Conte Sua História de SP: à Avenida Paulista, com amor!

 


Por Samuel Leonardo
Ouvinte-internauta da Rádio CBN

 

 

Avenida Paulista, também poderia ser Avenida Baiana, Avenida Mineira, Avenida Gaúcha, ou simplesmente Avenida Brasileira. Avenida de todos, generosa que bem conhece a arte de acolher de toda maneira.

 

Um dia reduto do senhor do café e dos barões dos magníficos casarões, hoje tem o senhor dos valores, o senhor anônimo, tem os doutores, tem até senhoras da reza, em um ponto a Catarina Santa, em outro o Luís que é no colégio um santo que se preza.

 

E se queres ir mais longe ainda, em busca de milagres, ela nos direciona para São Judas santo de fé e de Nossa Senhora de Fátima, lá no Sumaré.

 

Avenida da vida, avenida da diva, da exuberância. Passarela de moças bonitas e de rapazes elegantes, da mulher bela e do homem sério que transborda em importância.
Corredor da corrida do ouro, da corrida diária, da corrida de São Silvestre e também da corrida de todas as cores, das cores de todos os arco-íris.

 

Templo da festa de ano bom e da festa dos campeões. Campo de protestos legítimos e de infundadas manifestações De um lado Cerqueira César, o Trianon e os Jardins, do outro tem o MASP e que Bela Vista tem o centro ao longe lá nos confins.

 

Avenida musa esguia, desejada mesmo sem as curvas insinuantes, causa inveja às mulheres, se duvidas pergunte então à Mariana ou a Angélica que ao longe só observam essa dama tão admirada. Tem ainda a Ana Rosa que só tem prosa, mas sequer da sua beleza se aproxima, e a Madalena está distante, é bonita apenas.

 

Avenida que a Augusta o caminho cruzou, mas não a abalou e que o Brigadeiro com despeito só o fez por abuso de poder, já que patente merece prudência e respeito.
Avenida símbolo dos paulistanos, dos edifícios inteligentes, das torres e das antenas, dos teatros, das finanças. Espigão com seu trânsito e muita gente em andanças, segue o seu destino com altivez, absoluto, embaixo circula o metrô em sua pujança, enquanto em cima pode ver, não se rende a nenhum viaduto.

 

Avenida de aparência moderna, corpo estrutural e de alma terna. Tem uma magia, que ampara e que conforta o coração como que querendo dizer: se não atingires o Paraíso, com certeza terás a Consolação.

 

Avenida Paulista, quando eu a vi pela primeira vez confesso que enamorado fiquei, agora que eu a conheço, não por inteira, porque assim como toda mulher carrega um ar de mistério que ninguém vê, permita essa homenagem de um admirador do grande ABC.

 


Samuel de Leonardo é o personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você participa com histórias enviadas para o e-mail milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: a solidariedade que marcou minha chegada de Santa Fé

 

Osvaldo Seguel

 

 

 

1975, Brasil,fim do governo Geisel, em São Paulo ainda funcionava a rodoviária da Luz, onde afluíam e do seu interior saiam a grande maioria dos ônibus vindos e indo para o interior do Estado e do Brasil todo. Foi nessa rodoviária, febril e estreita, pois de teto baixo (onde ônibus quase riscavam no topo),e,por isso,permanentemente poluída pela fumaça dos escapamentos … que desembarquei em São Paulo, numa manha de março, há quase quarenta anos..e .doente !

 

Vindo da cidade de Santa Fé, num dos ônibus da empresa argentina General Urquizar, onde e após 72 horas de viagem contrai intoxicação alimentar …. chegando a São Paulo com vômitos convulsivos e quase não parando em pé. E aqui tive que descer pois era fim de linha.

 

A generosa solidariedade dos dois motoristas e da rodomoça foi inesquecível. A cada momento desse mau-passar, estavam acompanhando-me nas idas e vidas do banheiro do ônibus, enquanto o mesmo escalava a serra do cafezal, próximo à cidade de Registro, já no Estado de São Paulo. Relembro agora a elegância dos mesmos no trajar e até terem me fornecido cruzeiros que devia exibir, se indagado na alfândega, da fronteira argentino-brasileira, de Foz do Iguaçu.

 

Também devo assinalar aqui a solidariedade de alguns passageiros, dentre eles destaco uma casal de irmãos da minha idade (17 anos), brasileiros, porém que falavam o espanhol e me deram as primeiras aulas de português, ensinando como “cambiar diñero” “pedir una bebida” “preguntar por una calle”…eram filhos de um dono de uma agêcia de viagens e apesar de muito jovens viajavam sozinhos…veio-me agora seus rostos de traços europeus, alegres e solidários…

 

Porém, não guardo o rosto solidário e oportuno do passageiro chileno: era um jovem mais velho do que eu e que já morava no Brasil há vários anos, foi ele quem me ajudou a descer do ônibus nesse estado febril, com as minhas malas. Com elas permaneceu na rodoviária enquanto eu saía a procura de uma farmácia para tratar da minha intoxicação. A única coisa que encontrava chamavam de drogarias.
Um jovem de aspecto indígena dentro de seu avental branco me atendeu, após ser chamado pelas outras funcionárias da tal drogaria. Devem ter-lhe dito, que havia um jovem doente que não falava português mas aparentava estar passando mal.

 

Que fue lo que comistes ?…y há cuanto tiempo ?….

 

Contei que comecei a passar mal nessa madrugada após ter comido um pedaço de bolo com café com leite, numa das paradas daquela noite… e aí veio o milagre …o jovem farmacêutico preparou um coquetel líquido e após ter-me injetado esse misterioso elixir químico, como por passo e mágica, melhorei….e mui agradecido, fui pagando … ele afinal alertou-me de que iria sentir muito sono… ele não soube mas eu já não dormia praticamente desde que saíra do Chile…há quatro dias!

 

Voltei à rodoviária a procura de minhas coisas que ficaram com aquele passageiro desconhecido. Lá estava ele e minhas coisas .. graças a Deus! E sentindo-me agora melhor nesse país de nomes tão estranhos, e, certamente, enorme, populoso, febril e barulhento, onde as vulcanizadoras na estrada chamam-se borracharias que, em espanhol significam bêbados e as fármacias são drogarias, onde lá na Argentina é onde se vende drogas.

 

Coisas desta nova linguagem tropical..!

 

Osvaldo Seguel é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br.

De areia

 

Por Maria Lucia Solla

 

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Ô meu Pai, e falar de quê?

 

Como o poeta de flores e amores, mesmo que as noites me tragam dores?

 

que dor?
dor de quê?
dor onde?

 

a minha ué!
disso e daquilo
por toda parte

 

e vai dizer que a tua é diferente?

 

com certeza sei que é
na intensidade no momento
na falta de alento
na onda da diversidade

 

dor é global
corre solta na informática
é única na história
quando vira vitória
só sei que dói e pronto
e que a minha é minha
sem etcétera e tal

 

dor não dá ponto em pesquisa
te faz feia
leva embora tuas cores
afasta amigos e amores
que escorrem das mãos feito areia

 

E assim decido falar de não-falar.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

 

O prestígio de Fabergé está em documentário que conta sua história desde o império

 

Por Ricardo Ojeda Marins

 

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História, prestígio e tradição. Esses são alguns dos principais atributos de uma marca de luxo. A Fabergé, fundada em 1842 por Gustav Fabergé, é a prova disso. Famosa por sua criação de ovos com pedras preciosas, e sob a direção de seu filho, Peter Carl Fabergé, tornou-se a joalheria oficial do império russo. Verdadeiras obras-primas da joalheria produzidas por ele e sua equipe entre os séculos XIX e XX para os czares da Rússia.

 

Se uma marca de luxo tem uma história, nada mais interessante que seu público-alvo a conheça. Admiradores da Fabergé agora contam com uma novidade: a grife criou um documentário com toda sua história e tradição que pode ser conferida nas telas de cinema com o lançamento mundial do premiado documentário Fabergé: “A life on its own”. 

 

O filme mostra objetos requintados da Fabergé em detalhes impressionantes gravados através das mais avançadas lentes cinematográficas.

 

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Produzido em associação à Arts Alliance,  o documentário chegou aos cinemas em 29 de junho deste ano em países como Estados Unidos, Reino Unido, Irlanda, Canadá, Rússia, mas ficará em cartaz por tempo limitado. Os espectadores também terão acesso às coleções particulares de alto luxo, com a participação de especialistas e entrevistas com descendentes da família Fabergé.

 

Além de descrever a ascensão de Peter Carl Fabergé quando trabalhava sob o patrocínio dos czares Alexandre III e Nicolau II, em São Petersburgo, Rússia e a expansão internacional da marca, o filme mostra também a história de um ovo imperial que estava desaparecido e que quase chegou a ser derretido por um comerciante de sucata, antes de perceber o seu verdadeiro valor.

 

Veja uma amostra da qualidade do trabalho cinematográfico no trailer do documentário:

 

 

Ricardo Ojeda Marins é Professional & Self Coach, Administrador de Empresas pela FMU-SP e possui MBA em Marketing pela PUC-SP. Possui MBA em Gestão do Luxo na FAAP, é autor do Blog Infinite Luxury e escreve às sextas-feiras no Blog do Mílton Jung.

Conte Sua História de SP: vai plantar batata!

 

Por Mário Cúrcio e Onéia Rodrigues

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, nós vamos conhecer história escrita por Dona Oneia Rodrigues, que nos chegou através de seu sobrinho e afilhado Mário Curcio. Dona Oneia morreu em 2011, mas antes deixou esta lembrança para nós:

 

Meu nome é Onéia Rodrigues. Sou de Rio Claro, interior de São Paulo, cidade do ilustre Ulysses Guimarães. Fui a segunda de oito filhos e nasci em 1930. Naquele tempo, Rio Claro ainda era pequena, mas já cortada por ferrovias. Andei muito de trem porque também tinha parentes na vizinha Limeira. Casei em 1952 e tive três meninas, todas nascidas naquela cidade a 163 quilômetros de São Paulo. Trabalhei como professora em diferentes escolas no interior.

 

Na primeira metade dos anos 70 eu me separei. Poucos anos depois, acho que em 1976, vim sozinha a São Paulo para trabalhar como bibliotecária na assembleia legislativa. As meninas, já crescidas, ficaram em Rio Claro num primeiro momento, morando em nossa casa na Rua 3. Ficar longe delas deixou meu coração apertado, mas foi uma decisão acertada.

 

O primeiro bairro em que morei aqui foi Santo Amaro, na casa de minha irmã, onde dividi o quarto com meu sobrinho e afilhado Mário Augusto, na época um menino com dez anos, muito falante. Uma vez por semana eu comprava para ele um saquinho daquelas balas de leite de uma loja famosa por seus chocolates e percebia que ele comia cada uma como se fosse a última. O pai dele, meu cunhado João, sempre fazia piadas sobre meu ex-marido e a falta que eu sentiria dele. “Ah, João, vai plantar batata!” Era só o que eu podia dizer.

 

Um ano depois de chegar a São Paulo, eu consegui alugar um apartamento e pude trazer de Rio Claro as três filhas. Ficamos alguns anos ali na Rua Abílio Soares, bem em frente ao quartel. Vira e mexe, os soldados, com seus 18 ou 19 anos, acabavam se distraindo ao ver as meninas na sacada. O lugar era agradável e bem próximo ao meu trabalho.

 

Dali nos mudamos para um apartamento no Largo do Arouche. O prédio ficava bem ao lado de um cinema decadente mas de uma boa padaria. Quando minha irmã e meu cunhado me visitavam com aquele sobrinho, descíamos para comprar frios e doces, tudo sempre muito fresquinho.

 

Nunca fui de muito luxo, mas adorava meus móveis, objetos e mantinha minha casa sempre arrumada. Já os meus discos do Ray Conniff e do Paul Mauriat eu empilhava no prato da vitrola. Não me dava ao trabalho de tirar um e por o outro. “Besame Mucho” estava quase sempre na ponta da agulha. Aquele apartamento de paredes grossas me dava segurança, mas precisávamos de mais espaço. E como gostava do Arouche, saí daquele para outro apê um pouco maior, também no Arouche.

 

Bem de frente para a nova sacada ficava uma igreja no largo Santa Cecília. Com um bom binóculo dava para espiar até mesmo o altar. Já aposentada, gostava de descer e almoçar por ali nos fins de semana. Com menor frequência, minha irmã vez ou outra aparecia para conversar. Minhas filhas sempre estiveram perto de mim nos últimos anos e foram muito companheiras.

 

O tempo passou e a saúde não permitiu que eu continuasse no Arouche. Por causa disso acabei voltando para Rio Claro. Estou aqui desde 2011, mas sempre lembro com saudade do velho centro de São Paulo, do comércio, das minhas meninas e do corre-corre de quem vive aí.

 


Dona Onéia Rodrigues foi personagem do Conte Sua História de São Paulo. O texto foi enviado por Mário Curcio. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participar com textos enviados para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: o teatro de Maria Della Costa

 

Por Alberto Juan Martinez
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 


 

 

Estava me preparando para festejar os 461 anos de minha, nossa, querida cidade de São Paulo, quando o radinho da sala me fez saber que acabara de morrer Maria Della Costa. Meus 12×8 foram para limites que só Deus sabe.
 

 

A morte desse ícone do teatro brasileiro não podia passar em brancas nuvens para mim.
 

 

Aí, no 72 da Rua Paim, é que fiz a minha entrada pela porta grande como fotógrafo profissional, sendo assistente do empresário que divulgava eventos teatrais.
 

 

Página de ouro da dramaturgia paulista e nacional, a linda gauchita estava ensaiando para pôr em cena a “Prostituta Respeitosa” de Jean Paul Sartré. E eu documentando.
 

 

A peça foi a público com todo o êxito aguardado.
 

 

Outras peças foram ensaiadas e apresentadas: eu, fielmente, acompanhando e respirando todo o encantamento e sensibilidade da paixão teatral.
 

 

Mas todo esse encantamento foi truncado quando a criadora do Teatro Popular da Arte e, logo, do Teatro Maria Della Costa, se exilou em Parati, até seus últimos suspiros.

 

Do terraço do meu apartamento, vejo o Teatro Maria Della Costa, hoje APETEST, jorrando cultura para crianças, adolescentes e maduros todos os fins de semana.
 

 

E como diria Fellini: “ E la nave va”
 

 

Alberto Juan Martinez é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você mais um capítulo da nossa cidade e envie para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: saudades da Tia Ilze

 

Por Maria de Lourdes Figueiredo Sioli

 

 

Tia Ilze era a única irmã de mamãe. Era um pouco mais moça e fisicamente bem diferente dela. Mais clara, de cabelos cacheados e olhos grandes … muito bonita afinal.

 

Pelas fotos vejo-a muito ligada a minha infância, de primeira neta e sobrinha, lugar engrandecido na pequena família materna.

 

Casou-se com um americano – tio Mitchel – teve duas filhas, foi morar no Rio de Janeiro e na década de 50 voltou a São Paulo, onde nos encontramos novamente, pois eu terminara o ensino médio e frequentava um cursinho para o vestibular.

 

Foi morar na Rua Morás, uma rua calma e arborizada no Alto de Pinheiros, com um lindo jardim onde havia um pé de cerejas, que me encantava!

 

Um dia telefonou-me dizendo “Vou levá-la a um lugar que será inesquecível para você…” Nos encontramos na Praça Patriarca, na frente da Igreja de Santo Antonio e fomos de braços dados pelo Viaduto do Chá até ao Mappin para o chá das cinco!

 

Quando entramos no salão pensei assim como se fosse Alice entrando no País das Maravilhas tal o impacto sentido! Mesinhas redondas amparavam toalhas de fino tecido, em tons claro de azul, que iam até o chão. Sobre a mesa, xícaras de fina porcelana, talheres e demais objetos, tudo discreto e chique.

 

Compunha ainda o cenário, vários arranjos de flor natural que  enfeitavam o ambiente. Em um canto do salão um pequeno conjunto tocava músicas suaves e o violino passeava pelo recinto detendo-se minutos em cada mesa, que tornava-se no momento, alvo de todos os olhares. E que olhares! A fina flor da sociedade paulistana ali se encontrava para o chá das cinco!

 

Os garçons elegantemente vestidos, com luvas brancas, trouxeram inúmeros pratinhos com petit four variados, a chavena de chá, leite e chocolate quente, que tomei deliciada!

 

Conversamos sobre várias coisas e o tempo passou como por encanto.
 

 

Voltei ainda algumas vezes ao Mappin para o chá, agora sem hora marcada e sem o encanto da primeira vez.

 

Assisti à decadência do ritual, o empobrecimento dos detalhes e a mudança da clientela, os músicos desapareceram e glamour acabou! Mas na memória ficou mesmo inesquecível aquela tarde mágica, a companhia querida da tia Ilze e uma grande saudade!

 

Maria de Lourdes Figueiredo Sioli e a tia Ilze são personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar também mais um capítulo da nossa cidade: envie seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: da Vila Mariana ao Jabaquara

 

Por Regina Amelio

 


 

 

Nasci e cresci em São Paulo; da Vila Mariana, passando pela Z.L., fixando-me no Jabaquara. Levada por minha família, dividimos com mais de 11 milhões de habitantes o pão que o padeiro amassou e a carne e o sangue do gado que repousou fria nos açougues paulistanos. Aqui respirei o aroma dos eucaliptos do ar do parque  da Água Branca, brinquei no  da Aclimação e conheci girafas, tigres, ursos, macacos, cobras e hipopótamos no Zoológico da cidade. 
 

 

Adolescente, áurea época do rock nacional, fui a todos os shows do Teatro Brigadeiro. Espremia-mo-nos à porta de vidro, colando os ouvidos nas caixas acústicas do palco para ouvir o que não tocava na rádio como o do Recordando o Vale das Maçãs, Made in Brasil e o melhor de todos os acordes do guitarrista Liminha…hello crazy people!
 

 

Na parede da memória a cena dominical insiste na epifania nada cristã: nossa missa era no Verde, assim batizado por nós o parque próximo ao palácio do Governo, no Morumbí. Eu e meu bando de moleques cabeludos, que segundo minha mãe fumava um cigarro cheirosinho, embarcávamos no coletivo, que naquela época era só um ônibus, rumo ao Parque Real, e lá, de grátis, ouvíamos todos os cobras da MPB, dos mineiros do Clube da Esquina, passando pelos paulistanos do Premê, os Novos e velhos Bahianos, até os cariocas buarquianos. Orra meu!!!!, que demais!!!!
 

 

Na PUC, Nicolau Sevcenko falava dos Beatles e, no Pátio da Cruz,  cruxificávamos a ditadura em nome da LIBERDADE E LUTA. Com os mesmos cabelos e cigarros, meu bando agora era LIBELU. Nas ruas e praças da supercap cantávamos e brincávamos de roda pelas DIRETAS JÁ, fazíamos boca de urna para o operário, mas, antes disso, já havíamos votado no Juruna…tudo gravado em K7. Tivemos aqui a nossa Luísa e a educação ganhou o melhor presente de todos: Paulo Freire.
 

 

Casei-me, tive filho, que arrastei a toda programação dos Sescs, principalmente o Pompeia (acho que agora sem acento), teatros e bibliotecas. Um belo dia, entrei na conversa da vida bucólica do interior e para lá parti. Acostumada às ruas, às manifestações, a tudo de bom e de ruim que a modernidade nos proporciona não consegui acostumar-me á vida do quintal dos fundos, regada a cerveja e churrasco com os amigos da maternidade…nem mesmo fui acolhida…busquei lá minha filha mais nova e voltei para casa.
 

 

De volta ao lar, dei-me ao luxo de dialogar dentro e fora dos muros da melhor universidade da América Latina, com Graciliano, Jorge, Bandeira, Andrades, Cecílias, Clarices…..em aulas conduzidas não por Platão, mas pelo grande e genial Alfredo Bosi.
 

 

Cá estou e, se não me casar novamente, ao menos comprarei uma bicicleta, pois aqui tem ciclovias à vontade….e prostitutas, gays, trans, homo, lésbicas, homens, mulheres…. 
 

 

E só para terminar essa declaração de amor: hoje fiquei 2h30′ no trânsito da avenida Rebouças, pura angústia. Enfim, dei-me conta de que estou em São Paulo, que, em contrapartida, tem Bienal do Livro, de Artes, Teatro Municipal, Casa Mário de Andrade, Roteiro Modernista, Pátio do Colégio, Sala São Paulo, Parque Ibirapuera, ciclovias, CBN, USP, homens lindos de terno e bolsa cruzada nas costas, Casa das Rosas, Centro Cultural Vergueiro, Praça da Sé, gente de todos os estados…enfim, o mundo é aqui. AMO DE PAIXÃO ESSA MINHA CIDADE!

 


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às 10h30 da manhã, no programa CBN SP, da rádio CBN. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode participar enviando texto para milton@cbn.com.br

Os bastidores do Conte Sua História de São Paulo com o uso do @periscope

 

 

O Conte Sua História de São Paulo é programa feito pelos ouvintes e produzido pela CBN. Lembranças de momentos vividos na capital paulista são transformadas em textos, narrados por mim e sonorizados pelo Cláudio Antonio. Para entender como funciona este processo, aproveitei a tecnologia oferecida pelo aplicativo Periscope, que está disponível, por enquanto, apenas para Iphone, e fiz a leitura, ao vivo, do texto que vai ao ar no próximo sábado. Ao meu lado, estava o Claudinho, nosso “DJ”, que contou como ele desenvolve o trabalho de sonorização e ambientação das histórias escritas pelos ouvintes-internautas.

 

O Periscope, comprado recentemente pelo Twitter, permite a transmissão ao vivo de vídeo através de telefone celular. Como está conectado ao Twitter, os seguidores recebem o aviso e o link para ver a imagem no seu próprio telefone ou no desktop. Quem estiver no Periscope pode mandar mensagens curtas ou, simplesmente, se estiver gostando, enviar “corações” tocando na tela do celular.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, no CBN SP, logo após às 10 e meia da manhã.

Conte Sua História de SP: o leite na porta de casa e o padeiro na sala, na Alameda Franca

 

Por Cristina Khouri

 

 

Sou neta de imigrantes sírios que chegaram no Brasil ainda na adolescência. Meus Avós eram irmãos e aqui construíram seus negócios e fizeram família. Meu pai, Manoel Francisco, se estabeleceu na região da 25 de Março vendendo tecidos na famosa LOJA 73 na antiga Rua Santo André.

 

Ele me contava sempre sobre as histórias da cidade, como a construção do Mercado Municipal da Cantareira e da dificuldade de fazer a fundação pelo fato do solo não ser firme, dos lampiões de gás que eram acesos com uma vareta longa nos fins de tarde e apagados no começo da manhā. Sempre lembro desse detalhe quando passo todos os dias pela Praça da Sė a caminho do trabalho e vejo aqueles postes imponentes enfeitando a Praça. Imagino a magia desta cena! Pena que nāo estāo cuidados!

 

Falava-me sempre sobre a Revoluçāo de 32 e por que as iniciais MMDC no Obelisco do Ibirapuera.

 

Na época do carnaval, ele nos levava para acompanhar o Corso, um desfile de carro, e íamos felizes, sentados no porta malas aberto da perua Dodge, participando das brincadeiras de rua, jogando confetes e serpentinas nos foliões.

 

Passeava com minha māe, Dona Emília, na rua Direita, numa casa de lanche onde ela se encontrava com amigas para um chá. Aliás, também para compras, pois o comércio se concentrava no centro da cidade.

 

Lembro-me bem da nossa casa na Alameda Franca em cuja porta o leiteiro deixava as garrafas de vidro cheias de manhā e minha mãe retornava as vazias no dia seguinte quando ele trazia o leite novamente. O padeiro, o senhor Vilarinho, trazendo na sua camionete uma variedade enorme de pães, que ele colocava numa cesta oval de vime e entrava nas casas para as pessoas escolherem. Esse ritual acontecia no café da manhã e na hora do almoço. Enquanto eu almoçava, escolhia o pāo doce que iria levar para o lanche da escola.

 

 
Que emoçāo andar naquele bonde aberto na Avenida Paulista! Era um passeio divertido! E quando saíamos de carro, eu pedia pro meu pai sempre andar nos trilhos .

 

Assim como ir no Parque Shangai, no circo do Arrelia ou no Horto Florestal! As brincadeiras de rua, onde a meninada batia figurinha, jogava bolinha de gude ou andava de carrinho rolemā! Costumávamos ir até a Igreja da Penha pois meu pai era devoto.

 

Foram tempos marcantes na minha vida e de meus irmāos. Eu amo esta cidade, ela nos acolheu e ofereceu tudo que tem de melhor.

 

Cristina Khouri é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode enviar seu texto para miltonjung@cbn.com.br e ler outras história da nossa cidade aqui no Blog.