Conte Sua História de São Paulo: fiz concurso para a Light

Francisco J. Camilo Hernandes 

Ouvinte da CBN

sao paulo downtown
À direita, o Shopping Light no Centro de São Paulo. Foto Fernando Stankuns

Era o começo dos anos 1970. Eu com 14 anos estudava pela manhã, na quarta série ginasial, no colégio Augusto Meirelles, no bairro do Imirim, na zona norte. Estava na casa do meu primo Jonas, filho da tia Joana, irmã mais nova da minha mãe Tereza. O Jonas me disse que participaria de um concurso na Light. 

Eu já havia trabalho nas férias escolares. No início de 1971, na padaria do Seu Lucas cortando pão de forma e na CID Ferreira Comissária de Despachos, como office boy.

Fiz a inscrição no concurso da Light e como eu era um bom aluno passei com facilidade. Meu primo não conseguiu e isso definiu a minha carreira profissional e a dele, também.

No fim daquele ano eu já tinha fechado as notas em todas as matérias. Então, enquanto esperava ser chamado pela Light, fui trabalhar como office-boy na Construtora e Imobiliária Lutfalla da família Maluf, na Praça da Sé. Foi lá que conheci a transferência de documento contábil através da impressão com gelatina.  

Logo que 1972 se iniciou, chegou a convocação para assumir o meu cargo de aprendiz de caixa na Light. Ganhava um salário mínimo, tinha duas horas de almoço e a alimentação era fornecida pela empresa. Na época, isso não era obrigatório: ou você comia nos restaurantes e lanchonetes ou então levava marmita de casa.

Na Light a nossa seção era a Apuração da Arrecadação. Éramos 60 meninos — não havia mulheres —, todos chefiados por três senhores na faixa dos 50 anos: senhor Esteves, Amadeu e Pereira. Cada um com uns 30 anos de empresa.

Os rapazes éramos divididos em dez grupos de quatro pessoas cada um. Cada grupo representava uma zona de 1 a 10 que eram as regiões de São Paulo. O nosso serviço era colocar as contas de luz que os bancos haviam recebido no dia anterior em ordem numérica. Após os lotes de contas terem sido organizados, aos demais 20 garotos cabia fazer a soma final, conferindo os valores enviados pelos bancos. 

Depois de três anos sai dessa seção para atuar como eletrotécnico na própria Light, pois havia me formado na escola técnica Albert Einstein no bairro da Casa Verde. A curiosidade é que quando deixei a seção estava se iniciando o sistema de leitura ótica das contas de luz.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Francisco Camilo Hernandes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 472 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo 472 anos: os caminhos que me levaram a ser economista

João Oswaldo Esotico

Ouvinte da CBN

Impostômetro
Fachada de prédio na rua Boa Vista Foto: CBNSP/Flickr

O que é do homem o bicho não come. Esta expressão representa muito bem aquilo que está destinado a alguém e, que, nos chega por meios estranhos; aquilo que parece ser coincidência, na realidade é, talvez, o universo trabalhando em seu favor.

Eu era office boy, numa pequena indústria de tintas, ali no Jabaquara. Era um emprego simples sem grandes aprendizados nem muito esforço da minha parte. No fim de 1968, eu precisava me dedicar aos estudos. Estava no cursinho Visconde de Cairu, na confluência da rua Quirino de Andrade com a Ladeira da Memória, próximo ao Vale do Anhangabaú.

Combinei com meu pai que largaria o emprego até entrar na faculdade. Vieram os exames vestibulares e consegui uma vaga na Álvares Penteado. Em economia.

Estudava pela manhã e meu tio me ajudou a encontrar um emprego no Banco da Bahia, na rua Boa Vista. Fui ser operador de lançamento de FGTS nas fichas de funcionários da Volkswagem. O trabalho, de seis horas, era de produção incessante e extenuante. Me sobressai como operador de máquina e fui promovido: transferido para o departamento de controle de contas correntes da sucursal do banco. Entrava às cinco da tarde e saía quando o trabalho terminava, pura mamata. Trabalhava em média quatro horas por dia. No fim do mês apertava: de oito a nove horas, saindo de madrugada.

Certo dia, meu chefe disse que queriam falar comigo lá na sede da sucursal do Banco. Cheguei e me apresentei ao gerente. Uma figura magra, simpática e com olhar penetrante, Benedito Otaviano. Queria que eu trabalhasse no departamento dele com análise de balanços, algo que não me era todo estranho, pois foi matéria do curso de contabilidade.

Transferência feita, para tristeza do outro chefe, comecei a rever conceitos de análise de balanços diretamente com o Benê, e ele já tinha contratado outro colega o Paulo Nashiro. Depois de algum tempo o Benê, contente com o meu desenvolvimento no trabalho, me contou que eu não estava na lista de estudantes de Economia e Contabilidade que o RH do banco lhe fornecera. Eu, intrigado, perguntei, como ele havia me encontrado em outro departamento.

Aí é que a gente vê que o universo conspira a nosso favor. O Benê havia entrevistado um colega meu da faculdade que ao sair da entrevista perguntou se ele chamaria, também, o Esotico. Foi então que o Benê pediu para o RH encontrar o tal de Esotico dentro do banco. 

Este foi o pontapé inicial para me deslanchar na carreira de economista, fazendo análises para investimentos e empréstimos bancários.

E pensar que tudo isso se desenrolou nessas ruas que agora completam 472 anos. O mesmo Anhangabaú que eu atravessava apressado para o cursinho, a mesma Rua São Bento onde minha vida profissional mudou de rumo.

O que é do homem o bicho não come.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

João Oswaldo Esotico é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 472 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Há 20 anos, o Conte Sua História e os ouvintes da CBN ajudam a preservar a memória de São Paulo

No estúdio de podcast da CBN gravando o Conte Sua História de SP

O Conte Sua História de São Paulo completa 20 anos neste mês de janeiro. O projeto nasceu quando a CBN preparava uma programação especial pelos 452 anos de fundação da cidade, em 2006 — à época, sob sugestão da diretora de jornalismo Mariza Tavares. Eu apresentava o CBN São Paulo, programa que ajudou a moldar minha identidade como âncora de rádio e que se tornou o berço natural dessa ideia.

A proposta inicial era simples: selecionar textos enviados pelos ouvintes para serem lidos no ar durante as duas semanas que antecediam o aniversário da cidade. A resposta foi tão intensa e surpreendente que decidimos manter o quadro depois das comemorações. Nas primeiras edições, tudo era feito ao vivo — leitura e sonorização —, o que exigia habilidade extra do colega Paschoal Júnior no estúdio, sempre atento aos detalhes que davam vida às histórias.

Com o passar do tempo, adotamos a gravação antecipada das narrativas para depois colocá-las no ar. Foi nesse momento que o maestro Claudio Antonio entrou para o projeto, responsável pela construção musical que acompanha cada texto. Ele segue ao meu lado até hoje. O Conte Sua História é exibido atualmente aos sábados, no CBN São Paulo. Ainda em seu primeiro ano, ganhou forma de livro: 110 histórias de ouvintes reunidas pela Editora Globo.

A cada janeiro, propomos um tema especial para inspirar os ouvintes a escrever. Em 2026, o convite foi para que compartilhassem lembranças e experiências ligadas ao trabalho — afinal, São Paulo é constantemente identificada como a cidade das oportunidades e das jornadas que moldam trajetórias.

A caixa de e-mails rapidamente revelou uma riqueza de memórias. Profissões que desapareceram, modos de trabalhar que já não existem, situações inesperadas, cenas que dizem muito sobre o tempo em que foram vividas. Histórias que valorizam profissionais, colegas, empresas e atividades diversas. 

Assim como acontece desde a primeira edição, cada texto me exige presença total: procuro incorporar o personagem, traduzir na voz a intenção de cada palavra e captar o espírito que move o autor a dividir aquele momento. Talvez seja isso que explica o gestual e a expressão flagrados na foto registrada por Priscila Gubiotti, técnica de áudio e vídeo da CBN, que compartilho com vocês.

Onze textos foram selecionados para estas duas semanas. Todos os demais estão organizados nos meus arquivos e irão ao ar nas próximas edições de sábado do CBN SP. Se ao ouvir uma dessas lembranças você sentir vontade de revisitar sua relação com a cidade, escreva. A história de São Paulo só existe porque alguém a viveu — e a contou.

Para participar, envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo 472 anos: nos Correios, trabalhei com telegrama fonado

Giuseppe Nardelli

Ouvinte da CBN

Unidade do Telex em Ponta Grossa, no Paraná. Museu Nacional dos Correios

Aos 19 anos, eu precisava arrumar um emprego para ter minha independência financeira. Eu já queria alçar voos mais altos e morar sozinho. Ao passar pelo centro da cidade, vi uma placa no prédio dos Correios: “Precisa-se de funcionário para fonegramia, mesmo sem experiência”

Criei coragem. Falei com a recepcionista sobre a vaga e logo ela me levou ao primeiro andar do prédio. Era uma sala gigantesca com vários terminais e muitas pessoas. Um barulho infernal de telex. 

O funcionário que me atendeu perguntou se eu pretendia fazer um teste e se falava outros idiomas, além do português. Disse que falava inglês e italiano fluentemente e estava disposto a fazer o teste. Ele me levou para um terminal e começou a ditar um texto em português. Eu precisava traduzi-lo para o inglês e o italiano. Estava bem nervoso, mas respirei fundo e cumpri a árdua tarefa. Encerrado o teste, esperei meia hora até o funcionário retornar e dizer que eu estava contratado. 

O serviço era atender os telefonemas de clientes que queriam enviar um telegrama  fonado.  Naquela época só nos Correios existiam telex. Era a única forma de mandar telegramas para dentro e fora do país. Passei uma semana em treinamento com outras pessoas que também foram aprovadas no teste. Fiz muitas amizades e sem sem perceber o tempo passar, ganhei meu terminal para começar a atender os telefonemas. 

Foi muito bom aprender a mexer com telex. A máquina imprimia fitas amarelas perfuradas que depois iam para central de transmissão. Foi uma primeira experiência de trabalho fascinante, levando em conta que o “telegrama fonado” era o meio de comunicação mais moderno da época — uma profissão que acabou com a chegada do fax.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Giuseppe Nardelli é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe desta série especial em homenagem aos 272 anos da nossa cidade. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Uma redação, muitas décadas e mais um Natal

Edmilson, Claudinho, Paschoal e eu na redação da CBN

Começou o plantão de fim de ano nas redações. É aquele período em que as equipes de jornalismo se dividem em duas para trabalhar em dobro e garantir alguns dias de folga no meio das festas. Em 2025, coube-me o Natal, enquanto Cássia Godoy descansa. Na semana seguinte será a minha vez de calçar as sandálias e relaxar — se é que calçar sandálias ainda é possível sem que se transforme em ato político também.

Logo na chegada à redação, na segunda-feira, tive uma feliz surpresa. Entre os poucos colegas escalados, encontrei três das antigas. Jornalistas e radialistas que me acompanham há algumas décadas: Paschoal Júnior, Edmilson Fernandes e Cláudio Antonio.

Paschoal, para quem ouve o Jornal da CBN, já foi apresentado. É o responsável pela mesa de som do programa — o que não diz tudo sobre ele. Tem participação ativa na edição do jornal, interfere nas pautas, ilustra entrevistas e reportagens, provoca à reflexão e está sempre disposto a oferecer pérolas filosóficas.

Edmilson e Claudinho respondem pela crônica política mais bem-humorada do rádio brasileiro: a Rádio Sucupira, que fecha as edições de sexta-feira do Jornal da CBN. Ed também é o chefe da madrugada e responsável pela edição e redação da abertura do Jornal. Claudinho é um maestro. As melhores sonorizações da rádio passam pelo talento dele. Em particular, destaco a parceria que mantemos há anos na edição do Conte Sua História de São Paulo.

Somos colegas desde o século passado. A expressão pode parecer exagerada, considerando que estamos apenas concluindo o ano 25 do século 21. Ainda assim, ela diz muito. As relações — e as redações — tornaram-se cada vez mais efêmeras. A troca de emprego é frequente. No jornalismo — e percebo que nos escritórios das empresas também — a turma chega novinha, motivada, mas, se em três ou quatro meses não surge um novo desafio, uma atividade diferente ou uma promoção, já pensa em cair fora, buscar novos horizontes, como costumam dizer no linguajar corporativo. Ninguém mais tem paciência.

Eu, Paschoal, Ed e Claudinho tivemos. Muita paciência. Tanto quanto a empresa teve com a gente.

Neste mês de dezembro, completei 27 anos de rádio CBN. Cheguei praticamente junto com o Ed. Paschoal e Claudinho vieram um pouco antes. Estão completando 30 anos. Somados, a foto que ilustra este texto reúne 114 anos de CBN. Tempo de muita história, reportagem, coberturas, graças e falhas. Há frustrações, também — elas existem em todos os aspectos da vida. Aprender com os defeitos, nossos e dos outros, nos tornou mais resilientes. A soma de tudo isso nos forjou e nos trouxe até este Natal.

O tempo, esse mesmo que apavora quem tem pressa demais, nunca me constrangeu. Ao contrário, me orgulha. Orgulha porque ficou. Porque sedimentou relações, ensinou limites, expôs falhas e permitiu correções. Orgulha porque mostrou que permanecer também é um gesto de coragem. Num período em que tudo parece descartável, seguir junto por décadas não é atraso. É escolha. E, olhando para essa redação quase vazia, cheia de histórias, percebo que o tempo não nos envelheceu. Deu-nos lastro.

Conte Sua História de São Paulo: a São Silvestre que me abriu caminho para as maratonas

Jose Tadeu Guglielmi 

Ouvinte da CBN

Corrida em 2016 (divulgação)

A São Silvestre, essa tradicional prova de rua realizada no último dia do ano, faz parte da história de São Paulo e da minha, também.

Minha paixão pelas corridas vem desde 1995, ano em que completei minha primeira São Silvestre. 

Porém, recordo da prova desde os tempos de criança: ano após ano, minha mãe fazia uma referência, ao ver a corrida pela televisão, sobre a vontade de meu pai de um dia participar da São Silvestre. Desejo não realizado, porque ele faleceu no dia 11 de fevereiro de 1973, quando eu tinha oito anos. Tomei seu desejo então como minha herança.

Desde aquela época participo da prova quase todas as edições. São 26 participações na São Silvestre desde 1995. 24 consecutivas.

Fazer esta prova é um privilegio. Maneira perfeita de encerrar um ano corrido. 

A cidade de Sao Paulo que simboliza trabalho nesta data se transforma em um ambiente descontraído. Os corredores largam na Avenida Paulista e percorrem o centro da cidade com seus prédios históricos. A famosa esquina Ipiranga com a São João. O desafio de encarar a Brigadeiro Luis Antonio. A alegria de cruzar a linha de chegada praticamente no mesmo ponto de partida.

E não parei por ai. 

Os sonhos se renovam e graças a São Silvestre iniciei-me nas maratonas, em 2003. Tornei-me o primeiro brasileiro e sul-americano a completar maratonas nos sete continentes, em 2009, com a participação na maratona da Antarctica. 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Jose Tadeu Guglielmi é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br e vamos participar das comemorações de mais um aniversário da nossa cidade. Para ouvir outros capítulos visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo. 

Conte Sua História de São Paulo: namorei a Mooca através dos namorados que tive

Adriana Yamamoto Christofolete

Ouvinte da CBN

FOTO: Viva Mooca (Reprodução)

Ouça aqui o texto completo, sonorizado por Cláudio Antonio e com narração de Mílton Jung

Contar a minha história em São Paulo confunde-se com a minha relação com a Mooca. Amor de longa data. 

Namorei a Mooca através dos namorados que tive. Um descendente de italiano, que não morava no bairro, mas falava com as mãos e comia macarronada no almoço de domingo, na casa da nona, perto da Praça Silvio Romero. Toda vez que visitávamos a avó, ao passar pela Radial Leste, dizia que o sonho dele era mudar-se para a Mooca. 

O namoro com esse rapaz se foi. De herança restou o gosto pelas casas de porta na calçada e vizinhança amigável.

Outro namorado da época da faculdade morava no Tatuapé, mas não curtia essa vida bairrista. Coincidência ou não, o namoro durou nadinha. 

Como já contei em outro capítulo do “Conte Sua História de São Paulo” casei-me com um mooquense, descendente de italianos. E, enfim, mudei para o bairro. Na Mooca criei filhos, trabalhei, fiz muitos amigos nascidos ali ou que se tornaram mooquenses por convicção — como um que conheço desde a faculdade que era de Itaquera e fez da Mooca seu lar com esposa e filho.

Como toda paixão, tive desilusões. Uns novos ricos invadiram parte do bairro e eu me fugi para o Tatuapé com medo de não ter vez no mercadinho da esquina, por não ser reconhecida pelo atendente da padaria, por me incomodar com os novos vizinhos.

Porém não consegui rir das mesmas piadas, mesmo sendo acolhida pelos vizinhos do novo bairro. E assim, jamais me desconectei da Mooca. E me mantive nos grupos de ciclistas e de caminhada, como o Pedal da Mooca, criado no início dos anos 2.000, e o Rapadura da Mooca, que promove acolhimento humano e socialização e surgiu juntamente com a Associação Mooca Solidária.

Ouça aqui o texto completo, sonorizado por Cláudio Antonio e com narração de Mílton Jung

Adriana Yamamoto Christofolete é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: … mas é a minha cidade!

Por Osvaldo Martinez D Andrade

Ouvinte da CBN

Maltratada, cinzenta, com as marquises dos prédios no calçadão do Centro Velho, forradas por papelões, trapos, cobertores e ocupadas por moradores de rua, como único refúgio para se protegerem da chuva, frio, mas é a minha cidade.

Uma cidade que acolhe sonhos ao mesmo tempo que oferece pesadelos, mas é a minha cidade.

Uma cidade que tem um viaduto que não tem chá, mas tem batedores de carteira e de celular e uma rua direita que não é direita, mas é a minha cidade.

Uma cidade que tem a Sé que não é de sede, mas de igreja com sua catedral gótica e bizantina e suas palmeiras imperiais, que chorou pelas diretas já em 1984 e aplaudiu a fuga dos fascistas na revoada dos galinhas verdes, em 1934, mas é a minha cidade.

Uma cidade que prende mais negros do que brancos, mais pobres do que ricos, mais mulheres do que homens, mas é a minha cidade.

Uma cidade que assiste com espanto à terceirização da saúde e educação, numa tabelinha perfeita com o estado incompetente, que aparecem em letras garrafais nas manchetes dos jornais pendurados nos varais das bancas, e na ida para o trabalho dos que ainda têm emprego, diminuem os passos e param para dar uma espiadinha, mas é a minha cidade.

Uma cidade com 6% de desempregados, que assiste ao prefeito e aos nobres vereadores aumentarem a contribuição dos aposentados e não se envergonham de aumentarem ainda mais seus salários, mas é a minha cidade.

Uma cidade que assiste do sofá a um policial jogar um motoqueiro rio abaixo e a polícia em trajes de guerra jogar bombas e mais bombas, distribuir cassetetes e gás de pimenta em homens, mulheres e crianças, que ousam ter o sonho do barraco próprio, serem retirados à força em um dia chuvoso e sem saberem para onde ir, são empurrados para a rua, e quem se opõe e luta contra essa barbaridade são presos, enquanto os ladrões engravatados continuam sorrindo e morando muito bem, mas é a minha cidade.

Uma cidade onde 6 homens têm a mesma riqueza que 100 milhões de brasileiros juntos, mas é a minha cidade.

Uma cidade que tinha o Bar das Putas que não tem mais putas que consola, mas que fica na Consolação, que mudou para Sujinho e não sei mais o nome que se dá e tem o bar Brahma na São João com a Ipiranga, que nos oferece o chopp Brahma, mas é a minha cidade.

Uma cidade que tem o minhocão do Maluf que mudou de nome, mas precisa ser demolido, e que tem pancadão, funk, pagode, sertanejo que agora é universitário, blues e muito Rock and roll, samba e a campeoníssima Rosas de Ouro, meu tricolor do Morumbi, mas é a minha cidade.

Uma cidade que tem a República da Moóca, berço da luta sindical e popular, da  jornada de trabalho de 8 horas, do fim do trabalho infantil, de salário, saúde, educação e moradia digna para todos, da primeira greve geral no Brasil, do presídio Maria Zélia, o presídio político na época de Getúlio Vargas, a Hospedaria dos Imigrantes que recebeu meu Pai e meus Avós que embarcaram num navio em Portugal, atracaram em Santos, subiram a Serra e ali se alojaram, antes de seguirem para São José do Rio Preto (SP), e tem o Juventus vendido para uma SAF – Sociedade Anônima do Futebol, mas é a Minha Cidade.

Essa é  a cidade que me acolheu quando aqui cheguei recém-formado em 1982, para estudar, trabalhar, morar, ter filhos, viver, continuar sonhando, amando e sendo amado, até a vida me levar.

É a minha cidade, a minha São Paulo de 471 anos, a cidade que era da garoa e não tem mais e agora tem tempestades e inundações e um dia espero, seus espaços públicos sejam ocupados pelos que aqui moram, vivem, sonham e trabalham.

É a minha cidade, a melhor, a maior, a capital cultural da América Latina, que tem de tudo e esperamos que um dia seja de todos.

Meus sonhos irão comigo, até meu calendário acabar. Mas sonhos não morrem e vou continuar sonhando trabalhando e me indignando com as injustiças sociais.

Certamente outros haverão de continuar a luta por uma São Paulo igual para todos.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Osvaldo Martinez D Andrade é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: o abraço que não dei no Doutor Sócrates

Humberto Andrade

Ouvinte da CBN

Foto: Acervo/Gazeta Press – 11/12/1982

Pouco depois que me mudei para São Paulo, no fim dos anos de 1990, eu trabalhava em uma obra no Brooklin Novo, próximo à Av. Berrini e fui almoçar no shopping D&D. Num dos corredores, eu o vi saindo com a esposa de um restaurante. Ele passou por mim na direção contrária e foi … eu fiquei paralisado olhando. Era ele, Doutor Sócrates, meu ídolo de infância.

Aquele time do Corinthians do bicampeonato paulista, 82/83, da Democracia Corintiana, me marcou muito. Foi a afirmação de um menino de nove, dez anos, que me dera a certeza que seria corintiano por convicção. Até então, era corintiano apenas por influência do meu pai, desde o nascimento. 

Naquele instante, que não sai da minha lembrança, hesitei em chegar até ele. Tive vergonha e pensei que se o chamasse poderia ser indiscreto e atrapalhar.

E Sócrates foi caminhando em direção ao fim do corredor, lentamente, até sumir de vista.

Me arrependo de não ter puxado assunto e ter falado com ele qualquer coisa.

Fico pensando como seria. Poderia ter gritado:

Sóócrateesss!

E apertando sua mão, agradeceria:

Obrigado!

– Obrigado pelo quê? – imagino que ele perguntaria, sério e em tom filosófico.

Obrigado por tudo, por tudo! – eu responderia, nervoso e sem jeito. Como quem quisesse agradecer por ele me ter feito corintiano.

– Obrigado por fazer uma criança feliz, Sócrates!

Depois que ele morreu, em dezembro de 2011, eu percebi que essas oportunidades podem ser únicas. Hoje em dia, quando vejo um jogador que eu goste, de qualquer time, eu sempre puxo um assunto bobo, que seja, cumprimento e peço para tirar uma foto.

Daquele time excepcional, tive a chance mais tarde de conhecer o Zenon. Sempre fui muito bem tratado por todos, inclusive os que jogam ou jogaram pelo Palmeiras. Os ex-jogadores, principalmente, adoram esse carinho.

Certo dia foi incrível, encontrei o Dudu, ex-Palmeiras, ex-Cruzeiro, agora no Atlético Mineiro. Encontrei duas vezes no mesmo dia. De manhã na Pompeia, numa escolinha de futebol. Cheguei na cara de pau: – Você tira foto com corintiano? E ele gentilmente disse: – Claro!

À tarde, num açougue gourmet em Perdizes. “E agora, faz vídeo com corintiano?” Mais uma e eu já posso pedir música no Fantástico.

Quando eu estou com meu filho e vejo que ele está envergonhado em se aproximar de algum jogador, eu o incentivo a participar da tietagem. Eu sei que ele gosta, e se perder a oportunidade vai se arrepender —  assim como eu com o Doutor Sócrates.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Humberto Andrade é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: quando a chuva era de prata na cidade

Jair Dias

Ouvinte da CBN

Ilustração da São Paulo antiga

Estamos no início dos anos 50, decididamente, 1954, pois, sob o céu da cidade, houve uma chuva de estrelinhas de prata — fazia parte das festas do quarto centenário de São Paulo. E quem não se lembra? Eu recolhia aquelas estrelas pelo chão, o céu estava lindo, a cidade também. Estava acostumado com a São Paulo da garoa, com bondes indo e vindo — não havia lotações.

Lá estava eu, com meus sete aninhos, segurando fortemente as mãos de papai, e achando aquela chuva de papel maravilhosa, pois acostumara-me a ver todos os dias o tempo fechado, cinza e sem sol. Descíamos a rua da Consolação, quando garotos de rua, meninos engraxates e outros, brotavam das praças, corriam como se tivessem pegando dinheiro no chão. O ruído dos motores dos aviões no céu marcava um tom de festa. 

Agacho-me, recolho aquele triângulo de prata nas mãos e saio zanzando rua abaixo. É bom curtir essa onda de festa! Atravesso a rua, peito aberto, rasgando bairros inteiros, numa chispa dou de cara com a Sé. A essa altura, papai já estava cansado, bufando. Senta no banco, grita meu nome, e diz para me aquietar e não ir longe. Ele estava ouvindo uma música no radinho, música esta que falava do aniversário da cidade de São Paulo comemorado ali na frente, na Sé . 

Desci a rua Monteiro, onde atualmente é a Estação do  Metrô da Sé,  topando  com a PM, um batalhão de guardas à frente rufando os tambores. Fiquei em êxtase. Os soldados vinham batendo o pé rápido, igual, direita, esquerda. Ao som do bumbo, passaram  por mim, e seguiram marchando. Senti um comichão nos pés, e me pus  a segui-los imitando-os. Era a Banda Marcial da Polícia Militar. Tocavam aquela música que papai ouvia no radinho de pilha (São, São Paulo, meu amor………). 

Aquietei-me num banco da praça, lá na pontinha, onde as pessoas pegavam ônibus para ir a Santos e São Vicente —  era o Viação Cometa. Fechei os olhos, fiquei num transe, paralisado, ouvindo as águas da fonte da Sé misturada a voz de papai. 

Havia passado cinquenta e cinco anos. Olhei a minha frente, o Poupa Tempo, à direita, o Metrô, mais adiante, meninos de rua, de becos e muquifos, pareciam zumbis perdidos na praça, sujos, calças rotas, alguns pedindo dinheiro, outros fumando e bebendo. Meu Deus! Que cena horrível. Chamaram na de Cracolândia. Deduzi que seria o fim dos tempos. Olhei o céu carrancudo e triste, já não era o céu da minha infância, nem real nem simbólico, era um céu fatídico , triste, daqueles que não gostamos nunca  de imaginar, mas depois de tanto tempo. 

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Jair Dias é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outras histórias, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.