O mocotó do Tito Tajes

 

Por Milton Ferretti Jung

 

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Tornou-se um hábito para mim ler o caderno Donna,que vem encartado aos domingos na Zero Hora,jornal gaúcho que assinamos aqui em casa. Ocorre que,como já revelei em textos anteriores deste blog,minha sobrinha Claudia Tajes,escritora de vários livros e,mais recentemente,roteirista da Globo,em sua coluna no Donna (ou seria na Donna?),volta e meia conta histórias sobre as famílias Tajes e Jung,mas separadamente. Desta vez,juntou a dela e a minha. Nesse domingo,o assunto foi “Almoço em família”. Lembrou,com riqueza de detalhes,os ágapes que o Tito,o seu pai,promovia em uma casa de veraneio e também de invernos gelados,que pertencera ao chefe do clã dos Jung – o seu Aldo,meu pai – localizada nas proximidades do Guaíba. A propósito,continuo defendendo a sua condição de rio e não,como querem teimosos e quejandos,lago.

 

A casinha de madeira foi a parte herança do meu pai que coube ao Tito e à Mirian,minha irmã e que se transformou em uma casa de alvenaria. Hoje,tenho saudade da casa antiga e dos nossos banhos diários nas águas do Guaíba,durante o verão,um rio com águas límpidas,no qual a gente entrava sem medo de se afogar,temor que me impede de enfrentar o mar. Foi essa casa que,reformada,transformou-se mais tarde no local das nossas comilanças dominicais,nas quais o Tito deixava por um dia de ser jornalista para se transformar em exímio cozinheiro. Tios e primos se reuniam,satisfeitos da vida,para saborear o variado cardápio,composto em um domingo por churrasco,no próximo por massa,feijoada ou comida árabe,como lembra a Claudia na seu texto.

 

Ah,havia o domingo do mocotó que,conforme a Claudinha,acontecia uma vez a cada inverno. Pelo jeito,nem todos apreciavam mocotó. A culpa era do odor que danado,enquanto ficava em ebulição,horss e horas,no fogão à lenha. Não recordo,mas a Claudia garante que o cheiro saía da panela e grudava (será que cheiro gruda?)nos cabelos e nas roupas dos convivas. Não sei se o Mílton,que é o âncora deste blog,tem em sua coleção de fotos a dos Jung e Tajes em um dos almoços dominicais que eu,particularmente,jamais vou esquecer. A Claudia bem que poderia parafrasear o seu texto desse domingo chamando-o de “Conte a sua historia de Porto Alegre”. Tenho certeza de que o Mílton o leria com grande prazer.

 

Nota do Blogueiro: fotos dos almoços de domingo não temos, mas apresentamos na ilustração deste post as imagens do cozinheiro, jornalista e meu tio Tito Tajes

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Gremista, radialista e demitido

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Minha semana não foi das mais tranquilas,tipo,por exemplo,das que passei usufruindo,na cidade balnearia de Tramandaí, merecidas férias(jamais ouvi alguém confessar não ter merecido os tradicionais trinta dias de descanso). Já desconfiava,porém,que seriam as minhas últimas férias como profissional de rádio, carreira que durou sessenta anos e durante a qual trabalhei somente em duas emissoras: Canoas – que deveria ter sido instalada na cidade da Grande Porto Alegre com este nome – e Guaíba. Fiquei quatro anos na primeira e cinquenta e seis na segunda. Atuei ao mesmo tempo em três agências de propaganda:a Standard-Ogilvy & Mather,levado pelo saudoso Pedro Carneiro Pereira,um dos melhores narradores de futebol que conheci; na Publivar e na Idéia (então com acento no é,uma das tantas estúpidas mudanças feitas em nossa língua – portuguesa do Brasil – com a intenção de padronizá-la com a falada em Portugal e em suas ex-colônias,algo puramente utópico). Além disso, tive durante bom tempo colunas tratando de futebol no Correio do Povo dominical,em que escrevia sobre o Grêmio e o Ibsen Pinheiro,ao meu lado,fazia o contraponto com o Inter. Também ocupei um espaço na Folha da Tarde sobre o mesmo tema:futebol. Se ainda tenho alguém me acompanhando nesta reminiscências,como vou recuar ainda mais nos anos logo a seguir,deixem-me contar para quem não acompanhou nas redes sociais como terminou a minha carreira no rádio:fui demitido. Aqui em casa já está uma placa,em que,abaixo do meu nome se lê:”Nosso reconhecimento aos relevantes serviços prestados à Rádio Guaíba. A emissora,que nasceu sob o signo de uma tradição,será sempre uma voz a serviço do Rio Grande”

 

O Mílton, que dispensa apresentações, tanto dos ouvintes do Jornal da CBN quanto dos leitores deste e de outros blogs,surpreendeu-me perguntando em um e-mail,como eu me tornei gremista. Em Porto Alegre, torcemos pelo Grêmio ou pelo Inter. Os pais,normalmente,tentam, desde cedo, influir os seus filhos(as) a torcer por um deles. Acho que ainda nenhum instituto fez pesquisa para se saber quantas crianças, às vezes por obra de parentes,padrinhos ou por birra, quando não querem ser forçados a torcer pelo time do pai,acabam adotando o rival. Na minha casa que,segundo o Mílton, tinha no Olímpico a extensão do nosso pátio,todos se tornaram gremistas por influência paterna. Hoje,os meus netos,embora dois morem em São Paulo – o Greg e o Lorenzo – mais o Fernando e a Vivi,ambos de Porto Alegre,são gremistões. Até aqui não respondi à pergunta do Mílton. Faço-o agora. Meu pai,na juventude,jogou num time da drogaria da qual era gerente. Ainda vou recuperar o álbum em que há uma foto dele ao lado dos companheiros da equipe. Não lembro dele,porém,como torcedor gremista ou colorado. Recordo que,um dia,me levou ao Estádio do Passo da Areia,para ver o São José jogar.Quando se é criança ou até algo mais do que isso,sempre temos amigos mais chegados,com os quais nos entendemos melhor. Eu tive dois desse tipo: o Valmor e o Vilmar. Quase todas as tardes brincávamos de fazer guerra com soldadinhos de chumbo. Em uma área na frente da casa dele dos meus dois amigos do peito,escondíamos esses soldadinhos atrás de barreiras montadas com toquinhos quadrados e,usando bolinha de gude,”bombardeávamos” mutuamente as nossas fileiras:bolinhas pra cá,bolinhas pra lá (quem imaginaria que os nossos filhos e netos jogariam vídeo game em computadores de última geração). Quebrei um pouco a minha velha cabeça,entretanto,para responder à pergunta do Mílton. Foi o Vilmar,mais perto da minha idade (10 anos,acho),quem me fez gremista.Nunca me arrependi da escolha. Quando o meu pai me internou no Colégio São Jacó,em Farroupilha,ouvi em um radiozinho de algum colega,que o Grêmio aposentara Júlio Petersen,seu goleiro titular,subsituindo-o por Sérgio Moacir Torres Nunes. Fiquei preocupado:era fã do veterano Júlio e não sabia ainda se “Sérgio daria no couro”. No internato,vivia correndo atrás de quem tivesse rádio de pilha para não perder a narração dos jogos do Grêmio.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Que saudade daquela Kombi!

 

Por Milton Ferretti Jung

 

A saudade é companheira inseparável quando envelhecemos. Digo isso com a experiência de quem está perto de completar 78 anos. Quinta-feira passada, se é que alguém leu o meu texto do dia 15 deste mês, detive-me a relembrar detalhes, inesquecíveis para mim, da casa dos meus avós por parte da mãe, na qual nasci no longínquo ano de 1935. Hoje, a saudade voltou a se manifestar. A culpa se deve a uma decisão da Volkswagen. Não é que essa empresa decidiu deixar de produzir um de seus veículos que fez história no Brasil durante 56 anos? Estou me referindo à aposentadoria da Kombi. Quem leu os jornais da semana passada, embora a notícia não tenha sido publicada com destaque, deve ter conhecimento disso.

 

Por que – talvez alguém esteja se perguntando – a velha Kombi causou neste escriba um acesso de saudade? Explico: este utilitário, cuja saída do mercado será marcada pelo lançamento de uma série especial, chamada de Last Edition, que constará de 600 unidades por 85 mil reais, deu-me a chance de percorrer o interior do Rio Grande do Sul e de boa parte do Brasil.

 

A Companhia Jornalística Caldas Júnior, proprietária do jornais Correio do Povo, Folha da Tarde, Rádio Guaíba e, mais tarde, da TV Guaíba, possuía uma frota de jeeps para o deslocamento de seus funcionários. Eram dirigidos por motoristas profissionais. Um desses inseguros veículos – todos com capotas de lona – acabou capotando durante viagem a Pelotas para a realização da cobertura de um jogo do campeonato gaúcho. O narrador Ataídes Ferreira e o comentarista Jaime Eduardo resultaram feridos, esse último, com gravidade. Daí para frente, a equipe esportiva da Rádio Guaíba passou a viajar de Kombi.

 

Mendes Ribeiro, principal narrador da Emissora, tinha medo de viajar de avião. Nas Eliminatórias da Copa de 1958, no jogo entre Paraguai e Brasil, lá foi a equipe da Guaíba por péssimas estradas, muitas delas inundadas, o que obrigou os radialistas e técnicos realizar desvios que alongaram em muito o trajeto. A turma chegou a Assunção quase na hora de o jogo se iniciar.

 

Acompanhei a Copa pela Guaíba, para a qual me transferi em abril no dia 10 de abril de 58, depois de atuar quatro anos na Rádio Metrópole. Novamente, Ribeiro quis que fossemos de Kombi. Dessa vez, para Águas de Lindóia-SP,onde a Seleção Brasileira fez um jogo-treino. Fui um dos que pilotaram a Kombi. Já nos preparativos do Brasil para a Copa de 66, a equipe da Guaíba, com um enorme transmissor ocupando o que seria o banco do meio do veículo, estivemos em Lambari e Caxambu, estâncias hidro-minerais, em Niterói, Teresópolis e onde quer que a Seleção treinasse.

 

Minha saga “kombeira”, me permitam neologismo, não se resumiu a viagens longas. Visitávamos o interior do Rio Grande com regularidade. Nessas, cada um dirigia a Kombi, no sistema de revezamento, de hora em hora. Eu era o piloto mais fominha. No tempo em que a gente aliava o trabalho de radialista com o de motorista – sem cobrar nada pela dualidade de funções – o autor dessas mal digitadas linhas ainda não tinha carro. E ficava felicíssimo dirigindo Kombi.

 

Ah,que saudade daquelas Kombis da Caldas Jr.!

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Mais uma boa história do rádio

 

Por Milton Ferretti Jung

 

‘’Estou com o seu texto editado. Amanhã publico. Espero que sempre lhe falte assunto para a coluna. Assim você encontrará espaço para estas boas histórias de rádio”.

 

Este foi o teor do e-mail que o Mílton me enviou na última quarta-feira. Na verdade, quando sentei diante do computador para redigir o texto de quinta-feira estava em dúvida: trataria de um crime praticado com requintes de crueldade num município vizinho de Porto Alegre ou escreveria uma história de rádio. Elegi – e quem me leu sabe disso – escrever acerca de uma experiência vivida por mim na época em que a Seleção Brasileira se preparava para a Copa do Mundo de 1966. Creio que não tratar, nesta coluna, de um assunto escabroso, ultimamente muito explorado por todos os veículos midiáticos, valeu a pena. E tem mais: sugestão de filho, principalmente quando este é o responsável pelo blog, o pai aceita de muito bom grado. Sei que o Mílton, pelo menos,vai gostar. Então, vamos à história.

 

O comentarista Ruy Carlos Ostermann, este seu criado e o Celso Costa, técnico de áudio e, hoje, o mais antigo funcionário da Guaíba, uma vez que começou a trabalhar nela antes mesmo da sua inauguração, fomos escalados para fazer a cobertura de uma partida de futebol, em Minas Gerais, no Estádio Raimundo Sampaio, mais conhecido como Independência. Acompanharíamos o Grêmio que enfrentaria o Atlético Mineiro. Nossa viagem começou numa terça-feira em Porto Alegre, havia uma escala no Rio de Janeiro e trocaríamos de avião, no Aeroporto do Galeão, antes de seguir para Belo Horizonte. Tivemos,entretanto, que mudar de plano. A Cidade Maravilhosa estava coberta por névoa seca e nenhum avião decolaria naquele dia. O que fazer? Escolhemos pegar o Vera Cruz, magnífico trem que saía à noite do Rio e nos levaria numa viagem agradável até a capital mineira. Viajei muito de trem, na minha infância, entre Porto Alegre e Caxias, mas sempre durante o dia. Dormir numa cabina do Vera Cruz foi uma nova experiência, que eu gostaria de repetir. Isso, porém, é impossível. O trem com esse nome e as ferrovias são coisas do passado. Lamentavelmente.

 

Chegamos a Belo Horizonte na manhã do jogo. No fim da tarde, fomos para o Independência. Na época, a operadora que nos daria (?) condições de transmitir Atlético Mineiro x Grêmio era a RADIONAL. A EMBRATEL viria bem depois. A primeira providência que a gente toma ao chegar a um estádio é instalar a aparelhagem e, isso feito, entrar em contato com a rádio. A operadora, todavia, não conseguiu estabelecer a conexão. Tentamos utilizar a onda curta de 25 metros. Começamos a temer pelo insucesso da nossa cobertura. Os times entraram em campo. Não ouvíamos a Guaíba nos nossos fones. Em tais circunstâncias costumamos ligar o microfone e, na esperança de que estejam nos ouvindo na central técnica, avisamos que, após contar até dez, abriremos a transmissão. E foi o que fizemos. Realizamos a abertura habitual, anunciando as escalações das equipes, etc. A partida começou, o primeiro tempo terminou, começou o segundo e nada de ouvir-se o retorno nos fones do que se falava no microfone. Em voo cego narrei a partida até que, quando faltavam cinco minutos para o seu encerramento eis que uma voz, ouvida pela onda curta antes silenciosa, chegou aos nossos ouvidos. Não era, porém, a minha ou a do Ruy e sim a do colega Marcos Aurélio, em plena leitura do Jornal da Noite. O nosso voo não tinha apenas sido cego, mas mudo também.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

 

N.B: Quer ler outra boa história do rádio contada pelo Milton Ferretti Jung, clique aqui

Uma boa história do rádio

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Ao sentar diante do computador para digitar o meu texto das quintas-feiras fiquei em dúvida a respeito do assunto. Ocorreram-me,no mínimo, dois temas. Cheguei a pensar em escrever sobre a crueldade humana. Apenas o homem é capaz de ser cruel. Os animais, não. Sabemos que, mesmo os mais ferozes predadores, ao matar suas presas, fazem-no somente para sobreviver. Se não as devoram, morrem de fome. Não foi – nem poderia ser, claro – o caso da mulher que mandou matar o marido, confessou o crime e, apesar disso, foi solta um dia depois de ser presa. O triste episódio aconteceu em Cachoeirinha, cidade da Grande Porto Alegre. Era acerca da crueldade dessa mulher que pretendia escrever. Creio que, em boa hora, desisti.

 

Acabei optando pelo segundo assunto que tinha na cabeça. Faz horas que não conto histórias dos meus primeiros anos na Rádio Guaíba. Transferi-me para essa quatro anos após estrear no microfone numa pequena emissora, tão estreante no ramo quanto eu: a Rádio Canoas. O veículo rádio, naquela época, não tinha muito a ver com o de hoje. Entrei na Guaíba como locutor comercial (assim éramos chamados). O quadro contava com dez “speakers”, com vozes de quase idêntico padrão. Apresentávamos também os noticiários existentes no horário de trabalho. Cheguei a atuar como radioator. Mas essa parte talvez mereça outra história..

 

Não me lembro bem em que ano comecei a acrescentar às minhas funções a de narrador de futebol e outros esportes. O nosso diretor de broadcasting ou diretor artístico, como preferirem, era Mendes Ribeiro. Depois de testado por ele como narrador em jogos do campeonato gaúcho, escalando-me para relatar um tempo das partidas que, em Caxias do Sul, começavam meia hora antes das demais, me aprovou. Uma de suas idiossincrasias era o medo de viajar de avião. Nas eliminatórias da Copa do Mundo de 1958, Ribeiro preferiu ir de kombi a Assunção para transmitir Paraguai x Brasil. As condições das estradas, naquele tempo, eram horrorosas. A viagem demorou tanto que o nosso narrador número um por muito pouco não chegou atrasado ao Defensores del Chaco. Foi Mendes Ribeiro que, bem mais tarde, viajou, com este que lhes escreve, para Águas de Lindóia, a fim de transmitir um jogo-treino da Seleção Brasileira. Fomos de kombi, claro.

 

Em 1966, cobri os treinos da nossa Seleção, que se preparava para a Copa do Mundo. Conheci Lambari e Caxambu, pertencentes ao Circuito Das Águas de Minas Gerais. Estive ainda, na mesma cobertura, em Teresópolis, Macaé e Niterói. Foi lá que Alcindo, jovem centroavante do meu Grêmio, torceu o tornozelo, o que acabou prejudicando sua participação na Copa da Inglaterra. Nossa viagem com o Selecionado não foi nada fácil. Como não havia, na época, condições tecnológicas sequer semelhantes às de hoje, levávamos, no meio da Kombi, um transmissor pesado, conhecido por SSB – Single Side Band – cujas válvulas não eram confiáveis. Nossos técnicos precisavam adquirir dois postes de bom tamanho, em cada nova cidade por nós visitada. Montava-se sobre esses postes os cabos que, partindo do transmissor, levavam ao ar o som da Guaíba. No alto do Morro da Polícia, em Porto Alegre, um outro técnico era responsável pela manutenção da sintonia do SSB, muito delicada. Essa, se perdia ao menor descuido do operador. Confesso que, embora com todos os percalços de ordem técnica, por mim relatados, eu gostava bem mais do rádio de antigamente – e olhem que não sou saudosista – do que deste que temos hoje, repleto de avanços tecnológicos e ouvido, por mais distante de nós que esteja a emissora, com som local, pela internet. Ah, que saudade das ondas curtas com aquele som que ia e voltava, ia e voltava.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Meu filho, o rádio e o futebol

 

Por Milton Ferretti Jung

Meu filho, o Christian, também tem um Blog, como o Mílton, mas, se o deste é quase que totalmente dedicado às coisas de São Paulo, tirante o espaço chamado Avalanche Tricolor, invariavelmente postado após jogos do seu Grêmio (nosso, aliás), e este que escrevo todas as quintas-feiras, o do caçula dos irmãos Jung trata de um objeto de sua paixão. Basta que eu diga o nome do blog para que fique claro aos pacientes leitores que me concedem sua atenção qual o principal assunto abordado nele: MacFuca. Sugiro a quem gosta de carros antigos,especialmente os da marca Volkswagen, que tiveram sua época no Brasil e no mundo, que dêem uma olhadinha no MacFuca.

Toda regra tem a sua exceção,diz um adágio mais velho do que eu. O MacFuca não fugiu dela. Às vezes, além de falar em fucas, no seu e nos alheios, escreve sobre o seu pai. Afinal, se existem pais corujas, há filhos que também são. Quem se der ao trabalho de ler o desta semana vai encontrar uma história que começa com um crachá, no qual se vê uma foto de um jovem de 18 anos (os narradores de futebol diriam que se trata de um garoto) que chegava ao seu segundo emprego. Saíra de uma pequena rádio e buscava espaço em outra que, embora ainda sem ter completado um ano, já podia ser considerada grande, uma vez que pertencia a uma empresa importante no Sul: a Companhia Jornalística Caldas Jr. e, de certa forma, herdava a tradição desta: a Rádio Guaíba.

A história só começou pela imagem do crachá, para ilustrar o texto do Christian. Mais abaixo, está uma foto de um rádio que pertencera ao avô paterno do…meu filho. Os leitores, sempre sagazes, já descobriram, é claro, quem era o jovem da fotografia. Quanto ao rádio, tinha Wells como marca. Quem o olhasse por detrás, veria que possuía uma entrada para toca-discos. Nesta, resolvi introduzir um fone e descobri que podia o usar como se fosse um microfone. Daí a passar a narrar as partidas de futebol-de-mesa dos meus amigos, em minha casa, foi um pulinho.

Fazia, sem me dar conta, minha primeira experiência “radiofônica”, muito distante ainda do teste que acabei realizando, com sucesso, na Rádio Canoas, em 1954. Quatro anos depois,estreava na Guaíba. Nesta, fui locutor comercial, radioator, apresentador de notícias e narrador de futebol.

Em 1964,o então chefe do Departamento de Notícias me escolheu para apresentar a síntese informativa mais importante da Emissora – o Correspondente Renner – que esteve presente na programação da Guaíba desde a sua inauguração. Como escrevi na quinta-feira anterior, já com outros patrocinadores a partir de 1999, o ciclo foi interrompido e só retomado, para minha alegria, nessa segunda-feira, 2 de maio, conforme anunciei que seria, aqui neste meu espaço.

Choveram e-mails e torpedos de ouvintes que se confessavam saudosos do Correspondente e, a modéstia que, desta vez, se dane, deste locutor que, neste momento, não lhes fala, mas escreve, tomado por insopitável prazer.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

A volta da síntese noticiosa

 

Por Milton Ferretti Jung

Dia 30 de abril de 2010. Saía do ar, nesta data,o Correspondente Renner, síntese informativa que vinha sendo irradiada desde a fundação da Rádio Guaíba e era um marco na programação da emissora. Ao deixar de ser apresentado já não tinha a chancela de seu primeiro patrocinador. Este, porém, quando alguém fazia referência à síntese informativa, geralmente continuava sendo citado. O nome – Correspondente – e o sobrenome – Renner – permaneciam na cabeça dos ouvintes, que teimavam em não se acostumar com as novas e mais recentes denominações do noticiário. Com Renner a patrociná-lo, o noticioso teve quatro apresentadores: Ronald Pinto, Mendes Ribeiro, Ênio Berwanger e este seu criado.

Vou ter de falar, com a devida licença dos leitores, na primeira pessoa. Explico: comecei a apresentar o Correspondente Renner em 1964 e cumpri esta agradável tarefa até a sua penúltima edição, da qual não fui o apresentador, o que me poupou uma leitura que faria, provavelmente, com imensa tristeza. Afinal, cheguei a ser o locutor que, no Brasil, permaneceu mais tempo apresentando o mesmo noticiário. Eron Domingues e Lauro Hagemann, locutores do Repórter Esso, aquele no Rio, este no Rio Grande do Sul, síntese que balizou o Renner, marcaram época na radiofonia brasileira, mas ficaram no ar menos tempo que eu. Confesso que ambos foram meus mestres. No início, tentava imitá-los,o que durou até encontrar meu próprio estilo.

No próximo dia 30, data do quinquagésimo-terceiro aniversário da Rádio Guaíba, o Correspondente estaria de aniversário. Eu escrevi estaria? Ledo engano. Vou revelar agora o motivo pelo qual, data vênia do responsável por este blog, meu filho Mílton Jung, estou tratando de um assunto que, embora possa parecer estranho aos paulistas, toca-nos – a mim e a ele – muito de perto, uma vez que eu ainda sou locutor da Guaíba e o Mílton começou nela sua exitosa carreira radiofônica.

Há menos de um mês,Solange Calderon,Diretora de Programação da Rádio,convocou-me para dar-me uma notícia das mais alvissareiras: o Correspondente voltará ao ar um ano e dois dias depois de ter deixado a programação da Guaíba.E,praticamante,nos mesmos moldes dos bons tempos. E com o mesmo nome porque patrocinado pelo Banco Renner.

Os alunos de jornalismo gaúchos – o Mílton e a nossa Diretora estiveram entre eles – poderão, novamente, escolher como tema para o trabalho de encerramento do curso, o Correspondente Renner. Tenho certeza que os ouvintes desta síntese informativa,os antigos, que se diziam saudosos dela, e os que aprenderão a apreciá-la por sua credibilidade, serão nossos ouvintes, de segunda a sábado, às 09h, 13h, 18h50min e 20h.


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Pai, teu legado é nosso, teus caros ouvintes

 

A Rádio Guaíba de Porto Alegre, onde comecei a trabalhar como jornalista, anunciou na sexta-feira, dia 30 de abril, o encerramento da síntese noticiosa que estava no ar desde a fundação da emissora, em 1957. Apresentador desde 1964 do noticiário que surgiu com o nome Correspondente Renner, Milton Ferretti Jung, meu pai, consagrou-se como o locutor de notícias que por mais tempo permaneceu no ar no rádio brasileiro. Seguirá na Guaíba, onde participará como comentarista de um programa esportivo, área na qual atuou dezenas de anos na função de narrador esportivo. É para ele que escrevo o texto a seguir:

Pai,

Tua história nos orgulha. Não apenas a nós que te conhecemos tão intimamente e aprendemos contigo. A todos que cresceram no Rio Grande ouvindo tua voz a pontuar os fatos mais marcantes do país e do mundo. Por muitos anos, cada vez que tocava a característica do saudoso Correspondente Renner, programa que se iniciou com a Rádio Guaíba de Porto Alegre, em 1957, sabíamos da importância do que viria a seguir. A seleção das notícias era criteriosa; a redação, precisa; e a locução irretocável.

A forma com que tu transmitias as informações oferecia credibilidade ao noticiário; acentos, vírgulas, indignações eram percebidos na respiração; a entonação das palavras e a pronúncia dos nomes estrangeiros davam a cada um deles o seu verdadeiro sentido. No ar, pelo rádio, uma aula a todos teus ouvintes, dentre os quais eu sempre estive.

Eu era um ouvinte privilegiado, sem dúvida. Enganado, também. Tu deves lembrar quando a mãe puxava nossa orelha em casa: “se tu não te comportares, guri, teu pai vai te dar uma bronca pelo rádio!”. O Christian, a Jacque e eu parávamos a bagunça pra ti escutar.

Faz algum tempo que o Renner, como o conhecemos, não está ao ar. Mudaram-lhe o nome, perdeu-se a qualidade do texto e a importância dos fatos. Recentemente, em erro estratégico, encurtaram-lhe as edições e desfiguraram até mesmo a tradicional característica.

Tu, não. Perseveravas no talento e na exigência com a performance. Que performance! Com as notícias, seguias a transmitir conhecimento, cultura e responsabilidade. Mantinhas vivo em nossa memória este patrimônio do rádio brasileiro, pois se o Correspondente Esso consagrou a síntese notíciosa, o Renner a eternizou nestes 53 anos dos quais 48 esteve sob tua apresentação.

Assim, a decisão da Rádio Guaíba de tirar de sua grade o Correspondente será incapaz de apagar este legado que é teu. É nosso, teus caros ouvintes, para sempre.

A nos consolar, assim que voltares das férias, o radio-jornalismo terá perdido sua mais bela e competente voz, mas o Grêmio terá ganhado um defensor ferrenho no programa de esportes do qual farás parte, na Guaíba.

Momento coruja I: o rádio

 

Acredito já ter falado dele neste blog. Se não o fiz, foi injustiça. Merece, mesmo que me acusem por nepotismo. Quem o fizer errará duas vezes: primeiro, a qualidade do artigo merece espaço em qualquer blog que faça referência ao rádio; segundo, nepotismo, na origem, é tio beneficiando sobrinho e aqui a coisa se inverte. Aldo jung é jornalista e publicitário, não lembro qual exerceu e para qual se diplomou, mas fez bem os dois – e meu tio, também.

Chega de elogios e vamos ao texto que justifica esta introdução:

Por Aldo Jung

Cresci ouvindo rádio. Pelo menos até o surgimento da televisão no Estado, em dezembro de 1959, era em volta do rádio que as famílias se reuniam à noite. Lembro-me direitinho de uma cena dominical: eu sentado no chão da sala, brincando com os tijolinhos de “o pequeno engenheiro” (jogo que, de tão saudável, ainda existe à venda); minha mãe, no sofá, fazendo algum trabalho manual de costura ou bordado; meu pai, numa poltrona, ou se preparando para uma semana de trabalho, ou lendo o Correio do Povo, ou fazendo palavras cruzadas; minha avó, noutra poltrona, fazendo suas colchas de crochê. Não vejo meus irmãos mais velhos na cena. Deviam estar nos seus quartos ou na varanda, estudando. O som ambiente: um programa chamado “Grande Rodeio Coringa”. Era um programa de auditório da rádio Farroupilha, com temática gauchesca, apresentado por Darci Fagundes e Luiz Menezes, em que havia invernadas de duplas, trios, trovas e declamações. E assim andavam as noites dominicais, até as 22 horas. Depois disso, cama, porque amanhã tem escola e muito trabalho.

Lembro, também, de uma cena que se repetia diariamente, quando eu chegava da escola, por volta do meio dia. Minha avó sentada na mesma poltrona, com a mesma colcha de crochê em andamento – um pouco mais avançada a cada dia – e o rádio ligado. A emissora era a mesma: Farroupilha. O programa era o “Banca de Sapateiro”, um humorístico em que, através do ator Walter Broda e de seu contraponto, Pinguinho, eram denunciados os problemas da cidade. Também falavam de futebol, representando um deles o gremista e o outro, o colorado. Aliás, essa dupla também participava do Grande Rodeio Coringa.

A partir de abril de 1958, ouvir rádio em minha casa tornou-se uma tarefa praticamente coercitiva. Neste ano, meu irmão, Milton Ferretti Jung, que já atuava como locutor comercial e de notícias na Rádio Metrópole, de Canoas, começava sua jornada na grande Rádio Guaíba. Mas esta é uma história pra muitas outras crônicas. “A voz do Rádio”, como é conhecido Milton Jung, completa, neste ano, 52 anos só de Guaíba. Isso rende um livro grosso.

Desde que parou de trabalhar, até o fim de seus dias, meu pai não perdia uma edição do agora Correspondente Guaíba (que já teve outros nomes), que começou a ser apresentado pelo meu irmão em 1964.

Mas a minha relação com o rádio mudou a partir do início da década de 60. Em 1959 inaugurava-se a TV Piratini, canal 5, afiliada à Rede Tupi, dos Diários e Emissoras Associados, de Assis Chateaubriand. A compra de um aparelho de TV não foi imediata na minha casa. Depois disso, contudo, deixei o rádio de lado, exceção feita às transmissões de jogos de futebol, especialmente por ocasião de Copas do Mundo.

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