Conte Sua História de SP: o passeio de mãos dadas com o meu pai até o Cambuci

 


Por Roberto Furtner Caldeira

 

 

A brisa suave anunciava a chegada do outono na cidade, varrendo ladeira abaixo as folhas das árvores prestes a adormecer. O toc-toc dos sapatos apressados atravessando a rua de paralelepípedos era o prenúncio de mais um entardecer.

 

Seria mais um final de dia normal naquela cidade que via seu sonho de virar metrópole se aproximar a passos largos. Mas não para mim. Então aos 6 anos de idade, as terças feiras eram especiais. O dia da semana em que voltava a pé com meu pai do centro da cidade até nossa casa no bairro do Cambuci.

 

Como fazia toda semana, ao final do expediente meu pai me apanhava na escola. Ele gostava de caminhar, hábito adquirido nos tempos em que tudo em São Paulo ficava à distância de uma caminhada, se muito uma viagem de bonde.
Segurando firme sua mão, olhando o mundo de baixo para cima, eu sentia um misto de temor e excitação. Aquela caminhada de quarenta minutos era repleta de estímulos, de aventuras.

 

De um lado o ronco dos carros nacionais em meio aos antigos e bojudos carros americanos que ainda circulavam, brilhantes, imponentes. De outro lado o bonde alaranjado, com aposentadoria já anunciada, apinhado de pessoas em busca de um lugar em seus assentos de madeira gasta. Suas rodas emitindo um guincho estridente em função do atrito contra os trilhos de metal.

 

A medida em que nos afastávamos da praça da Sé em direção à Baixada do Glicério, os prédios mais altos ficavam para trás e surgiam restaurantes, bares e luminosos de neon. Uma profusão de cheiros, sons, vozes e risadas.
Me divertia especialmente na frente dos bares que naquela época jogavam as tampinhas de garrafa na calçada. Tampinhas de refrigerante, de cerveja e de pinga. Até ensaiei uma coleção, consumida meses depois pela corrosão do metal das tampinhas.

 

Como sempre, em meio a nossa animada conversa, parávamos no meio do caminho para comer pastel. O meu sempre de queijo, o de meu pai sempre de carne.

 

Após o lanche retomávamos nossa caminhada, cruzando pela baixada do Glicério, até chegarmos à outrora famosa rua do Lava Pés, conhecida pelo riacho e por ser a última parada dos viajantes para beber água e se refrescar antes de subir para o centro da cidade, nos tempos do império.

 

A caminhada então alcançava sua reta final ao cruzarmos o largo do Cambuci, já próximos de casa. Nasci e cresci no Cambuci. Embora nunca tivesse visto de perto uma árvore da espécie, cedo soube que o nome do bairro era homenagem a uma fruta outrora abundante na região.

 

Já no último quarteirão passávamos pelo açougue do seu Jairo, padaria do seu Milton, sapataria do seu Manuel e barbearia do Antônio. Naquela pequena comunidade todos nos conheciam pelo nome e acenavam ao nos verem passar.
Antes de entrarmos em casa meu pai refazia o ritual diário: colocar uma garrafa de vidro destinada ao leite, dentro da caixa de metal ao lado do portão, para que o padeiro pudesse trocar por uma garrafa cheia quando trouxesse o pão na madrugada seguinte. Leite que seria devidamente fervido para o café da manhã.

 

Ouvíamos o som dos cascos do cavalo trotando rua abaixo, puxando a carroça do catador de sucata. A brisa continuava, de tempos em tempos. O céu, mais escuro naquela época, mostrava um negrume salpicado de estrelas por todos os lados. Pedia para meu pai me apontar o cruzeiro do sul antes de entrarmos em casa onde minha mãe nos aguardava.

 

Como um herói que voltava da guerra cheio de estórias para contar, eu entrava em casa de peito estufado, dono do mundo, contando as novidades. Minha mãe ouvia tudo com atenção e o devido ar de surpresa. O único ponto de discórdia: ela achava que pastel não era um bom jantar para uma criança.

 

O tempo passou, eu me tornei adulto, a cidade se multiplicou.

 

Hoje já não consigo chegar aos lugares com uma caminhada apenas. O bonde se foi há tempos. Não mais consigo ver as estrelas com a mesma clareza, quanto mais apontar o cruzeiro do sul para meus filhos. Só quando viajamos para fora da cidade.

 

Tampinhas de garrafa de metal quase não existem mais. Não sabemos mais o nome dos vizinhos direito. Leite entregue em casa é coisa do passado. Açougue virou seção de supermercado.

 

Aquela cidade de indivíduos cedeu lugar a uma cidade de instituições. Para o bem, e para o mal.

 

Porém ainda caminho com meu pai, pela rua arborizada que ele escolheu para viver sua aposentadoria. Já aos 80 anos, hoje é a sua mão que busca apoio em meu braço. Aquela mesma mão que me guiou pela São Paulo de outros tempos.

 

Conversamos sobre causos da vida, enquanto a brisa suave anuncia a chegada de outro outono na cidade, varrendo ladeira abaixo as folhas das árvores prestes a adormecer.

 

Conte Sua História de SP: saudade de comer bisnaguinha com Diamante Negro

 

Por Giuseppe Carlo Tudisco

 

Após morar 40 anos na cidade de São Paulo, Zeppa Tudisco foi para Ribeirão Preto, no interior paulista, onde já vive há 12 anos e preserva sua saudade pela capital, como é possível perceber no texto enviado ao Conte Sua História de São Paulo:

 

 

Saudade das luzes azuis fritando as moscas nos bares bem menos freqüentados. Saudade de acabar a madrugada acabado no Sujinho. Dos jantares sociais completos. Dos amigos, sempre amigos e que sempre serão.

 

Saudade de meu pai me ensinando a comer bisnaguinha com diamante negro na padaria. Das cenas noturnas que apaixonam e assustam. Das cenas de cinema que escapavam da tela do Belas Artes e enchiam minha imaginação.

 

Saudade do dia que encontrei meu grande amor. Das horas de amor. Das batatas assadas na lareira. De ver meus filhos nascerem. Daquele cara do algodão doce do Ibirapuera. De minhas mãos soltando a bicicleta para o primeiro grande ato de liberdade independente de meus filhos.

 

Saudade de cada manhã de domingo. De cada gota de garoa que descia pelo vidro da janela. De cada riso, de cada lagrima, de cada espanto, de todo canto. Saudade de meu primeiro emprego, segundo, terceiro, quarto. Saudade do primeiro job.

 

Saudade do momento da nossa decisão de sair de São Paulo. De nossa partida pela estrada. Saudade de cada esquina, de cada encontro, de cada desencontro. Saudade de quase tudo dessa cidade. Cidade onde nasci duas vezes. Cidade que em mim sempre revive. 

 

Eita saudade de São Paulo.
Às vezes te difamo. Mas daqui sempre, sempre, sempre, te amo.

 

Zeppa Tudisco é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: envie o texto para milton@cbn.com.br

Carta aberta

 

Por Maria Lucia Solla

 

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Olá, ‘caro e raro’ leitor,

 

não deu para resistir!
E por favor me desculpa (tira de mim a culpa) pela repetição deste texto, postado aqui no blog do Mílton, em 2007. Mas hoje é o dia do aniversário dela!
Aqui vai:

 

Ley, minha prima querida, nem acredito que já tenha passado um ano inteiro desde o teu último aniversário. Você estava viajando, e não nos falamos naquele dia. Não é que agora o tempo voa de verdade? Voar deixou de ser prerrogativa de passarinho, avião e pensamento, e deixou a categoria de licença poética. As distâncias também assumiram velocidade e textura completamente diferentes, só que mesmo sendo capazes de domar e de quase neutralizar tempo e distância com uma tecnologia nova a cada dia, inimaginável há não muito tempo, ainda não encontramos substituto à altura da pele, do beijo, e do abraço. Não têm similar virtual.

 

O dia do aniversário é um dia muito importante, e eu fico pensando nas nossas histórias e no significado e influência que você sempre teve na minha. A gente precisa ter consciência do quanto se imprime e se entrelaça nas histórias de quem faz parte da nossa, porque é desse jeito que se vai tecendo a vida, não é?

 

Na minha, a tua tessitura tem sido linda. Você me levou ao cinema pela primeira vez, no dia do meu aniversário, para ver um desenho de Walt Disney. Da história e do nome do filme eu não me lembro, mas me lembro da alegria, da aventura, de tanta cor e som, e da sensação de liberdade. Lembro de me sentir importante e segura pela tua mão, caminhando pelo centro da cidade. Teu gesto amoroso encontrou terreno fértil; continuo amando o cinema e sentindo a mesma magia da primeira vez. Que presente eu um dia poderia reciprocar, que fizesse você se sentir tão especial como você me fez sentir?

 

Ah, você também me ensinou a dar os primeiros passos na cozinha. Arroz branco e soltinho, com milho, no apartamento da Praça Roosevelt, e as vitaminas de frutas no liquidificador que você lavava batendo água com detergente, e o Lúcio, acostumado com as gostosuras que você fazia, passou pela cozinha e se serviu de um copão. Só não me lembro se você chegou a tempo de impedir o primeiro gole.

 

Você foi a ponte firme entre meu mundo de menina e o mundo dos meus pais, incompreensível e hermético demais para mim, e me levou aonde meus pés não teriam ido sozinhos.

 

Você também foi madrinha no meu casamento, e estava linda. Você, não eu. Olhe as fotos, eu era menina de tudo, despreparada, confusa, mas você já era uma mulher linda, independente, inovadora, culta, exemplo para quem estivesse por perto; e eu estava. Aprendi com você a olhar para frente sem perder a perspectiva do que ficou para trás, e se hoje, mesmo buscando novos caminhos, ainda cultivo os não tão novos, devo muito a você.

 

Espero que todo mundo tenha ao menos uma pessoa especial de quem possa lembrar coisas boas, com carinho e gratidão.

 

Amo você.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: o escocês que se apaixonou pela cidade

 

No Conte Sua História de São Paulo você ouve o depoimento de Barry Michael Wolfe ao Museu da Pessoa. Barry é escocês, nascido em Glasgow, em 1955. Criança, sonhava ser Sherlock Holmes e se divertia ao andar de terno, gravata e chapéu espiando as pessoas. Virou advogado, ainda na Escócia. Conheceu o Brasil pelo filme “Gabriela, Cravo e Canela”, e nas músicas de Vinícius de Morais. Apaixonou-se. Em Londres, chegou a tocar tamborim em uma escola de samba. Mas só conheceu o país, em 1986, a convite de um amigo que comandava grupo de investidores estrangeiros. Aqui, esteve no Rio e São Paulo, em visita que antecederia sua decisão de se mudar definitivamente para viver no Brasil:

 

 

Barry Michael Wolfe é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. O depoimento foi gravado pelo Museu da Pessoa (assista à entrevista completa aqui). Você também pode registrar a sua história, agende entrevista em audio e vídeo pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Se quiser, conte sua história por escrito e envie para o e-mail milton@cbn.com.br. Para conhecer outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br.

Conte Sua História de SP: rodei o mundo e vivo no Copan

 

Por Edyr Sabino
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Eu era pequeno quando vim à São Paulo pela primeira vez. Foi há 50 anos. Eu tinha apenas 7 anos de idade. Minha família havia comprado nosso primeiro apartamento na Capital. O termo metrópole estava começando a fazer sentido para mim. Nossa vida no interior, Penápolis, era bem mais tranquila. Eu não me lembro muito bem da viagem de lá para cá, pois dormi a maior parte do tempo. Acho que me deram algum remédio para dormir durante a viagem e não vomitar. Mas me lembro do dia quando cheguei aqui pela primeira vez na minha vida. A cidade de São Paulo era grande. Era década de 1960.

 

Atravessar a Av. Ipiranga era um desespero. Minhas tias Elmaza e Geni apertavam as minhas mãos, dizendo que era para eu não escapar. Elas não contavam que estavam com medo de atravessar a rua sem serem atropeladas. Elas eram músicas e acho que já haviam ouvido Adoniram Barbosa cantar sobre uma moça chamada Iracema, que morreu atropelada num esquina ali perto, na Av. Sao João. Eram aqueles ônibus Mercedinho, azul e creme, que passavam.

 

Eu gostava do que via. O Edifício Copan ainda tinha andaimes, ainda estava em obras, e nos já tínhamos apartamento quitinete no bloco B, 8º andar. Aquele monte de botões nos elevadores me impressionavam. Ver aquelas rampas que sobem ou descem naquele bloco e o corredor enorme e tortuoso, cheio de portas uma ao lado da outra. Parecia ter uns 20 apartamentos por andar, com muito eco. Tínhamos que caminhar em silêncio, senão poderia chamar a atenção dos outros moradores. Mas não tinham muitos moradores ainda. O prédio ainda não havia sido oficialmente inaugurado. Meus tios pisavam forte e minhas tias, bastavam chinelos. Som que gerava um eco inconfundível.

 

A cidade era cinza. Foi quando eu aprendi o termo garoa! Terra da Garoa!

 

Não nasci em São Paulo. Adoraria sair desta cidade, mas é nela que vim morar e é nela que eu vivo. Rodei o mundo, e vivo no Copan, na cidade de São Paulo até hoje

 


Edyr Sabino é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio.

Avalanche Tricolor: uma jogada para ficar na história

 

Grêmio 1 x 0 Bahia
Campeonato Brasileiro – Arena Grêmio

 

 

Foi uma bela jogada. Daquelas de dar orgulho a qualquer gremista e agradar todos nós que gostamos de bom futebol. Refiro-me ao lance que ocorreu aos 13 minutos do segundo tempo quando o Grêmio dominava finalmente a partida com a entrada de Mateus Biteco em lugar de Alan Ruiz, marcação mais forte e bola no pé. E foi com a bola no pé que desenhamos o momento que mais me agradou no jogo deste fim de domingo: a tabelinha de Giuliano e Felipe Bastos, com passes precisos e velozes, deixou os marcadores perdidos em meio ao ziguezague da bola. Merecia mesmo ser concluída da forma como foi com Giuliano cruzando do lado direito para o esquerdo, Dudu aproveitando-se de sua agilidade para desviar do goleiro e Barcos chegando para não deixar dúvidas de que era gol do Grêmio. O primeiro e único gol do Grêmio, nesta noite. Talvez o único lance realmente decente de toda a partida (pra não dizerem que sou exagerado, gostei da virada do Barcos no primeiro tempo e do chute do Zé Roberto, no segundo).

 

E daí que foi o único? E daí que foi talvez uns dos poucos bons lances de nosso time? E daí que, no restante da partida, decidimos que o melhor ataque era colocar nossos atacantes na defesa? Nos defendemos como pudemos, recuamos mais do que gostaríamos e sofremos o que não precisávamos contra um time que está na Zona de Rebaixamento. Não leia a frase anterior como uma crítica, não! É uma constatação e quase um agradecimento ao futebol que nos prega surpresas como a deste domingo tanto quanto frustrações como a do meio da semana, quando jogamos muito bem e, lamentável, botamos fora quase todas as chances de classificação na Copa do Brasil (eu escrevi “quase todas” porque estou sempre a espera do espírito da Imortalidade). O que quero dizer é que, apesar de ter ficado incomodado com a falta de solução em boa parte da partida e do recuo estratégico depois do gol, estou comemorando porque ganhamos os três pontos que precisávamos, já estamos em sexto lugar no campeonato e a quatro pontos da Zona da Libertadores. Estava cansado de assistir a jogos em que fomos melhores do que o adversário sem que esta superioridade aparecesse no placar.

 

Por mais que a jogada do gol tenha me agradado, claro que o título desta Avalanche não se refere a ela. Estou, sim, chamando atenção para outra jogada que podemos fazer e entrar para a história. Permita, caro e raro leitor, voltar ao tema que dominou o noticiário nacional na semana que passou. Hoje assisti na arquibancada a alguns torcedores com cartazes feitos à mão, mosaico de letras e faixas em manifestações contra o racismo. No painel eletrônico, vídeo produzido pelo Grêmio trazia a palavra “CHEGA” enquanto a imagem de atletas do passado nos fazia lembrar do quanto nosso clube venera a diversidade, destacando ídolos negros como Alcindo, André Catimba, Paulo César Caju, Ortunho, Paulo Lumumba e Everaldo, este homenageado com uma estrela dourada que, estatutariamente, acompanha nossa bandeira – sem esquecer de Lupicínio Rodrigues, autor de nosso hino. Os jogadores atuais também fizeram sua parte ao entrarem em campo e erguerem a faixa com os dizeres “somos azuis, pretos e brancos”, lema que tem servido de sustentação da nossa causa contra racistas que ignoram a história do tricolor. Mensagem importante de se passar em momento que o emblema do Grêmio corre o mundo manchado pelo comportamento de alguns de seus torcedores. Mas que não pode se resumir a isto.

 

O Grêmio tem a grande oportunidade de fazer talvez sua mais bela jogada. Está na hora de a diretoria tomar atitude mais efetiva e liderar, no Rio Grande do Sul, campanha permanente contra o racismo, mostrar ao país que se preocupa de maneira séria com esta questão e convocar seu torcedor a assumir este comportamento também fora dos limites da Arena Grêmio. Se for pertinente, levar o tema para dentro das demais instituições, inclusive às escolas. Somente assim provaremos que nossa preocupação não se resume a punições que possam ser adotadas no campo esportivo. Vamos substituir manifestações temporárias e de efeito fugaz por ações pedagógicas que ajudarão a construir uma geração de paz e conciliação. O primeiro dos grandes clubes do Rio Grande do Sul a receber um jogador negro – sim, foi o Grêmio, em 1923 – deve se apoderar deste pioneirismo e transformar esta luta em sua maior bandeira – azul, preta e branca.

Conte Sua História de SP: meu tempo nessa cidade

 

Por Caubi Dias

 

 

Meu tempo nessa cidade
Foi um tempo sem conquista
Tempo sem “privacidade”
Com tempo assaz pessimista
Pois daquele tempo eu sei
Que era mau tempo e morei
Algum tempo, em Bela Vista.

 

Se era tempo de Bexiga
No meu tempo eu só sabia
Que o tempo era só de briga
Em todo o tempo que havia
E em tempo de confusão
Pedi, ao meu tempo, opção
De tempo em Vila Maria.

 

Mas lá fiquei pouco tempo
Pois em tempo de agonia
Eu, de tanto perder tempo
Sem tempo de mordomia
Troquei de tempo e cidade
Por mais um tempo à vontade
E, a tempo, como eu queria.

 

Sou nordestino.
Me adaptei bem em GuarUhos
Estou passando através do tempo que não passa,
porém muda e faz barulho.

 

Caubi Dias é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. O programa vai ao ar, aos sábados, no CBN São Paulo, logo após às 10 e meia da manhã. Para participar, envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pela e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.

Conte Sua História de SP: os valores de meu pai

 


Por Luciano Ribeiro
Ouvinte-internauta da Rádio CBN

 

 

Em 1986, éramos sócios do Clube Juventus, no Bairro da Mooca, zona leste, mas morávamos no Cangaíba, distrito da Penha, bem longe dali. Eu, no auge dos meus 14 anos, me sentia muito orgulhoso em poder ir desde a minha casa até ao clube sozinho. Pegava um ônibus na Avenida Cangaíba, descia na Penha, embarcava no Vila Limoeiro, próximo ao Cemitério. Ali seguia em uma longa viagem de quase hora e meia até descer na portaria do clube, e aproveitar o dia quente de férias nas piscinas.

 

Certo dia, ao sair do Clube, deparei-me com a seguinte situação: tinha uma nota de Cz$ 5.000,00 (na época a moeda era o cruzado) e o valor da passagem era de Cz$ 120,00. No ônibus havia uma placa que dizia: troco máximo Cz$ 1.000,00 (posso estar equivocado com os valores exatos). Bem, fui até uma Padaria na redondeza e comprei um “Freshen up”, um chiclete que tinha um recheio líquido refrescante. Cz$ 180,00. Ao fazer o troco, a mocinha do caixa cometeu um equívoco, em vez do troco de Cr$ 4.820,00, ela me entregou Cz$ 5.320,00, e pior, a minha nota de Cz$ 5.000,00 veio junto embaixo de todas. Mais que depressa dobrei aquela pequena fortuna, a coloquei no bolso e segui para minha casa.

 

No ônibus, fazia planos … estava praticamente rico, quantas fichas de fliperama eu iria comprar. Ah! Aquele tênis que eu pedi para a minha mãe, se eu quiser comprar vou poder também! Nossa! Eu estava extasiado. O fim de semana estava garantido: shopping, cinema, sanduíche naquela famosa lanchonete do M amarelo… Uau!! Ao chegar em casa, cometi o “pior erro da minha vida” (ao menos eu enxerguei assim por alguns bons anos). Coloquei a mão no bolso, saquei aquele monte de dinheiro e mostrei, orgulhosamente, ao meu pai: – “Pai, olha o que eu consegui. Estou rico!”. Meu pai, com o semblante sempre sereno fechou a cara, e um pesar imenso tomou conta do rosto dele. O tom grave da voz dizia tudo: – “Onde você conseguiu este dinheiro?”. Expliquei, já não tão orgulho assim, a minha epopeia. Meu braço franzino sentiu a enorme pressão das mãos dele me levando até o carro. Já começava a anoitecer, deviam ser próximo das 7 da noite, estava calor, e nosso carro não tinha ar condicionado. Levamos cerca de uma hora e meia até chegar a padaria. Meu Pai fazia o costumeiro sermão (ele costumava gastar horas em uma conversa, que era pior que vinte surras). Durante todo o caminho, eu o ouvi dizer sobre o que era pegar uma coisa que não era minha, que ele nunca tinha me ensinado que isto era motivo de glória, que… ahhh… Porque eu não fiquei quieto??? Por que tive que mostrar a ele? Como fui burro…

 

Ao chegar a padaria encontramos um Sr. Grande, de cabelos brancos (ele era bem maior que meu pai). O homem apontava e falava alto para a moça, com olhos vermelhos de tanto chorar… Ela tinha uma barriga enorme, estava grávida… Meu pai interrompeu a conversa e ainda com aquela pressão no meu braço, disse que eu tinha algo para dizer… Entreguei a nota de Cz$ 5.000,00, e a de Cz$ 500,00. Com a voz embargada, pedi desculpas, e meu Pai emendou: – “O pior, é que ele percebeu o engano, pegou o dinheiro, e foi embora. Eu não ensinei isto a ele. Por isso está aqui, devolvendo.” A moça não agradeceu, não olhou na minha cara. O homem grande, agradeceu ao meu Pai, e lhe apertou a mão, que então lhe pediu que não punisse a funcionário pelo engano.

 

Demorou algum tempo para eu compreender perfeitamente aquilo tudo, e hoje devo meu caráter à forma como fui criado e educado por minha família. Com uma filha de sete anos, entendo de forma tão clara qual o legado desta, e de várias outras situações, em que meu pai me passou ao longo da minha infância e adolescência.

 

Valores… Não cabem nos bolsos.

 

Luciano Ribeiro (e o pai dele) foram personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar outros capítulos da nossa cidade aqui na CBN: envie seu texto para milton@cbn.com.br. Ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Você vai lá, grava o depoimento e ainda ganha um DVD com suas memórias registradas. Se quiser outras histórias de São Paulo visite o meu blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: O dia em que o Corinthians foi campeão

 

Por Suely A. Schraner
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Vai corinthians!

 

Era 1977 e o clima, uma ansiedade cinzenta. A alegria em preto e branco. A realidade em tecnicolor.

 

Luis Pinguinha, faltou ao trabalho para ficar picando papel. O Dario fez um balão enorme em preto e branco. O Muniz saiu pra comprar ingressos pra todos.

 

Não entendia nada do que via. Medo da massa. Virgem de estádio. De concreto o filhinho de seis anos, louquinho pelo Corinthians. Ingresso na numerada, que seguro morreu de velho. As colegas de escritório quiseram ir. As comadres com seus pimpolhos corintianos, também.

 

Entrar no Estádio do Morumbi até que foi fácil. Coração disparado. Como sair daqui no final? Em volta só emoção. Multidão cadenciada entoava: filhos da puta, filhos da puta. Eram guardas que entravam com seus cães policiais. Alinhavam-se em campo para dar mais segurança. Segurança? Engrossar esse coral. Catarse popular. Desabafos anônimos em resquícios de ditadura.

 

Os olhos dos circundantes a brilhar. Ovação ao plantel corintiano. A boca a salivar. Coração a saltitar. Entra a Ponte (Preta) pra enriquecer o repertório de nomes feios.

 

Começa o jogo. A Jurema gritava:Geraldão, minha paixão, Geraldão, minha paixão! Virou bordão.

 

Bem depois e era já, aos 36 minutos, Zé Maria bate uma falta pela direita. A bola percorre toda a pequena área e vai parar no pé de Vaguinho. De bico, ele chuta a bola no travessão do goleiro Carlos. Na volta ela quica no chão e sobe para Wladimir cabecear. Em cima da linha, Oscar também de cabeça, salva. No rebote, a bola sobra pro pé direito de Basílio. Ele faz o gol. Quebrou o jejum de 23 anos! Festa no Morumbi. No cordão de isolamento até os guardas chorando.A torcida invade. Faz mal não.

 

Esperar a vida toda pra sair do estádio. Ainda assim, massa comprimida. A numerada é pra poucos. A rampa de saída, pra todos. Neguinho segurava a bandeira no ombro.Enorme. No mastro de bambu, a cachaça já secara. Com a mão livre, batucava levemente nos traseiros de quem vinha à frente. A Jurema perdeu o radinho de pilha. Roubaram o guarda-chuva da Neuza.

 

Na rua lateral , o ônibus da torcida Ponte Preta. Se puseram a cantar: Joga pedra na Geni, joga bosta na Geni. O filho falou, vamos correr mãe? Melhor não, ela respondeu. Então vou tirar a camisa.Não demonstre medo, que é pior, filho. Uma pedra acertou o braço, outra maior nas costas. Lapidação bem agora? Uma viatura chegando. Ufa!
O resto foi o que vocês ouviram no rádio.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.

Conte Sua História de SP: Itaquera, a capital do mundo

 

Por Daniel Sena Serafim
Ouvinte da rádio CBN

 

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Lembro-me como se fosse hoje, eu e minha família residíamos no bairro de Artur Alvim, em 1989 ainda criança por volta dos 7 anos caminhava de mãos dadas com minha mãe à beira da Av. Radial Leste próximo ao metrô Corinthians – Itaquera. Ela fanática por futebol, apontou para uma planície cheia de morros e mata irregular dizendo: “Olha filho, aqui um dia será construído o estádio do Corinthians, imagine como ficará grande e bonito”.
Ainda criança, tentava imaginar como seria este lugar, quando o estádio fosse construído, pequeno, porém com a imaginação fértil de uma criança imaginava um castelo, grande e bonito onde os jogos seriam realizados. Mas como a infância em uma periferia reserva particularidades adversas e estatísticas, logo tive que abandonar a imaginação e interagir com a realidade. Aos 13 anos já começaria a trabalhar e a estudar, mas o gosto pelo esporte e o afeto pelo local onde morava continuaram, como também uma espécie de lenda urbana, ouvida e reproduzida pelos populares que insistiam em dizer: “É lá em Itaquera, do lado do metrô que vai ser construído o estádio”.

 

A mídia especulava e alimentava este imaginário ao passar das décadas, eu continuava a me lembrar do que minha mãe havia dito a mim quando criança. Entre tantos encontros e desencontros da realidade de uma periferia, um belo dia, leio no jornal sobre a candidatura do Brasil para sede da Copa do Mundo de Futebol da FIFA de 2014 e a possibilidade da construção de um estádio em Itaquera para o Sport Clube Corinthians Paulista, sendo o palco do jogo de abertura da Copa do Mundo e me pergunto com um sorriso travado no canto na boca: “Será?”.

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