Avalanche Tricolor: carta de um ouvinte gremista

 

Uma Avalanche, escrita ainda durante o Campeonato Gaúcho, motivou a carta/e-mail do ouvinte Danier Boucinha Viana, gremista como nós que costumamos ler este espaço no Blog. A mensagem chega em semana decisiva para o Grêmio, seja por estarmos diante da fase final da Libertadores seja pelos últimos acontecimentos do time. Por isso, torno pública as palavras e a esperança de Danier para que nos inspirem na partida dessa quarta-feira, contra o San Lorenzo:

 

Prezado Mílton,

 

Faz muito tempo que estou para lhe escrever e aproveito o feriadão para fazê-lo. Espero não incomodá-lo com a extensão do texto mas necessário por misturar vários assuntos represados. A ocasião é propicia face o que temos vivido nesses últimos dias com o nosso Grêmio bem como os dias que antecedem ao jogo de quarta-feira próxima na Argentina.

 

Sou Gaúcho, Gremista de “Quatro Costados”, nascido na fronteira (Dom Pedrito) em 1958. Seu fã incondicional de todos os dias na rádio CBN mas mais ainda do seu querido pai. Coincidentemente no ano em que nasci o seu pai, A Voz do Rádio, iniciou as transmissões na antiga Rádio Guaíba. Atualmente estou com 55 anos. Saí da minha querida Dom Pedrito aos 17. Trabalho no BB e moro em Campinas-SP há 15 anos. Mais Gremista do que nunca!

 

Menino cresci escutando a Guaíba lá no interior, juntamente com meus irmãos mais velhos todos Gremistas, naqueles tempos áureos do nosso Heptacampeonato. No meu imaginário infantil somente existiam Alberto, Airton Pavilhão , Sérgio Lopes , Everaldo, Joãozinho, Flecha , Alcindo, Volmir Massaroca, entre tantos outros. O Meu Grêmio era Imbatível! Adolescente cresci e sofri com o esplendor do tradicional adversário na década de 70 (campanha do octa e bi-brasileiro). Ironicamente naquela época forjei-me como verdadeiro Gremista vindo a entender mais tarde que foi necessário todo aquele crescimento do Inter para impulsionar e tornar-nos a potencia futebolística mais tarde. Meus heróis, embora não vencedores, já eram outros. Mas eram igualmente heróis! Ao ler a sua crônica de 26/03/2014 na CBN intitulada “Pelo Direito de ser Aquele Guri mais uma vez” a emoção foi muito grande. Ali estavam exatamente meus heróis daquela época: Loivo (minha mãe hoje com 95 anos chama-se Loiva) e o maior de todos e que deve ser pronunciado em toda a sua extensão: Atílio Genaro ANCHETA Weigel. Sim o maior de todos os tempos pois tenho uma teoria: Ele foi infinitamente superior ao Figueroa. Por quê? O Figueroa jogou em uma timaço tendo a sua frente nada menos do que Falcão, Carpeggiani, Batista, Caçapava, etc… e o Ancheta ? Bom é melhor não lembrar. E mesmo assim havia a comparação de quem era o melhor. Não há dúvidas. Tivesse o Ancheta jogado no outro lado (sacrilégio) não haveria termos de comparação! Pois bem você teve o privilégio de estar ao lado deles, algo que eu ficava imaginando a minha vida toda poder ter tido a oportunidade naqueles tempos de guri lá no Sul.

 

Essa crônica sua me fez lembrar de tudo o que já vivemos com o Imortal tricolor e que somente quem é Gremista sabe da emoção que é ser Gremista! Da nossa redenção em 77 com a raça Gremista dos inesquecíveis Iura, Ancheta, Tarciso, passando pela categoria de Tadeu Ricci , Éder e culminando lá na frente com o nosso Redentor André Catimba, comandados pelo saudoso Mestre Telê Santana. Como não lembrar do primeiro Brasileiro em 03/05/81 em cima do poderoso São Paulo em pleno Morumbi lotado? E da noite fria de 28/08/83 com o cruzamento mágico do Renato e o gol de peixinho do César em cima do não menos poderoso Penharol? Adentramos ali madrugada adentro comemorando na certeza de que com a conquista da América pela primeira vez no Sul nada poderia ser maior. Mas poderia sim: vieram o Mundial, outra Libertadores, as incontáveis Copas do Brasil, novamente o Brasileirão.

 

Como é bom ser Gremista! Poderia escrever um livro para descrever todo o meu sentimento e emoção ao falar do Grêmio mas em consideração ao seu tempo vou terminar por aqui mas não sem antes fazer uma referência toda especial ao seu pai, o grande Milton Ferretti Jung. Do seu inicio na antiga Guaíba em 58 até abandonar as narrações em 88, voltando a narrar em 98 desde que fosse somente em jogos do Grêmio (isso é demais Cara!). Acompanhar então sua preparação para narrar o último Gre-Nal do Olímpico em 02/12/2012 foi emocionante. Você é um privilegiado por ter um pai como esse. Parabéns!

 

Apesar dos últimos acontecimentos e mesmo lendo a coluna de hoje do Wianey Carlet na Zero Hora “O Grêmio não vai longe” que apontam exatamente ao contrário, continuo acreditando que o Tri virá com o espírito e a garra de sempre do Imortal Tricolor.

 

Grande abraço e ótimo trabalho.

 

Danier Boucinha Viana

Avalanche Tricolor: bote o disco a rodar

 

Atlético PR 1 x 0 Grêmio
Brasileiro – Orlando Scarpelli (SC)

 

 

“Quando estiver desanimado e a ponto de desistir da luta, rode este disco, reviva através dele as emoções que sentiu com o seu time durante o campeonato nacional de 81 e aproveite-o como uma lição de vida, persevere, seja humilde, trabalhe e vença. Como o Grêmio”. Essas linhas fazem parte do texto que está na contracapa do disco que conta a história do primeiro título brasileiro conquistado pelo Grêmio, produzido pela rádio Guaíba de Porto Alegre, e assinado por Milton Ferretti Jung (o pai), que você, caro e raro leitor deste blog, conhece muito bem. Ele também faz a locução dessa vitória memorável. Hoje cedo, rodei o disco na minha eletrola recém recuperada, como já lhe contei dia desses em post neste mesmo blog, muito mais para ouvir essas preciosidades que estavam guardadas na casa do meu irmão, Christian, a quem visitei no feriado de Páscoa, do que para buscar ânimo para os próximos desafios. Trouxe comigo, além desse long play, nome que dávamos ao que hoje você conhece por vinil, os que contam as glórias do Campeonato Gaúcho de 1979 e a Libertadores de 1981. O Mundial Interclubes está registrado em um compacto que também botei na mala e, em breve, vai ecoar na sala que reservei para ouvir meus velhos discos de coleção.

 

Como escrevi no parágrafo anterior, escutar o disco de 1981 e ler o texto que está na contracapa têm muito pouco a ver com o momento pelo qual estamos passando. As duas derrotas seguidas e em competições diferentes, a perda do título regional de maneira catastrófica, a lesão dos jogadores de melhor desempenho da defesa, Rhodolfo e Wendel, além da precariedade física de Marcelo Grohe e Luan, no momento em que entramos na etapa decisiva da Libertadores e para enfrentar o forte San Lorenzo, no estádio em que tem se consagrado imbatível, talvez fossem justificativas suficientes para começarmos a pensar na evocação da Imortalidade. Não podemos esquecer, contudo, que bem depois desses vinis, já na era dos discos de acrílico, CDs e DVDs, tivemos instantes imortalizados na história do futebol e aprendemos que não desistimos nem desanimamos facilmente diante dos mais complicados desafios. Sendo assim, que venham os novos percalços, os chutes desperdiçados, as falhas na defesa, os erros de escalação e as lesões previsíveis, pois estaremos aqui prontos e dispostos a acreditar sempre. Como gremistas que somos.

 

Vou ali trocar o disco e volto já!

Avalanche Tricolor: Parabéns ao Inter!

 

Inter 4 x 1 Grêmio
Campeonato Gaúcho – Centenário (Caxias do Sul)

 

Você, caro e raro leitor deste Blog, talvez estranhe o título desta Avalanche sempre disposta a identificar do lado gremista méritos, inclusive quando estes praticamente não aparecem. A paixão que tenho pelo Grêmio, declarada desde sempre e escancarada em qualquer oportunidade que surge, me faz, mesmo diante dos maiores fracassos, fechar os olhos para nossas fraquezas e identificar como heróicos lances insignificantes. Quantas vezes, você já deve ter colocado em dúvida minha razão por elogios ao chutão que despacha a bola pela lateral, ao carrinho destemido de um dos volantes, à coragem do atacante que, isolado, briga aos trancos e barrancos com seus marcadores. Nunca fiz questão de escrever estas linhas com a razão, prefiro deixar este papel para os entendidos em futebol, aqueles que enxergam os times pela formação tática e posicionamento em campo, que tentam dar lógica para movimentos de um jogo que é, na essência, improvisação. Eles é que têm de justificar o bom e o mau futebol, apesar de muitas vezes não me convencerem com o que dizem e escrevem. Seja lá como for, não estou aqui para reclamar dos comentaristas, e é bom voltar logo para a origem desta minha conversa, antes que você abandone meu texto imaginando que esteja sofrendo alucinações (convenhamos, não faltariam motivos para tal). Estou aqui é para justificar a manchete deste post em espaço sempre destinado ao azul, branco e preto. E o farei com mais precisão e sem delongas no parágrafo seguinte.

 

O Inter fez por merecer o título que conquistou em mais esta temporada do futebol gaúcho. Desde o início da competição liderou seu grupo com boa vantagem em relação a seus adversários diretos, a ponto de encerrar a fase inicial com a melhor pontuação, o que lhe ofereceu o direito de jogar as partidas finais em casa, se não em sua própria casa, que passa por reformas, ao menos naquela que escolheu jogar. Apesar de não ter os números em mãos, e prefiro não acessar os sites de futebol para confirmá-los (peço-lho licença para não fazer isto neste fim de domingo, por razões que me parecem óbvias), sei que o melhor ataque do campeonato foi o colorado; se não teve a melhor defesa em número de gols tomados, era, sem dúvida, a mais bem postada e organizada. Chegou à decisão tendo vencido todas as partidas nas quais disputou com o time titular, a única derrota em toda a competição foi quando atuou com os reservas. Foi assim até a final, onde fez dois jogos impecáveis. O primeiro venceu de virada na casa do tradicional adversário e o segundo, desfilou em campo. Como diriam os mais antigos do futebol, fechou com chave de ouro e fez a volta olímpica no Estádio Centenário, de Caxias do Sul, no interior, diante de pouco menos de 20 mil torcedores. O Inter foi grande no campeonato estadual e mereceu ser campeão pela quarta vez consecutiva, no Rio Grande do Sul. Poderia até ser rebatizado de Interregional.

 

O Grêmio segue firme e forte na Libertadores.

Avalanche Tricolor: estou mais perto de ti, Libertadores

 

Grêmio 1 x 0 Nacional
Libertadores – Arena Grêmio

 

 

Haverá quem reclame de passes errados, de falta de criatividade, desperdícios de gols e do espaço para o adversário jogar. Talvez seja mesmo importante apontar falhas, pois se corrigidas farão o Grêmio ainda mais forte e preparado para seus desafios. A identificação das fragilidades faz parte da construção de um grande time e permite o desenvolvimento técnico e tático. Em competição na qual tivemos tantos méritos até aqui, não nos fará mal a humildade e a aceitação das críticas, porque esta é uma das virtudes dos campeões. Deixarei essa tarefa, porém, aos mais críticos, exigentes ou mal-humorados, que, normalmente, já realizam esta tarefa com maestria (e às vezes, exagero).

 

Eu, que encarei mais uma maratona de trabalho, compromissos e futebol até à meia-noite, prefiro dedicar-me a alegria de mais uma vitória e da belíssima campanha nesta primeira fase da Libertadores que nos coloca entre os favoritos ao título (são os especialistas que estão dizendo). Quero dormir com o sorriso do torcedor que assistiu ao seu time lutar muito para garantir a liderança do grupo e descobriu excelentes talentos e grandes batalhadores no elenco. Torcedor que vibrou na defesa “invertida” de Marcelo Grohe, no bicão do Pará, no domínio de bola de Wendell e, claro, na cobrança de pênalti do Barcos. Vou descansar agora com a satisfação de encerrar esta fase como a segunda equipe mais bem classificada, e invicto, enquanto a maioria já está fora da disputa. E eis aí mais um motivo para comemorarmos: nosso sonho pelo Tri da Libertadores está mais próximo do que quando iniciamos esta jornada. Ainda haverá muito caminho, carrinho e pontapé para encararmos até a conquista final e, experientes que somos nesta guerra travada nos campos sul-americanos, sabemos que as batalhas mais árduas surgem agora. No mata-mata, reduz-se a margem para erros. Mas, como disse, não quero pensar nos erros agora, quero é comemorar.

 

Dá-lhe, Grêmio!

Gremista, radialista e demitido

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Minha semana não foi das mais tranquilas,tipo,por exemplo,das que passei usufruindo,na cidade balnearia de Tramandaí, merecidas férias(jamais ouvi alguém confessar não ter merecido os tradicionais trinta dias de descanso). Já desconfiava,porém,que seriam as minhas últimas férias como profissional de rádio, carreira que durou sessenta anos e durante a qual trabalhei somente em duas emissoras: Canoas – que deveria ter sido instalada na cidade da Grande Porto Alegre com este nome – e Guaíba. Fiquei quatro anos na primeira e cinquenta e seis na segunda. Atuei ao mesmo tempo em três agências de propaganda:a Standard-Ogilvy & Mather,levado pelo saudoso Pedro Carneiro Pereira,um dos melhores narradores de futebol que conheci; na Publivar e na Idéia (então com acento no é,uma das tantas estúpidas mudanças feitas em nossa língua – portuguesa do Brasil – com a intenção de padronizá-la com a falada em Portugal e em suas ex-colônias,algo puramente utópico). Além disso, tive durante bom tempo colunas tratando de futebol no Correio do Povo dominical,em que escrevia sobre o Grêmio e o Ibsen Pinheiro,ao meu lado,fazia o contraponto com o Inter. Também ocupei um espaço na Folha da Tarde sobre o mesmo tema:futebol. Se ainda tenho alguém me acompanhando nesta reminiscências,como vou recuar ainda mais nos anos logo a seguir,deixem-me contar para quem não acompanhou nas redes sociais como terminou a minha carreira no rádio:fui demitido. Aqui em casa já está uma placa,em que,abaixo do meu nome se lê:”Nosso reconhecimento aos relevantes serviços prestados à Rádio Guaíba. A emissora,que nasceu sob o signo de uma tradição,será sempre uma voz a serviço do Rio Grande”

 

O Mílton, que dispensa apresentações, tanto dos ouvintes do Jornal da CBN quanto dos leitores deste e de outros blogs,surpreendeu-me perguntando em um e-mail,como eu me tornei gremista. Em Porto Alegre, torcemos pelo Grêmio ou pelo Inter. Os pais,normalmente,tentam, desde cedo, influir os seus filhos(as) a torcer por um deles. Acho que ainda nenhum instituto fez pesquisa para se saber quantas crianças, às vezes por obra de parentes,padrinhos ou por birra, quando não querem ser forçados a torcer pelo time do pai,acabam adotando o rival. Na minha casa que,segundo o Mílton, tinha no Olímpico a extensão do nosso pátio,todos se tornaram gremistas por influência paterna. Hoje,os meus netos,embora dois morem em São Paulo – o Greg e o Lorenzo – mais o Fernando e a Vivi,ambos de Porto Alegre,são gremistões. Até aqui não respondi à pergunta do Mílton. Faço-o agora. Meu pai,na juventude,jogou num time da drogaria da qual era gerente. Ainda vou recuperar o álbum em que há uma foto dele ao lado dos companheiros da equipe. Não lembro dele,porém,como torcedor gremista ou colorado. Recordo que,um dia,me levou ao Estádio do Passo da Areia,para ver o São José jogar.Quando se é criança ou até algo mais do que isso,sempre temos amigos mais chegados,com os quais nos entendemos melhor. Eu tive dois desse tipo: o Valmor e o Vilmar. Quase todas as tardes brincávamos de fazer guerra com soldadinhos de chumbo. Em uma área na frente da casa dele dos meus dois amigos do peito,escondíamos esses soldadinhos atrás de barreiras montadas com toquinhos quadrados e,usando bolinha de gude,”bombardeávamos” mutuamente as nossas fileiras:bolinhas pra cá,bolinhas pra lá (quem imaginaria que os nossos filhos e netos jogariam vídeo game em computadores de última geração). Quebrei um pouco a minha velha cabeça,entretanto,para responder à pergunta do Mílton. Foi o Vilmar,mais perto da minha idade (10 anos,acho),quem me fez gremista.Nunca me arrependi da escolha. Quando o meu pai me internou no Colégio São Jacó,em Farroupilha,ouvi em um radiozinho de algum colega,que o Grêmio aposentara Júlio Petersen,seu goleiro titular,subsituindo-o por Sérgio Moacir Torres Nunes. Fiquei preocupado:era fã do veterano Júlio e não sabia ainda se “Sérgio daria no couro”. No internato,vivia correndo atrás de quem tivesse rádio de pilha para não perder a narração dos jogos do Grêmio.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Avalanche Tricolor: Grêmio vence e está classificado

 

Atletico Nacional 0 x 2 Grêmio
Libertadores – Medellín (COL)

 

 

Muita coisa mudou desde quando fomos à Colômbia conquistar a Libertadores, em 1995. Quase 20 anos nos separam daquele empate histórico que nos deu o bicampeonato sul-americano. Tenho certeza que você já não é mais o mesmo. Eu não sou. Estou mais velho (mesmo que ainda me sinta jovem), mais sério e, aparentemente, mais responsável. Construir uma família talvez nos leve a este amadurecimento, e o tempo nos cobra algumas atitudes. O Grêmio também amadureceu, passou por poucas e boas que deixaram cicatrizes e nos fizeram crescer. Fomos ao inferno e de lá saímos fortalecidos. Pelejamos pelos campos da América do Sul e muitas vezes, injustamente, fomos criticados por não sermos capazes de reconquistar o título que sempre sonhamos. Não entendiam que mesmo diante das derrotas nos empoderávamos porque o mais importante era jamais deixar de lutar. Se hoje vemos um time com maturidade e respeitado pelos mais difíceis adversários (lembre-se que este é o Grupo da Morte), esta imagem foi forjada no campo de batalha.

 

O Grêmio está classificado com uma rodada de antecedência e ainda pode encerrar a fase de grupos com a melhor campanha entre todos os que se credenciaram a disputar a Libertadores (importante lembrar, também, que tem muita gente por aí que não foi capaz). Venceu com gols de Dudu e Barcos e vibrou com as belas passadas de Luan. Assistiu a mais um desempenho seguro de Rhodolfo, Edinho, Riveros e Ramiro. Mas, principalmente, comemorou as defesas espetaculares do nosso goleiro Marcelo Grohe que assim como eu e você mudou muito desde 1995, época em que ainda era um menino de calça curta e, como declarou ao fim da partida, sequer imaginava jogar futebol.

 

Realmente muito coisa mudou nestas quase duas décadas que nos separam do último título da Libertadores para esta classificação, ambas conquistadas na Colômbia. O que não mudou foi a nossa paixão pelo Grêmio. Esta jamais mudará. #SoyLocoPorTRIAmerica

Avalanche Tricolor: que os deuses do futebol me perdoem

 

Grêmio 1 x 2 Inter
Gaúcho – Arena Grêmio

 

 

Deus escreve certo por linhas tortas, dizia minha mãe sempre disposta a me consolar diante do revés e mostrar que teríamos de aprender com nossos erros. Seriam esses os sinais divinos enviados para amenizar a dor da derrota e lhe dar caráter pedagógico. Você, caro e raro leitor deste blog, sabe muito bem das minhas restrições quanto a misturar religião e futebol, por entender que o Cara lá em cima tem muito mais coisa para se preocupar do que interferir nos resultados em campo. Por isso, se o objetivo é escrever de bola rolando (ou rolada), como costumo fazer nesta Avalanche, melhor prestar atenção nas lições oferecidas não por aquele Deus superior que alguns de nós acreditamos (eu, inclusive), mas nos deuses do futebol, aqueles que, recentemente, foram clamados pelo técnico Mano Menezes, do Corinthians, para rogar praga sobre o arquirrival São Paulo (parece que deu certo). São eles que sempre me dão esperança de dias melhores, que me fazem acreditar na Imortalidade que marca nosso time, mesmo diante de todas as dificuldades.

 

Como tenho uma certa intimidade com os deuses do futebol, eles costumam me confidenciar segredos que devem ser guardados até a revelação final. Desta vez, porém, perdoem-me senhores, serei obrigado a contar aquilo que vocês sussurraram em meu ouvido assim que se encerrou o Gre-Nal na tarde deste domingo. E faço está inconfidência pois imagino que muitos torcedores gremistas estejam tristes com o placar desfavorável na primeira partida da final do Gaúcho, principalmente por saberem que terão duas semanas de espera até o jogo da volta – bem verdade que neste tempo todo teremos coisas bem mais importantes a fazer, como confirmarmos a classificação à próxima fase da Libertadores nos dois jogos que faltam nesta fase de grupos. Sobre isso, porém, falaremos na quarta-feira à noite. Como sei que muitos de vocês estarão cabisbaixos na segunda-feira, quebrarei meu pacto com os deuses de futebol. Eles me garantiram que o resultado ruim de hoje tinha a única intenção de convencer os dirigentes adversários a abrirem seu estádio, que será reinaugurado semana que vem, para o Gre-Nal final, coisa que não aconteceria se a conquista do título regional estivesse ameaçada. Diante da vantagem do gol qualificado e a possibilidade de perderem o título apenas se o Grêmio fizer dois gols de diferença, levarão o jogo para o Beira Rio, vão se preparar para a festa, colocarão o champanhe na geladeira, se vestirão de arrogância e, com o cenário pronto para a tragédia final, a Imortalidade Tricolor ressurgirá mais uma vez.

 

Só uma coisinha a mais da minha conversa com eles: um dos deuses que conheço, metido a dar palpites técnicos e táticos, me disse também que para a palavra deles se concretizar não podemos repetir o segundo tempo dessa tarde, pois o futebol não perdoa apáticos nem prepotentes da mesma forma, aliás, que eu não perdoo os idiotas racistas que seguem a manchar as arquibancadas. Que tirem a camisa tricolor ao tomar essas atitudes, pois nós não os queremos. E vocês não nos merecem.

Avalanche Tricolor: pelo direito de ser aquele garoto mais uma vez

 

Grêmio 2 x 1 Brasil-Pelotas
Gaúcho – Arena Grêmio

 

 

Havia um menino, desses que entram em campo de mãos dadas com os jogadores, que me chamou atenção no momento em que o Grêmio ainda cumprimentava sua torcida. Estava com a camisa tricolor, calções pretos, meias brancas, vestido de jogador. O cabelo tinha o mesmo corte (estranho) usado por Pará, e ficou ao lado dele boa parte do tempo, o que me faz crer que o lateral gremista seja um dos seus ídolos, assim como também é um dos meus. Não foi o estilo da cabeleira, porém, que fez o garotinho se destacar em meio a tantos mascotes que acompanharam o time na saudação inicial. Com o menino havia um sorriso sincero e emocionado, que brilhou ainda mais quando, com os braços erguidos, imitou o gesto dos jogadores. O olhar voltado para a arquibancada era de uma alegria contagiante. Deveria estar ali imaginando que todos os gritos e aplausos com que os torcedores recepcionaram o time fossem para ele. Deve ter por alguns segundos sonhado que assim que o árbitro soasse o apito, ele é quem estaria correndo atrás da bola, driblando os adversários, chutando a gol, livrando seu time dos perigos com cabeceios lá no alto e carrinhos rente à grama. Sei lá o que estava pensando aquele menino, mas me fez relembrar as vezes em que meu pai me ofereceu a oportunidade de ter as mesmas sensações ao entrar em campo de mãos dadas com Loivo, Anchieta e tantos outros craques que admirei.

 

De volta à arquibancada, o garotinho de cabelo estranho e rosto tomado pela alegria deve ter comemorado com seus pais ao ver Dudu, jogador com tamanho e apelido de menino, furar o mais complicado bloqueio defensivo que já enfrentamos nesta temporada e dar início a vitória que nos levou à final do Campeonato Gaúcho. Saltitou sem conter a emoção quando percebeu que o talento de Luan, outro dos nossos meninos, que já havia sido decisivo no primeiro gol, seria capaz de superar a mais violenta marcação que encarou na sua carreira com a camisa tricolor e, sem tituberar, roubar a bola, driblar dois zagueiros, o goleiro e fazer o gol que sacramentou nossa conquista. Aquele menino, o da torcida, com certeza sofreu nos minutos finais diante da possibilidade de um revés, fechou os olhos nas bolas alçadas para nossa área e vibrou com as bolas despachadas lá de dentro. E voltou a sorrir, se emocionar, quem sabe chorar, quando o jogo se encerrou e todos seus desejos (ou quase) se concretizaram nesta noite de futebol.

 

Eu, assim como ele, também me emocionei, vibrei, sofri e sonhei. Sonhei em ter o direito de ser aquele garotinho ao menos mais uma vez.

Avalanche Tricolor: três gols de Barcos e a vitória de um grande time

 

Grêmio 3 x 0 Juventude
Gaúcho – Arena Grêmio

 

 

O primeiro veio por cima após excelente cruzamento de Pará; o segundo da marca do pênalti, resultado de belo passe de calcanhar de Dudu para Wendell; e o terceiro exigiu talento para driblar o goleiro, depois de mais uma jogada de Dudu, desta vez em parceria com Luan. Barcos fez os três gols desta classificação às semifinais do Campeonato Gaúcho, e merece todo nosso aplauso e admiração, mas sabe que o mérito é da equipe. A vitória desta tarde de domingo, em Porto Alegre, foi de um elenco que tem sido capaz de superar a maratona de partidas, o cansaço e as lesões. Um time que tem muito talento com a bola no pé, troca passe com precisão, se movimenta com rapidez, varia as jogadas, tenta por um lado e pelo outro, até encontrar espaço na defesa adversária. Da mesma forma, marca com firmeza, desarma com força quando necessário, despacha a bola pela lateral se preciso e não dá chance para o adversário pelo alto. Hoje, até ter a partida decidida, Marcelo Grohe praticamente não foi exigido. E quando o foi, mostrou porque temos tanta confiança nele.

 

Estar nas semifinais do Campeonato Gaúcho não passa de obrigação, sem dúvida. Qualquer coisa que não seja o título estadual, significará muito pouco à torcida. Temos, contudo, que admitir que tem sido cada vez mais agradável ver o Grêmio jogando com talento e firmeza, reflexo da forma como o time está montado e comandado por Enderson Moreira. Os gritos do treinador ao lado do campo mesmo quando a goleada era certa, deixa evidente a seriedade e responsabilidade com que encara cada desafio. Para quem busca nesta temporada os títulos que almejamos não se pode mesmo baixar a guarda. Enderson tem nos oferecido esse entusiasmo e permitido o desfile de ótimos jogadores que muitas vezes entram no decorrer da partida para nos dar a certeza de que se for preciso reforço, não nos faltará.

Avalanche Tricolor: durma-se com um time desses

 

Newell’s Old Boys 1 x 1 Grêmio
Libertadores – Marcelo Bielsa (ARG)

 

 

Meu desafio pessoal de me manter acordado até o início da madrugada para levantar logo em seguida e trabalhar, você, caro e raro leitor deste Blog, já conhece bem. É uma escolha que faço em nome de paixão que tenho. Convenhamos, sofrimento encarado com prazer. Tem gente em casa que torce o nariz, me olha com cara feia, pois não entende como sou capaz de me sacrificar “apenas” por um jogo de futebol.

 

É preciso entender que não estamos falando de futebol. Falamos do Grêmio. De um Grêmio Gigante que nunca se entrega. Imortal como prova sua história. Que tem jogado com talento, força e coragem. Time que não se amedronta diante das dificuldades nem se abate com a injustiça de um revés. Que tem um técnico que já incorporou a alma tricolor e mostrou isto claramente ao sacar um lateral para escalar um atacante. Que não teme perder, pois está consciente da sua capacidade de vencer. Que acredita até o último minuto, até o último cruzamento, até o último cabeceio, até o último jogador, até o último suor. Até Barcos deixar a área para cruzar na cabeça de Rhodolfo, zagueiro que deixou a sua área para se aventurar na do adversário.

 


Um Grêmio que acredita até o último sonho, que é o de conquistar a Libertadores.

 

Bons sonhos, boa noite!