O discurso do ex-chanceler

Ernesto Araújo em depoimento à CPI da Pandemia. Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

O ex-ministro Ernesto Araújo virou meme, na CPI da Covid. Logo ele que fez fama explorando a velocidade e eloquência das mensagens por rede social. Nenhum de seus inimigos — e fez muitos na passagem pelo Itamaraty — escapava dos disparos verborrágicos, aplaudidos por seguidores mais fiéis e impulsionados por robôs programados. 

Diante dos senadores, falou fino. Estava irreconhecível. A propósito, nem mesmo ele se reconheceu quando exposto a textos e declarações desastrosas dos tempos em que ocupava sala no Itamaraty. Nem 30 minutos havia transcorrido de seu depoimento e já ouvira um dos senadores lhe chamando de mentiroso.

Ao contrário das frases histriônicas e ofensas que marcaram seu “reinado”,  foi reticente nas respostas e claudicante nas afirmações. Revelou insegurança e medo. Abusou de barreiras verbais enquanto buscava as palavras mais apropriadas para a circunstância. Um recurso comum àqueles que não estão certos do discurso que fazem. Que revela a falta de repertório e vocabulário.

A barreira verbal, me explica a doutora, colega e amiga Leny Kyrillos, ocorre de diversas formas. Há os que repetem expressões —— verdade, tipo, né —-; há os que esticam vogais ou consoantes, gerando um ruído que atrapalha a comunicação. Há os que conseguem transforma-lá em silêncio, gerando a ideia de reflexão —- o que é positivo.

Ao substituir o silêncio entre as palavras pelo ruído, Ernesto Araújo desperdiçou o direito à reflexão e transmitiu hesitação.

Para o ouvinte, isso torna a fala enfadonha, confusa e ainda mais demorada, gerando a perda de paciência. Testes feitos com discursos semelhantes em que, em lugar do silêncio, produzia-se o som de vogais estendidas, passaram a noção de que neste segundo caso o intervalo entre as palavras eram muito maior. 

Nesses tempos de internet: a hesitação gera  mais do que impaciência e ruídos. É matéria-prima para memes. Nas redes sociais, circularam posts, vídeos, áudios e montagens com destaques aos piores momentos de Araújo. No senso comum, tendemos a dizer que, por medo, ele gaguejou, o que nos remete a ideia errada de que as pessoas que sofrem de disfemia ou disfluência são inseguras.  

Pessoas com transtorno de fluência não são necessariamente inseguras — podemos até dizer que são tão seguras ou não quanto qualquer outra. Ao contrário de Ernesto Araújo, o gago sabe o que dizer, mas tem dificuldade neurobiológica para ajustar o tempo da fala e a duração dos sons —- fator que pode ser corrigido de diversas maneiras.

Lembre-mo-nos de Nelson Gonçalves, ícone da música brasileira, um gago de sucesso estrondoso. Ou do Príncipe Albert que alçado a rei, George VI, superou sua gagueira para convocar o Reino Unido às armas, na Segunda Grande Guerra —- história bem contada no premiado filme ‘O Discurso do Rei’.

Nelson Gonçalves, George VI assim como tantos outros gagos ilustres que conhecemos ao longo da história têm ou tiveram uma disfunção da fala. Ernesto Araújo tem uma disfunção moral —- e para isso não tem solução.

Em tempo:

Ouça o comentário de Leny Kyrillos, que foi ao ar dia 21 de maio, no CBN Brasil

Por que falar é viver

 


Por Nei Alberto Pies
Ouvinte-internauta do Jornal da CBN

 

“A quem mais amamos, menos sabemos falar” (Provérbio inglês)

 

Todo tipo e forma de discriminação, além de ser um problema pessoal de quem os sofre, é também um problema social. A gagueira, como outros tantos limites humanos, deixa marcas e imprime jeitos de resistir para sobreviver socialmente. Como eu, pelo menos 1.700.000 pessoas em todo o nosso país apresenta algum grau de gagueira na sua comunicação, conforme dados do Instituto Brasileiro de Fluência. A gagueira ganhou também um dia internacional: dia 22 de outubro.

 

A fala é o meio mais eficaz e mais utilizado para a nossa comunicação e interação social, porém não a única. Esta é a maior descoberta para alcançarmos reconhecimento social, através da comunicação. Se não falamos fluentemente ou temos algum grau de timidez, arranjamos jeitos de ser reconhecidos e valorizados socialmente por alguma outra habilidade ou virtude. Se não somos “experts” na fala, podemos ser bons na escrita, no canto, na representação, no estudo, na convivência ou nas relações. A qualidade da nossa comunicação depende da interação de todos, inclusive do apoio e compreensão que temos de dar àqueles que sofrem para se comunicar.

 

O ser humano é especialista na arte de compensar. Sem compensar não sobreviveria, porque se não é possível ser bom em tudo, é necessário ser bom e útil em alguma coisa. Por isso a gente se faz “agarrando-se” ao que tem de bom, àquilo que tem facilidade e àquilo que nos renda reconhecimento dos outros. A gente inventa e re-inventa jeitos e trejeitos para ser querido, amado e promovido pelos outros. O reconhecimento social é uma das maiores necessidades humanas, pois ninguém sobrevive se não comprovar para si mesmo o quanto é útil, importante, querido e estimado pelos outros.

 

O resgate da auto-estima e a auto-aceitação são preponderantes para a cura ou convivência com a gagueira. A gagueira é influenciada por fatores neurobiológicos ou emocionais. Conhecer-se, estudar o seu problema, procurar auxílio e terapias, aumenta as possibilidades de conviver socialmente, sem maiores traumas. É fundamental, ainda, assumir publicamente os limites da fala e da comunicação sempre que se puder. Assumir os limites da fala propicia discernimento e tranqüilidade interior para lidar com os desafios de se comunicar melhor. Quem fala se liberta!

 

Falar é a forma mais concreta de nos apresentar ao mundo. Por isso mesmo, falar pressupõe primeiro aceitar-se como se é para depois buscar o reconhecimento junto aos outros. A felicidade de “seres humanos falantes” alicerça-se tanto nos fracassos e limites como nos êxitos e nas conquistas, pessoais e coletivos. Uma boa convivência social pressupõe a aceitação de todos os limites humanos e a superação de todas as formas de discriminação.