
“Existe um reconhecimento de um desequilíbrio entre o tamanho da dívida e a geração operacional de caixa.”
Uma das redes mais tradicionais do varejo brasileiro iniciou um processo de reorganização financeira ao anunciar a renegociação de cerca de R$ 4,5 bilhões em dívidas por meio de um plano de recuperação extrajudicial. Em entrevista ao Jornal da CBN, Alexandre Santoro, CEO do Grupo Pão de Açucar, explicou o que provocou as dificuldades econômicas, quais são suas expectativas em relação aos credores e como pretende manter as lojas abertas e sem demissões.
A recuperação extrajudicial é um instrumento previsto em lei que permite às empresas renegociar dívidas diretamente com credores, sem recorrer a um processo de recuperação judicial tradicional. Na prática, a companhia busca reorganizar compromissos financeiros enquanto mantém o funcionamento normal das operações.
Segundo Santoro, a medida foi desenhada para tratar exclusivamente das dívidas financeiras da empresa, sem afetar a rotina de funcionamento das lojas.
“Estamos falando de dívidas financeiras não operacionais. Ficam fora desse processo a relação com fornecedores, os funcionários e a operação das lojas”, afirmou.
O Grupo Pão de Açúcar reúne diferentes bandeiras do varejo alimentar no Brasil. Além dos supermercados Pão de Açúcar, fazem parte do portfólio redes como Extra Mercado e Minuto Pão de Açúcar, além de marcas próprias de produtos, como Qualitá e Taeq.
O que levou à renegociação das dívidas
A decisão de recorrer à recuperação extrajudicial está ligada ao vencimento de obrigações financeiras relevantes no curto prazo. De acordo com o CEO, não houve um único fator responsável pela situação, mas uma combinação de elementos acumulados ao longo dos anos.
“O que existe é um desequilíbrio entre o tamanho da dívida e a capacidade de geração de caixa operacional da companhia”, explicou.
Esse tipo de situação não significa necessariamente que a empresa deixou de gerar caixa ou que a operação deixou de ser viável. O problema aparece quando os compromissos financeiros crescem em ritmo maior do que a capacidade da empresa de honrá-los.
Operação segue funcionando normalmente
Um dos pontos que mais geram dúvidas entre consumidores é entender como uma empresa pode renegociar bilhões em dívidas sem fechar lojas, demitir funcionários ou alterar o atendimento ao público. Santoro afirmou que a operação segue funcionando sem mudanças.
“Se você entrar em uma das nossas lojas agora, vai ver tudo funcionando normalmente, clientes chegando, produtos sendo repostos nas gôndolas e caminhões abastecendo as lojas.”
Hoje, o grupo conta com cerca de 37 mil funcionários e atende milhões de clientes em suas lojas físicas e canais digitais. Aproximadamente 10% das vendas já são realizadas por comércio eletrônico.
Negociação com credores já começou
A companhia informou que já tem conversas avançadas com parte dos credores. Para que o plano seja formalizado, é necessária a adesão de mais da metade deles. Segundo o CEO, cerca de 46% dos credores já participam das negociações.
O prazo estimado para conclusão das conversas é de até 90 dias.
“A gente já está bastante engajado nessa mesa de negociação. Existe consciência de que a companhia tem um negócio saudável”, afirmou Santoro.
Juros elevados aumentam a pressão
O ambiente econômico também pesa nas contas de empresas com grande volume de dívida. Santoro destacou que o nível atual das taxas de juros amplia o custo financeiro das companhias.
“Taxas de juros impactam diretamente a despesa financeira.”
Essa realidade afeta especialmente setores de grande escala, como o varejo alimentar, que dependem de capital intensivo para financiar estoques, expansão e operação.
O que esperar agora
Nos próximos meses, o foco da companhia estará na negociação com credores e no ajuste da estrutura financeira.
A estratégia da empresa parte da premissa de que o negócio continua sólido. A aposta é que, com a reorganização das dívidas, a operação consiga seguir crescendo sem a pressão provocada pelos compromissos financeiros de curto prazo.
O desafio, agora, será transformar essa aposta em números que convençam credores e investidores.