Conte Sua História de SP: as enchentes na época do verão de 1929

 

Por João Batista de Paula
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Gostaria de falar um pouco da minha cidade São Paulo, da charmosa garoa, das noites escuras da serração do viaduto do Chá, da av. São João do Bar Automático, da Catedral da Sé. São Paulo das serenatas e dos cancioneiros das madrugadas. Do Largo do Piques, ponto de carroceiros com suas belas parelhas de cavalos que faziam mudanças e entregas.

 

Falar da sempre acolhedora São Paulo é falar de pessoas vindas dos quatro cantos do mundo, falar da minha Rua Fernandes de Abreu, ex-Mário de Castro, onde eu nasci no velho e bom Itaim bibi, que nos anos 40 e 50 era um interior dentro de São Paulo.

 

Quero falar para quem não viu as enchentes na época das chuvas de verão de 1929. Uma enchente de grandes proporções atingiu a cidade. As águas do Tietê não deram vazão  suficiente pelo rio Pinheiros, cobriram as várzeas. Dizia-se que a Light controlara a vazão das barragens existentes demarcando, assim, as áreas inundadas, que passariam a ser propriedade sua. Para demarcar casas e terrenos atingidos pela cheia, em uma rápida pesquisa constatei também que a Light providenciou a instalação de pequenas placas, como a que existe até hoje na Rua Porto Seguro. Por seu valor histórico, esse pequeno marco integra o Inventário de Obras de Arte em Logradouros Públicos. Minha mãe contava que essa enchente inundou parte da várzea do Policarpo que era no final do bairro do Itaim bibi.

 

Quero falar um pouco das brincadeiras da época, dos meninos que rodavam pião, nadavam nas lagoas e com forte imaginação montavam em fogosos cavalos de cabo de vassoura. Nos dias de chuva, saíam em disparada nas lamacentas ruas, brandindo no ar  espadas imaginárias. As meninas nos portões de suas  casas montavam  suas  casinhas e imitavam suas mães se fazendo passar por severas donas de casa. Eu era um menino solitário, ficava zanzando nessa imensidão toda.

 

Quando éramos jovens, costumávamos ir ao cinema no cine Dom Pedro ll, depois ir comer um pastel no Bar Automático.

 

Nesse tempo,  tudo era uma aventura!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, 10h30, no programa CBN SP, a sonorização é de Cláudio Antonio e a narração Mílton Jung

Conte Sua História de SP: o Natal das luzes piscantes

 

Nesta véspera de Natal, o Conte Sua História de São Paulo vai buscar, em 2009, texto escrito pelo ouvinte-internauta Sergio Bragatte, que você acompanha agora:

 

 

Outro dia cheguei a seguinte conclusão: sou um velho carcomido pelo tempo. Sou daquele tipo que ainda gosta, e preserva o sentimento de gostar, daquilo que está em desuso como escrever sobre o Natal.

 

Distante das agruras de adulto, lembro-me criança quando ansiava acontecimentos mágicos de modo a mudar a realidade de menino da periferia sem escola, sem quadra de futebol, sem água encanada, sem luz, sem asfalto. Abundante, só a violência.

 

Lembro-me das brincadeiras, nas quais encarnávamos os super heróis: ora éramos o Super-Homem, ora éramos o Homem-Aranha, o Homem de Ferro, Zorro, Cisco-kid …

 

Lembro-me dos amigos crianças, das travessuras, dos maus feitos, das peças pregadas nos mais velhos, dos trabalhos esporádicos, para se conseguir uns trocados, das brigas.

 

No entanto, sempre foi o NATAL que afugentava meus medos da infância pobre e permitia sonhar e superar problemas que imaginávamos serem insuperáveis.

 

Conta-nos a Bíblia que, tempos atrás, em uma cidade do oriente, chamada Belém, reluziu uma estrela quando nasceu um menino chamado Jesus. Vindos da Babilônia, três reis magos, três amigos, a seguiram até chegar a um curral, onde, em uma manjedoura presentearam um menino.

 

Foi o reencontro da criança com a amizade.

 

Nessa simbologia, concluímos que é a amizade que nos conduz àquela criança.

 

É o Natal que me deixa com saudades de Deus, de saudades do tempo em que estávamos mais perto Dele. De quando éramos criança. Daí o sentimento de querer acordar na manhã de 25 de dezembro e encontrar, nos sapatos, um símbolo de afeto.

 

Ainda hoje ao ver o piscar de luzes sinto-me remetido àquela infância dos super heróis; como se afagasse a criança dentro de mim, como se me conduzisse por um leito seguro até o encontro do Salvador.

 

“E agora, José?”

 

Agora, cabe a nós mudar o Natal e a nós próprios. Procurar a estrela em nossas inquietações mais profundas. Descobrir a presença de ambos os Meninos em nosso coração.

 

E, como nos conta a Bíblia, ousar renascer em gestos de carinho e justiça, solidariedade e alegria.

 

Fazer-se presente lá onde reina a ausência: de afeto, de saúde, de liberdade, de direitos.

 

Dobrar os joelhos junto da manjedoura que abriga tantos excluídos, imagens vivas do Menino de Belém.

 

Viver o Natal das luzes piscando, que marcou o “tempo” de nossa infância, quando tudo podíamos e nada podia contra a gente, afinal éramos os super-heróis.

 

Que sejamos todos felizes e tenhamos um bom NATAL.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, às 10 e meia da manhã, no CBN SP. Envie seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br. A sonorização é do Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung.

Conte Sua História de SP: Terra da garoa, terra de gente boa

 

Por José Maria Pires

 

 

Terra da garoa

Terra de Gente Boa

 

Terra que não descansa

Terra de esperança

 

Terra de gente de Fé

Terra também do café

 

Terra da Independência

Terra com Jurisprudência

 

Terra de nações e suas crenças

Terra em paz com suas diferenças

 

Terra das artes e das Ilusões

Terra de oportunidades mediante as ações

 

Terra que riqueza produz

Terra que a pureza conduz

 

Terra de muitos amores

Terra que espanta temores

 

Terra de vitórias mil

Um pedaço desse continente chamado Brasil.

 

 

Conte Sua História de São Paulo tem sonorização de Claudio Antonio e narração de Mílton Jung. Você participa enviando textos para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: o reencontro com Dona Philomena e seu método inusitado de corte e costura

 

Por Ana Rosa dos Santos
Ouvinte da CBN

 


 

 

Eu sou Ana Rosa dos Santos, nascida na cidade de Caetité, Estado da Bahia, e quero participar do programa “Conta sua História de São Paulo”.

 

Cheguei nesta cidade no início de janeiro de l968, com 12 anos de idade e fui morar com minha mãe e cinco irmãos menores na Alameda Joaquim Eugênio de Lima, próximo à Avenida Paulista. Nessa avenida, no sentido bairro Paraíso, existe o Grupo Escolar Rodrigues Alves e lá cursei o ginásio.

 

Nos anos que estudei de 1970 até 1975 aconteceu coisas boas com os colegas e com os professores. A gente realizava atividades dentro e fora da escola, assim como ir participar do auditório em programas de televisão.

 

Dentre as matérias normais do currículo, existia uma que era Artes e Ofícios lecionada pela Professora Therezinha. Essa professora ensinava corte e costura e modelagem com o método criado pela mãe dela (de nome Philomena) e posteriormente aperfeiçoado por ela, o qual consistia no uso de um esquadro com o nome de “PhiloMétrico” e passou a nos ensinar a modelar, tirar as medidas do corpo, cortar e costurar à mão as peças de roupas que queríamos fazer. Além da costura, a professora ensinava outros feitos da Arte. Daí, quem desejasse seguir na costura, adquiria o material que era o esquadro junto com a apostila, pois era muito fácil de aprender!

 

Eu me lembro que fiz os moldes com as medidas do meu corpo de adolescente que aprendi naquelas aulas e os guardei por vários anos. Com o tempo, perdeu a apostila e os moldes, porém, eu conservei o esquadro. E, às vezes, eu imaginava o que faria com ele se não sabia usá-lo sem a apostila e o guardava outra vez.

 

Foi passando o tempo e eu fiz outros cursos com outros métodos e o “PhiloMétrico” lá…

 

Certa ocasião eu pensei: será que pelo nome do Esquadro “PhiloMétrico” procurando na internet eu acharia alguém ou escola que saberia esse método? Quando no mês de julho ou agosto de 2015 eu acessei o You Tube, digitei o “PhiloMetrico” e surgiu na tela a professora com aquele rostinho mimoso e o mesmo jeito, ensinando com o esquadro elaborado e feito por ela, após quarenta anos. Entrei em contato, na Rua Pitangueiras, Metrô Praça da Árvore; nos reencontramos e voltei a ser sua aluna, eu agora com 60 anos de idade.

 

“Eh! São Paulo, só você para nos dar essas oportunidades.”

Conte Sua História de SP: da longa jornada a bordo do América-maru à minha nova cidade

 

Atsushi Asano
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Faz mais de meio século, desde que abordo do América-maru, atracado no porto  da cidade de Santos, coloquei meus pequeninos pés no chão da minha nova nação.

 

Acompanhado da minha irmã mais velha e do mais novo, e, claro, com os meus pais, em busca das promessas, riquezas, da ideia de que existe esperança de mudança de vida com o trabalho nas terras paulistanas.

 

Como criança em viagem pelos mares e oceanos atravessando a longa jornada, nada lembro do navio, após estudar e trabalhar mais de 40 anos.

 

Há dez anos, sou taxista da cidade de São Paulo. Conheço muitos lugares que são ricos, pobres, mansões, favelas, modernos, antigos, arborizados, abandonados … porém as lembranças desta cidade chamada São Paulo são aquelas que provocam nostalgia e boas recordações. As ruins ficam de lado.

 

Meus pais levavam-me ao Cine Joia, Niterói e Nippon para assistir aos filmes japoneses da época. Foi quando conheci Toshiro Mifune, Akira Kurosawa .…

 

Uma cena que lembro bem ao andar pelo bairro da Liberdade: era muito divertido passar por cima das grades de ventilação dos prédios. Aos olhos de uma criança,  inocência e curiosidade.

 

O Conte Sua História de São Paulo tem sonorização do Cláudio Antonio e narração de Mílton Jung. O programa vai ao ar aos sábados, no CBN SP.

Conte Sua História de SP: o poeta que casou com a cidade

 

Por Alceu S. Costa

 

 

Meu Tributo à Cidade de São Paulo.

 

De olhos fechados eu não sonhara.
Talvez, cerrados de fato não os tivera.
Então, se acordado, tudo aquilo era verdade,
Uma piscada, um flerte…o futuro conluio,
Que virou namoro, noivado…
Foi assim que me casei com esta Cidade.

 

25 de outubro de 1965.Tarde primaveril.
De costas para o passado, nova realidade.
A busca pelo sustento sem conhecer o relento,
A mão do amigo, a simplicidade do abrigo,
A distância do perigo…
Serena viagem nas asas do tempo.

 

De olhos abertos, construí o meu sonho.
Apesar da idade, a Cidade não perde o viço,
A nossa relação amadureceu, meu desvairado vício.
Não nego, estou tentado pelos acenos da outra,
Jovem, atraente, sedutora …ah!
-Trair, jamais!, descarta peremptória minh’alma sonhadora.

 

O Conte Sua História de São Paulo tem a sonorização do Cláudio Antonio, narração de Mílton Jung e  vai ao ar aos sábados, no CBN SP. Para participar, envie seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP:”chocar” no bonde era a minha diversão, na Penha

 

Por André D’Elia Neto
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Na Penha de antigamente, o modo mais barato de se chegar era de bonde. Tinha o bonde aberto e o bonde camarão (todo fechado).

 

Meus avós moravam na rua Comendador Cantinho que, para chegar no Largo da Penha, tinha um forte aclive e uma curva.

 

Na época, por volta de 1954, eu tinha 11 anos e minha distração preferida quando ia visitar meus avós era ficar no inicio da curva, quando a velocidade era reduzir para “chocar” – isto é, pegar o  bonde andando e ir até o Largo da Penha.

 

Como você vê, não tínhamos noção dos perigos que nos causar. Mas era muito gostoso e rendeu esta história para contar.

 

Saudade dos bondes!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, no CBN SP, tem a sonorização do Cláudio Antonio e narração de Mílton Jung

Conte Sua História de SP: o cineminha no refeitório da escola e o achocolatado de graça

 

Por Clênio Caldas

 

 

Minha história se passa nos anos de 1950, na rua Dona Júlia, na Vila Mariana, onde se localizava o então Grupo Escolar Marechal Floriano. Ali, estudávamos no curso primário sob a orientação das professoras Maria da Glória, Ana e Júlia. Foram nossas dedicadas mestras, como também educadoras conscientes e responsáveis com os garotos para as quais nossos pais nos entregavam. A classe era somente de meninos. As meninas ficavam em outra ala do prédio.

 

Foram anos tranquilos e proveitosos, prova do alto grau de conceito das escolas estaduais e do quilate dos professores que nos ensinavam com zelo e carinho.

 

Cenas pitorescas, todavia, não deixavam de ocorrer.

 

Houve o garoto que comprou o pirulito e, sem ao menos saboreá-lo, quebrou-o no pátio da escola para ver se a haste estava premiada. Foi advertido pelo rigoroso inspetor Trivino devido o desperdício cometido.

 

Lembro de alunos em pranto ao fim da aula por não notarem a presença dos pais que, atrasados, demoravam a aparecer.

 

Tinha o medo generalizado da molecada nos dias em que todos passávamos pela “revisão dentária” na temida e apavorante cadeira do dentista, em uma das salas da diretoria separada especialmente para isto.

 

Havia dias festivos e felizes, também, especialmente quando eram suspensas as aulas para que todos aproveitassem o “cineminha” no refeitório, apinhado de meninos e meninas, ávidos por assistirem às trapalhadas de “O Gordo e o Magro”. E mais: com direito a amostra grátis do achocolatado Vic Maltema, com o jingle cantado a plenos pulmões por uma gurizada alucinada de felicidade!

 

Ao deixarmos a escola, encontrávamos o Sr. Osvaldo, o guarda civil que com um sorriso singelo e terno, exalando simpatia e confiança, nos conduzia em segurança para atravessarmos a já movimentada Domingos de Morais. Lá do outro lado, pegamos o ônibus ou embarcáramos no bonde que nos levava para casa.

 

Lembrança de uma São Paulo ainda pacata mas em pleno desenvolvimento, com seus momentos singelos e deliciosos, marcados na memória, que permanecerão para sempre em um cantinho especial de muita saudade!

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às 10h30, no programa CBN SP, da rádio CBN. A sonorização é do Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung

Conte Sua História de São Paulo: o bonde passava na rua da Glória

 

 

Por Elza de Oliveira Reis

 

Último veículo da era dos românticos, o bonde, além de deixar descendentes importantes – o trolebus e o metrô – deixou também muita saudade.

 

Pela rua onde eu morava, lá vinha ele, com seus passageiros, na Pauliceia desvairada do poeta, com destino ao Cambuci, Vila Prudente e Ipiranga. E a Rua da Glória se enchia do ruído de suas rodas de aço sobre trilho e o som de sua buzina – o bater de um sino – a lembrar ao pedestre distraído – o perigo.

 

Eu, criança ainda, gostava de vê-los da janela de minha casa. Eles passavam com destino à Praça João Mendes ou se dirigiam aos bairros com a calma que a nossa cidade de então podia propiciar. Iam e vinham, com seus ilustres passageiros, belos tipos faceiros, salvos ou por salvar de bronquites, pelo Rhum Creosotado como apregoava o anúncio:

 

“Veja ilustre passageiro
O belo tipo faceiro
Que o senhor tem a seu lado.
No entanto, acredite, quase morreu de bronquite.
Salvou-o o Rhun Creosotado”

 

Era ainda o tempo do cavalheirismo: às mulheres, a primazia dos acentos nos bancos de madeira; aos homens, na falta de lugares para todos, a coragem de viajar de pé no estribo,de onde podiam saltar, quando havia lentidão na marcha do veículo. O cobrador passava por eles exercendo o seu ofício: cobrava e registrava o recebimento da passagem, utilizando dispositivo especial para esse fim. Ouvia-se, então, o dim-dim, dim-dim, acusando o recebimento da tarifa.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10h30, no CBN SP. A interpretação é de Mílton Jung e a sonorização é de Cláudio Antonio.

Conte Sua História de SP: do sobradinho geminado às margens do Pinheiros

 

Por Alice Ribas Cabete

 

 

Nasci em Santos.

 

Em 1935, com o falecimento de meu pai, minha mãe veio morar em São Paulo, alugamos um sobradinho geminado na Rua Rússia esquina da Av. Europa, final da linha do bonde Jardim Europa, até pouco tempo os sobradinhos ainda estavam lá.

 

O bairro Jardim Europa estava começando a surgir. Depois do final do ponto do bonde, a Av. Europa continuava até a Marginal do Rio Pinheiros com poucas casas e muita árvore. A maioria dos moradores era alemã. Foi na casa de uma família alemã que vi pela primeira vez uma árvore de natal.

 

Aos domingos, eu e algumas meninas da vizinhança caminhávamos entre as árvores até o Clube Germania, hoje Clube Pinheiros, que se estendia até as Margens do Rio Pinheiros, onde os sócios do clube costumavam remar e nadar.

 

No caminho, havia uma igrejinha isolada no meio das árvores, acredito ser hoje a Igreja de São José.

 

Algumas vezes pegávamos o bonde e íamos ao cinema, na Rua Augusta.

 

No Carnaval, alugávamos um carro aberto para fazer o corso na Av. Paulista.

 

Sinto muitas saudades de São Paulo daquela época e sou feliz por participar da história de São Paulo.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às 10h30, no CBN SP, com sonorização de Cláudio Antonio e narração de Mílton Jung