Avalanche Tricolor: o retorno amargo e o fim de uma ilusão

Grêmio 2×3 Atlético MG

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Braithwaite marca o gol inicial, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Foram 134 dias distante da Arena, desde as enchentes que destruíram o Rio Grande do Sul e deixaram marcas no coração dos gaúchos. O Grêmio foi o time de futebol mais prejudicado com a tragédia que abateu o Estado. Peregrinou como um circo mambembe por estádios brasileiros disputando três competições importantes. Embora tenha conquistado resultados significativos, despediu-se de dois torneios, em meio a essa jornada cambaleante, e persiste no Campeonato Brasileiro com a pouco inspiradora luta para ficar longe da zona-que-você-sabe-qual-é. 

O retorno ao estádio foi marcado pela precariedade. A infraestrutura não permitia jogos sem luz natural, por isso a disputa foi às 11 da manhã de domingo. Apenas parte das arquibancadas está liberada e muitos espaços internos seguem interditados. As manchas da lama aparecem em várias paredes e no mobiliário da Arena. O gramado foi instalado de maneira emergencial e trouxe uma cor e aparência estranhas. 

A coincidência do calendário nos trouxe de volta à Arena em momento de emoções diversas. Não bastasse a retomada nossos estádio, o adversário foi o clube que melhor soube acolher o drama de todos os gaúchos. Merecia nossa reverência. Há uma semana, havíamos perdido o patrono e o “maior de todos os torcedores”, Cacalo. E o futebol amargava o luto provocado pela morte de Juan Izquierdo, do Nacional, esse time uruguaio que nos é próximo do coração.

Com a bola rolando, o sofrimento, a alegria e a frustração voltaram a se expressar. Ter Gustavo Martins expulso com menos de 20 minutos de partida – exagerada ou não a punição ao zagueiros que fez dupla trapalhada  na jogada — nos colocava diante de dois cenários: o da derrocada iminente, que serviria para destruir a ilusão de que o drama que enfrentamos nesta temporada haveria de ser recompensado com uma recuperação heróica; ou o da vitória pela superação, sustentando a escrita da imortalidade e da energia emanada por um lugar sagrado que voltava a nos abrigar.

O primeiro tempo, em especial, e boa parte do segundo rascunhavam uma história incrível, daquelas de contar para os filhos, reunir os amigos e deixar a lágrima correr pelo rosto. Dizer do gigantismo deste time pelo qual escolhemos torcer e agradecer àqueles que nos tornaram gremistas. O primeiro gol veio pelos pés de Braithwaite, o atacante dinamarquês pelo qual já nos apaixonamos, e o segundo, na insistência de Cristaldo, que voltou a marcar.

De tão incrível que era o roteiro, sequer sofremos com o primeiro gol do adversários, aos 26 minutos do segundo tempo, após mais um pênalti cometido pelo nosso time e não defendido por nosso goleiro — que tem a capacidade de errar o lado em que a bola vai em quase que 100% das cobranças as quais é submetido. O revés naquela altura do jogo, estaria ali apenas para corroborar como seria glorioso sofrer pelo Grêmio. Ledo engano!

Nos acréscimos, aquele momento em que nosso técnico insiste em sinalizar a seus jogadores que “acabou, acabou”, levamos dois gols e a virada. O primeiro, de empate, também de pênalti e o segundo na pressão do adversário, quando tínhamos quatro zagueiros dentro da área. A jornada do herói imortal foi desconstruída em poucos minutos. Restaram a tristeza e a frustração, sentimentos dolorosos diante da expectativa que tínhamos no retorno à Arena.

A verdade é que o futebol é jogado dentro de campo, minuto a minuto.  A história que nos trouxe até aqui pode não servir para nada na partida seguinte.  O jogo depende muito mais das escolhas feitas pelo técnico e os jogadores, no instante em que a bola está rolando, do que qualquer fenômeno sobrenatural que costumamos evocar. A partida desta manhã de domingo chutou para longe toda e qualquer ilusão de que os deuses do futebol estariam dispostos a interferir a nosso favor. Eles não estão nem aí para nós. É no que acredito, ao menos até a próxima partida.

Avalanche Tricolor: uma vitória para Cacalo, o Imortal

Criciúma 0x1 Grêmio
Brasileiro – Heriberto Hülse, Criciúma/SC

Na braçadeira de capitão, uma das homenagens a Cacalo. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

“Cacalo vivia o Grêmio como poucos viveram. O defendia com a gana de um Dinho, a disposição de um Kannemann e o sarcasmo de um Danrlei. Cacalo nunca foi Valdo, tampouco Gessy. Porque esses jogavam com diplomacia vestidos de Grêmio. Quando se tratava de Grêmio, Cacalo dispensava as diplomacias. A paixão era maior.”

Leonardo Oliveira, GZH

Aproveito-me do talento no texto e da proximidade que o jornalista Leonardo Oliveira, da GZH, tinha com Luiz Carlos Silveira Martins para homenagear um dos maiores dirigentes destes quase 121 anos de história do Grêmio. Cacalo morreu no sábado, aos 73 anos. Era o patrono do clube, título concedido a alguém que se satisfaria em ser apenas torcedor, porque era o maior deles.

Quando ascendeu na hierarquia gremista, eu já estava distante dos bastidores do time. Lembro dele de algumas conversas apaixonadas no pátio do Olímpico Monumental, exercendo a função que mais sabia fazer: torcer pelo Grêmio. Dos presidentes gremistas, conheci mais de perto Hélio Dourado e Fábio Koff, muito mais pelas mãos de meu pai do que por minhas competências. Admirava aquelas figuras pelo poder que tinham de construir o time do coração.

Assim como Dourado e Koff, Cacalo fez do Grêmio um campeão. Com presença ativa entre o fim da década de 1980 e ao longo dos anos de 1990, ele participou de grandes conquistas do clube, com destaque para a Libertadores de 1995, o Brasileiro de 1996 e as Copas do Brasil em 1994 e 1997. Foram 13 títulos no total. ‘Aposentado’ do papel de cartola, foi defender o Grêmio na imprensa, como colunista do jornal Diário Gaúcho e, depois, comentarista da rádio Gaúcha de Porto Alegre.

Era ‘sanguinário’, como bem disse o texto publicado pelo Grêmio ao anunciar a morte do ex-presidente. Era feliz em ser gremista, sentimento expresso na frase que ele imortalizou e estava estampada na braçadeira de capitão e na camisa do técnico e dos jogadores que entraram em campo, em Criciúma, nesta tarde: “Como é bom ser gremista.”

Por essas coincidências que a vida nos apronta, Cacalo morreu às vésperas de uma partida do Grêmio. Considerando que noutra vez em que esteve em coma por cinco dias, ao acordar, a primeira coisa que perguntou foi se o Grêmio havia vencido, desconfio que tenha sido dele o cuidado para que o velório se encerrasse uma hora antes de o jogo de hoje se iniciar. Cacalo tinha pressa, queria assistir ao Grêmio lá do alto e transmitir a energia necessária para o time se recuperar das duas eliminações recentes, na Libertadores e Copa do Brasil.

Na preleção que antecedeu a partida, o atual presidente do Grêmio, Alberto Guerra, falou aos jogadores sobre a importância de Cacalo na história do clube. Pediu a vitória em homenagem ao dirigente falecido. Em campo, o que se viu foi um Grêmio buscando o resultado desde o início, mesmo diante da pressão adversária e de desacertos na movimentação e troca de bola em algumas jogadas.

Com Cristaldo e Monsalve no meio de campo, o Grêmio se arriscou mais. No gol, Marchesín fez defesas importantes. No ataque, Soteldo aparecia com destaque. A vitória foi alcançada no segundo tempo, após as entradas de Arezo e Aravena. Foi o chileno quem fez a jogada pela esquerda e cruzou para Monsalve brigar com os zagueiros e o goleiro antes de desviar a bola às redes.

Foi só um a zero, mas não precisava mais do que isso para somarmos três pontos na tabela de classificação, nos afastarmos mais um pouco daquela-zona-que-você-sabe-qual-é, e começarmos a olhar para cima. Ao fim do primeiro tempo e no encerramento da partida, tanto Villasanti quanto Monsalve, aos serem entrevistados, fizeram questão de lembrar o nome de Cacalo. Dois jogadores que não tiveram proximidade com o dirigente, mas que entenderam o simbolismo dele para o clube.

Que Cacalo, lá em cima, siga nos iluminando para que nós, cá embaixo, sejamos fortes e capazes de manter o legado que ele nos deixou.

Avalanche Tricolor: A Arena vem aí, Olê! Olê! Olá! 

Grêmio 0x2 Bahia

Brasileiro – Alfredo Jaconi, Caxias do Sul/RS

Torcida no Alfredo Jaconi em foto de Lucas Uebel

O fim de semana foi de tristeza, lembranças e saudade. A morte de Sílvio Santos, aos 93 anos, marcou o noticiário e tomou conta das rodas de conversa, do balcão da padaria às redes sociais. As reportagens que ocuparam os espaços jornalísticos, assim como os comentários que circularam pelo WhatsApp e afins, expressavam a relevância do apresentador de televisão e dono do SBT. 

Sílvio Santos fez parte da vida dos brasileiros. As músicas características de seus vários quadros de sucesso, seus bordões e gargalhadas foram trilha sonora dos nossos domingos, mesmo quando eu preferia outro tipo de diversão. Invariavelmente, havia uma tia, uma vizinha ou o pai de um amigo sintonizado no programa do Sílvio. Outras vezes era um colega disposto a imitá-lo ou alguém a copiar suas frases de sucesso: “Sílvio Santos vem aí! Olê! Olê! Olá!”

Hoje cedo, em um dos grupos de WhatsApp dos quais participo, havia alguém escrevendo que já sentia saudades pela ausência dele nos domingos.  Curioso, porque o apresentador estava fora do ar desde o ano passado. Ao mesmo tempo, justificável: Sílvio é daquelas figuras que de tão forte e carismática se faz onipresente. Parece que o assistimos ontem falando, gesticulando e sorrindo na tela da televisão. Tem-se a impressão de que amanhã, lá estará ele rodando o pião, forjando suspense, brincando com a plateia e rindo de si mesmo. 

O que não deixará saudade — e aqui me permito virar a página desta Avalanche, caro e cada vez mais raro leitor — é este período dramático que o Grêmio vive desde quando a enchente no Rio Grande do Sul afastou o time de seu estádio. A última partida na Arena Grêmio foi no fim de abril, oportunidade em que venceu o Cuiabá por 1 a 0. Desde então, o Grêmio foi forçado a viver como um itinerante, treinando e jogando em locais emprestados ou pagando caro para sediar as partidas que lhe eram de direito, quase sempre fora do Rio Grande do Sul.  

A derrota para o Bahia, no sábado, em Caxias do Sul, foi o último jogo desta triste jornada de andarilho, período em que fomos desclassificados da Copa do Brasil e rondamos aquela zona-que-você-sabe-qual-é, no Campeonato Brasileiro. 

Em junho, o Grêmio voltou a treinar em seu CT, em Porto Alegre, e, em 1º de setembro, retornará à Arena quando enfrentará o Atlético Mineiro, pelo Brasileiro. Por coincidência, time que fez uma das mais belas homenagens ao Rio Grande do Sul, assim que o estado foi destruído pela tragédia ambiental. Antes da volta, ainda temos duas partidas fora de casa, contra o Fluminense, na busca da vaga às quartas-de-final, da Libertadores, e o Criciúma, pela 24º rodada do Brasileiro. 

Em meio a estes dias de tristeza, lembranças e saudade, ao menos uma boa notícia: nossa vida de desalojado acabou! 

A Arena vem aí, Olê! Olê! Olá! 

Avalanche Tricolor: o Grêmio resiste na Libertadores!

Grêmio 2×1 Fluminense

Libertadores – Couto Pereira, Curitiba PR

Reinaldo marca dois em vitoria gremista. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

A vitória de virada, nesta noite gelada de Curitiba, está em sintonia com as conquistas recentes na Libertadores. Apesar do que ocorria no Campeonato Brasileiro e da desclassificação na Copa do Brasil, o Grêmio conseguiu expressar a bravura que sempre marcou sua história na competição sul-americana.

Esta foi a quarta partida que disputamos na Libertadores desde o drama causado pelas enchentes no Rio Grande do Sul. Durante esse período, obrigado a treinar longe de Porto Alegre e sem o direito de jogar em seu estádio, o Grêmio goleou o The Strongest, da Bolívia, venceu o Huachipato, no Chile, e empatou com o Estudiantes. Essa sequência de jogos nos classificou para as oitavas de final, contrariando as expectativas de muitos que previam nossa eliminação da Libertadores.

No jogo em que nos despedimos do Couto Pereira, em Curitiba, mesmo saindo atrás no placar, mais uma vez o time encontrou forças para reverter o resultado e levar a vantagem para a partida de volta, no Rio de Janeiro. Apesar de algumas dificuldades técnicas, o Grêmio soube reagir com intensidade no ataque, pressionou o adversário e aproveitou as chances que surgiram.

O pênalti resultou dessa pressão, especialmente pelo lado direito, onde Soteldo encontrou espaço para seus dribles e cruzamentos. Reinaldo empatou com uma cobrança clássica e precisa: um chute forte, alto e sem chances para o goleiro. Três minutos depois, novamente pelo lado direito e com Soteldo provocando a falta, abriu-se o caminho para a virada. Reinaldo, com seu talento para bater na bola, marcou o gol da vitória.

A expulsão de Rodrigo Ely – em uma decisão injusta do árbitro, que viu apenas a agressão do zagueiro gremista e não puniu a atitude também antidesportiva de Ganso – serviu para tornar a vitória ainda mais dramática. Tivemos de jogar mais de dez minutos com um jogador a menos, mas vencemos, mesmo assim. A decisão foi adiada para a semana que vem, como era de se esperar.

O que importa é que o Grêmio, apesar de tudo, de todos e de si mesmo, resiste na Libertadores!

Avalanche Tricolor: Jeg er allerede illuderet!

Cuiabá 1×3 Grêmio

Brasileiro – Arena Pantanal, Cuiabá MT

Martin Braithwaite comemora gol, em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

Diga o que você quiser! Lembre-me que o adversário não vencia há sete jogos em casa. Diga que enfrentamos um time que está naquela zona-que-você-sabe-qual-é. Grite que eles nunca ganharam da gente em toda a história do futebol e, no máximo, tinham arrancado um só empate contra nós em sete partidas disputadas. 

Eu já estou apaixonado! 

Nada do que você disser mudará minha percepção. O que assisti na Arena Pantanal, no início da noite deste sábado, me deslumbrou. A corrida em direção à bola, o tranco no zagueiro, a tomada de frente na jogada, o toque para o companheiro concluir a gol, aos 14 minutos de jogo, bastaram para eu acreditar que estava diante de um jogador que chegou para fazer história no Grêmio.

Claro que estou falando do dinamarquês Martin Braithwaite, que estreou  com a nossa camisa, neste 10 de agosto de 2024. O lance que descrevi foi o primeiro protagonizado por ele em campo. Depois disso, só maravilhas. Eu sei que teve o gol contra dele. Este, porém, além de uma fatalidade, serviu para escrever com perfeição sua primeira jornada do herói no Imortal Tricolor.

Aos 33 anos, o atacante saciou a fome de gol anunciada em sua primeira entrevista coletiva ao chegar ao clube. Antes de marcar, foi o responsável pela jogada que deu início à vitória. Tabelou com Edenílson e chutou na trave. No rebote, Gustavo Nunes conclui de cabeça.

Quando a partida estava empatada, no segundo tempo, e o adversário pressionava de forma preocupante, Braithwaite foi preciso no toque da bola em direção às redes, que colocou o Grêmio na frente mais uma vez. Que se faça justiça: o autor intelectual da jogada foi Miguel Monsalve. O colombiano driblou todos seus marcadores, entrou na área e deu o gol de presente para o centroavante. 

O terceiro gol gremista e o segundo de Braithwaite, porém, foi todo mérito dele. Após mais uma assistência de Cristaldo, primeiro venceu os defensores no jogo aéreo. Diante da defesa do goleiro, não se fez de rogado: de bate-pronto e com a perna esquerda, pegou o rebote e fulminou as redes. 

Forte, preciso, talentoso, insaciável e inteligente! Adjetivos que acompanharam Braithwaite do primeiro ao último ato nesta estreia, inspirando meu otimismo com tudo que vi em campo. Tenho certeza que a maior parte do torcedor gremista comunga deste mesmo sentimento neste instante. 

Sim, eu sei que é apenas o começo. Sei o que você está pensando, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche. Sei que vai repetir todos os argumentos descritos no primeiro parágrafo deste texto. Pode lembrar, falar e gritar. Diga o que quiser, mas eu já estou iludido ou, como se diz na língua de nosso craque, “jeg er allerede illuderet!”

Avalanche Tricolor: Salve, salve, Monsalve!

Athletico PR 0x2 Grêmio

Brasileiro – Ligga Arena, Curitiba/PR

Gremio x Athletico
Miguel Monsalve comemora o gol na estreia em foto de LucasUebel/GrêmioFBPA

A falta que abriu caminho para o primeiro gol foi em Miguel Monsalve, e o segundo gol, que definiu o placar, foi dele. O meio-campista colombiano, recém-contratado, chegou a marcar um segundo gol, com um belo chute de fora da área, que foi anulado porque cometeu falta na tentativa de se proteger da forte marcação do zagueiro. 

O jovem de 20 anos fez uma estreia que talvez nem ele próprio imaginasse. Mesmo ao lado de um time alternativo e contra um adversário que costuma ser forte em sua casa, Monsalve teve personalidade para aparecer em um ataque pouco acionado, considerando as circunstâncias do jogo. 

De tão bem posicionado, enganou até os comentaristas da televisão, que o identificaram como o centroavante que o Grêmio busca para compor o ataque. Monsalve não é camisa 9 como disseram. É camisa 10, número que vestia no Independiente de Medellín, onde surgiu, e na seleção colombiana Sub-20, onde disputou o Mundial. No Grêmio, nesta tarde de domingo, vestiu a 11 e mostrou que sabe jogar centralizado e atacar a defesa adversária. Também apareceu pelo lado do campo. 

Independentemente da camisa que veste deu sinais de que chega para ser protagonista, sempre que as oportunidades surgirem. Havia surpreendido logo que se apresentou ao clube, ao pedir orientação para melhorar sua performance física com treinos extras  e demonstrar interesse em conhecer as características do time adversário que enfrentaria. Comportamento que condiz com as informações de que ele era um líder dentro da seleção de seu país e um jogador inteligente.

Se Monsalve confirmará toda a expectativa que criou no torcedor somente o tempo dirá. Certeza é que a presença dele no gramado sintético, em Curitiba, fez toda a diferença para o Grêmio vencer o seu adversário com gols marcados em um período de apenas três minutos. O dele foi aos 20 minutos, resultado da marcação alta que o time fazia e da pressão sobre o goleiro adversário. 

O placar havia sido aberto três minutos antes: Gustavo Martins, que está às vésperas de completar 22 anos, foi oportunista ao aproveitar duas vezes o rebote do goleiro, depois da cobrança de falta de Edenilson. O zagueiro apareceu bem na frente e apresentou-se melhor ainda lá atrás. Demonstrou segurança na marcação ao lado de outro garoto, Natã Felipe, que recém-completou 23 anos. Os dois, reforçados por laterais  mais fixos, e um meio de campo recuado, impediram que o adversário transformasse o domínio da bola em riscos de gol,

Mesmo tendo aceitado a pressão, quando deveria ter tentado ficar um pouco mais com a bola e talvez até ampliado o placar, no contra-ataque, o Grêmio demonstrou maturidade para controlar a partida e sair com a vitória importantíssima para nos afastar daquela zona-que-você-sabe-qual-é. Resultado que oferece tranquilidade para a decisão que teremos no meio da semana pela Copa do Brasil, também em Curitiba. 

Em tempo: ao contrário do que estão escrevendo por aí, esta não foi a primeira vitória do Grêmio fora de casa, no Campeonato Brasileiro. Esquecem os cronistas — e o próprio Gustavo Martins como se ouviu na entrevista ao fim da partida — que o Grêmio desde abril só joga fora de casa. E apesar dessa condição que persistirá por mais algumas semanas, havíamos vencido Fluminense, Vitória e Vasco, antes do Athletico. 

Avalanche Tricolor: o Grêmio renasce nas águas de Chapecó

Grêmio 1×0 Vasco

Brasileiro – Arena Condá, Chapecó SC

reprodução canal Premiere

O Grêmio escolheu Chapecó e sua Arena, símbolos de superação e resiliência, diante de um desastre que marcou o futebol e nossas vidas, para enfrentar o adversário desta noite de domingo. Sabia da importância do resultado e do impacto que teria no ânimo e nas possibilidades do time para o restante da temporada. Avizinham-se as decisões da Copa do Brasil e da Libertadores. Encarar as duas competições fora daquela zona-que-você-sabe-qual-é no Campeonato Brasileiro seria fundamental para nossas pretensões.

Como se a pressão do resultado e as dificuldades enfrentadas devido à tragédia ambiental no Rio Grande do Sul não fossem suficientes, nos deparamos mais uma vez com uma tempestade no caminho. Já havia sido assim em momento decisivo da Libertadores, quando garantimos passagem à fase seguinte, em junho, no Chile. Hoje, um temporal se formou, tornando o futebol uma batalha arriscada e marcada pela lama e coragem.

Forjado no drama da enchente, o Grêmio parece se agigantar nesses momentos, apesar das dificuldades técnicas. Mesmo com o gramado encharcado e o domínio da bola sendo um desafio extraordinário no campo de jogo, o time se impôs. Fez o que pôde para ameaçar o adversário e se colocar em condições de marcar. Esteve quase sempre com a bola no pé e com o domínio da partida. 

Apesar de uma defesa consistente, com três zagueiros deixando pouco espaço ao adversário, e um meio de campo que logo entendeu como deveria jogar frente às intempéries, ninguém foi maior do que Soteldo. O venezuelano secou o gramado por onde passou, como bem disse Ledio Carmona, em transmissão do Premiere. No primeiro tempo, jogou pela direita e entortou quem se atreveu a marcá-lo. Trocou de lado no segundo tempo, e foi por lá que encontrou o gol que deu a vitória para o Grêmio.

Soteldo é polêmico por onde passa. Atrasou seu retorno ao time após a Copa América. E na última partida esbravejou ao ser substituído. Quando está em campo, porém, não há do que reclamar dele. Tem sido decisivo, especialmente depois de se recuperar da lesão que o afastou dos gramados, ainda no Campeonato Gaúcho. Fez gol domingo passado, quando abriu o placar para vencermos o Vitória, e voltou a marcar neste domingo. Foi fundamental nesse primeiro alívio que tivemos desde que entramos naquela zona-que-você-sabe-qual-é.

Sabemos que novas batalhas teremos pela frente e precisaremos de muito mais futebol para vencê-las. Os reforços estão chegando e os lesionados, especialmente Diego Costa, estão se recuperando. Nossa Arena, em breve ,estará reaberta. Das águas de Chapecó, renasce a esperança de tempos melhores em nossa caminhada. O Grêmio está vivo!

Avalanche Tricolor: Marchesín fala em nome da minha paixão

Corinthians 2×2 Grêmio

Brasileiro – Itaquerão, São Paulo/SP

Marchesin defende mais uma. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Futebol é paixão. E por apaixonados, extrapolamos. Já fiz coisas absurdas em nome deste sentimento humano que é intenso no corpo e na mente. Briguei e me arrependi. Chorei e me lamentei. Praguejei ao mesmo tempo que roguei. Gritei e, de tanto gritar, calei.

No latim, paixão é sofrimento e ato de suportar. O grego nos remete ao sentir. A religião relaciona esse sentir à dor física, espiritual e mental. Com o tempo, paixão passou a ser traduzida por forte emoção e desejo; mais tarde ainda, por predileção.

Paixão é essa coisa que nos leva a acreditar no impossível, mesmo que o possível se imponha a todo instante. É o que nos capacita a persistir na torcida, apesar de tudo que se realiza anunciar que chegou a hora de renunciar.

Por apaixonado que sou, reajo na intimidade enquanto me contenho na vida pública. Critico o árbitro e ofendo o adversário na privacidade do meu lar, onde a liberdade de expressão é maior e as consequências são menores. Prefiro manter o respeito ao outro e ao esporte, lembrando que a paixão, quando exposta sem filtro, pode ferir e ofender.

Futebol é um espetáculo coletivo e, como tal, exige de nós um comportamento que preserve a harmonia e o espírito esportivo. Cada gesto e palavra dita em público têm o poder de influenciar e impactar não apenas os jogadores e torcedores, mas toda a comunidade que se envolve com o esporte. A paixão, quando bem dosada, enriquece a experiência e fortalece os laços entre os fãs e seus times.

Portanto, é no equilíbrio entre a emoção fervorosa e a razão respeitosa que encontramos a verdadeira essência do torcedor apaixonado. A paixão não precisa ser escondida, mas sim, canalizada de forma a contribuir positivamente para o ambiente do futebol. Porque, no fim, a paixão que nos une é a mesma que deve nos lembrar de manter o respeito e a dignidade, tanto dentro quanto fora de campo.

Agora, perdoe-me a lógica e a prudência, como é difícil conter os sinais que a paixão emite diante de mais uma injustiça sofrida no mesmo palco e  contra os mesmos atores.

Independentemente do futebol que expressamos, das falhas que seguimos cometendo, das intempéries inerentes a um time que improvisa sua formação e sua estratégia, a sensação de que mais uma vez poderia ter sido diferente não fosse a intervenção do árbitro é de dor e irritação. Por isso, não culpo Marchesin de misturar alhos e bugalhos no momento em que revelou a dor de sua paixão, ao fim do primeiro tempo da partida desta noite, em São Paulo. Ele representa a minha paixão.

Avalanche Tricolor: de volta!

Grêmio 2×0 Vitória

Brasileiro – Centenário, Caxias do Sul/RS

Matías Arezo está chegando e fez diferença. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Estava de malas prontas e nos preparativos para o retorno ao Brasil quando o Grêmio entrara em campo para uma partida fundamental diante das suas pretensões de deixar aquela zona-que-você-sabe-qual-é, e voltar a disputar de verdade o Campeonato Brasileiro. 

Precisei contar com conexões nem sempre seguras de internet e sinais de vídeo claudicantes no meu caminho até o aeroporto de Curaçao de onde partiria para o Panamá, para acompanhar em “tempo real” o nosso desempenho. A demora na atualização das informações e das imagens colaboraram bastante com a ansiedade de quem estava a espera de um resultado positivo, assim como eu e toda a torcida gremista.

O Centenário lotado sinalizava que os torcedores haviam aceitado o desafio feito pelo time, especialmente após a entrevista coletiva da sexta-feira que colocou os dois maiores ídolos da atualidade, Geromel e Kannemann, ao lado de Renato, que é o maior deles, goste-se ou não de sua forma de falar, treinar e escalar a equipe. A impressão que fiquei, desde que a bola começou a rolar, é que a entrega dos jogadores também estava sintonizada com o apoio das arquibancadas. Digo impressão porque seria injusta uma análise mais aprofundada com base no que lia nos sites que atualizam as informações do jogo e os rompantes de imagens que recebia no meu celular.

(em tempo: avise às marcas que patrocinam as transmissões que é irritante ter de esperá-las se apresentar até podermos pular o anúncio toda vez que precisamos reconectar)

Dava para perceber o esforço em fazer a bola chegar ao ataque e de reduzir ao máximo os riscos impostos pelo adversário com uma marcação forte. A falta de precisão nos chutes, porém, impedia que o domínio em campo se traduzisse em gols – este maldito gol que teima em não sair na quantidade necessária para nos dar um respiro no campeonato.

As estatísticas eram gritantes: dez chutes a gol contra apenas dois do adversário, muito mais escanteios, passes trocados e posse de bola a nosso favor. Mesmo assim terminamos o primeiro tempo no zero a zero e levamos para o vestiário o temor de que o roteiro das últimas partidas se repetiria.

Eu já despachara as malas, quando o segundo tempo havia se iniciado e o que mais buscávamos nessa partida começava a se construir. A visão de jogo de Edenílson deu início a jogada que terminaria nos pés de Soteldo, que driblou duas vezes seus marcadores para chutar de dentro da área. Pouco me importou o sinal da internet deixar a imagem travada ainda antes do chute do venezuelano. Ver o 1 a 0 no placar do APP de esportes era o suficiente aquela altura.

Enquanto apresentava o passaporte no setor de  imigração e submetia as malas ao escaner da fiscalização, minha única preocupação era que o Grêmio, lá em Caxias, não deixasse nenhuma bola passar pela nossa defesa. Pelo que ouvi dos críticos, Rodrigo Ely e Geromel — que entrou ainda no início da partida devido a lesão de Kannemann — deram conta do recado.

A caminho do embarque, minha torcida era só pelo apito final. O um a zero seria o suficiente nesta altura da viagem. Fosse meio a zero, comemoraria igual os necessários três pontos ganhos. Tudo que queria era a vitória de volta. O árbitro, então, resolveu esticar a partida por mais cinco minutos. E o sofrimento pelo tempo estendido foi compensado: o sinal de WI-FI de uma sala VIP me permitiu assistir à jogada que culminaria no pênalti.

Claro que a cobrança de Reinaldo, de pé esquerdo, forte e no alto, me fez vibrar. Mas o que mais me fez feliz no lance, foi ver a presença de Matías Arezo dentro da área. O jovem atacante, que chegou nestes dias e mal desfez as suas malas, recebeu a bola e girou com velocidade em direção ao gol, levando o zagueiro a derrubá-lo. 

Sem ilusões, quero crer que tenhamos encontrado um jogador que sabe o que significa ser um número 9. E o lance tenha sido a primeira escala de uma longa e ótima viagem do uruguaio com a camisa do Grêmio. 

Dito isso, deseje-me boa viagem, também, porque assim como a vitória, eu estou voltando!

Avalanche Tricolor: ninguém apaga a história de Roger Machado no Grêmio

São Paulo 1×0 Grêmio

Brasileiro – Morumbis, São Paulo/SP

Roger Machado em foto de arquivo de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Décima derrota em 15 partidas disputadas no Brasileiro. A quarta partida seguida sem vitória. Vitória? Somamos apenas três até este momento na competição. Gols? Foram somente dez, o que nos coloca como o pior ataque do campeonato. E contrariando a máxima de que “quem não faz leva”, para cada gol que marcamos, levamos dois.

Tenho sempre a crença de que algo acontecerá para nos tirar dessa situação. Deposito minhas esperanças ainda na chegada de reforços e na recuperação de lesionados, em especial Diego Costa. Agora, diante de uma campanha como esta, me surpreende que a principal preocupação do torcedor gremista, nesta semana, foi o fato de um profissional de futebol aceitar um convite para trabalhar em um clube que lhe oferece a oportunidade de crescer na carreira e ser muito bem remunerado para exercer sua função.

Sim, eu sei que Roger Machado treinar o Internacional sensibiliza o coração de todos nós que o admiramos pelo futebol jogado no Grêmio em seu passado.  Temos a ilusão de que aqueles que vestiram a camisa tricolor e foram elevados a posição de ídolo devem reverência ao clube para o restante de suas vidas. Queremos acreditar que são como nós, torcedores e apaixonados, incapazes de cometermos o sacrilégio de vestirmos outro manto que não seja o do Imortal. E se o fizerem, que nunca, jamais e em nenhuma circunstância seja o do colorado.

Roger tem o direito de treinar o clube que bem entender. É profissional do futebol. Deve escolher a trajetória que lhe convier. É inteligente, tem personalidade amadurecida e um equilíbrio emocional que poucas pessoas alcançam. Certamente, precisou de muita coragem para tomar a decisão de se transferir para o Internacional. Calculou o risco que corria e a pressão que sofreria. Chego a imaginar com quem se consultou antes de aceitar o convite. Fez uma escolha bem pensada, porque foi assim que sempre se comportou ao construir sua carreira, especialmente desde que migrou de jogador para treinador. 

O conheci pessoalmente em 2015, em virtude de entrevista que participei a convite da ESPN. Vinha de uma sequência inédita de vitórias no Campeonato Brasileiro, edição em que o Grêmio terminou na terceira posição e com vaga na Libertadores, apresentando um futebol bonito de se ver. Ano em que venceu o Gre-Nal do Dia dos Pais com um histórico 5 a 0. 

A conversa que havia iniciado, antes da entrevista, diante de um ídolo do futebol, encerrou-se bem depois do programa de TV, frente a um ser humano admirável, que me inspira e respeito profundamente. Um cara que defende causas fundamentais para a humanidade, preza valores como integridade, justiça e solidariedade, e utiliza sua influência para promover o bem-estar social e a igualdade. Suas ações fora dos campos revelam um compromisso genuíno com a construção de um mundo melhor, fazendo dele um exemplo de cidadania e liderança.

Na época, revelou, ainda, uma visão estratégica para a vida. Assumir um clube de expressão como o Grêmio havia sido uma das etapas estabelecidas para seguir  na carreira. Desejava conquistar um título de expressão e concluir sua missão como treinador aos 55 anos. Está com 49. Cheguei a perguntar a ele se aceitaria treinar o Internacional. Respondeu-me que tinha uma relação histórica com o Grêmio e acrescentou: “me preparei para treinar grandes times”.

As glórias que teve pelo Grêmio e com o Grêmio ficarão registradas para todo e sempre no nosso coração (no meu com certeza). Fez parte de um dos maiores times que já formamos. Foi campeão Gaúcho, da Copa do Brasil, do Brasileiro e da Libertadores. Sempre que esteve com a camisa do clube, seja como jogador seja como técnico, honrou aquilo que gostamos de nominar como imortalidade. Nunca deu as costas aos compromissos que lhe eram propostos. Mereceu e seguirá merecendo cada homenagem que recebeu desde então: dos pés na calçada da fama ao título de atleta laureado. Qualquer movimento que busque apagar a história e importância de Roger Machado é apequenar o clube, não bastasse ser inútil. O que ele fez com a nossa camisa está nos registros e foi gigante. 

Melhor faremos se nos voltarmos para os problemas que levam o Grêmio a atual situação de dificuldade no Campeonato Brasileiro. Isso, sim, é preocupante e pode ser desastroso para a nossa história — esta que Roger ajudou a construir.