Conte Sua História de SP: águas passadas não movem moinho

 

Por Alberto Juan Martínez

 

 

Nas primeiras horas do 20 de janeiro, justo um ano e cinco dias antes do IV Centenário de minha futura querida cidade, São Paulo, cheguei via Santos. Os amigos que aqui me aguardavam me alojaram em um apart hotel na avenida São João depois da Dom José de Barros e a poucos metros da Ipiranga. Melhor que isso só mandando fazer.

 

Terra da inesquecível garoa; bondes abastecendo mão de obra da Pça do Correio à Lapa, da Pça Ramos de Azevedo ao laborioso Pinheiros, aos perfumados e elegantes Jardins; e de ai para a cidade em crescimento.

 

O bar do Jeca, do Brahma, o Hotel Excelsior, o cinema Marabá, a Pça da República, a nobreza da Vieira de Carvalho, o deus-nos-acuda da Sta Ifigênia, Timbiras, Rua do Triunfo; a Av. Rio Branco com sua mini-rodoviária e o ponto de partida e chegada das lotações que serviam a baixada Santista e suas praias.

 

A discreta rua e Largo do Arouche, “O Gato que Ri”, o francês “Le Casserole””, o Mercado das Flores. O charme da rua São Luiz embalada pelo som da trompete de Araquem e a voz de seu irmãozinho Cauby Peixoto. Roberto Luna dava o ar da graça e a noite corria mansamente.

 

Não esquecer os restaurantes da São João com destaque para o Leão, onde gregos e troianos se alimentavam como reis a preços de operários. Fácil chegar, difícil era encontra uma mesa vaga ou um lugarzinho na mesa de alguém que graciosamente te convidava a sentar.

 

Durante o dia, todo o respeito pelo Centro da Cidade com lojas de artigos de últimos lançamentos em outras latitudes: o Mappim, a Mesbla, o luxo da Barão, da Rua Direita, São Bento, Três de Dezembro, onde o bom e o melhor poderia ser comprado, onde homens e mulheres vestidos de domingo circulavam naquele frenesi paulistano.

 

Águas passadas não movem moinhos; filhos, sobrinhos, netos não viveram esse esplendor e me acham um saudosista exagerado. Queira Deus que esse enorme pequeno mundo volte a ser o que era. Que sejam enterradas promessas, utopias e o sol volte a brilhar na minha, nossa cidade, que se pretendeu e se pretende assassinar a sangue frio.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar no CBN SP, sábado, após às 10h30 da manhã. Você participa enviando seu texto para milton@cbn.com.br ou marcando entrevista, em áudio e vídeo, no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. A sonorização do texto é de Cláudio Antonio.

Conte Sua História de SP: a Paulista começava a mudar

 

Por Gustavo Neves da Rocha Filho
Ouvinte da rádio CBN

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, o texto do ouvinte Gustavo Neves da Rocha Filho, de 87 anos. Urbanista, arquiteto, formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, da 2a. turma do curso de Arquitetura, o professor Gustavo testemunha período de transformação da avenida Paulista:

 

1942
Comecinho do mês de abril.
Onze horas da noite.
Avenida Paulista.

 

Calçadas desertas, rua deserta, os trilhos do bonde refletindo a luz das luminárias penduradas bem no centro da via e lá no alto, em fios que a escuridão da noite escondia. De cada lado, sobre os passeios, a massa escura das árvores plantadas muito próximas umas das outras, talvez uns três ou quatro metros.

 

Naquela noite eu não era pedestre. Menino ainda, acabava de chegar de uma viagem de férias e estava ao lado do motorista, meu tio e padrinho. Quando o automóvel, subindo pela Rua Teodoro Sampaio e avançando pela Avenida Doutor Arnaldo, entrou na Avenida Paulista a imagem que eu vi ficou gravada para sempre na minha memória. Daí a instantes eu estaria em casa da avó, modesta casinha com seu jardim e quintal lá na rua Batatais. A Paulista, naquela noite, estava bem diferente daquela avenida que eu percorria durante o dia até a esquina da Rua Augusta, ou até um pouco mais adiante.

 

As férias terminaram e as aulas no Colégio São Luis, na esquina da Rua Augusta, recomeçaram. O mês de julho chegou e com ele o Dia do Sagrado Coração de Jesus. Fardados de branco, como todos os alunos das escolas católicas, desfilavam garbosamente pelas ruas da cidade. O palco do São Luis era a Avenida Paulista, sem nenhum carro, sem nenhum bonde. O guarda de trânsito, que apelidavam de “grilo”pelo seu apito estridente, cuidava do sossego da rua. Mas nem era preciso pois o bonde que vinha da cidade – era como chamavam o atual centro histórico – vinha pela Rua Brigadeiro Luiz Antônio, percorria um pequeno trecho da Avenida Paulista e descia pela Rua Pamplona até o Jardim Paulista. Automóveis, então, eram raros. Durante o desfile poucas pessoas, em geral os pais, ocupavam os espações entre as árvores junto ao meio fio.

 

Anos depois eu andaria pelas calçadas da Avenida Paulista até a Rua da Consolação, ou para pegar o bonde Pinheiros, ou para comprar pão ou doces na Padaria Primavera. Nesse tempo eu ainda não me interessava pela arquitetura e o que me chamava atenção eram as muretas baixas que cercavam os terenos das casas construídas longe do alinhamento, em meio a muitas árvores. Do outro lado da rua a Capela do Colégio São Luiz parecia ter uma altura descomunal, hoje bem pequena junto aos prédios seus vizinhos de mais de trinta andares. Certa vez causou-me surpresa uma enorme placa com os dizeres “Clínica Médica”pregada num daquelas casarões situados entre as ruas Bela Cintra e Haddock Lono. Certamente os médicos da Faculdade de Medicina, ali perto da Avenida Doutor Arnaldo, estavam abrindo seus consultórios e o uso residencial da Avenida Paulista começava a mudar.

 


Gustavo Neves da Rocha Filho é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você mais um capítulo da nossa cidade, envie um texto para milton@cbn.com.br ou marque uma entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.

Conte Sua História de SP 460: o bonde que levava à zona do meretrício

Por Antonio Favano Neto

 

 

Estudava no Liceu Coração de Jesus, nos Campos Elíseos, e morava no Alto da Mooca. Para estudar, ia de de ônibus cujo ponto inicial era na rua do Oratório com Fernando Falcão e o ponto final, na praça Clóvis Bevilacqua. Caminhava até o Largo do Tesouro e tomava o bonde Júlio Conceição, próximo do Liceu, porém muito mais perto da zona do meretrício, que existia oficialmente em São Paulo: as famosas ruas Iaboca e Aimorés, hoje o maior centro comercial de confecções do Brasil. O mais curioso é que o bonde saía do Largo do Tesouro apinhado de homens nos estribos, completamente lotado, e ao chegar no segundo ponto de parada, na rua José Paulino, parecia que a tropa de choque da antiga Força Pública com seus meganhas prenderia a todos. Não ficava um passageiro nos estribos, desciam correndo como crianças para dentro da zona.

 

Quando o dinheiro dava, eu pegava o ônibus Estações que fazia o rodízio das estações do Norte, Sorocabana e Luz, fazendo um contorno por todo o centro expandido de São Paulo da época. Defronte a Caixa Econômica Federal, ao lado do relógio da Praça da Sé, saía o ônibus circular Linha 1, que passava pelo Largo São Bento, Paissandu, Viaduto do Chá, Largo São Francisco, Praça João Mendes e Sé. Eram ônibus americanos de última geração, Thin Coach, com breque a ar que fazia barulho ao ser acionado, que mais parecia um aviso aos pedestres: estou perto, cuidado.

 

Das coisas mais pitorescas, eram as mães que acordavam de madrugada para levar os filhos na rua do Gasômetro para as crianças respirarem a fumaça do gás que saía dos bueiros. Na rua Santa Rosa existia o trenzinho da Companhia de Gás de São Paulo com cinco vagões, que partia do Largo do Pari com destino à rua da Figueira para descarregar o carvão que chegava da Europa, via Porto de Santos. Isto tudo na contra-mão do trânsito.

 

Antonio Favano Neto é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade, mande seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

 
 
 
 

Conte Sua História de SP 460: minha paineira do Butantã

 

Por Robson Luquêsi
 

 

 

 

fim dos anos 1960. é coisa do milênio passado. saía de casa, lá no jaguaré, pertinho da divisa com osasco. levado pelo meu pai ou minha mãe, ou os dois, a caminho da cidade. sim! cidade era lugar de pra lá do rio, que mais tarde fiquei sabendo se chamava pinheiros.

 

mas só sabia que estava a caminho do centro de são paulo quando o ônibus passava ao lado, bem perto, quase colado àquela imensa árvore. espinhuda, maior do que os postes de luz de madeira que existiam em várias ruas do meu bairro, e que um dia foram árvore também

 

 
se era um domingo, ia para a praça da república assistir à apresentação de uma banda lá no coreto, que ainda existe, o coreto. a banda? não. quando passava pela paineira sabia que não ia demorar muito – felicidade

 

 
se era dia de semana e se estivesse tossindo, percebia que logo chegaria ao médico assim que passasse por ela. sempre linda, ali, solitária, cercada de gente por todos os lados. inalações, injeções, receitas de remédios. queria ficar curado logo, mas não queria virar peneira para agulhas – tristeza

 

 
se era perto do natal, pronto: presentes, modestos, mas lembranças de fim de ano. por mais que tivesse passado pela paineira, juro que vi papai noel sentado nela, parecia um nunca chegar nas lojas de brinquedos. um desses dias, perguntei pro papai noel porque tinha criança que não ganhava nada. ele nunca mais apareceu pra mim – meio feliz, meio triste

 

 
notícia ruim! disseram que um caminhão bateu na paineira e tinha de ser cortada. outros disseram que ela tinha de ser retirada pra fazer mais pistas pros carros. disseram um monte de coisas e fizeram a única coisa que não poderia: cortaram

 

 
consultaram francisco morato? e vital brasil, lineu de paula machado e eusébio matoso? que hoje são nomes de avenidas que passam bem onde havia a paineira do butantan. não perguntaram nada

 

 
não moro mais lá ‘praqueles’ lados. mas, mesmo que não passe no lugar tanto quanto antes, tem vezes que me vejo assim: cumprimentando aquela danada verde e grandona. me sinto alto e forte como ela

 

 
se estou curvado pelo peso dos tempos, me fortaleço com  aquela imagem de antes que marcou, e marca, a distância dos quilômetros, dos ponteiros do relógio e da imensidão da cidade que pouco, ou nada, é percebida pelos doutores que sabem tudo sobre o nada e que um dia tiraram ela do lugar

 

Robson Luquêsi é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você mais um capítulo da nossa cidade, mande seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Mais histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP_460: com os olhares do pombo e do urubu

 

Por Suely Schraner
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

Consta que Deus, cansado de ouvir reclamações sobre a Terra, mandou que o urubu sobrevoasse tudo e retornasse dizendo o que viu. Ele voltou contando das guerras, carniças (delícias), poluição, violência, catástrofes e vícios, um inferno enfim. 

Desolado, Deus quis ouvir uma segunda opinião. Pediu então que a pomba fizesse o mesmo. Aí ela retornou dizendo do sol clareando a terra e o orvalho das plantas. Dos passarinhos arrulhando nas árvores após um dia de chuva. Das flores com seus diversos matizes sob o céu de azul diáfano. Das cachoeiras que inundavam a atmosfera com sua música maviosa. De crianças a brincar e a sonhar. De velhos nas praças a ver a vida passar com graça a dar milho aos pombos. 

Deus então deu um logo suspiro e declarou: é preciso olhar o mundo com os olhos da pomba.

 


Esse é o desafio do paulistano: olhar esta cidade com os olhos da pomba. Ver a beleza que existe na diversidade, na concentração de talentos, nas oportunidades de desenvolvimento e mudança. Beleza no seu centro cultural, nas atividades criativas. Na poesia concreta das suas esquinas, como na canção.

 



Cai, levanta, cai levanta. Vocês sabem do que estou falando. Como na teoria do evolucionismo, os mais aptos sobreviverão. Uns chegam de longe para se tratar e vão ficando. Outros chegam munidos de muita vontade de trabalhar, transformar o pouco em muito. Tenacidade de aço e nervos de concreto faz do cidadão paulistano um ser singular. Caçadores de beleza na cidade dos migrantes e imigrantes. Diz-se que quem vive aqui, está apto a viver em qualquer lugar. Uma metrópole que contempla tanto o olhar do urubu como o olhar da pomba. A escolha é sua.

 

SP é um pólo de atração. Atrai os que ousam sair da zona de conforto e mudar, transformar, garimpar ouro em merda. Cidade em constante mutação a provocar mudanças em seus atores. Quantos desses 11 milhões de habitantes, sem contar os 10 milhões no entorno, aqui chegaram apenas com a roupa do corpo, coração acelerado e, um sonho na cabeça povoada de ilusões.  Educaram seus filhos, trabalharam e conquistaram seu espaço. Quem não se envolve não desenvolve.



 

Amar sua cidade. Apropriar-se dos seus espaços. Nossos parques, nossas praças. Sonhar juntos. Saber que num dia, policiais estão brandindo seus cassetetes e spray de pimenta. E que, no outro, acontece um desfile de moda de uma grife famosa, em plena região da Luz, mais conhecida como “cracolândia”. Que hoje, fazemos muito mais que antigamente.  Que para levantar é preciso antes, cair. Que egoístas os temos mas, também, solidariedade. A tragédia e o espetáculo. Choro e riso. Corruptos. Honestos, a maioria.  Ainda bem. 



 

Cair do pedestal da ilha do egocentrismo. Sair da inércia e elevar-se em sabedoria.

 

Suely Schraner personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade, mande seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP/460 anos: meu sapato de camurça

 

Por Sérgio Gigli
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Meu pai, Josias Gigli, era paulistano, mas depois de casar mudou-se para Guararema, no interior. Mesmo assim conhecia muito bem a região Central, onde trabalhou em algumas empresas, e nos arredores. Eu frequento São Paulo desde meu nascimento, 1961. O movimento, o trânsito, o aglomerado de pessoas nunca me assustaram. Religiosamente, todo início de dezembro, com o 13º e abonos recebidos, meu pai levava a família para a Capital. Por volta de 1970, não sei precisar o ano, fomos eu, meus pais e minha irmã para o passeio onde sempre fazíamos compras, almoçávamos em lugares diferentes, víamos gente diferente e no fim do dia uma visita ou outra na casa de parentes. Viajávamos de ônibus entre Guararema e Mogi, pegávamos o trem para São Paulo e rodávamos pela cidade de ônibus, também. Saíamos cedo para antes do almoço já estarmos passeando na Capital.

 

Lembro-me que logo que chegamos, entramos em uma loja de calçados na região da São Bento e vi um sapato de camurça branco e azul. Em poucos minutos, já havia calçado o par de sapatos novos e estava me achando o máximo. Só que não demorou nada e veio a chuva. E nosso passeio acabou cedo. Chuva pesada. Ficamos protegidos em uma loja. Mas a chuva era mais que pesada. A água começou a entrar na loja e logo meu sapato novo estava molhado. Meus pais resolveram então que não deveríamos esperar mais e tomar o rumo de casa.

 

Todos os ônibus lotados, pontos de ônibus idem. Muita chuva. Os bueiros não suportavam mais toda aquela água. E nós continuávamos procurando algum transporte que nos levasse ao Brás onde havia o trem de volta para casa. Não conseguimos nada, nem ônibus nem táxis. Fomos caminhando completamente molhados. A tarde toda. Quando a noite chegou, meus pais perceberam que não chegaríamos em tempo na estação. Decidimos mudar a direção para a zona Norte, Santana, onde ainda vivem parentes de meu pai.

 

Quando o ônibus para o novo destino apareceu, subimos os quatro, e meu pai deu a seguinte instrução: “todos para a frente, vamos descer no ponto final”. Eu mais na frente, minha mãe um pouco atrás, seguida pela minha irmã e meu pai. Algum tempo depois do início da viagem pergunto ao motorista se era o ponto final. Entendi que era … desci. Olho de um lado não vejo ninguém da minha família. Olho do outro, também não. Atrás tampouco. Olhei para o ônibus indo embora com as luzes internas acesas e enxerguei meu pai.

 

Saí correndo seguindo o ônibus de perto, atrapalhado pelo trânsito. Nos primeiros passos ainda cuidei de preservar o sapato novo. Mas logo esqueci os sapatos e me concentrei em não perder o ônibus de vista. Corri até a parada seguinte, quando minha família desceu.

 

– O que você está fazendo aí?, perguntou meu pai.

 

Contei para eles que, a princípio, não acreditaram. Nem eu estava acreditando. Graças a Deus tudo acabou bem. Chegamos na casa da família já perto da meia noite, e retornamos para Guararema no dia seguinte. Quanto ao sapato de camurça colorido, acredite ou não, me acompanhou por um bom tempo. Não se fazem mais sapatos como antigamente.

 

Sérgio Gigli é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP/460: Itaquerão, no olho d’água da Pontinha Preta

 


Por Marcos Falcon
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 


 

 

Ao passar por áreas reurbanizadas da nossa São Paulo, por edifícios importantes e marcantes de nossa cidade, sempre me pergunto: como deveriam ser esses lugares antes? Quem morava nessa região? Como era a topografia, a vegetação…? Enfim, o que existia por aqui?
 

 

Tendo o privilégio de nascer em Itaquera, na zona Leste, e ter vivenciado toda a transformação do local onde hoje está sendo construído o Itaquerão, julguei por bem deixar registradas aqui respostas às perguntas acima, para que um dia algum curioso ou pesquisador possa usá-las.
 

 

Vamos lá… Na década de 50, havia uma grande área que se estendia da Vila Corberi, em Itaquera, até as proximidades da estação da Central do Brasil, em Artur Alvim. Do lado direito, fazia fronteira com a linha do trem, e do esquerdo, com o bairro Cidade Líder. Uma área de aproximadamente 25 mil metros quadrados, que pertencia ao IAPTEC (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Estivadores e Transporte de Carga). Toda a sua extensão era plantada com eucaliptos, e por isto ficou popularmente conhecida como “Calipal”.
 

 

Calipal… quanta saudade guardo desse espaço… Para nós, crianças, parecia tão imenso que seria impossível atravessá-lo de um lado a outro sem se perder, ou sem correr o risco de ser vitimado por uma onça, um leão, que os pais garantiam existir ali, só para que não nos aventurássemos em suas profundezas.
 

 

O Calipal sempre foi o campo de batalhas das turmas de garotos de diferentes vilas, pois nenhum moleque ousava entrar lá sozinho – de modo que as peregrinações eram feitas em bando. Quando as turmas se encontravam, a maior tratava logo de fazer correr a menor, e ali eram ocorriam grandes disputas de estilingue entre os garotos do Falcão do Morro, do Serrana e da AE Carvalho.
 

 

Dois córregos cortavam nossa floresta: o Areião e o Pequeno. Areião tinha esse nome porque sua formação era muito diferente dos demais córregos. Ele tinha pouca profundidade, algo em torno de 15 centímetros, mas uma largura de mais de 5 metros. Seu fundo era formado por uma espessa camada de areia amarela. Alguns moradores retiravam, diariamente, dezenas de caminhões de areia apenas na base da pá. Entre eles, destacava-se o Dodô. Negro forte, corpo de halterofilista, corintiano roxo e o melhor tocador de contra-surdo da Escola de Samba do Falcão do Morro.

 

Embora menor, o Córrego Pequeno é mais importante para esta narrativa, principalmente sua nascente: a Pontinha Preta, um local mágico, que marcaria a vida de todos os garotos de Itaquera e região. Tratava-se de um pequeno lago de águas cristalinas, e foi nosso clube privado, onde todos nós aprendemos a mergulhar e a nadar, exatamente nesta ordem. O nome Pontinha Preta foi dado em função do fundo do lago ser formado por argila negra – ao primeiro mergulho, suas águas cristalinas tornavam-se turvas, da cor do carvão. Era uma delícia nadar por ali e, após alguns mergulhos, deitar no gramado que a margeava, curtir o sol batendo papo, contando vantagem entre os garotos.
 

 

Em certa oportunidade, fomos até ali numa turma de uns cinco garotos. Lembro que lá estavam o Giba, o Clóvis, o Alemão, eu e mais alguém, de quem agora não me recordo. Era fim de semana, provavelmente domingo. Todos nós tomávamos banho pelados, pois não poderíamos chegar em casa com roupa molhada ou suja, para não denunciar nossa façanha. Meu pai sorrateiramente nos descobriu lá e tratou de apanhar todas as nossas roupas, levando-as embora. Os garotos imploraram para o seu Antônio devolver, não teve jeito. Já que havíamos sido descobertos e estávamos sem roupa, só nos restava continuar nadando até o fim do dia.

 

Mas chegou a hora de ir para casa. Como passar pelado por toda a Vila Corberi? Logo iria escurecer, e não tínhamos coragem de atravessar o Calipal no escuro, pois os leões e onças atacavam durante à noite. A salvação foram as bananeiras do brejo e suas belas e grandes folhas espalmadas. Cada moleque arrancou duas ou três folhas de banana e com elas tapando a frente e a traseira, fomos embora sendo alvo de gozação por onde passávamos.
 

 

Ali pesquei o meu primeiro lambari, com uma vara de galho de eucalipto, linha de costura e anzol feito de alfinete de cabeça. Muitas cobras habitavam a região para se alimentarem das rãs que lá viviam. Num fim de tarde, muitos anos depois, fui lá com meu sobrinho Rafael, caçar borboletas para a coleção que ele estava preparando, para a feira de ciências do Liceu Camilo Castelo Branco. Distraídos e olhando apenas para o alto à procura das borboletas, fomos surpreendidos pelo guizo de uma enorme cascavel, que estava de espreita no trilho, no meio do sapezal. Foi um baita susto, quase pisamos na cobra. Quando ela ergueu a cabeça para dar o bote no Rafael, sem pestanejar enfiei o cabo do coador de borboleta no meio da víbora. Rafael não levou borboleta para a feira de ciências, e sim a cobra exposta em um grande vidro com formol. Foi o maior sucesso daquela exposição.
 

 

No início da década de 70, teve início a construção da primeira Cohab em Itaquera, e nossa floresta encantada foi derrubada para a construção dos apartamentos populares entre Artur Alvim e Itaquera. Toda a área foi alvo de terraplanagem, sem a preservação dos pequenos córregos e da Pontinha Preta.
 

 

Para atender ao crescimento da população de Itaquera com transporte de qualidade, surgiu a Radial Leste, e foi construída a Estação Corinthians do Metrô. Em seguida, Itaquera ganharia seu grande shopping, que também foi edificado ali. A pedreira de Itaquera, que deu nome ao bairro (pedra dura em tupi-guarani) e que forneceu as pedras para a construção da Catedral da Sé, foi desativada e soterrada na mesma época.
 

 

Nos dias atuais, tenho passado pelo local rodando sobre as pistas da Radial Leste. Fica claro para mim que a área não era tão grande assim. Que seus limites não eram tão distantes e inalcançáveis. Pude perceber como é florida a imaginação das crianças. Como foi bom ser criança ali e desfrutar daquele lugar.
 

 

Na semana passada, parei bem em frente à obra do Itaquerão e me permiti meditar sobre como era o lugar antes. Olhei o entorno, a linha do trem, o Morro do Falcão, consultei o meu “Google Maps” imaginário e tive certeza absoluta: o centro do gramado do Itaquerão é exatamente no olho d’água da Pontinha Preta.
 

 

Agora por ali irão desfilar muitas cobras, peixes, gaviões, vindos de todas as partes do mundo, para brincar com o que mais gostamos: jogar futebol nos gramados da Pontinha Preta… quero dizer, do Itaquerão.
 

 

Marcos Falcon é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. O texto completo você lê no meu blog, o Blog do Mílton Jung. Conte mais um capítulo da nossa cidade: mande seu texto para milton@cbn.com.br. Ou marque uma entrevista em áudio e vídeo pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.
 

Conte Sua História de SP/460: lembre-se de onde você nasceu

 

Por João Victor Correa de Almeida Salles

 

 

São Paulo, como eu desejei e desejo te ver transformada.
Eu te conheço São Paulo.
Já peguei metrô às seis, conheço seu vai e vem.
Já fiquei te observando, conheço seus meandros.
Conheço seu coração São Paulo, tenho visto seu agir, sua transformação não virá da mão de homens que só buscam te iludir.

 

São Paulo olhe pra si mesma, busque refletir, por mais que esteja errada, não deixe de assumir.
São Paulo, eu te conheço, eu vejo catadores de lata,
Ó relógio egoísta, essa cultura é que te mata.

 

São Paulo, São Paulo,
tem cultura da garoa,
do “primeiro eu”,
Terra onde as motos cantam como passarinhos, onde as motos não tem freios,
Terra onde existem “vagas reservadas para os mais espertos”,
Onde é melhor trocar de faixa sem dar seta,
Terra onde admitimos o “rouba mas faz”,
Até ouvi, “pior que tá não fica”,
E eu sei, essa é a cultura da terra, cultura de um povo cansado, cultura deste reino.

 

Por isso sou Paulistano Peregrino.

 

Lembre-se São Paulo de onde você nasceu,
Lá no Pátio do Colégio sobre o Reino aprendeu,
Lembra, lá no Reino não é assim, na cidade Celestial a cultura é outra,
Lá praticamos o amor ao próximo como a si mesmo,
Lá praticamos o confiar que o Senhor fará justiça,
Lá o homem que deseja ser o primeiro, este sirva a todos,
Lá o respeito é sincero e genuíno, não acontece apenas por convenção social,
Lá o que tem menos honra, a este damos honra, pois entendemos que somos um só.

 

São Paulo, São Paulo, pare um pouco, pense no que diz, que mudança você quer, a real ou só verniz?
Se São Paulo é você, vou perguntar de novo, que cultura você quer, a do Reino ou a do Povo?

 

João Victor Correa de Almeida Salles é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP/460: o Aparador de Sonhos

 

Por Gabriel Fernandes
Ouvinte-internauta do Jornal da CBN

 

 

A parda palidez da poltrona de vime já estava oculta, desde cedo, pela Hercília, a velha e prestativa babá, sob um oleado esbranquiçado reservado para essas ocasiões. Aquele era um dia especial, mas o estado de espírito da garotada não era o mesmo. O caçula comprovadamente não gostava daquilo; os dois do meio se submetiam sem criar grandes dificuldades; como primogênito, eu tinha direito a algumas regalias.

 

O colorido tapete redondo de ráfia, que contrastava com a sobriedade geométrica do piso de ladrilhos hidráulicos da varanda, jazia enrolado em um canto, prudentemente afastado pela Hercília. A criançada espreitava do corredor enquanto o papai falava no telefone. Aquela conversa, que se repetia a cada dois meses em alguma manhã de sábado, já era esperada e temida. Não tínhamos como escapar do que viria a seguir. Revezávamos na vigia da porta da sala de visitas à espera do convidado indesejável. A estridência metálica da campainha não tardaria a romper o silêncio apreensivo da sala.

 

Priiiiim! Priiiiim! Priiiiim

 

Todos correm para a maçaneta da porta, mas é a Hercília quem a abre e anuncia para o papai: “Seu Eduardo, o Seu Ubaldo chegou!”. O papai deixa a sala. Seu Ubaldo sobe a escada que serve o jardim, atravessa a aspereza cinzenta do curto caminho cimentado que leva à casa. Sua silhueta obesa é recortada na tela luminosa de um dos arcos da varanda. Para nós, ele é um homem velho, de mais de 40 anos, pele morena de árabe, bigode fininho como linha de lã sob o nariz pontudo, voz estridente de trompete. Sempre traja o mesmo sovado jaleco branco, com cheiro de Aqua Velva misturado a um odor ardido de suor, que tem o condão de cobrir-lhe o arco convexo da volumosa barriga. Hálito de salsinha, a gente prendia a respiração até não poder mais.

 

As crianças não gostavam dele, eu acho. Ninguém gosta de tomar remédio amargo ou de ser picado por uma agulha de injeção, mas Seu Ubaldo fazia coisa pior. Como de costume, ele traz sua surrada maletinha marrom e seu cabelo crespo emplastado de brilhantina.

 

“Bom dia seu Eduardo, a criançada está crescendo, deveras!”. E passa a mão na cabeça da gente, despenteando nosso cabelo. Carrega, infalivelmente, uma tábua forrada com um desgastado couro sem cor e um sorriso sarcástico, talvez: “Quem é o primeiro?”

 

O Dario é sempre o primeiro. Caçula não tem direito a nada, não tem escolha. Ameaça abrir um berreiro, mas Seu Ubaldo já vem prevenido. De sua maleta de couro marrom, saca um pirulito e lhe oferece a vermelhidão açucarada da guloseima em forma de chupeta. A propina sempre funciona. Seu Ubaldo coloca a tábua estofada sobre os braços da poltrona de vime e senta o menino ali. Cobre o pequeno com um desbotado pano azul, deixando-lhe de fora apenas a cabeça. O inocente chupa o pirulito enquanto o barbeiro destrói seu cabelo com a infernal máquina manual: “Escovinha, né, seu Eduardo?” O caçula é o que mais sofre. Fica com a cabeça raspada como a bacia de comida do Lippy, nosso cachorro. Só resta um chumacinho de pelos curtinhos nos arrabaldes da testa, menor do que o do Cascão.

 

Vez ou outra, a voraz máquina de cortar cabelo mordia um pescoço inocente. Aí, as desculpas eram poucas e a choradeira profusa. Os dois do meio, o Eliseu e o Davi, já não se deixam seduzir pelo vermelhão adocicado da guloseima. Negociam com o papai não se sentar na tabuinha estofada e permissão para um corte mais civilizado. Condescendente, o papai cede quanto ao corte, mas eles ainda não têm estatura para se livrarem da tal tábua. Os pobrezinhos passam a exibir um vistoso corte americano: máquina um nas laterais até bem acima das têmporas e uma faixinha de cabelos curtinhos que se estende da testa até o cocuruto. Os bobinhos se dão por satisfeito.

 

Como o mais velho, eu tinha meus privilégios. Nada de pirulito vermelho de chupetinha, nada de tabuinha. Meu sonho de um cabelo como o do Elvis, cruzado na nuca com Gumex e um belo topete, porém, desfaz-se na geometria intrincada do chão de ladrilhos. Tudo que eu consigo é um corte meio-americano: uma raspadinha com a máquina dois logo acima das orelhas e um pouquinho mais de pelos no alto da cabeça.

 

Quando cortei meus cabelos, despedindo-me de minha vida de solteiro, foi o Ubaldo a quem procurei. Seu salão ficava na Rua Santa Cruz, na Vila Mariana, bem defronte à chácara dos irmãos maristas, do Colégio Arquidiocesano, onde, em dias de ócio, junto com meus irmãos, costumava surrupiar algumas frutas. Ele foi meu barbeiro desde os tempos da varanda de ladrilhos geométricos. Eu não sabia, ainda, que aquele seria um corte de despedida. Seu Ubaldo morreria alguns dias depois.

 

Por irresistível pressão familiar, me resignei a ir ao meu cabeleireiro habitual em uma galeria na Avenida Paulista. Teria preferido entrar na Martins Fontes que, do outro lado do corredor, tenta seduzir os frequentadores do salão com caos irresistível de suas vitrines coloridas. Deixei que o Antônio me tosasse a cabeleira, como costumava fazer o Ubaldo. Enquanto ele cometia seu desatino, o salão me pareceu, como num sonho, se transformar na velha varanda de casa. Pude rever meus irmãos, ainda crianças, e o rosto benevolente de meu saudoso pai. O Ubaldo confirmava com papai se, realmente, o meu poderia ser um corte meio-americano…

 

A lembrança me apertou o peito e a saudade quase se desprende de meus olhos como uma solitária lágrima. Se eu a deixasse cair, fundir-se-ia aos meus cabelos que, como sonhos aparados, jaziam no chão.

 

Gabriel Fernandes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte mais um capítulo da nossa cidade. Envie seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Outras histórias de São Paulo você encontra no meu blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP/460 anos: construímos nossa vida na Zona Leste

Por Cláudia Elisabete da Silva
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 


             

 

                                                                         
Às sete horas anunciei que estava para chegar, mas minha mãe não entendeu que meu dia havia chegado. Às sete horas os trabalhadores já estavam na luta, de trem, de ônibus, sonhando nos “enlatados” com o metrô em construção que, um dia, iria encurtar as distâncias para todos – ou para alguns privilegiados lá da zona sul. Só o tempo diria, já que até hoje o metrô não atende a toda a cidade. Meu pai e nosso tio já haviam saído para seus respectivos empregos. Minha mãe, no entanto, não quis incomodar ninguém, e ficou ali, sofrendo sozinha, achando que eu poderia esperar mais um pouco. A coisa foi ficando apertada e em pouco tempo não foi mais possível segurar. Ela chamou minha tia, que morava no mesmo terreno, na casa da frente. A tia, recém-chegada na Paulicéia, não sabia nem por onde começar.

 

“Um táxi, tia, chame um táxi lá na Itinguçu”, minha mãe pedia. Morando na Vila Ré, cujas ruas ainda estavam sendo asfaltadas, essa era a única forma de tentar chegar a um hospital em tempo suficiente para que eu não viesse ao mundo no meio da rua, em meio a essa gente apressada, correndo para o que der e vier, como diria a canção de tom entusiástico e em ritmo acelerado – “vambora, vambora, olha a hora”…

 

São Paulo não podia parar: este era o mote lá no início da década de 1970, quando vi a luz, só por volta das cinco da tarde – na hora do “rush”, da volta para a casa, tinha que ser! O hospital ficava na Avenida Celso Garcia, a alguns metros do Parque São Jorge – o destino já estava traçado: mais uma corintiana na face da Terra!

 

Aprendi a ler antes de frequentar a escola, decifrando os outdoors do corredor Radial Leste-23 de Maio-Rubem Berta, que percorríamos semanalmente, eu, minha mãe e meu pai, para visitarmos os parentes no Jabaquara. Tentamos morar nesse bairro em 1979, mas não aguentamos mais do que nove meses, por causa do barulho dos aviões que decolavam e aterrissavam em Congonhas. Voltamos para a zona leste, onde construímos nossas vidas ali, na região da Penha, um dos bairros mais antigos da capital, antigo lugar de peregrinação à igreja do século XVII que abrigava a santa padroeira da cidade. A Penha era o centro comercial para toda aquela gente que, quando era preciso “ir à cidade” (o Centro Velho), dependia exclusivamente dos ônibus que seguiam, demoradamente, pelas avenidas Amador Bueno da Veiga, Celso Garcia e Rangel Pestana.

 

Nos anos 1980 veio o metrô, que facilitou a vida dos trabalhadores e estudantes da região. Fui fazer o 2º grau no Tatuapé, e foi então que a cidade começou a se descortinar diante dos meus olhos.  Centro velho, República, Anhangabau, 24 de Maio e Barão de Itapetininga, com suas livrarias e lojas de discos, as galerias Barão e “do Rock”, os cinemas, as lojas de pedras brasileiras, os prédios da virada do século XIX para o XX.

 

Entrei na USP para estudar História e venho testemunhando da janela do ônibus as transformações da rua Augusta ao longo dos últimos 20 anos; trabalhei no Museu Paulista (vulgo Museu do Ipiranga), onde pisei pela primeira vez ainda criança, levada pelo meu pai; fiz alguns freelancers na região da Santa Cecília, Higienópolis, Perdizes e Lapa. Pesquisei nas bibliotecas da São Francisco, na Mário de Andrade, nos arquivos Municipal e do Estado, e tornei-me uma professora absolutamente apaixonada por São Paulo e sua história. Hoje, e já há alguns anos, tenho a sensação de que São Paulo precisa parar de crescer, para que a verdadeira cidadania seja conquistada por todos. Apesar de tudo, posso dizer que não saberia viver noutro lugar.

 


Cláudia Elisabete da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você mais um capítulo da nossa cidade. Mande seu texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista no Museu da Pessoa, pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Conheça outras histórias de São Paulo no meu blog, o blog do Mílton Jung