas entre os cavalos na linha de chegada da corrida e passou a ser usado no futebol com o advento do VAR.

Ferreirinha ganhou a posição na reta final: 15 minutos antes  de a partida se iniciar foi alçado a titular para substituir Luis Fernando que se machucou no aquecimento. Em menos de três minutos de bola rodando, na correria, já apareceu na cara do gol para completar a jogada que se iniciou com toque de calcanhar de Pepê, um passe preciso de Jean Pyerre e um cruzamento irretocável de Cortez. 

Quem também encontrou fôlego para correr até o fim foi Rodrigues, nosso zagueiro que surpreende a cada partida em que é chamado para substituir um dos dois insubstituíveis da nossa zaga: Geromel e Kannemann. Costuma resolver bem as coisas lá atrás. Atrapalha-se às vezes na própria juventude. Tem 23 anos e precisa rodar muito para chegar próximo a seu ídolo — sim, ele já declarou ser fã de Geromel. A seu favor, tem o atrevimento.

Ele já havia feito um dos gols que nos colocaram no topo da tabela de classificação na fase de grupos da Libertadores, quando vencemos por 2 a 0 o Universidad Católica —- foi o primeiro gol dele como profissional. O guri gosta de uma Libertadores que vou te contar. Saiu como titular nesta noite porque Renato poupou Geromel, e Kannemann ainda está em fase de recuperação. Fez bem o papel que lhe cabia na defesa e arriscou algumas saídas de bola. Aos sete minutos de acréscimo disparou no contra-ataque ao lado de Diego Souza que o presenteou com mais uma assistência.

Enquanto Rodrigues comemorava fazendo cara de mau para as câmeras, Renato sorria alto e forte ao lado do gramado. O Grêmio está invicto há 15 partidas, das quais venceu 12, se aproximou do topo da tabela de classificação do Brasileiro, chegou à semifinal da Copa do Brasil e às quartas de final da Libertadores. Seu time não está correndo, não. Está voando alto!

Avalanche Tricolor: exclamação!

Grêmio 2×1 Goiás

Brasileiro — Arena Grêmio

Maicon comemora em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIO FBPA

 

Que baita jogador é esse Jean Pyerre! O que Pepê faz com a bola é uma barbaridade! Geromel é imbatível dentro da área! São tantas as exclamações neste começo de Avalanche que quase esqueço de reverenciar Renato que se consagrou como o técnico que mais vezes comandou o Grêmio: 384 vezes, superando o eterno Osvaldo Rolla. Suas marcas vão além: hoje, alcançou a vitória de número 200, apenas como treinador. Desde que estreiou na casamata, em 2010, contra o mesmo adversário desta noite de segunda-feira, conquistou sete título, de Campeonato Gaúcho a Libertadores. É a terceira passagem de Renato pelo time e, sem dúvida, a melhor.

Se Geromel é quem é, claro, tem muito a ver com ele próprio —- um cara com aquele caráter e semblante merece todo o mérito —, mas também porque Renato sabe montar um sistema defensivo e permite que nosso zagueiro se expresse com talento. Se Jean Pyerre e Pepê jogam o que jogam, Renato é um dos responsáveis. Se o time voltou a jogar o futebol qualificado que encantou o Brasil, tem a mão de Renato.

Se tudo isso não bastasse para começarmos a semana com a alegria que o futebol pode nos proporcionar, ainda tivemos o prazer de ver o sorriso estampado no rosto de Maicon. Nosso capitão vinha de uma sequência de lesões e estava incomodado com o seu desempenho e o do time. O olhar cerrado e o esbravejar com os colegas eram preocupantes. Ficou fora três semanas e, segundo o próprio, teve tempo de com a equipe de profissionais do Grêmio — médicos, preparadores físicos e fisioterapeutas — analisar os motivos de suas lesões e trabalhar especificamente para reforçar o que era fragilidade. Voltou bem e confiante. Comandou o meio de campo fechando um triângulo de ouro com Matheus Henrique e Jean Pyerre (que baita jogador é o …. ops, já escrevi sobre isso). E completou sua performance chegando forte na frente para fazer o gol da vitória. Maicon sorriu bonito após o gol. E nós sorrimos com ele.

Se o jogo teve momentos de risco, perdemos mais gols do que gostaríamos e desperdiçamos a oportunidade de dar tranquilidade mais cedo ao torcedor, também teve o domínio na maior parte do tempo e um esforço redobrado para recuperar a bola quando o adversário se atrevia na frente, que nos levaram a 14ª partida sem perder —- incluindo Brasileiro e Libertadores —- nas quais 11 com vitória. E, sim, Renato tem tudo a ver com isso. Exclamação!

Avalanche Tricolor: vitória no Chaco e homenagem a Maradona

Guarany 0x2 Grêmio

Libertadores

Defensores del Chaco, Assunção/Paraguai

 

Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Na Guerra do Chaco, os paraguaios enfrentaram bolivianos e 100 mil caíram mortos dos dois lados. Batizado com nome histórico, o estádio, palco da partida desta noite, também foi protagonista naquela batalha, abrigando soldados recém-recrutados e prisioneiros inimigos. O tempo se foi, a mística ficou. Naquele gramado foram decididas ao menos dez Libertadores, além de disputas acirradas terem sido travadas entre adversários sul-americanos. 

De nome bélico e histórico futebolístico semelhante, o estádio quase sempre foi cenário de bons resultados para o Grêmio — talvez porque nossa saga guerreira  e imortal esteja sintonizada com aquele ambiente. A conquista do Tricampeonato da Libertadores passou por lá quando jogamos com um time reserva para empatar com o mesmo adversário desta noite, em 2017. Ano passado, ganhamos duas vezes de outro time local.

Hoje, mantivemos a jornada vitoriosa no Chaco em uma partida que se não foi uma batalha daquelas típicas do futebol sul-americano, marcada por violência e deslealdade, foi, certamente, um jogo difícil de se vencer, mesmo que o domínio tenha sido quase todo gremista. 

Nossos guris se impuseram em campo com talento e bom futebol. Por muito pouco, no primeiro tempo, deixamos de abrir o placar. Na defesa, a presença de Geromel eliminava qualquer risco. Nossos volantes triangulavam com Jean Pyerre e lá na frente, Pepê, o Menino Maluquinho, enlouquecia os marcadores. Faltava acertar o “último passe”, como costumam dizer os boleiros e comentaristas.

No segundo tempo, curiosamente, foi quando mais sofremos — momentos em que Vanderlei se agigantou no gol, novamente. A primeira grande defesa foi daquelas de guardar no DVD, em um tiro a queima roupa que ele evitou que chegasse ao nosso gol. Na segunda, encenou uma ponte para a alegria dos fotógrafos e alívio do torcedor gremista. Não bastasse a segurança dele lá atrás, ainda ajudou a colocar o time na frente. Com duas bolas lançadas por Vanderlei, o Grêmio chegou rapidamente ao ataque, surpreendeu a marcação e fez os dois gols que nos deixam muito próximos de mais uma quarta de final da Libertadores.

No primeiro, Pepê, de tão veloz, deixou o marcador com a  cara no chão e Jean Pyerre, de tão técnico, paralisou o goleiro, que teve apenas a oportunidade assistir à bola entrando no fundo do poço, sem se mexer. No segundo, Churín lutou pelo alto e na sobra de bola e com a cabeça conseguiu colocar Pepê na frente do goleiro. A categoria de nosso guri completou para as redes.

A vitória nos dá tranquilidade para o segundo jogo, na Arena. E mostra que o time está amadurecendo no momento certo —- mérito de Renato Portaluppi que completou 383 partidas como técnico do Grêmio, igualando o recorde de Oswaldo Rolla. Nosso treinador, além de deixar sua marca no time, também foi destaque ao lado do campo: vestiu a  camisa 10 da Argentina para homenagear outro craque e seu amigo, Diego Armando Maradona, que se fosse brasileiro jogaria no Grêmio — duvida? Eu não!

Galeano, Piazzola, Blazquez e o grito sonoro do gol para homenagear Maradona

 

Eduardo Galeano, que me inspirou em post anterior, foi resgatado em crônica “O parto”, na qual conta o nascimento de Diego Maradona, no encerramento da edição do Jornal da CBN. Por criação de Paschoal Júnior, ouvimos o segundo e impressionante gol do “Diez” contra a Inglaterra, na Copa do Mundo de 1986, em três vozes: Roberto Hernandes Júnior, do México, Samuel Souza Santos , da Guaíba, e Osmar Santos, na Globo. Tudo sonorizado por Adios Nonino , de Astor Piazzolla Y Eladia Blazquez, com interpretação de Mariana Avena.

As palavras que definem Maradona

Reprodução de vídeo do site Clarín

 

A notícia da morte de Diego chegou em um alerta no celular. Daquela chamada curta que dizia o necessário e definitivo até agora, não tive coragem de escrever uma só linha sobre a morte de “Diez”. Nada que eu pensasse já não haveria de ter sido pensado por gente muito mais habilidosa com as letras. Temos cronistas, esportivos ou não, qualificados para homenagear com seu talento o talento de Maradona. A leitura dos jornais nesta manhã, as publicações na internet e as homenagens no rádio e na televisão deixam isso bem claro. E faço o convite para que você vá na banca mais próxima e compre todas as edições de jornais deste 26 de novembro de 2020 — serão históricas.

Para bloquear qualquer criatividade que me restasse, ainda ouvi a pergunta de minha mulher, na mesa do jantar: “o que o pai escreveria sobre a morte de Maradona?”. O pai ao qual ela se refere é o meu pai, Milton Ferretti Jung, mais conhecido por narrador de esportes e de notícias, mas, também, cronista de qualidade irretocável. Não bastasse o prazer de ouvi-lo interpretando textos que escrevia na rádio Guaíba, de Porto Alegre — preferia datilografar suas ideias no papel em lugar de fazer de improviso, em respeito às palavras –, por algum tempo publicou crônicas nos jornais da Companhia Jornalística Caldas Júnior.

Não me atrevo a arriscar o que o pai escreveria de Maradona, o craque que nasceu na Argentina, país pelo qual ele — o pai — sempre admirou pelas carnes, pelos vinhos, pela cultura, pelas ruas de Buenos Aires e por Maradona, também. No armário, onde ficaram as roupas deixadas pelo pai, quando morreu, no ano passado, encontrei a camisa do Boca Junior — certamente comprada na Bombonera em uma das muitas visitas que fez ao estádio que aplaudiu o futebol de Maradona. Provavelmente escreveria texto memorável e o leria com todas as letras e caprichando na pronúncia espanhola.

Sem palavras — por comedimento, respeito e não me sentir a altura dessa turma boa de cronistas que temos —, recorri a biblioteca que tenho aqui em casa e encontrei o livro “Fechado por motivo de futebol”, de Eduardo Galeano, uruguaio que escreve como poucos sobre a vida e o futebol. Foi Galeano, como lembrado em muitas das reportagens publicadas desde ontem, que definiu Maradona como “o mais humano dos deuses”. No livro, a primeira crônica é Galeano revelando o sonho de ser jogador de futebol; a segunda, é do nascimento de Maradona — que li ao fim do Jornal da CBN, desta quinta-feira; e a terceira é a homenagem eternizada que reproduzo a seguir, porque Galeano, em 221 palavras, fez o que nenhum de nós conseguiria fazer tão bem: descreveu Maradona, do início ao fim.

Nenhum jogador consagrado tinha denunciado sem papas na língua os amos do negócio do futebol. Foi o esportista mais famoso e popular de todos os tempos quem rompeu barreiras na defesa dos jogadores que não eram famosos nem populares.

Esse ídolo generoso e solidário tinha sido capaz de cometer, em apenas cinco minutos os dois gols mais contraditórios de toda a história do futebol. Seus devotos o veneravam pelos dois: não apenas era digno de admiração o gol do artista, bordado pelas diabruras de suas pernas, como também, e talvez mais, o gol do ladrão, que sua mão roubou. Diego Armando Maradona foi adorado não apenas por causa de seus prodigiosos malabarismos, mas também porque era um deus sujo, pecador, o mais humano dos deuses. Qualquer um podia reconhecer nele uma síntese ambulante das fraquezas humanas: mulherengo, beberrão, comilão, malandro, mentiroso, fanfarrão, irresponsável.

Mas os deuses não se aposentam, por mais humanos que sejam.

Ele jamais conseguiu voltar para a anônima multidão de onde vinha.

A fama, que o havia salvo da miséria, tornou-o prisioneiro.

Maradona foi condenado a se achar Maradona e obrigado a ser a estrela de cada festa, o bebê de cada batismo, o morto de cada velório. Mais devastadora que a cocaína foi a sucessoína. As análises, de urina ou de sangue, não detectam essa droga.”