Avalanche Tricolor: vamos ao que importa

Ypiranga 0x1 Grêmio
Gaúcho – Colosso da Lagoa, Erechim/RS

Monsalve comemora o gol da vitória. Foto: LucasUebel/GremioFBPA

Com um time modificado e injustiçado, o Grêmio encerrou a fase de classificação do Campeonato Gaúcho com vitória e garantiu a terceira melhor campanha da competição. A maioria dos titulares ficou em Porto Alegre, enquanto o técnico Gustavo Quinteros já planejava a estreia na Copa do Brasil e, principalmente, ajustava a equipe para o restante da temporada. Os reservas que estiveram em Erechim precisaram superar, além da falta natural de entrosamento, um erro crasso da arbitragem – cometido em conluio com o VAR – que resultou na injusta expulsão de João Lucas ainda no primeiro tempo.

Apesar dos erros e tropeços no gramado ruim do Colosso da Lagoa, o time fazia um primeiro tempo de pressão, desarmes precisos e ataques constantes. Mesmo com um jogador a menos, desde os 25 minutos do primeiro tempo, surpreendeu o adversário ao manter a marcação firme e aproveitar melhor os contra-ataques. A maturidade da defesa, mesmo composta por jovens jogadores, foi uma das boas surpresas da noite. O volante Camilo chamou atenção pelo equilíbrio entre marcação forte e presença ofensiva.

O destaque – e sem nenhuma surpresa – foi Monsalve. Responsável por distribuir o jogo, ele protagonizou o belo e único gol da partida. Recebeu a bola de Aravena em um contra-ataque e, quando a jogada parecia perdida, driblou os marcadores e o goleiro antes de finalizar para as redes.

A vitória não alterou o caminho do Grêmio na fase de mata-mata. O time terá de decidir a vaga na final fora de casa, contra o Juventude, e só poderá conquistar o octacampeonato na Arena se o Caxias avançar na outra chave. Confesso que essa questão pouco me interessa.

O que realmente importa é que o Grêmio chega à fase decisiva mais estruturado e reforçado do que no início do ano. As contratações feitas na reta final da janela de transferências são um alento para o torcedor. Especialmente os reforços para a zaga e a lateral-esquerda trazem a esperança de que o problema defensivo, tão evidente nas últimas duas temporadas, enfim será resolvido. Do meio para frente, o time também se fortalece, com volantes de marcação e atacantes velozes.

A diretoria atendeu aos pedidos de Quinteros, que terá pouco tempo para entrosar a equipe com os novos jogadores, mas, ao menos, enfrentará os jogos decisivos com mais opções no elenco. A expectativa pelo octacampeonato está mais bem alicerçada e deixa de ser apenas um sonho de verão. E que verão é esse que o Rio Grande do Sul enfrenta, caros – e cada vez mais raros – leitores desta Avalanche?

Avalanche Tricolor: BaitaWaite!

Grêmio 5×0 Pelotas
Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Foto: Lucas Uebel

Martin Braithwaite chegou ao Grêmio no ano passado com uma tarefa ingrata: substituir Luis Suárez — afirmação que dispensa explicação. O dinamarquês logo chamou atenção do torcedor, assim como dos colegas e jornalistas que acompanham o dia a dia do clube. Seu comprometimento com o time era evidente dentro e fora de campo — e olha que o atacante pegou o Grêmio em uma temporada bem complicada.

Partida após partida, Braithwaite, aos 33 anos, tem se revelado melhor e maior. Está longe de ser aquele centroavante que fica cravado entre os zagueiros à espera de uma bola para decidir o jogo. Desloca-se o tempo todo, comanda o ataque e orienta o meio de campo. Leva os zagueiros de um lado para o outro, abrindo espaço para os companheiros na área. Assim como cede a bola nas assistências, também surge para recebê-la em condições de chutar ao gol. Também bate bem pênalti como vimos no fim de semana, no Gre-Nal.

Antes do primeiro gol gremista, nesta terça-feira à noite, Braithwaite já havia propiciado dois ou três lances interessantes com passes velozes e talento no toque de bola. Os dois gols que ele marcou, sacramentando a vitória gremista ainda no primeiro tempo, demonstraram outra qualidade do atacante: o tempo certo para saltar e se impor sobre os zagueiros na bola aérea. Fez os dois gols de cabeça depois de receber cruzamento qualificado de Edenílson.

O início de temporada de Braithwaite nos permite ter esperança de que o ano seja promissor, à medida que Gustavo Quinteros ajuste a movimentação da equipe, especialmente no meio de campo, e equilibre o ataque, que tem funcionado melhor pelo lado direito.

Independentemente do que venha por aí, arrisco dizer que esse dinamarquês, com visual de viking e movimentação de craque, é um BaitaWaite — com o perdão do trocadilho.

Avalanche Tricolor: sobreviver ao Gre-Nal não é o bastante

Grêmio 1×1 Inter
Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Há anos longe de Porto Alegre, assistir ao Gre-Nal à distância me poupa da tensão pré-clássico. Mas só até certo ponto.

Deixo de vivenciar a agitação que toma conta da cidade natal. Chego à padaria — aqui isso é uma instituição — e ninguém está falando do que acontecerá no fim de semana em Porto Alegre. No máximo, Françoise, que me traz o pão na chapa com uma xícara de expresso duplo, pergunta: “Como está o gremista?”, mais para demonstrar intimidade do que por real preocupação com o risco iminente.

Nas ruas de São Paulo, o desfile de camisas de futebol não segue a moda gaúcha, em que a tricolor e a encarnada dividem espaço no ponto de ônibus, na porta da escola ou nos centros comerciais. No escritório — no meu caso, a redação — o Gre-Nal é raramente mencionado entre os colegas. Quando muito, surge em um breve comentário do único conterrâneo que, para meu infortúnio, torce para “eles” — por isso, o evito.

O clássico gaúcho costuma se apresentar para mim durante os bate-papos esportivos no programa que apresento, quase como uma galhofa dos amigos comentaristas. Afinal, eles têm de se preocupar mesmo é com o que vai acontecer no Campeonato Paulista ou no Carioca. Sou alcançado pelos sentimentos que nos movem às vésperas do Gre-Nal principalmente pelas mensagens nas redes sociais ou no grupo de WhatsApp que reúne torcedores e ex-jogadores, do qual faço parte. Esse cenário me deixa imune a boa parte das polêmicas e discussões que inflamam a cidade na semana do clássico.

Mas, à medida que o horário da partida se aproxima, a ansiedade toma conta dos meus pensamentos. O torcedor que vibrou no Olímpico Monumental ressurge, esquecendo a racionalidade e se entregando à adrenalina do clássico. Diante da bola que cruza a área do meu time, estico a perna no sofá para fazer o papel que os zagueiros deixaram de cumprir. A tentativa de cabeceio do meu atacante é acompanhada pelo movimento do meu corpo. E os dedos das mãos deslizam pelos cabelos, percorrendo da testa à nuca, em repetidos gestos que revelam a tensão.

No sábado à noite, tudo isso se manifestava diante da televisão, que exibia um time ainda claudicante: abrindo mão da troca de passes no meio de campo, esticando muitas bolas para o ataque e aproveitando pouco as raras chances de gol. Na defesa, cada chegada do adversário parecia um perigo iminente, apesar de algumas boas intervenções de Gabriel Gandro, goleiro que ainda se esforça para ganhar a confiança do torcedor.

A partida ficou menos tensa depois da parada para que a regra fosse cumprida. E aqui um parêntese: apesar de meus colegas jornalistas — e aparentemente Roger, também — terem tratado com surpresa o regulamento que pune o técnico sempre que alguém da sua comissão é expulso, essa regra já está prevista há alguns anos no futebol gaúcho.

No segundo tempo, as chances apareceram com um pouco mais de insistência, a ponto de termos forçado um pênalti bem marcado pelo VAR — o que fez calar alguns amigos que me escrevem com teorias da conspiração de que toda a decisão dos árbitros é contra o nosso time. Isso também faz parte da tensão do Gre-Nal, eu sei.

O pênalti premiou o melhor jogador do Grêmio na atualidade. Martin Braithwaite marcou seu primeiro gol em um Gre-Nal com uma cobrança segura. Nosso atacante passou o clássico em busca de um companheiro que se aproximasse, tabelasse, surgisse para receber a bola e devolvê-la em condições de chute. Encontrou poucos e teve de se virar por conta própria. Talvez o lance mais interessante, além do gol, tenha sido os dribles na lateral do campo, onde deixou três marcadores para trás — a ponto de gesticular para os adversários, como quem pergunta: “Quem é o próximo?”. Sim, Gre-Nal tem dessas coisas, e a gente gosta.

A lamentar que as previsões de que nossa defesa não resistiria à pressão de um adversário um pouco mais calibrado nos chutes (ou cabeceios) tenham se confirmado. Menos de um minuto depois da euforia do gol e da esperança de que, talvez, desta vez, a eficiência superaria a técnica, fomos castigados por mais uma falha de marcação.

O empate final me deu a sensação de que apenas sobrevivemos ao Gre-Nal, e isso não me agrada. Imagino que também não tenha atendido às expectativas de Gustavo Quinteros. O novo técnico ainda tem muito trabalho pela frente e já percebeu que o Grêmio precisa melhorar consideravelmente se pretende conquistar, ao menos, o Octacampeonato nesta temporada.

Avalanche Tricolor: choque de realidade na hora certa

Juventude 2×0 Grêmio

Gaúcho – Alfredo Jaconi, Caxias do Sul RS

Arezo em tentativa de ataque é destaque em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Jogar às dez da noite pelo Campeonato Gaúcho é proibitivo. Protesto feito, vamos ao que interessa: a desinteressante performance gremista contra o primeiro time da Série A que enfrentou na temporada.

Chegamos à partida na Serra Gaúcha após uma sequência de vitórias, goleadas e novidades na forma do time se movimentar em campo. Havia entusiasmo nas arquibancadas, especialmente pelas mudanças de comportamento de alguns jogadores sob novo comando.

Na última edição desta Avalanche, alertei o caro e cada vez mais raro leitor, citando minha mãe, Dona Ruth: “Devagar com o andor que o santo é de barro”. A temporada estava apenas no início, e os adversários eram, em sua maioria, de divisões inferiores – constatação feita sem desrespeito, apenas baseada na posição deles no ranking nacional. A superioridade gremista era evidente e justificável.

Diante disso, o confronto desta quarta-feira trouxe um choque de realidade. Mesmo sem o time titular, o Grêmio enfrentou uma equipe mais bem organizada, que marcou a saída de bola, jogou com velocidade e mostrou talento. O resultado? O time tricolor foi inferior e incapaz de resistir à pressão, apesar de ter desperdiçado algumas boas oportunidades no primeiro tempo. Sofreu seus dois primeiros gols na competição, fruto de falhas na marcação que passaram despercebidas nos jogos anteriores muito mais pela fragilidade dos adversários do que por méritos defensivos do Grêmio.

Essa foi uma dura realidade para o Grêmio – e não deve ser ignorada. A boa notícia é que veio na hora certa. Quinteros, diante do que assistiu, poderá ajustar a equipe para o Gre-Nal, que, afinal, é o que realmente importa.

Avalanche Tricolor: entusiasmado mas sem jamais esquecer a recomendação da Dona Ruth

Grêmio 5×0 São Luis
Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Braithwaite marcou o quinto gol. Foto: Lucas Uebel/GremioFBPA

Devagar com o andor que o santo é de barro. Era o que ouvia da Dona Ruth sempre que eu me empolgava demais na adolescência — fosse por uma paixão arrebatadora ou por uma performance de excelência nas primeiras notas do boletim escolar. Na juventude, é comum exagerarmos nos sentimentos e palavras. O recém-conhecido vira amigo para a vida toda, a música da banda preferida é a melhor de todos os tempos, e ninguém neste planeta será capaz de superar meu time do coração.

Muitos gremistas estão vivendo esse momento de empolgação, após apenas quatro rodadas do Campeonato Gaúcho sob o comando de Gustavo Quinteros. Depois daquela estreia pouco inspirada, engatamos três vitórias seguidas, aplicamos duas goleadas e não sofremos um só gol. Marcamos 12.

Além disso, a mudança de atitude de alguns jogadores tornou o time mais forte no ataque e mais sólido na defesa.

De Villasanti não precisamos falar: o capitão e volante mantém um equilíbrio impressionante entre defesa e ataque. Braithwaite não só faz gols e dá assistências, mas também ajuda o jogo a fluir com uma dedicação que contagia os companheiros. Cristaldo tem aparecido mais na área e foi avassalador nesta tarde de sábado — quase fez um hat-trick no primeiro tempo. Na direita, Pavon se destaca na movimentação e nos cruzamentos. Na esquerda, o jovem Aravena arrisca dribles sem exagero e distribui assistências precisas. Para completar, ainda balançou as redes.

Os que vieram do banco também fazem a diferença: Monsalve é preciso no passe e ainda marca gols, e Edenilson parece outro jogador, irreconhecível em relação ao de 2024. Há também Gabriel Mec, o guri de 16 anos que todos querem ver deslanchar com seu talento.

Com um time desses, a empolgação é inevitável. Mas como diria a Dona Ruth, é melhor irmos devagar com o andor… até porque os adversários de verdade só enfrentaremos nas duas próximas rodadas.

Avalanche Tricolor: Grêmio joga leve, vence bem e até o cusco dá show

Grêmio 3×0 Monsoon
Gaúcho – Estádio do Vale, Novo Hamburgo (RS)

Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Antes de mais nada, meu protesto: jogo do Campeonato Gaúcho às dez da noite de uma quarta-feira deveria ser proibido — especialmente se esse jogo é sempre do seu time.

Ainda bem que o Grêmio tornou menos árdua a tarefa de assistir à partida até depois da meia-noite. E o fez jogando um futebol leve, com boa movimentação no ataque, troca de passes eficiente e uma defesa segura. Até chegou a assustar o torcedor nos primeiros segundos, com a falha de marcação do estreante Cuéllar, mas o gol não saiu porque o atacante adversário estava impedido.

A partir daquele instante, o Grêmio colocou a bola no chão e, mesmo com um time bastante modificado em relação à partida anterior, esboçou o estilo de jogo que Gustavo Quinteros busca nesse começo de trabalho. Sem cair na ilusão típica de início de temporada, arrisco dizer que nosso técnico está moldando um time mais bonito e produtivo do que no ano passado, mesmo com um elenco aparentemente mais enxuto.

É cedo para uma análise definitiva — especialmente vinda de mim, mais torcedor do que entendedor. Sabemos que o time precisa de reforços, principalmente na defesa. Também falta enfrentar adversários mais qualificados para um teste real. Mas o fato é que, até aqui, o Grêmio tem entregado bons resultados com bom futebol.

Arezo marcou seus dois primeiros gols com a camisa tricolor; Monsalve mostrou qualidade no toque de bola no meio de campo; Edmilson jogou intensamente; Aravena se movimentou bem, apesar de desperdiçar algumas chances; André Henrique deu sinais de que pode ser um jogador importante para o grupo e ainda deixou o dele. E teve também Gabriel Mec, estreando no time principal aos 16 anos.

Tudo isso faz valer a pena dormir apenas quatro horas antes de encarar a quinta-feira de trabalho.

Ah, e não podemos esquecer: três jogos sem sofrer gols e, de quebra, a diversão de ver um cusco driblando jogadores e gandulas ao invadir o campo no primeiro tempo.

Avalanche Tricolor: a ilusão que nos move

Grêmio 4×0 Caxias
Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

Pavon comemora em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O apito final mal havia soado, e a avalanche de mensagens já rolava pelo WhatsApp, inundando as telas com euforia gremista. “O que faz a mão de um técnico!”, exclamava um amigo. “Imagina quando os reforços chegarem?”, arriscava outro, cheio de esperança. Eu, no entanto, observava tudo de longe, entre um sorriso discreto e uma dose de ceticismo. Talvez seja a idade ou os muitos campeonatos que me ensinaram que a alegria no futebol, assim como a bola, sempre gira.

Cético como nunca antes, mesmo diante da empolgação contagiante de meus companheiros de torcida, optei pelo silêncio. Não fui ao computador para conversar com você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, como costumo fazer ao fim das partidas. Na estreia, deixei de escrever porque achei que seria um desperdício de sono. A atuação pífia não merecia palavras. Já na noite de domingo, mesmo diante da goleada, decidi adiar o prazer de escrever. Não queria me render ao excesso nem ser cúmplice da ilusão que, certamente, contaminava as conversas gremistas após a primeira apresentação do time na Arena, em 2025.

Mas ilusão nem sempre é algo ruim. Foi o que aprendi recentemente ao reler o livro Rasgando o véu da ilusão, em que minha esposa é uma das autoras, junto de duas colegas psicólogas. No prefácio, o professor Alexandre Marques Cabral me desarmou com uma reflexão poderosa: a ilusão é um “conceito imprescindível para que a finitude da condição humana se faça visível e possa ser assumida em toda a sua dramaticidade e grandeza”. Decepções e desilusões, diz ele, não são o fim do caminho, mas portas de entrada para compreender os contornos da vida e aprender a conviver com as aparências – nem todas erradas, nem todas a serem corrigidas.

Dito em futebolês: aproveite que seu time está ganhando e se jogue. Comemore a vitória, celebre o bom desempenho, entusiasme-se com a dinâmica em campo. Faça tudo isso sem culpa, porque, como me lembrou hoje cedo Paulo Vinicius Coelho, o Grêmio de Gustavo Quinteros ainda não tomou gols nesta temporada — em contraponto a fragilidade defensiva das duas últimas temporadas. Reconheça a realidade como ela é, sem pressa de antecipar o que não sabemos se acontecerá. Porque não há razão para desperdiçar a alegria desse momento.

Que o Grêmio de Quinteros continue a me iludir — porque, no fim das contas, no futebol, a ilusão não é apenas inevitável: é indispensável.

Nos acréscimos: o livro “Rasgando o véu da ilusão” (Dialetica), foi escrito por Abigail Costa, Aline Machado e Vanessa Maichin

Avalanche Tricolor: uma carta à Dona Eliane Geromel

Geromel se despede do Grêmio Foto: reprodução GZH

Dona Eliane:

Foi seu o abraço mais inusitado que recebi e retribuí em todos os meus tempos de arquibancada. Estávamos em Al Ain, nos Emirados Árabes Unidos, e Everton havia marcado um golaço que nos levaria à final do Mundial de Clubes, em 2017. Todos corremos alucinados para comemorar o feito e, entre o choro imediato com os meus filhos e o agradecimento aos céus, nosso abraço se encontrou. Não nos conhecíamos pessoalmente; havia ali apenas o manto tricolor nos unindo em celebração.

Passado o primeiro instante de êxtase, você se apresentou como ouvinte do meu programa de rádio e mãe de Pedro Geromel — foi essa a ordem que escolheu para justificar o abraço entre desconhecidos, como se a felicidade de um gol daquele tamanho precisasse de explicação. Sua fala tornou-se um troféu particular para este torcedor. Claro que tê-la como ouvinte me envaidece; mas ser abraçado pela mãe daquele que mais admiramos e respeitamos nesses anos todos era demais para o meu coração tricolor.

Poucos jogadores fizeram por merecer tanto respeito do torcedor — os nossos e os adversários — quanto Geromel. Ele se fez líder pela personalidade entre os colegas; se fez ídolo pela performance em campo; se fez mito ao nos proporcionar os títulos mais importantes deste século; e se fez humano pela conduta íntegra e pelo comportamento irretocável, mesmo nos momentos mais difíceis que vivemos. Ele se tornou próximo com um sorriso sincero e uma fala genuína que destoam daqueles moldados pelo marketing e pelo uso exagerado das redes sociais.

Gustavo Poli, comentarista esportivo do jornal O Globo, escreveu certa vez, e eu anotei no caderninho que tenho sobre a mesa:

“Entre o homem e o ídolo há uma distância que não queremos percorrer. Porque o ídolo é nosso amor íntimo, um parente próximo. Nos abraçamos ao ídolo. O ídolo nos move e emociona. O ídolo não tem os defeitos do homem. Entre o homem e o ídolo existe a realidade — mas no futebol, a realidade comezinha importa menos. Para o torcedor, a realidade acontece entre quatro linhas.”

A definição é perfeita para os ídolos. E quantos temos no futebol. Ídolos que admiramos pelo que fazem em campo, não pelo que representam fora dele. Mas Geromel transcende essa descrição. Por isso o chamamos de GeroMito. E se assim o é, dona Eliane, isso tem muito a ver com a forma como Geromel — que imagino ser apenas o Pedrinho, na casa da Vila Mariana — foi educado e preparado para a vida pelos pais.

Pode parecer coincidência estar escrevendo esta carta a uma mãe no domingo em que, na Igreja Católica, celebramos Nossa Senhora da Imaculada Conceição, um momento de veneração à mãezinha que, além de ter sido submetida a um dom sobrenatural, seguiu o Cristo de modo perfeito, como na oração que ecoa nas igrejas em 8 de dezembro. Jung, o psiquiatra, defendia que não existem casualidades, mas uma força do universo que atua para que os fatos se expliquem de maneira racional. Ter assistido à despedida de Geromel, neste domingo, me inspirou a ousar escrever este texto – especialmente depois de vê-la em campo ao lado do marido, dos filhos, da nora e dos netos. 

Dona Eliane, Geromel se eternizou no coração de todos nós, torcedores gremistas. E você — que tomei a liberdade de não chamar de senhora por imaginar que sou mais velho — foi primordial para que essa história se realizasse. Se um dia Maria foi convocada por Deus para conceber Jesus, a você coube a missão de nos dar Geromel.

E, assim como Maria entregou ao mundo o maior exemplo de amor e sacrifício, a senhora, dona Eliane, nos entregou um homem que, embora mortal, nos ensinou o que é ser eterno no coração de um povo. Não apenas pelo que fez dentro das quatro linhas, mas pelo que representou fora delas. Geromel não é apenas um ídolo; é um símbolo de tudo que desejamos ver no futebol e, mais ainda, na vida.

Enquanto o apito final ecoava no estádio e a torcida gritava seu nome, percebi que não estávamos nos despedindo de um jogador, mas celebrando uma lenda que escolheu caminhar ao nosso lado. Seu legado ficará em cada faixa hasteada, em cada canto entoado e no brilho emocionado dos olhos de quem teve a sorte de vê-lo jogar.

Por isso, obrigado, dona Eliane, por ter permitido que o Pedro, aquele menino da Vila Mariana, se tornasse o nosso Geromel. Hoje e sempre, ele será um pedaço de todos nós. E aquele abraço que trocamos, no calor de um gol histórico, simboliza o que Geromel é: um laço eterno entre a paixão e a gratidão.

Com carinho,
Um torcedor que, como tantos, nunca se esquecerá da família Geromel.

Mílton Jung

Avalanche Tricolor: sem ilusões

Vitória 1×1 Grêmio
Campeonato Brasileiro – Barradão, Salvador-BA

Gremio x Vitoria
Foto: Lucas Uebel/GremioFBPA

A escapada pela direita, com o passe de calcanhar de Pavón e a chegada rápida seguida pela conclusão certeira de João Pedro, foi o único momento de brilho da equipe do Grêmio nesta noite em Salvador. Em um jogo que serviu apenas para cumprir tabela, o lance trouxe uma breve faísca de criatividade em uma temporada marcada por dificuldades.

Os narradores bem que tentaram instigar o torcedor com a remota possibilidade de conquistar uma vaga na pré-Libertadores. Uma improvável combinação de duas vitórias nas rodadas finais e tropeços dos adversários poderia abrir essa janela. Mas, para quem passou boa parte do campeonato lutando contra o rebaixamento, seria otimismo demais acreditar em tal cenário.

Não assisti ao jogo com essa ilusão, assim como não me iludi com o gol assinalado no primeiro tempo. A campanha no campeonato, marcada por atuações inconsistentes e falhas defensivas recorrentes, deixou claro que somos incapazes de sustentar uma vitória com segurança. Quando o gol de empate veio no segundo tempo, em uma cabeçada certeira do adversário, apenas confirmou o que já era esperado.

Agora, o Grêmio retorna a Porto Alegre para encerrar a temporada diante de um adversário em excelente fase, com disposição ofensiva que promete grandes desafios. Dada a fragilidade que temos demonstrado ao longo do campeonato, vou para essa partida final sem nutrir ilusões de garantir sequer a vaga na Copa Sul-Americana do próximo ano.

Resta torcer para que, ao menos, tenhamos aprendido algo com tantas dificuldades enfrentadas. Mas, confesso, nem mesmo essa esperança me parece plausível.

Avalanche Tricolor: faltam duas partidas, posso pedir só mais uma coisinha?

Grêmio 2×1 São Paulo
Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Cristaldo comemora o primeiro gol Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Quase 40 mil torcedores lotaram a Arena do Grêmio na tarde deste domingo, em Porto Alegre. Sobre o que eles viram lá na arquibancada – e eu, cá em casa –, quem melhor resumiu foi Sérgio Xavier, comentarista da SporTV: no primeiro tempo, o Grêmio foi o time que queríamos ver ao longo deste ano; no segundo, foi o time que, infelizmente, tivemos na maior parte da temporada.

Na etapa inicial, o Grêmio exibiu o futebol que sempre desejamos: pressionando a saída de bola, sem dar espaços ao adversário, roubando a posse e tocando com rapidez e precisão, aproveitando o deslocamento dos companheiros. O ataque foi intenso, e a defesa, segura. Foi assim que o time construiu sua vitória parcial: Cristaldo abriu o placar e, em seguida, um gol contra, fruto da pressão ofensiva, ampliou a vantagem. Tudo funcionava.

No segundo tempo, os fantasmas que nos atormentaram durante o campeonato reapareceram. O Grêmio recuou, permitiu que o São Paulo dominasse o jogo, trocasse passes e, com uma facilidade que nos custou caro ao longo da temporada, chegasse ao gol. Sofremos um gol em uma falha de marcação na entrada da área, após escanteio, e, dali em diante, foi tensão até o apito final. Desta vez, ao menos, conseguimos segurar o resultado, que, embora não nos livre do rebaixamento, nos coloca em uma posição privilegiada na luta contra os adversários da parte de baixo da tabela.

Se o time oscilou, Geromel, não. Em sua penúltima partida na Arena, vestindo a camisa do Grêmio, o zagueiro foi impecável. Antecipou-se aos atacantes, desarmou com precisão e neutralizou os cruzamentos pelo alto. Cada lance protagonizado por ele foi reconhecido pela torcida, que o aplaudiu de pé. Uma homenagem mais do que justa, assim como a exposição na Arena que celebra seus feitos históricos.

Em um ano repleto de sustos e incertezas, atrevo-me a fazer um pedido aos deuses do futebol: que, adqui uma semana, possamos assistir à despedida de Geromel com uma vitória na Arena. E, por que não, coroada com um gol do nosso eterno capitão. Será que é pedir demais?