Avalanche Tricolor: em meio a tantas voltas, uma vitória no Olímpico

Ayacucho 1×2 Grêmio

Libertadores — Olímpico Atahualpa, Quito/Equador

Ferreirinha em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Quantas voltas temos de dar para chegar ao que sonhamos. Assim é na vida, na profissão e no amor. Assim também é no futebol. As voltas do Grêmio nesta temporada 2021, começaram mais cedo do que nas anteriores. Até colocarmos o pé no que entendemos por Libertadores propriamente dito, tínhamos que passar por duas etapas de prévias. A primeira despachamos na noite de hoje —- a bem da verdade, despachamos na partida da semana passada quando goleamos de forma consciente o adversário peruano, em casa. 

Para confirmarmos a classificação, tivemos de dar uma volta na pária que o Brasil se transformou no mundo —- na América do Sul, inclusive. Como brasileiro não somos aceitos no Perú, dada a alta carga de contaminação que levamos em nossa reputação bolsonariana. Tivemos de viajar até Quito no Equador, a 2.850 metros de altitude, onde ainda somos aceitos. E em todas essa voltas não é que fomos cair em um estádio com o nome de nosso saudoso Olímpico?

Como prêmio pela classificação quase-antecipada, o Grêmio deu férias a seu elenco principal e sequer enviou Renato para ficar no banco de reservas — a estratégia foi usada para dar outra volta, desta vez no calendário de um futebol insano que não para nem mesmo diante da desgraça alheia. Só aqui no Brasil, somos quase 280 mil que perdemos a vida para a Covid-19, desgraçadamente. 

Em campo, guris escalados, demos a volta no adversário e no placar. Um minuto após tomar o primeiro gol, reagimos. Ferreirinha, após um passe genial do zagueiro Rodriguez, fez a bola dar voltas colada ao seu pé, cortou um, cortou dois e chutou fora do alcance do goleiro. No segundo tempo, já aos 41 minutos, a bola rolou com velocidade pela direita. Léo Chú e Pedro Lucas trocaram passes. O cruzamento chegou rasteiro na pequena área para Ricardinho bater de primeira e decretar a vitória de número 108 do Grêmio, em Libertadores —- é um dos dois times brasileiros com maior número de vitórias na competição. E só eu e você — caro e raro leitor desta Avalanche —- sabemos quantas voltas no continente tivemos que dar para alcançar essa marca, não é mesmo?

Nossa superioridade fez esta primeira volta da Libertadores 2021 ser bastante tranquila. Mas sabemos que foi apenas o princípio de uma jornada que esperamos nos faça colocar as mãos de volta a Taça Libertadores,.

Avalanche Tricolor: a boa safra de Bento

Esportivo 0x2 Grêmio

Gaúcho – Montanha dos Vinhedos

Bento Gonçalves, RS

Lucas Araújo comemora em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Era noite de conhecer gente nova. Bem nova. Coisa que só esse calendário louco do futebol brasileiro é capaz de nos fornecer. Em situação normal de pressão e temperatura, sem pandemia, estaríamos no quarto jogo do Campeonato Gaúcho e com os titulares em campo na campanha do Tetra. Jogamos pela quarta rodada mas era apenas o nosso segundo jogo e disputado entre uma decisão e outra da pré-Libertadores. Tudo isso menos de uma semana depois de nossa última partida válida pela temporada 2020. 

Se assim tem de ser —- e à espera da suspensão dos jogos a medida que o número de casos de Covid-19 só crescem —, era momento de aproveitar para entender quem são os novos guris que podem ficar à disposição de Renato em mais esta atribulada temporada de futebol.

Comecemos no gol. Brenno (21) foi testado duas vezes. A primeira, mostrou agilidade e impediu o gol de empate, no ângulo. Na segunda, segurança e boa colocação. Isso significa que temos um titular? Não, ainda não. Mas que, em breve, bem provado e amadurecido, pode surgir da base o goleiro que procuramos desde a saída de Marcelo Grohe. 

Na frente de Brenno, “velhos” conhecidos: Rodriguez (24) e Ruan (21) — aquele mais do que esse; e os dois precisando ainda contar com a experiência dos mais antigos ao lado. Ser zagueiro exige uma responsabilidade que a juventude nem sempre tem à disposição. Pelos lados do campo, o jovem e talentoso Vanderson (19) e o velho Cortez (34) de sempre

Do meio pra frente, Renato escalou Darlan (22), que já conhecemos o potencial. Depois, Thaciano (25) e Pinares (29) —- este uma esperança de camisa 10 e o outro que faz torcedores exalar ódio contra o técnico, e confesso que não sei por qual motivo. Aliás, foi ele, Thaciano, o Odiado, quem fez o primeiro gol, um golaço de cabeça, ao receber, bem colocado, o cruzamento de Vanderson. Que continue assim. Respondendo com gol e esforço sobrenatural às críticas e aos chatos.

O ataque gremista teve Gui Azevedo (19), Léo Chu (20) e Isaque (23) — uma formação diferente da que estamos acostumados. Guilherme dá sinais de que pode se revelar em 2021; Léo, pelo lado esquerdo, criou esperanças de uma ótima opção; e Isaque já conhecemos bem e estamos sempre na expectativa de que poderá fazer ainda mais do que fez até aqui.

Vieram do banco dois nomes que prometem excelente futebol: Lucas Araújo (21) e Léo Pereira (20). Foram deles o protagonismo do segundo gol quando o time cedia campo ao adversário. No passe de Lucas, Léo teve lance de gol interrompido pelo goleiro, em pênalti que o primeiro cobrou muito bem. 

Resumo da opereta de sábado à noite: surge um goleiro, o bom toque de bola prevalecerá, temos gente de talento e, também, quem saiba bater pênalti. Inspirado com o que assisti na Montanha dos Vinhedos — nome bonito de mais para um estádio vazio e sem graça —- restou-me fechar a noite com uma boa garrafa de vinho ao lado. Era de Bento e de boa safra —- como os guris que se apresentaram em campo.

Avalanche Tricolor: quero ver o WhatsApp do Teco bombando neste ano

Grêmio 6×1 Ayacucho

Libertadores – Arena Grêmio, POA/RS

Diego Souza em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

“Vai dormir” foi a resposta de meu amigo Luiz Gustavo Medina, o Teco, à terceira imagem de Diego Souza que enviei para ele pelo WhatsApp, nesta noite de quarta-feira. Claro que não fui. A começar pelo fato de que sequer nos piores momentos da nossa equipe dormi antes do apito final. É questão de honra acompanhar meu time até o fim

Jamais fui torcedor modinha — aquele que só aparece na hora do bem bom. Sofro, choro e me despedaço, seja qual for o resultado. Sou torcedor de todas as horas. Imagine se não o serei diante de uma goleada como a que marcou nossa estreia na Libertadores 2021. Fiquei acordado até o minuto final —- no caso, até os cinco minutos extras finais, assim determinados pelo árbitro da partida.

Você, caro e raro leitor desta Avalanche, deve estar se perguntando: o que o Teco tem a ver com isso? Eu explico. Desde que soube que o filho dele, o Gu, o mais jovem e o que mais números de gols marcou na família, era fã de Diego Souza, adotei o hábito de enviar pelo WhatsApp uma imagem de nosso atacante sempre que ele marcasse um gol com a camisa do Grêmio. Na temporada 2020, que se encerrou domingo passado, em pleno março de 2021, foram 28 ou 29, se não me falha a memória (confirma aí PVC).

Hoje, mandei a primeira imagem na cobrança de pênalti. A segunda, em uma bola que Diego Souza finalizou após atropelar os marcadores. E a terceira, já no segundo tempo, resultado da força e talento para concluir nas redes.  Foi após esse último gol que Teco me mandou para cama. Claro que não fui. Jamais desperdiçaria essa oportunidade de assistir ao Grêmio golear seu adversário. Nesta noite, repetimos o mesmo placar da maior goleada que havíamos alcançado, em Libertadores — contra o Universidad Los Andes, da Venezuela, em 1984.

Confesso que fiquei cabreiro com a forma como ele comemorou cada um dos gols. Acostumado a vê-lo dançando dentro das redes, me pareceu comedido. Quase como se estivesse ali fazendo apenas a sua obrigação. Como se o resultado nada representasse aos gremistas, afinal estamos acostumados mesmo a começar na fase de grupos da Libertadores e não nesta tal pré-Libertadores. Fiquei mais tranquilo quando o vi, no fim do jogo, pedindo a bola da partida para levar para a casa. Foi sinal claro da importância que Diego Souza deu ao seu desempenho — e a de seu time — afinal marcar três gols em jogos de Libertadores é pouco. Fazer 6 a 1, é ainda mais raro.

Além de Diego, marcaram David Braz — da velha guarda —, Ferreirinha e Gui Azevedo — dos novos talentos. Tivemos, também, excelente presença em campo de Pinares, o chileno que começa a ganhar espaço na equipe principal com passes precisos e uma entrega de causar orgulho na gente gremista.

Independentemente da qualidade do adversário, é animador começar com uma goleada a temporada 2021. E, a persistirem o sintoma, o WhatsApp do Teco vai bombar neste ano.

Avalanche Tricolor: no limite

Palmeiras 2 (€112,88mi) x 0 (€75,15mi) Grêmio

Copa do Brasil — Allianz Parque, SP/SP

Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Times têm limites. Podem ser técnicos; podem ser financeiros — em geral, o segundo leva ao primeiro. Há limites físicos, também. De talentos. E de visão estratégica. Dentro desses limites, cada time oferece o que pode ao seu torcedor. Às vezes, vai além de suas capacidades. Se supera. Surpreende o adversário. Alcança o impossível. O futebol nos dá essa oportunidade.

O Grêmio por muitas vezes foi além do que era capaz. Se superou. Da superação fez história e ao escrevê-la ganhou o apelido de Imortal. É essa história que nos faz gremista. É na lembrança de títulos improváveis; de resultados imprevisíveis; e de jogadores que conseguiram ser muito maiores do que eles próprios imaginavam que alimentamos nossa esperança a cada ano que se inicia.

Na atual e acidentada temporada de 2020, que só se encerrou neste primeiro domingo de março de 2021, fomos campeões gaúchos —- tri —-; avançamos bem na Libertadores, até o tropeço das quartas-de-final — muito mais dolorido do que poderia ter sido; fizemos um Campeonato Brasileiro mediano —- bem aquém das nossas possibilidades;  e chegamos à final da Copa do Brasil. 

Esperar muito mais do que isso —- e a gente sempre espera —– é esquecer dos limites deste time e do seu caixa; dos percalços fora de campo que limitaram a recuperação física de jogadores importantes, especialmente Geromel, um pilar da nossa defesa; e do desempenho abaixo da crítica de alguns talentos nos quais depositávamos confiança. 

Semana passada já havia compartilhado com você, caro e raro leitor desta Avalanche, que considerava a manutenção de Renato no comando da equipe a maior vitória que estava ao nosso alcance. O risco de uma temporada ruim, sem título nacional ou sul-americano, era jogar fora tudo que se construiu ao longo do tempo. Este erro poderia custar muito caro na temporada que, lembremos, já se iniciou com partida no meio da semana passada pelo campeonato estadual e terá decisão na quarta-feira próxima, na pré-Libertadores.

Renato terá, e sabe disso, que renovar a equipe, mudar peças chaves, abrir mão de alguns jogadores que levantaram troféus nos últimos quatro anos e meio, chacoalhar garotos que têm talento mas parecem amortecidos em campo e soltar a rédea daqueles que vêem da base e pedem passagem. Terá ainda de contar com contratações muito bem calculadas, que caibam no caixa do time e façam diferença em posições estratégicas. 

Em 2021, mais uma vez nosso desafio é superar os limites.

Avalanche Tricolor: uma estreia para respirar aliviado

Grêmio 4×1 Brasil RS

Gaúcho – Arena Grêmio

Foto Lucas Uebel Grêmio FBPA

Quase um ano após uma sequência de sufocos, sofrimentos e empates, bem que eu merecia assistir à tranquilidade de uma partida como desta noite, que marcou a estreia do Grêmio no Campeonato Gaúcho de 2021. Sim, o ano de 2020 ainda não se encerrou —- domingo temos a final da Copa do Brasil — e o ano novo do futebol já se apresenta com a mediocridade de sempre das competições estaduais.

Neste ano ao menos não teremos o que reclamar do público que costuma só se apresentar nas partidas finais —- e com toda razão. Com a Covid-19 influenciando comportamentos e escalações, as arquibancadas seguirão vazias no Gaúcho. De resto, é aquele jogo de futebol sem o glamour das competições principais. Não tem bola no pedestal para a entrada dos times no gramado.  Não tem banner com patrocinador fazendo cenário para a entrevista no intervalo. Não tem VAR para aliviar a culpa do árbitro. É futebol raiz, como costumam dizer. 

Independentemente das condições e do adversário, como disse na abertura desta Avalanche, eu e toda a torcida gremista estávamos mesmo precisando de um dia de calma. Com gol logo no início da partida e goleada antes de o intervalo chegar, respiramos aliviados mesmo com um time bastante modificado e a presença de vários jovens recém-saídos da base. Lucas Silva fez de pênalti, Ferreirinha de cabeça, Guilherme Azevedo só completou para as redes e Isaque eliminou qualquer risco de reação.

Para mim, por curiosidade que seja, nem era jovem nem marcou gols o jogador que mais se destacou: Pinares, chileno, prestes a completar 30 anos, que chegou com boa fama por ser titular da seleção do Chile, mas que teve poucas oportunidades na temporada, fez um partidaço, tomando conta do meio de campo, dominando a bola com qualidade e metendo duas assistências para consagrar os atacantes. 

Nem Pinares nem outro de seus companheiros desta noite devem sair jogando no domingo quando decidiremos o título da Copa do Brasil de 2020. O time de Renato já está escalado e teve uma rara semana de preparação, avaliação de erros, correção de problemas e mobilização interna. O desempenho nessa estreia e a goleada conquistada, porém, são importantes para desanuviar o ambiente pesado dos últimos tempos. Assim como é motivador saber que, independentemente do que acontecer domingo —- e torço para que o melhor se realize —- Renato permanecerá no comando da equipe.

Avalanche Tricolor: não vai deixar saudades

Bragantino 1×0 Grêmio

Brasileiro — Nabizão, Bragança Paulista/SP

Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Cuspida e escarrada! A última rodada foi a cara do Campeonato Brasileiro, que, ao longo da temporada, desdenhou a gravidade da pandemia, teve jogos suspensos devido a “contaminação em rebanho” em alguns times, jogadores expostos a risco e traduzindo essa apreensão no campo com performance abaixo da esperada, estádios com arquibancadas vazias e com aglomeração de torcedor do lado de fora.

O Covidão-2020, apelido que meu amigo Juca Kfouri deu ao campeonato, terminou sem direito a gol do título. O campeão perdeu na partida final, marcando uma campanha claudicante o suficiente para superar em pontos ganhos todos os demais adversários. Quem poderia ser campeão em lugar do campeão, não foi capaz de vencer mesmo jogando em casa e contra um time que nada mais tinha a ganhar. Quase ganhou, mas o VAR impediu que a injustiça fosse concretizada, primeiro em um pênalti sinalizado pelo árbitro, que voltou atrás ao ser chamado para rever na televisão, ao lado do campo, e depois em dois gols marcados em posição de impedimento, que foram anulados com o certificado do VAR.

Quem diria, depois de uma competição em que faltou verificação do VAR, houve erros com o apoio do VAR e descobrimos que o VAR só funciona se estiver bem calibrado, foi o VAR quem salvou a lisura do resultado nos acréscimos do Campeonato. Nesse caso, justiça seja feita, o auxiliar sinalizou a irregularidade do gol e se não foi agredido — como ameaçaram alguns jogadores — deve agradecer ao VAR que ele, aos gritos, anunciava que seria consultado.

Sem gol do título, sem torcida, sem futebol qualificado e com Covid-19, o Campeonato Brasileiro terminou com o mesmo campeão da temporada anterior. Ou seja, enfrentamos toda essa maratona para entregar o título ao mesmo time. Pode isso, Juca?

E se estou aqui a falar de dois jogos que não tinham a presença do Grêmio, protagonista de sempre nesta Avalanche, é porque nada tenho a registrar do desempenho do meu time na rodada final da competição.

O Campeonato Brasileiro de 2020, que já vai tarde, não me deixará saudades.

Avalanche Tricolor: na Libertadores de novo

Grêmio 1 x 0 Atlético PR

Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre

Thaciano comemora em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

“Nem sempre ganhando nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar” —- cantava Elis Regina, gremista de nascença, em uma de suas letras mais conhecidas. Nem sei bem porque, mas lembrei-me da música assim que sentei para escrever esta Avalanche de um jogo que fui impedido de assistir na televisão. É inacreditável que com a quantidade de plataformas que temos à disposição, ainda existam partidas de futebol profissional disputadas às cegas, no Brasil.

Hoje, no fim da tarde de domingo, ganhamos uma partida que, contaram os narradores e comentaristas do rádio, não teve muitas emoções. Alguns poucos lances de ataque, arriscadas de Ferreirinha pela lateral em dribles com a bola colada no pé, um chute colocado de Jean Pyerre, e a força de Churín e Thaciano, que juntos protagonizaram o único gol da partida já no segundo tempo. Foi o suficiente para marcarmos mais três pontos na tabela de classificação e nos levar de volta a Libertadores.

Por linhas tortas minha memória me remeteu a voz de Elis, imagino,  porque mesmo como um campanha capenga o Grêmio alcançou mais uma marca na sua história: garantiu presença pela sexta vez consecutiva na competição. É a vigésima-primeira vez que disputará a Libertadores — só mais dois times brasileiros estiveram tantas vezes por lá —, a qual vencemos em três oportunidades, a última em 2017. Nesta temporada, que ainda não se encerrou, botamos o pé na Libertadores com uma sequência monótona de empates, 17 até aqui. Ou seja “nem sempre ganhando nem sempre vencendo, mas aprendendo a jogar”, como cantava Elis.

É por saber jogar e decidir que, mesmo diante de performances distantes do que nos acostumamos a ver nos anos anteriores, estamos na Libertadores de novo e ainda confiamos que Renato será capaz de reorganizar o time para o último desafio que temos neste ano de 2020, que teima em permanecer entre nós: a Copa do Brasil.

AvalancheTricolor: o WhatsApp do Diego Souza

Grêmio 1×2 São Paulo

Brasileiro — Arena Grêmio

Diego Souza comemora seu 28º gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

 

Eita aninho mala esse que não termina! A gente está encerrando a primeira quinzena de fevereiro de 2021 e 2020 ainda não foi embora. Sem contar este Carnaval sem graça. Que me perdoem os caros e ainda mais raros leitores foliões desta Avalanche: essa história de festa em laive —- como escreve meu cronista Artur Xexeo —- é pra folião dormir, né. Vestir uma fantasia, levantar o som do notebook, jogar confete, gliter e serpentina para o alto e dar seus pulinhos na sala de casa, é muito sem graça. Não que eu seja desses que curte ir para a avenida, desfilar no bloquinho ou assistir à desfile na televisão. Mas gosto de saber que as pessoas reservam essa data para extrapolar e se divertir. E fico triste ao ver que a turma este ano teve de conter a folia.

No futebol, a coisa também não está das melhores. Exceção àquele campeonato estadual lá no início de 2020, o resto foi uma sequência de frustrações. Até vimos momentos de esperança, mas a frequência com que empatamos ou desperdiçamos pontos nos fez patinar no Campeonato Brasileiro e nos eliminou na Libertadores. Que a Copa do Brasil reverta essa expectativa!

Das pouca diversões que o futebol me ofereceu neste ano interminável, foi saber que o filho do meu querido amigo Luiz Gustavo Medina é fã de Diego Souza —- vista qual camisa esteja vestindo. Foi daí que surgiu minha ideia: a cada gol marcado por nosso atacante, fotografo a comemoração da tela da TV e envio a imagem pelo WhatsApp para o Teco. Até esta noite, foram 28 fotos enviadas —- poucos centroavantes seriam capazes de me proporcionar tantas imagens em um só ano. Pena que não basta um Diego Souza no time para resolver todos os nossos problemas. E ainda bem que o Teco se conteve e não me retribuiu com uma foto do Luciano.

Avalanche Tricolor: xô, zica!

Botafogo 2×5 Grêmio

Brasileiro – Nilton Santos, RJ/RJ

Matheus comemora o 5º gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Fizemos 5 gols. Tomamos 2. Fizemos de bola tocada, de bola colocada e de falta cobrada. Teve gol de Churín. Gol de pênalti. Gol de Jean Pyerre. De falta. Teve o primeiro do Alisson. E os dois últimos do Matheus Henrique. Do último, tiro inspiração para esta crônica. 

Já com a braçadeira de capitão —- legado de Maicon que havia saído mais cedo —-, nosso camisa 7 marcou o quarto gol gremista depois de uma assistência de Isaque, aos 27 do segundo tempo. Da entrada da área e com a defesa no meio do caminho, encontrou um espaço para colocar a bola com classe na rede adversária. Foi um gol importante porque pouco antes havíamos levado o primeiro e, apesar de ainda estar 3 a 1, a saga de empates que marcou nossa jornada na temporada voltava a fazer sombra.

Se no primeiro que fez a comemoração foi tímida, no segundo, Matheus revelou o peso que estava sobre os seus ombros —— o mesmo que pesa nos ombros de toda a equipe. Aos 32, após mais uma assistência de Isaque, desta vez de calcanhar, Matheus entrou na área conduzindo a bola até encontrar o gol. Na festa, fez aquele movimento com as mãos sobre o próprio corpo que, em bom português, significa: “xô, zica!”

Zica tem diversos significados aqui no Brasil.

É nome do vírus que nos assustou anos antes da Covid-19. É como, em alguns estados, descrevemos jovens descolados, com estilo próprio, que têm a capacidade de fazer coisas que fogem do nosso comum. Matheusinho —- é assim que locutores de futebol gostam de chamá-lo para revelarem uma intimidade inexistente —- pode ser considerado um moleque zica ou um guri zica, apesar de a gíria não ser própria do Rio Grande. Naquele momento do gol, do seu segundo gol, a zica que Matheus queria afastar nem era uma nem era outra. Era a zica que vem acompanhada pelo azar, pelos lances de infortúnios, pelo tanto de coisa ruim que se acumula em um determinado momento de nossa vida.

O quinto gol gremista definiu o placar e encerrou uma interminável trajetória sem vitórias neste ano de 2021. Já passava de um mês desde a última conquista, em 6 de janeiro. De lá para cá, além de resultados doloridos e pênaltis esquisitos, tivemos um amontoado de empates que nos fizeram patinar na subida ao topo da tabela do Brasileiro, momentos depois de uma arrancada que chegou a nos dar alguma esperança.

A despeito da capacidade do adversário,  tão abatido quanto rebaixado, que os gols de Alisson, de Jean Pyerre, de Churín, de Matheus Henrique, de pênalti, de falta, de bola passada e bola colocada, nesta noite de segunda-feira, sejam os gols que nos livraram da zika que carregamos nesta ano e marquem a virada de expectativas para as três rodadas finais do Brasileiro —- que ainda podem nos devolver, pela porta da frente, a Libertadores —- e nas duas partidas finais da Copa do Brasil.

Xô, Zica!

Avalanche Tricolor: entre saudades e injustiças, mais um empate

Grêmio 3×3 Santos

Brasileiro —-Arena Grêmio

Pepê volta a marcar, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Diego Souza marcou seu gol. O Grêmio tomou os seus. Tantos quantos eram suficientes para alcançar o décimo-sétimo empate no Campeonato Brasileiro e a sétima partida sem vitória. De tantos jogos empatados, podemos até separá-los por categorias: o merecido, o conquistado, o enjoado , o irritante …. o de hoje está na categoria do injustiçado.

Pela primeira vez neste ano vi a bola ser tocada de pé em pé desde o primeiro minuto de jogo. Bola que era passada na mesma velocidade com que nossos jogadores se deslocavam para recebê-la.

Foi assim no primeiro minuto de partida quando desperdiçamos o primeiro lance de gol. Foi assim especialmente no início do segundo tempo quando ampliamos o placar com mais dois gols de videogame. É como a gurizada se refere a esses lances em que a precisão do passe e do movimento é tal que só pode ter sido projetada em computador. Ledo engano. Lances assim são frutos da genialidade, só possível se protagonizados por seres humanos, craques humanos.

Que saudade que eu estava de assistir ao Grêmio jogando bonito. De Jean Pyerre passando no espaço infinito. De Pepê aproveitando-se da velocidade para surpreender o adversário. De Diego Souza concluindo a gol —- ops, sejamos justos com nosso goleador, ele tem entregue o que prometeu e chegou hoje a marca de 12 gols no Brasileiro e 27 na temporada. É a mais grata surpresa de 2020, um ano que ainda não acabou.

Fazia tempo que o Grêmio não jogava bem. E, por isso, o empate desta quarta-feira à tarde já mereceria seu registro na categoria dos injustos. Infelizmente, outros elementos surgiram para que essa sensação se expressasse em indignação. A marcação de dois pênaltis —- um em que Matheus Henrique foi forçado por trás e o outro em que a regra do pênalti foi esquecida pelo árbitro e seus amigos do VAR (copio a seguir o texto para quem tiver dúvidas) — e a falta de avaliação no lance do primeiro gol do adversário foram revoltantes, no factual e no contexto.

Sim, no jogo determinaram o resultado e no campeonato se somaram a uma série de decisões sem critério que tiveram seu ápice naquela partida que perdemos para você-sabe-quem, após um pênalti não sinalizado contra nós e outro, polêmico, marcado para eles. Uma sequência de erros e incoerências que não será suficiente para encobrir a queda de rendimento de um time acostumado a lutar pela vitória e pelos primeiros lugares em todas as competições das quais participa. Digo isso para você — caro e raro leitor —- não pensar que sou incapaz de observar nossas fraquezas nesta temporada. 

Tenho saudades daquele tempo —- não muito distante —- em que éramos suficientes para driblar o adversário e a incompetência da arbitragem, e conquistarmos os títulos almejados. Hoje, sequer conseguimos superar nossos próprios problemas. Que essa saudade se desfaça quando março e a decisão da Copa do Brasil chegarem.