Avalanche Tricolor: entre mortos e feridos seguimos no G4

 

Coritiba 2 x 1 Grêmio
Brasileiro – Couto Pereira (PR)

 

 

Minha prudência na última Avalanche Tricolor – escrita com providencial atraso – fazia sentido. Nem sempre podemos esperar o desempenho qualificado das partidas anteriores, menos ainda teremos o mesmo time em campo. Aquela equipe com cada um no seu devido lugar, dona da bola e do jogo foi se despedaçando no decorrer da partida. Se já havíamos entrado em campo capenga, voltamos para o segundo tempo esfarrapado. Estávamos sem um dos volantes titulares e sem nosso principal atacante, acabamos, também, sem dois dos jogadores que têm desequilibrado as partidas a nosso favor, Zé Roberto e Elano. O próprio banco estava desfalcado de Leandro, dos poucos em condições de entrar para mudar para melhor nossa performance. Os demais fazem número, podem preencher espaço mas quase não interferem no desempenho. Além disso, tinha um daqueles juízes que dão raiva de ver trabalhando, mas isto é um outro assunto.

 

Com todos os problemas, encerrada a partida, olhei a tabela de classificação, os jogos dos nossos adversários, os próximos compromissos e lembrei de uma expressão que minha mãe usava de forma divertida e consoladora muitas vezes: entre mortos e feridos, salvaram-se todos! No nosso caso, nos mantivemos no G4 e com tendência de alta.

Avalanche Tricolor: antes tarde do que nunca

 

Grêmio 1 x 0 Fluminense
Brasileiro – Olímpico Monumental

 

Este é um fato raro nesta coluna que se iniciou em 2007 juntamente com este Blog. Raro mas não necessariamente especial. A Avalanche sempre se apresenta em formato de post momentos após a partida do Grêmio quando descrevo parte do que senti assistindo ao meu time do coração, quase sempre pela televisão, dada minha distância geográfica. Dificilmente deixo para falar sobre o tema no dia seguinte, apenas quando as partidas se encerram muito tarde e minhas responsabilidade profissional e prudência pedem para que eu vá me deitar logo. Não lembro, porém, de alguma vez ter deixado esta Avalanche em “banho maria” por tantos dias como nesta semana. O curioso é que isto ocorreu em um momento importante para este novo time do Grêmio, a vitória sobre o até então invicto Fluminense. Ou seja, quando teria mais entusiasmo para despejar nestas linhas, me retraio, me atenho a outros compromissos como se, inconscientemente, tentasse conter o entusiasmo que toma conta da torcida gremista. Possivelmente o desafeto de meu tio mais famoso, Freud, explique este tipo de reação. Seja como for, estou aqui na Avalanche, hoje, para registrar que nossa satisfação se justifica pois o Grêmio tem amadurecido a cada jogo e dentre os méritos demonstrados destaco dois: bola e jogadores no lugar certo. Conseguimos ter a posse de bola em boa parte do jogo, e nossa escalação é coerente, sem invenção. Em um campeonato longo e difícil como o Brasileiro manter esta performance rodada após rodada é um desafio, pois nem sempre teremos todos os jogadores à disposição, haja vista o que ocorrerá na rodada desse sábado quando Kleber, Souza e Leandro estão fora. Mas o conceito de jogo não deve ser abandonado.

Avalanche Tricolor: ao infinito e além

 

Botafogo 0 x 1 Grêmio
Brasileiro – Engenhão (RJ)

 

 

Pode ter sido a camisa com o número 1 nas costas de Marcelo Grohe. Fiquei sabendo, nesta semana, que desde que ele passou a vesti-la, em lugar da 12 com a qual jogou as duas primeiras partidas como titular, o Grêmio não perdeu uma. Pode ter sido meu Ipad, que tem me permitido acessar a TV conectada em casa mesmo enquanto estou de férias na Itália. Foram três vitórias incontestáveis que assisti daqui da Maremma, região da costa de Toscana, que tornaram ainda mais agradáveis os dias de descanso. Alguém pode até imaginar que tudo está ligado a mística do adversário, aquele com o qual se alguma coisa pode dar errado, tenha certeza de que dará. Era a estreia da grande estrela internacional Seedorf diante de sua torcida e com a oportunidade de o time carioca entrar no sedutor G4. Por que daria certo?

 

Para os que preferem as superstições, tudo pode ter levado o Grêmio à vitória no encerramento da 11a. rodada do Campeonato Brasileiro. Melhor mesmo que tentem encontrar nas forças do além a resposta para a conquista de ontem contra um adversário direto na disputa pelo título, diante de um cenário tão desfavorável. Assim não perceberão que um novo time está sendo formado, com jogadores se posicionando melhor em campo e descobrindo seu papel no elenco. E talvez se surpreendam quando virem o Grêmio no topo da classificação. É lá que pretendemos chegar. Quando isto acontecer, não se engane, não será fruto do acaso, mas resultado do equilíbrio de alguns jogadores que estão conseguindo dar a equipe tranquilidade e qualidade.

 

Talvez você não tenha percebido, mas no parágrafo acima analiso o Grêmio fazendo uso do gerúndio, pois este indica uma ação em andamento e é isto que ocorre no tricolor gaúcho. O Grêmio não é um time pronto, e nosso desempenho logo após o gol da vitória se justifica nesta verdade. Sofremos uma pressão que poderia ter sido amenizada com a bola no chão, tocada de pé em pé, como fazíamos até então. Zé Roberto e Elano, no entanto, cansaram e ambos são referência e experiência no meio de campo. Por outro lado, ao conseguirmos conter o assédio do adversário, com bola tirada quase de dentro do gol, atacante derrubado no pescoção e nosso goleiro demonstrando uma incrível personalidade, ficou claro que, além de tudo, temos sorte. E é sempre bom contar com ela nos momentos decisivos, mesmo porque nossa meta é ambiciosa nesta temporada.

 

Lembrando o personagem de Toy Story, Buzz Lightyear: ao infinito e ir além.

Avalanche Tricolor: uma vitória de virada e com direito a passeio

 

Grêmio 3 x 1 Sport
Brasileiro – Olímpico Monumental

 

 

Era meia noite e meia em Ansedonia (ITA) quando a partida do Grêmio estava começando, em Porto Alegre, e a decisão de assistir ao jogo poderia comprometer a programação de férias na manhã seguinte. Com os dias que faltam sendo contados na ponta do lápis, deixar um passeio de lado com a família nem sempre é boa escolha, principalmente quando se acorda com céu azul e o sol iluminando a costa da Toscana – que é a promessa cumprida de todos os dias neste verão italiano. Estava, porém, curioso para conferir se o bom futebol da rodada anterior, quando vencemos em Belo Horizonte, se repetiria diante da torcida e contra um time que tendia a jogar fechado, muito fechado. Não resisti e antes mesmo de os times entrarem em campo, peguei meu Ipad, fui para um canto da casa onde a internet navega mais rápido e comecei a torcida.

 

Mais uma vez éramos o dono da bola, no sentido de estar com ela nos pés muito mais do que o adversário, o que tem se repetido jogo após jogo, mas faltava criatividade para furar um bloqueio tão intenso, o que, somado ao constante risco de tomarmos um gol de contra-ataque e de cabeça, seria suficiente para estragar meu programa e provar que tinha feito uma escolha errada. Ir para o intervalo da partida em desvantagem fez minha frustração aumentar e me questionar sobre o desempenho de domingo passado. Se imaginava que poderia dormir tranquilo sem ver o segundo tempo, ledo engano. Permanecer acordado e na torcida eram obrigações naquele instante. O Grêmio precisaria de toda força e inspiração, mesmo que de outro continente, para derrubar aquele paredão construído em seu caminho.

 

Valeu a pena. E me desculpe Leandro, menino tão tímido para jogar quanto para falar, que desabrochou ao entrar e marcar dois gols, considerado por muitos o personagem da partida. Me perdoe Marcelo Moreno que parece ter acordado após o desastre de dois jogos atrás e retomou seu papel no ataque marcando gols decisivos nas últimas partidas. Me senti muito mais recompensado mesmo foi pelo que vi Elano fazer no meio de campo gremista ao usar o drible para desmontar o adversário e a inteligência para dar oportunidade a seus companheiros. O primeiro gol surgiu de um desses momentos de criatividade do recém-contratado, apesar de que na estatística não lhe caberá sequer o mérito da assistência. No terceiro, teria todo o direito de concluir a gol, pois era quem mais havia tentado marcar, a maior parte das vezes de fora da área. Mas foi inteligente e solidário ao dar sequência a mais bonita troca de passes de toda a partida e oferecer a Leandro o prazer do gol. O talento foi reconhecido pela torcida que gritou seu nome, o que não fiz apenas porque acordaria meus companheiros de viagem, e eram quase duas e meia da madrugada.

 

Agora são nove da manhã por aqui, quatro horas no Brasil, estou de café tomado, diante do cenário que a quinta-feira me prometia, e sem um pingo de sono, apesar de a partida ter se encerrado tão tarde. Ou seja, tanto tive a satisfação de confirmar que temos um novo time como terei a alegria de agora pela manhã dar seguimento aos passeios destas férias.

Avalanche Tricolor: estes que aí estão atravancando o meu caminho

 

Santos 4 x 2 Grêmio

Brasileiro – Santos (SP)

 

 

Você, caro e raro leitor desta Avalanche, é testemunha do que vou dizer. Sabe bem que busco neste espaço driblar os percalços, uso da imaginação para enxergar méritos onde muitas vezes havia apenas uma jogada grotesca, e analiso, aqui, meu time de futebol com o olhar do homem apaixonado incapaz de encontrar defeitos na mulher amada, mesmo que esta faça dele gato e sapato (pra não falar em bicho pior). Por tudo isso que já fiz, pelo esforço que exerci em situações até mesmo mais constrangedoras, peço licença. Um resultado como o desta tarde na Vila Belmiro é excelente para expurgarmos todos os cuidados que costumamos ter ao falar do nosso time do coração. A diferença no placar nem chegou a ser escandalosa como se desenhou em alguns momentos e o árbitro que cometeu erros muito mais pela sua incompetência do que por seu caráter prejudicou o Grêmio. Mas algumas coisas vem acontecendo no estádio Olímpico que me incomodam muito e, me parece, começam a contaminar a disposição dentro de campo, haja vista a forma resignada com que o time jogou, sem praticamente levar perigo ao adversário, aceitando o resultado, nem mesmo brigando contra as injustiças do juíz.

 

Vamos a elas:

 

Por que o Grêmio não é capaz de contratar um craque internacional como Furlán?

 

Por que o Grêmio sequer cogita trazer Ganso, mas acerta com Elano?

 

Por que o Grêmio não tem nenhum jogador na seleção brasileira?

 

Por que o último jogador gremista que vestiu a camisa do Brasil teve de ser vendido?

 

Por que o Grêmio é incapaz de revelar e manter seus talentos (exceção feita ao valioso Fernando)?

 

Por que preferimos vender Mário Fernandes, um talento que se machuca muito, para gastar dinheiro com Fábio Aurélio, que só se machuca?

 

Por que contratar Sorondo se todos sabiam dos problemas físicos dele?

 

Por que gastamos tanto dinheiro com jogadores lesionados?

 

Por que temos de sempre lutar pela última vaga na Libertadores e não montamos um time para ser campeão brasileiro?

 

Por que temos a maior torcida do Rio Grande do Sul, mas não o maior número de sócios?

 

Se tenho tantas dúvidas, assim, mas não desisto de torcer pelo Grêmio é porque, ao menos para esta questão, tenho uma resposta, inspirada no gremista Mário Quintana: todos esses que aí estão atravancando meu caminho, eles passarão, o Grêmio, jamais!

 

NB: Não venha me dizer que Quintana não torcia para times de futebol ou coisa pior, homem inteligente como ele jamais faria uma escolha equivocada.

O Corinthians não é o Brasil

 

Foi o técnico Tite quem disse. E assino embaixo. Semana passada, a chamada da CBN para o primeiro jogo da Libertadores também “brincava” com esta ideia. Usufruía do título de Nação Corinthiana para dar a verdadeira dimensão do clube que tem a segunda maior torcida do Brasil. E fechava, na voz-padrão de Laerte Vieira: “O Corinthians é o Corinthians na Libertadores”.

 

Esta ideia de que todos estarão abraçados em torno da vitória corintiana é uma tremenda bobagem. O foguetório que inundou o céu de São Paulo na vizinhança onde moro, na zona oeste, no momento em que o Boca fez seu gol na Bombonera, na quarta-feira à noite, mostra claramente esta realidade. Há até quem vestirá a camisa azul e amarela dos argentinos sem pudor como, aliás, os próprios corintianos já fizeram quando estavam sentados na arquibancada dos secadores.

 

É possível que alguns se comovam com a paixão demonstrada pelos corintianos e a possibilidade de uma conquista inédita do time. Hoje mesmo, durante o almoço, alguns colegas de mesa anunciaram que torcerão para o Corinthians porque jamais estariam ao lado de um time da Argentina. Eu estou longe desta divergência nacional mas, confesso, me divido quando assisto a estes jogos e me sensibilizo pela forma como uma equipe se entrega pelo resultado. E gosto muito do trabalho do técnico Tite que, sempre bom lembrar, ganhou seu primeiro título de relevância, a Copa do Brasil de 2001, no comando do Grêmio, contra o Corinthians. Ao mesmo tempo, sei que o dia seguinte será de muita corneta – expressão que representa bem o barulho que a gozação dos vencedores faz nos nossos ouvidos. E corneta tocada por corintiano, por milhões deles que aparecem em todos os cantos, resultado do incrível tamanho desta torcida, não é fácil de aturar.

 

Eu quero ver é estes “brasileiros” que estarão se unindo a torcida do Corinthians em caso de um revés no Pacaembu. Vão tirar sarro, fazer piadas e se divertir às custas da tristeza alheia. E aquela história de que o Corinthians é Brasil, ficará na lenda. Portanto, vamos combinar que hoje o Corinthians é apenas Corinthians – o que já é mais do que suficiente. Quem quiser torcer para ele, que torça; quem quiser secar, que seque. E que todos se respeitem.

Carta a um sobrinho corintiano

 

Por José Renato Santiago
Amante do futebol e ouvinte-internauta

 

Meu querido sobrinho, Felipe.

 

Sua mãe, minha irmã, é testemunha sobre o quanto a sua chegada foi desejada.
Em 1995, quando ela engravidou pela primeira vez, ganhei de presente ser padrinho de sua irmã, Mariana.
Uma grande alegria e orgulho para mim.
Em 1999, quando sua mãe nos avisou que o meu primeiro sobrinho viria ao mundo, vibrei!!!
Mesmo assumindo, apenas, o papel de tio, me satisfez muito saber que passaria a ter um novo amigo para ir comigo aos jogos do meu tricolor.
Olha que tentei.

 

Seu primeiro jogo no estádio foi um São Paulo x Juventus no Morumbi.
Escolha estratégica, adversário supostamente tranquilo, tudo convidativo para fazer alguém se tornar são paulino.
Bem, só não avisaram isso ao Juventus que venceu por 1 a 0 naquele dia.
Não foi problema, você era tão pequeno que nem notou a derrota do São Paulo.
Ainda assim, fui tentando de trazer para o meu lado rs rs.

 

Em uma partida do São Paulo x Rio Claro, conseguiu que você, juntamente com seu irmão, Marcos, entrassem junto com a equipe tricolor, ao lado de Ceni.
Desta vez, vitória tricolor, para mim, o jogo estava ganho.
Ledo engano…

 

Em 2007, o Corinthians estava muito mal no campeonato brasileiro e acabou rebaixado.
Novamente, achei que estava resolvida esta questão, ainda mais porque o São Paulo tinha sido campeão.
Mas naquele dia, o do rebaixamento, a primeira coisa que você fez foi: vestir a camisa do Corinthians e ficou com ela a semana inteira.
Realmente, o jogo estava ganho, você seria corintiano.

 

Aliás, foi com você que aprendi a respeitar efetivamente os torcedores rivais.
Não que eu fosse desses torcedores que saem ofendendo os rivais, mas achava, até então, impossível ter um corintiano na minha família (lembrando que cunhado, seu pai, não é parente rs).

 

Minha torcida contrária ao Corinthians continuou, mas certamente sem a mesma força de antes, graças a você.
Não conseguia realmente torcer de forma contrária da mesma maneira.
Esta Libertadores, torci a favor do Vasco, a favor do Santos e até mesmo a favor do Boca…
Mas, capitulei…

 

Acompanhei a sua aflição…
Acompanhei a sua alegria…

 

E mais, é difícil deixar de admitir que a atual equipe corintiana é realmente merecedora da conquista da Libertadores deste ano.
Sendo assim, não irei torcer a favor do seu time, mas sim que você fique feliz com o resultado.
Pois independente do resultado, para você, o Corinthians é sempre Corinthians e isto é o suficiente!

 

Um grande abraço de seu tio tricolor desde sempre.

Avalanche Tricolor: goleiros, eles não são o problema

 

Grêmio 0 x 1 Atlético – MG
Brasileiro – Olímpico Monumental

 

 

Três defesas incríveis de Marcelo Grohe, que impediram uma derrota vexatória em casa, foram provavelmente os únicos momentos em que a torcida do Grêmio pode comemorar com satisfação, no início da noite deste domingo. O goleiro, que fazia sua estreia no time titular, apenas ratificou a opinião de muitos torcedores que confiam nele desde que demonstrou talento e segurança substituindo Galatto e depois Victor, sempre que este era convocado para a seleção brasileira. Grohe é mesmo um goleiro de qualidade, transmite seriedade e esperou muito pela chance de vestir definitivamente a camisa de número 1. Desejo que todos estes anos de paciência e resignação sejam recompensados.

 

Vibrar com as defesas de Grohe, porém, está muito aquém do que imaginava para esta que foi a mais importante partida que disputamos neste campeonato até aqui. Os três pontos desperdiçados nos colocariam em posição privilegiada na competição e impediriam a ascensão do adversário à liderança. Neste Brasileiro de pontos corridos, jogos assim são como se estivéssemos em uma final, o que a comemoração dos “mineiros” após o jogo deixou bem claro. E em decisão se espera não apenas bola no pé, mas bola chutada com perigo no gol, caminho mais apropriado para chegarmos ao resultado positivo.

 

A derrota apenas reforçou o sentimento de frustração que se revelou, há três dias, quando soube que o Grêmio havia vendido Victor para o Atlético Mineiro. Ao contrário de uma parcela da torcida, continuava a confiar na performance dele. Mais importante, porém, é que ele era dos poucos ídolos que ainda estavam preservados no clube que tem se especializado em se desfazer de seus principais jogadores sob a justificativa de que é preciso deixar as contas em dia. Concordo que não se pode cometer absurdos com o dinheiro alheio, mas talvez se deixassem de gastar na contratação de gente que não faz a menor diferença para o elenco nem são capazes de comover um torcedor, sobraria mais para segurar aqueles que respeitamos.

A história de um radialista fugitivo

 

Milton Ferretti Jung

 

Esta é mais uma história de rádio. Sei que quando escrevo sobre tal tema garanto, pelo menos, o interesse de um leitor: o Mílton, comandante deste blog, cujo gosto por este veículo sem o qual, é voz corrente, brasileiro não vive, rivaliza com o meu. Aliás, ele me mandou um e-mail, um dia desses, sugerindo que, volta e meia, contasse minhas experiências radiofônicas ou as vividas pelos meus colegas de profissão. Então, aí vai mais uma por mim protagonizada.

 

Corria o ano de 1977,véspera de uma Copa do Mundo que seria disputada na Argentina. Nossa seleção, que não obtivera sucesso na anterior, com sede na Alemanha, precisou participar das Eliminatórias do Mundial, competição em que não estava se saindo bem. Fui escalado para narrar Colômbia x Brasil. Ser escolhido pelo chefe da equipe esportiva da Rádio Guaíba, Armindo Antônio Ranzolin, para narrar um jogo desta envergadura era um privilégio. Meus companheiros na viagem com destino a Bogotá eram o comentarista Ruy Carlos Ostermann, o repórter João Carlos Belmonte e o operador Ronaldo Krebs.

 

Deixamos Porto Alegre num voo que nos levou a São Paulo. Lá (ou aí, como queiram) embarcamos para o destino final: a capital colombiana. Depois de uma escala em Manaus, viajamos mais algumas horas até desembarcar em Bogotá, onde chegamos no dia 4 de fevereiro, uma sexta-feira. No aeroporto de Eldorado tive minha primeira experiência com os 2.591 metros de altitude desta cidade andina. Há quem fique com falta de ar. Não foi o caso de nenhum do nosso grupo. Fomos de táxi para o Tequendama, hotel de cinco estrelas, um luxo. Nossa estada em Manaus seria de vinte dias. A seleção brasileira marcou para o domingo, 6 de fevereiro, um amistoso contra o Millionários, na época um dos mais badalados clubes de futebol bogotano.

 

No sábado, à noite, saímos a caminhar e acabamos jantando numa boate de bom nível. Até então, eu não tivera qualquer problema com a altitude. Comemos bem e bebemos moderadamente. Afinal, não se pode cometer qualquer tipo de exagero em véspera de uma jornada esportiva internacional. Voltamos os quatro para o Tequendama. Era madrugada e acordei com o estômago que parecia ter virado ao avesso. Se estivesse no México, pensaria estar sofrendo do Mal de Montezuma. Diz a lenda que todo estrangeiro que visita a Cidade do México arrisca-se a sofrer dele. Acordei mal. Não quis almoçar. Fomos para o El Campin para cobrir o amistoso da seleção brasileira contra o Millionarios. Narrei o jogo sentindo-me como um condenado. Meus companheiros foram passear na noite dominical de Bogotá. Fiquei sozinho no hotel e aproveitei para telefonar à Varig. Perguntei se a empresa tinha voo na segunda para o Brasil. Tinha, mas eu fui posto na lista de espera. Trocamos de hotel. No apartamento deste, dei um susto no Ruy ao lhe informar que eu logo iria para o aeroporto disposto a retornar a Porto Alegre. Solidariamente, os outros três me acompanharam. Antes, porém, sem que eu soubesse,o Ruy telefonara para a Guaiba comunicando que eu retornaria.

 

Voltei. O Ranzolin pediu ao Antônio Britto, coordenador do esporte,que me convencesse a retornar a Bogotá. O futuro governador gaúcho teve sucesso na empreitada. No dia seguinte, voei de retorno. No dia 20 de fevereiro narrei o  zero a zero de Brasil e Colômbia. Meu castigo foi pagar a viagem de volta. “Al fin y al cabo”, não tive prejuízo. As nossas diárias eram excelentes. O Belmonte, que viajava muito a serviço da Guaíba, com o que poupou em diárias, conseguiu construir sua casa. Talvez eu escreva alguma história sobre o João Carlos Belmonte.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)