Avalanche Tricolor: Luan voltou a sorrir

 

Grêmio 2×1 Athletico PR
Brasileiro — Arena Grêmio

 

 

Gremio x Athletico-PR

Luan comemora, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Eita, coisa estranha esse campeonato! Dia desses falei com você, caro e raro leitor desta Avalanche, que ainda me acostumava com o fato de ter de assistir a alguns jogos em horários diferentes, como o do sábado passado que foi às nove da noite, além de termos partidas disputadas quase todos os dias da semana. Não é que nesta 16a rodada do Brasileiro, descobri que também passamos a ter jogos sábado pela manhã?!? Ainda bem que não era o do Grêmio.

 

A rodada mal começou e deparei com outra novidade: jogo de bola só na internet —- exclusiva no site GloboEsporte.com. Por falta de atenção minha, passei a correr as centenas de canais disponíveis na televisão e nada de aparecer a partida do Grêmio. Clica aqui, corre canal ali, acessa o PPV —- aquele que eu pago para ver, mas não tive direito de ver —- e só depois de a bola já ter começado a correr na Arena lembrei que o adversário dessa tarde tem um imbróglio qualquer com a emissora que detém os direitos de transmissão (ou quase todos) do campeonato.

 

Corri no computador e conectei na TV tão rápido quanto pude. E logo descobri que o ataque do Grêmio foi bem mais rápido do que eu e em três minutos já havia aberto o placar, depois de pressionar a defesa adversária, provocar o erro, Luciano roubar a bola e deixar Luan na cara do gol. Ainda bem que a mesma internet logo tinha à disposição o gol gremista para ver e rever quantas vezes eu quisesse. E gostei muito de ver Luan marcando e comemorando aquele gol que o consolida como goleador da Arena e o coloca na privilegiada posição de já ter mais gols com a camisa do Grêmio do que o próprio Renato.

 

Dizem que Luan pode ir embora. Dizia-se o mesmo há exatos dois anos quando o meio-campista estava no auge de sua performance. Ele preferiu ficar, mesmo com as ótimas propostas que surgiam. Quis ser campeão mais vezes pelo Grêmio, conquistar a Libertadores, ser o Rei da América, disputar o Mundial e deixar seu nome na história. Luan conseguiu.

 

Neste ano, seu desempenho ficou abaixo de sua capacidade. Foi para o banco, entendeu que o momento não era dele. Treinou muito, recuperou-se fisicamente e tem se esforçado além da conta em toda a oportunidade que recebe. “Titular” do time alternativo, Luan enfrenta a dificuldade imposta por uma equipe que não tem o mesmo entrosamento da principal. Mas sabe que precisa passar por esse momento para voltar a ser o jogador que aprendemos a admirar em campo.

 

Se esses serão os últimos dias de Luan com a camisa do Grêmio, saberemos em breve. Se realmente o forem, o jogo deste sábado já valeu a pena, pois fiquei feliz em ver o sorriso dele na festa que fez pelo gol marcado e na festa que recebeu da torcida pelo jogo jogado. E mais uma vez Renato foi genial ao sacá-lo do time minutos antes de a partida se encerrar dando-lhe o direito de ouvir seu nome ser gritado pelos torcedores enquanto deixava o gramado.

 

Valeu, Luan!

Avalanche Tricolor: nada está decidido

 

 

Grêmio 0x1 Palmeiras
Libertadores — Arena Grêmio

 

Gremio x Palmeiras

Everton em mais uma tentativa de ataque, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Foi uma noite dedicada a prêmios, da qual participou a elite do empresariado brasileiro e algumas das duas maiores autoridades política e econômica do país. Coube a mim ser o Mestre de Cerimônia da entrega do Valor 1.000, premiação criada há 19 anos pelo Valor Econômico. Encontrar no palco gente que faz o Brasil andar, com seu trabalho na iniciativa privada, é sempre interessante. Saber que boa parte desta gente está na sua audiência, é gratificante.

 

Um aperto de mão aqui, um abraço acolá. Trocas de palavras amigáveis. Uma brincadeira com coisas do programa de rádio. Outra com o time de futebol. E a noite foi se estendendo. As autoridades, você sabe como são, gostam de vender o seu peixe. E se esforçaram para isso. Às vezes, indo além do tempo previsto —- o que, no fim das contas, já era previsto.

 

A acompanhar-me no púlpito de apresentação a tela do telefone celular que às vezes piscava para me chamar atenção para alguma informação de última hora—- aquelas notícias da política, da economia, do meio ambiente e do esporte, que costumam dominar sites e jornais, programas de TV e de rádio.

 

Foram por esses alertas que me foi contada a história do jogo desta noite pela Libertadores. Sem muitos detalhes, apenas com frases curtas que resumiam nossa situação. Perdemos logo cedo um dos nossos laterais. E isso deixa o lado esquerdo capenga como sabemos bem. De repente, sou informado do prejuízo maior: um gol adversário ainda no primeiro tempo.

 

Do início do segundo tempo para o fim, meu celular não parava de acender. Everton tentou. Everton driblou. Everton se esforçou. Jean Pierre, chutou. Foi falta mas o árbitro não marcou. Foi falta e expulsou. Infelizmente, só não recebi o aviso que mais esperava nesta noite. O Grêmio não marcou.

 

Imagino que muitos dos meus que assistiram ao jogo na Arena ou na televisão saíram incomodados com o resultado e alguns cabisbaixos. Sabem que o desafio na semana que vem será barra pesada, diante da torcida adversária e contra um técnico forjado na nossa casa, que merece todo nosso respeito.

 

Curiosamente, minha sensação é bem diferente — seja porque o jogo me foi contado a conta gotas seja porque a história do Grêmio já me foi ensinada há muito tempo. Cheguei agora há pouco em casa e ainda tirei tempo para escrever essa Avalanche, apesar do adiantado da hora, com a tranquilidade de quem conhece nossas façanhas. E sabe que estamos capacitados a buscar o melhor resultado contra tudo e contra todos.

 

Nada está decidido. E se alguém acreditar que está, cuidado. Melhor não subestimar nossa imortalidade.  

Avalanche Tricolor: David Braz é o tipo do cara que gosta de jogar bola sábado à noite

 

Grêmio 1×1 Palmeiras
Brasileiro — Arena Grêmio

Gremio x Palmeiras

David Braz comemora em foto de Lucas Uebel/GREMIOFBPA

 

 

Lá no Nonoai, bem em frente ao prédio onde o pai morou nos seus últimos dias, tem um mini-campo de futebol com grama rala, goleiras posicionadas e muito bem cercado — foi a forma que os donos do campinho encontraram para impedir que chutes desajeitados façam a bola se perder no riacho que passa atrás de um dos gols, no pátio da paróquia  que fica do lado contrário ou na rua Santa Flora, que corre por uma das laterais, onde os carros costumam andar em velocidade acima da necessária.

 

Nas últimas visitas que fiz ao local, ao estacionar o meu carro em frente ao campinho, chamava-me atenção o fato de todo dia ter gente para jogar. Alguns times mais organizados. Com uniforme e tudo mais. Com direito a resenha na porta do vestiário e ritual ecumênico antes da partida — aquela corrente pra frente que às vezes assistimos nos gramados oficiais. Parece que cada jogo ali jogado era uma decisão.

 

O que mais me intrigava era a turma dos sábados à noite. Isso é hora de jogar bola? Essa gente não tem família para visitar, amigos para badalar ou namorada para … namorar? Sei que essa cena, em Porto Alegre, não deveria me causar estranheza, especialmente depois de já ter assistido muitos times se engalfinhando  nas madrugadas do Rio de Janeiro, lá no Aterro do Flamengo. Afinal, futebol  é para ser jogado quando e onde quisermos. Basta a bola, um adversário que seja e nosso desejo está atendido. Diversão em campo. 

 

Meu incômodo talvez esteja ligado ao meu passado. Quando comecei a frequentar estádios de futebol, jogo de verdade se assistia aos domingos à tarde. Quarta-feira à noite também era aceitável — especialmente depois que meu time passou a visitar as competições sul-americanas, e as copas nacionais ganharam espaço no calendário do futebol brasileiro. 

 

Hoje em dia (e à noite), tem futebol a toda hora. Sábado de tarde, sábado no fim da tarde, sábado no fim da noite. Domingo de manhã, de tarde e de noite. Às segundas, também. Terça, quarta, quinta, não pode faltar. Seja para atender as múltiplas competições que alguns dos nossos times disputam seja para vender todos os jogos à televisão, a bola rola a todo momento aqui no Brasil.

 

Neste sábado à noite — NOVE HORAS DA NOITE — foi a vez do Grêmio e sua torcida comparecem no bairro do Humaitá para mais uma partida pelo Campeonato Brasileiro. Aquele que eu já havia decidido em minha intimidade que só voltaria a tratar aqui nesta Avalanche quando o Grêmio resolvesse disputar de verdade, com time titular, resenha motivacional no vestiário, ritual ecumênico antes da partida  e o desejo da conquista maior a qualquer custo.

 

Quem joga bola sábado à noite? Foi a pergunta que me fiz antes de me ajeitar no sofá e ligar a televisão para ver o Grêmio — sim, caro e raro leitor desta Avalanche, eu tenho família, filhos para cuidar e namorada para namorar, mas neste sábado os compromissos profissionais e pessoais começaram muito cedo e tinham se estendido por todo o dia, então resolvemos descansar em casa em lugar de sair com os amigos. E descansei no sofá assistindo ao Grêmio.

 

Quase me arrependi do programa reservado para esse sábado à noite . Fui salvo pelo bom vinho que saboreei enquanto a bola rolava na Arena e por aquele chute do David Braz, aos 44 minutos do segundo tempo. Assim que bateu na bola, lembrei-me do chutão que costumava partir dos pés daquela turma do campinho do Nonoai que só não alcançava a torre da Igreja ou a profundeza do riacho por causa da cerca. A diferença é que o chute do nosso zagueiro em lugar de ser desajeitado tinha um destino bem melhor: o ângulo do goleiro adversário.

 

Foi, então, que me dei conta: se tem alguém que gosta de jogar sábado à noite, este alguém é o David Braz, especialmente quando o pai dele, Seu David, faz aniversário.

 

Valeu, seu David. O senhor salvou o meu sábado!

 

Avalanche Tricolor: um jogo para reescrever a história dessa Libertadores

 

Grêmio 2 x 0 Libertad
Libertadores — Arena Grêmio

 

Gremio x Libertad

Geromel em lance flagrado por LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

Há coisas que marcam toda uma campanha. Que fazem a diferença. Que mudam um destino. A expulsão de Geromel foi uma dessas. Nosso Mito se foi e por ele muita gente deve ter baixado a cabeça, dado as costas ao jogo e desistido de lutar.

 

O Grêmio, não! O Grêmio jamais desiste.

 

Nesta mesma Libertadores já houve quem tenha apostado na nossa desclassificação. Traçado o pior dos cenários. Como se não soubesse dos Aflitos, das Batalhas e das histórias heróicas que marcaram nossa trajetória.

 

O Grêmio sempre acreditou!

 

Com um a menos em campo, o Grêmio não recuou. Kannemann e Matheus Henrique se desdobraram em campo. E com eles todo o restante do time se multiplicou. Cada um valia por dois. Solidários, ninguém deixava um só espaço do campo livre para o adversário atacar.

 

O Grêmio se superou!

 

Sem nosso Mito, coube a Renato mitar. Tirou André e colocou David Braz. Tirou Jean Pyerre e colocou Diego Tardelli. E seus pupilos fizeram história no segundo tempo.  

 

O Grêmio é copeiro!

 

Sem medo de jogar, manteve o controle da bola, arriscou dribles e escapadas. Foi em uma delas que conseguimos o escanteio que deu início ao primeiro gol, de Tardelli. Foi em outra, que conseguimos a falta que nos levou ao segundo, de Braz.

 

O Grêmio se agigantou!

 

Com a dupla vantagem no placar e de olho no regulamento, sabia que sair de campo sem levar gol era fundamental. E lutou como um gigante atrás de cada bola que se aproximava de nossa área. Na rara chance de gol do adversário, Paulo Victor foi ágil para impedir qualquer prejuízo — ciente de que era mais um protagonista daquela incrível história que estávamos reescrevendo. 

 

O Grêmio é Imortal!

 

 

 

 

Avalanche Tricolor: gol-gol-gol-goooool de Luan!

 

 

 

Inter 1×1 Grêmio
Brasileiro — Beira Rio/Porto Alegre-RS

 

 

O sábado começou com ótimas lembranças do clássico. Pelo e-mail soube que Edu Cesar, responsável pelo canal Papo de Bola, havia publicado imagens de um Gre-Nal disputado, em 1983, no Beira-Rio. O jogo em destaque terminou empatado depois de o Grêmio sair atrás no placar, muito parecido com o que aconteceu neste noite —- confira o vídeo alguns parágrafos abaixo.

 

Pelos jogadores que passaram na tela, desconfio que também entramos com time reserva. O jogo era válido pelo Campeonato Gaúcho e disputado em novembro. Vamos lembrar que naquele momento estávamos muito mais dedicados ao Mundial, que haveríamos de vencer em dezembro, no Japão.

 

De qualquer forma, foi bom ver em cena ao menos um dos nossos craques do passado, caso de Paulo Bonamigo que deu início a jogada do segundo gol com um passe de três dedos para a ponta esquerda. Era um volante que combinava muito bem a boa qualidade técnica para sair jogando e a força na marcação.

 

Puxei na memória, mas não consigo lembrar de ter estado no estádio naquele domingo. Seja como for nem o resultado nem os jogadores em campo foram o motivo da alegria que o vídeo me proporcionou. O que mais me tocou foi o fato de que a narração do jogo era do pai, na época em que trabalhou na TV Guaíba.

 

Se você é leitor de primeira viagem nesta Avalanche, esclareço: sou filho de Milton Ferretti Jung —- sim, sou o Júnior —-, que dedicou 60 anos de sua vida ao rádio e por algum tempo ao jornal e à televisão. Foi locutor do principal noticiário do rádio gaúcho e narrador esportivo. Com a inauguração da TV Guaíba, passou a transmitir os jogos pela emissora.

 

 

O pai adaptou sua forma de narrar os jogos quando se transferiu para televisão. Fazia uma descrição mais comedida dos lances e reduziu o grito de gol que havia criado no rádio. Manteve o gol-gol-gol — sua marca registrada —- mas abriu mão do grito mais longo e alto de gol ao final. Entendia que a imagem era suficiente para oferecer ao telespectador a emoção necessária. Foi um craque nessa arte da narração, assim como no jornalismo esportivo de uma forma geral.

 

Ouvi-lo no sábado pela manhã, bateu fundo no coração. Deu saudade não apenas da sua voz, mas da sua presença ao meu lado. Assistimos a muitos jogos juntos. Comemoramos abraçados os gols mais importantes da história do Grêmio. Quando eu assistia aos jogos na cabine da rádio Guaíba, o grito de gol dele sempre vinha acompanhando de um sorriso que era compartilhado comigo, como se quisesse se desvencilhar das amarras que o papel de narrador lhe impunha para me abraçar como torcedores gremistas que sempre fomos. Muitas vezes passei meus braços no entorno da cintura dele para comemorar enquanto cumpria sua função diante do microfone.

 

O pai hoje encara os desafios que a doença o impõe, em Porto Alegre — sequer pode ter a alegria de assistir ao Gre-Nal pela televisão. E se tivesse condições, talvez ficasse frustrado com o futebol jogado nesta noite. Eu estava aqui em São Paulo e assisti à bola ser maltratada de pé em pé, em um jogo no qual as duas equipes entraram com forças medianas, devido aos compromissos mais importantes no meio da semana. Mas juro que ao ver a bola estufar a rede colorada após Luan completar de cabeça o cruzamento de Juninho Capixaba parecia estar ouvindo a voz dele em alto e bom som gritando aos quatro cantos do Rio Grande do Sul: gol-gol-gol- gooooooooool de Luan, o Rei da América!

 

Saudade do seu grito, pai.

Avalanche Tricolor: a vitória da maturidade

 

 

Bahia 0x1 Grêmio
Copa do Brasil — Arena Fonte Nova/BA

 

Gremio x Bahia

A festa do gol em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O Grêmio de Renato voltou. Na forma de jogar. E na forma de ganhar.

 

Desde o início da decisão desta noite, o futebol gremista se expressou com o controle do jogo, a troca de passe mais rápida, a triangulação de jogadores aparecendo para receber, a mudança de lado para confundir a marcação e a defesa firme e forte reduzindo o risco de um gol fora de hora (a bem da verdade todo gol tomado é fora de hora).

 

A velocidade de nossos atacantes por um lado e por outro também esteve presente. E foi a partir dela que chegamos ao gol que nos classificou à mais uma semifinal de Copa do Brasil. O passe precioso de Matheus Henrique encontrou Alisson correndo em direção à área e ele não se fez de rogado: deu um corte no primeiro marcador, deu um corte no segundo e chutou com o pé invertido no canto que parecia mais improvável para a bola entrar. E entrou.

 

Em uma temporada na qual nem sempre apareceram essas características que nos puseram em destaque, o que mais me chama atenção é que todas —- ou quase todas —- tem dado sinais de vida quando mais precisamos.

 

Já havia sido assim na reta final da fase de grupos da Libertadores, quando muita gente já não acreditava na nossa capacidade de recuperação.

 

E foi assim na noite de hoje quando tínhamos pela frente o desafio de encarar um time muito bem organizado e batalhador diante de sua entusiasmada torcida. Aliás, desta vez também tivemos de superar o descrédito de críticos. Ainda hoje, ouvi colegas de rádio colocando em dúvida a possibilidade de seguirmos em frente na Copa do Brasil.

 

Sabemos da dificuldade em manter o mesmo ritmo vitorioso por tanto tempo, por mais que se invista na permanência do comando técnico, a começar pelo seu maior nome, Renato, e na busca de reforços para substituir jogadores e formar um elenco mais bem equilibrado. Mas para esses momentos de inconstância, aposta-se na maturidade do grupo. E foi essa maturidade que fez ressurgir o futebol gremista na noite de hoje, em Salvador, quando chegamos a marca de 100 vitórias em Copas do Brasil e nos credenciados a disputar a 14a vez uma semifinal desta competição.

 

Se não bastasse ver o Grêmio de volta com sua força e maturidade, ainda curti essa alegria ao lado de um velho companheiro de torcida,  Gregório, meu filho mais velho, que também voltou após três meses distante do Brasil. A festa foi completa.

 

Avalanche Tricolor: Pepê é mais um talento com direito a nome próprio

 

Grêmio 2×1 Vasco
Brasileiro — Arena Grêmio

Atacantes

 

Faz pouco tempo que assistimos à ascensão de Everton. Lembrei parte dessa história na Avalanche anterior, ao escrever sobre nosso empate na Copa do Brasil. O atacante, hoje cobiçado por alguns dos mais importantes clubes da Europa, até se firmar entre os titulares, tinha de esperar as substituições que Renato fazia no segundo tempo, geralmente em lugar de Pedro Rocha. No Mundial de Clubes, Rocha assistiu àquele jogo quase ao meu lado na arquibancada — ele já havia sido vendido ao exterior, onde ficou pouco tempo para retornar ao Cruzeiro. Mesmo assim, Everton ainda era um reserva de luxo. Fernandinho era o preferido do treinador.

 

Na época do entra e sai no time, Everton oscilava em suas apresentações. Quando encarava os marcadores já cansados no segundo tempo, levava vantagem com sua velocidade e habilidade com a bola. Fez gols importantes na campanha vitoriosa da Copa do Brasil, em 2016. Porém, sempre que saía jogando, seu futebol era colocado em dúvida, pois a excelência que se esperava dele não costumava aparecer da mesma maneira. Repetia assim o mesmo que já havia ocorrido com Pedro Rocha —— inclusive nas críticas, injustas, a imprecisão nas finalizações a gol. 

 

Rocha também demorou para se firmar entre os titulares. Havia torcedores que arrancavam os cabelos todas às vezes que assistiam ao nosso atacante disparar em direção ao gol e desperdiçar suas oportunidades com chutes sem precisão. Até que, com a confiança demonstrada pelo técnico, seu futebol amadureceu, ganhou personalidade, transformou-se em titular reverenciado por todos os torcedores e valorizado a ponto de ser a maior transação gremista de todos os tempos: foi negociado por 12 milhões de euros —- 45,2 milhões de reais —- para o Spartak Moscou, da Rússia.

 

Mesmo depois do gol que nos levou à final do Mundial, em 2017, Everton voltou a ocupar o banco de reservas, ao menos mais uma vez. Na partida decisiva, em Abu Dhabi, só entrou no segundo tempo. Com apenas 21 anos, trilhava o mesmo caminho de seu antecessor e sabia que sua hora estava para chegar.

 

Foi no ano seguinte, 2018, que Everton se notabilizou, tornou-se titular absoluto e um dos maiores goleadores da Arena Grêmio, tendo seu nome cogitado para a seleção brasileira. Neste 2019, após a consagração na seleção campeão da Copa América, mantê-lo no elenco virou missão impossível e estamos aqui apenas contando os dias que faltam para o jogador anunciar sua despedida do clube.

 

Nós torcedores já estamos resignados com essa situação: todo ano, dar adeus ao menos a um dos nossos jovens craques. Já não nos indignamos mais com a saída precoce deles e nos consolamos com as cifras absurdas que os estrangeiros pagam para contratá-los, nos contentando com uma espécie de competição paralela com os nossos rivais na qual quem consegue vender seu talento por uma preço maior é o vencedor.

 

Aos gremistas nos resta a satisfação de saber que a fábrica que produz jogadores com a qualidade e velocidade de Pedro Rocha e Everton dá sinas de estar em plena atividade. Haja vista, o crescimento de Pepê a cada partida que disputa. Ele jogou na base do Athletico Paranaense, foi para o Foz do Iguaçu —- na cidade natal —, passou rapidamente pelo Coritiba e chegou nas nossas bandas em 2016, após uma operação sigilosa da diretoria gremista que temia perder o jogador para os concorrentes mais próximos.

 

Fez sua estreia no time profissional em 2017 e, veja como a história é cíclica, substituindo Everton. Fez seu primeiro gol já na terceira partida que disputou e sempre que chamado por Renato apresenta-se com uma vitalidade incrível que lembra …. bem, lembra Everton.

 

Foi assim, nesse sábado quando o Grêmio venceu de virada com dois gols do nosso jovem atacante. O primeiro entrando em velocidade pelo lado direito da área e aproveitando passe preciso de Luan; e o segundo, pasmem, de cabeça após um cruzamento-passe de Leo Moura — sim, ele tem no máximo 1,75 de altura, mas estava dentro da área e muito bem colocado. Pepê cabeceou de olhos abertos e com o movimento clássico que esperamos dos atacantes sempre que a bola é alçada para a área. Já é um dos nossos goleadores do Campeonato Brasileiro. Sim …. ao lado de Everton.

 

Ontem mesmo já havia quem estivesse chamando-o de Novo Everton.

 

Vamos combinar o seguinte, assim como aprendemos a respeitar o futebol de Everton com a saída de Pedro Rocha, vamos aprender a admirar o futebol de Pepê com a saída de Everton. E dar a ele direito a nome próprio: Pepê, o novo craque!

Avalanche Tricolor: a primeira das últimas noites de Everton

 

Grêmio 1×1 Bahia
Copa do Brasil — Arena Grêmio

 

Gremio x Bahia

Everton comemora mais um gol em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

 

Empatar em casa e ter de decidir vaga à próxima fase da Copa do Brasil no campo do adversário pouco me importa nesta noite em que o Grêmio voltou a jogar, após a parada para a Copa América. Time acostumado a essas situações e maduro o suficiente para encarar a pressão de um estádio lotado, como deve encontrar na próxima quarta-feira, tem capacidade para vencer, seja no tempo normal seja na cobrança de penaltis —- especialmente porque a atual edição da Copa não tem o tal gol qualificado fora de casa. E digo isso com todo o respeito ao time montado por Roger que, sabemos muito bem, é craque em organizar equipes.

 

Esta noite tinha algo muito mais especial a fazermos na Arena ou diante da televisão —- como foi o meu caso, exilado aqui em São Paulo e distante do meu time há muitos anos. Tínhamos Everton a assistir em campo. Jogador que o Brasil pediu em sua seleção, consagrou-se como goleador e o melhor da final da Copa América. Um cara que nos fez acreditar que futebol-arte não é coisa de nostálgicos. Joga a moda antiga. Encara o marcador — aliás, os marcadores, pois ninguém mais se atreve a deixá-lo no mano a mano. Tem sempre um ou dois na sobra com o olhar de quem está prestes a tomar um drible.

 

Everton tem um elenco de dribles à disposição. Na velocidade ou no gingado do corpo, deixa a turma para trás. Se encostam demais, ele trança as pernas e faz a bola se esgueirar no pouco espaço que sobra. Se recuam para não sofrer o drible, bate de fora na busca do gol. É um raro jogador que não tem medo de arriscar e quanto mais arrisca mais ganha a admiração do torcedor.

 

Aqui em casa, nos apaixonamos por ele naquela noite em que disputávamos vaga à final do Mundial, contra o Pachuca do México, no estádio de Al Ain, em dezembro de 2017. Sim, naquela vez eu estava no estádio. Eu e meus meninos estávamos na arquibancada, próximos do gramado, ao lado da área em que o Grêmio atacava. Área que Everton invadiu, desvencilhou-se dos marcadores e com um chute de curva colocou seu nome na história do tricolor.

 

Se para Everton aquele chute foi o pontapé inicial para uma fase incrível que vivencia até hoje com a camisa gremista, para mim foi um momento inesquecível em que comemorei um gol abraçado com meus dois filhos em uma arquibancada de futebol —- como fazia antigamente ao lado de meu pai. Pulamos como crianças, nos abraçamos, choramos —- sim, eu juro que vi os olhos deles cheio de lágrimas, repetindo o que fiz muitas vezes quando guri e assistia aos jogos no estádio Olímpico.

 

É essa alegria marcante que Everton me faz relembrar todas as vezes que entra em campo e parte em disparada na direção do gol. Fez isso quando estava na seleção —- e vibrei cada um dos seus gols na Copa América como se fosse do Grêmio. Fez isso na noite de hoje, em Porto Alegre. E o fará não sei mais por quanto tempo.

 

Tudo leva a crer que esses momentos estão chegando ao fim. Everton é objeto de desejo da maioria dos grandes clubes no exterior, contra os quais o futebol brasileiro não consegue mais competir. Assim como nesta noite, todas as demais se encerrarão com a mesma pergunta: quando Everton vai embora? E o fim desse roteiro conhecemos muito bem. Por isso, como disse no início desta Avalanche, pouco me importa se empatamos em casa. Tudo o que eu quero aproveitar, até o minuto final, até o instante do adeus, é Everton correndo, driblando e beijando a camisa do Grêmio a cada gol marcado.

 

Hoje, vivenciei a primeira das últimas noites de Everton no Grêmio.

Avalanche Tricolor: um Dia dos Namorados muito especial para mim

 

Botafogo 0x1 Grêmio
Brasileiro — Estádio Nilton Santos/RJ

 

Gremio x Botafogo

Jean Pyerre comemora em cena flagrada por LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

O 12 de junho é dos namorados. Data criada pelo comércio, em 1949, que contaminou os corações e mexeu com as emoções. São tantos os estímulos — dos anúncios, dos colegas, dos amigos e dos amantes —- que nenhum casal se atreve a passar o dia em branco. Eu, por exemplo, passei em azul, preto e branco.

 

Um post no Instagram, um WhatsApp logo cedo, uma lembrança comprada na loja da esquina, um beijo intenso antes de levantar da cama ou uma música oferecida no rádio —- e meus ouvintes se esbaldaram em sugestões durante todo o programa que apresentei na CBN. Vale todo o artifício para revelar o seu amor. Há os que preparam surpresas, enchem a casa de rosas, escrevem cartas melosas ou servem um jantar inesquecível.

 

O dilema é que tudo isso tinha de ser feito em uma noite na qual os clubes brasileiros se despendiam por um tempo de seus torcedores. A bola só voltará a rolar no Campeonato Brasileiro na metade do mês de julho, devido a parada para a Copa América. Imagine a saudade que vão nos deixar, especialmente quando assistimos ao nosso time iniciando a prometida decolagem como é o caso do Grêmio.

 

Sei que muita gente torce o nariz para essa prioridade que os apaixonados dedicam ao futebol. Deve ter quem nos condene por gostarmos tanto de um time, por sofrermos diante das derrotas, por nos descabelarmos com o chute mal dado ou por chorarmos na inacreditável conquista. Coisa ridícula! — é o que ouço da consciência enrustida dessa turma.

 

Pensem o que quiserem. O que importa é que nossas amantes — e os amantes, também — entendem esse sentimento. Sabem que não desdenhamos da companhia, do carinho e da troca de carícia deles e delas. Nosso coração tem espaço para as diversas paixões que nos movem, desde o time de futebol que aprendemos a amar quando ainda éramos pequenos até a pessoa que escolhemos para dividir angústias, sonhos e amenidades em algum momento qualquer da vida.

 

É nesse entender que uma relação se constrói. Por isso, a noite desta quarta-feira deixou de ser um dilema para se transformar em mais uma prova de amor nesse relacionamento que já preservamos por 27 anos. Adaptamos nosso dia, curtimos nosso almoço, trocamos juras de amor durante a tarde, jantamos no intervalo do jogo e compartilhamos o presente mais incrível que eu poderia ter ganhado em um Dia dos Namorados: a camisa autografada por Geromel.

 

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A camisa de Geromel entregue pelo mano Ricardo

 

Sou fã de carteirinha do nosso zagueiro. Não bastasse o que ele representa para o Grêmio, ainda demonstra a todo momento o quão gente boa consegue ser na vida. Conheci a mãe dele na felicidade de um gol, na semifinal do Mundial de Clubes em Abu Dabhi, há dois anos — história que acredito já ter contado para você nesta Avalanche.

 

Hoje, recebi o irmão de Geromel, Ricardo, para entrevista em programa sobre negócios, carreiras e empreendedorismo que apresento na CBN. Assim que chegou, replicando o sorriso do mano, me entregou a nova camisa tricolor com a mensagem grafada em tinta: “Ao Amigo Milton Jung, Geromel”.

 

Sim, isso mesmo. O melhor presente que poderia ganhar neste Dia dos Namorados tem a marca de uma das minhas mais fortes paixões: o Grêmio. E chegou até mim pelas mãos de um cara que recém conheci, mas que há muito sabe dos meus amores.

 

O mais legal é que ela — o amor com quem compartilho, sem vergonha, minhas paixões —- sabe muito bem o quanto isso é importante para mim. E não me julga por isso. Me adora assim mesmo. É capaz de me endereçar um sorriso ao me ver vibrar sozinho na sala diante da televisão pelo golaço que Jean Pyerre, esse gênio com futebol e sobrenome de craque (leia a Avalanche anterior se ficou curioso), marcou na vitória desta noite — outro  presente a todos aqueles que adoram torcer pelo Grêmio, como eu.

 

Por seu gol, obrigado Jean Pyerre!

 

Por sua dedicatória, obrigado Geromel! 

 

Por sua compreensão, obrigado Abigail!

 

Vocês fizeram este Dia dos Namorados ainda mais especial para mim.