Mais uma boa história do rádio

 

Por Milton Ferretti Jung

 

‘’Estou com o seu texto editado. Amanhã publico. Espero que sempre lhe falte assunto para a coluna. Assim você encontrará espaço para estas boas histórias de rádio”.

 

Este foi o teor do e-mail que o Mílton me enviou na última quarta-feira. Na verdade, quando sentei diante do computador para redigir o texto de quinta-feira estava em dúvida: trataria de um crime praticado com requintes de crueldade num município vizinho de Porto Alegre ou escreveria uma história de rádio. Elegi – e quem me leu sabe disso – escrever acerca de uma experiência vivida por mim na época em que a Seleção Brasileira se preparava para a Copa do Mundo de 1966. Creio que não tratar, nesta coluna, de um assunto escabroso, ultimamente muito explorado por todos os veículos midiáticos, valeu a pena. E tem mais: sugestão de filho, principalmente quando este é o responsável pelo blog, o pai aceita de muito bom grado. Sei que o Mílton, pelo menos,vai gostar. Então, vamos à história.

 

O comentarista Ruy Carlos Ostermann, este seu criado e o Celso Costa, técnico de áudio e, hoje, o mais antigo funcionário da Guaíba, uma vez que começou a trabalhar nela antes mesmo da sua inauguração, fomos escalados para fazer a cobertura de uma partida de futebol, em Minas Gerais, no Estádio Raimundo Sampaio, mais conhecido como Independência. Acompanharíamos o Grêmio que enfrentaria o Atlético Mineiro. Nossa viagem começou numa terça-feira em Porto Alegre, havia uma escala no Rio de Janeiro e trocaríamos de avião, no Aeroporto do Galeão, antes de seguir para Belo Horizonte. Tivemos,entretanto, que mudar de plano. A Cidade Maravilhosa estava coberta por névoa seca e nenhum avião decolaria naquele dia. O que fazer? Escolhemos pegar o Vera Cruz, magnífico trem que saía à noite do Rio e nos levaria numa viagem agradável até a capital mineira. Viajei muito de trem, na minha infância, entre Porto Alegre e Caxias, mas sempre durante o dia. Dormir numa cabina do Vera Cruz foi uma nova experiência, que eu gostaria de repetir. Isso, porém, é impossível. O trem com esse nome e as ferrovias são coisas do passado. Lamentavelmente.

 

Chegamos a Belo Horizonte na manhã do jogo. No fim da tarde, fomos para o Independência. Na época, a operadora que nos daria (?) condições de transmitir Atlético Mineiro x Grêmio era a RADIONAL. A EMBRATEL viria bem depois. A primeira providência que a gente toma ao chegar a um estádio é instalar a aparelhagem e, isso feito, entrar em contato com a rádio. A operadora, todavia, não conseguiu estabelecer a conexão. Tentamos utilizar a onda curta de 25 metros. Começamos a temer pelo insucesso da nossa cobertura. Os times entraram em campo. Não ouvíamos a Guaíba nos nossos fones. Em tais circunstâncias costumamos ligar o microfone e, na esperança de que estejam nos ouvindo na central técnica, avisamos que, após contar até dez, abriremos a transmissão. E foi o que fizemos. Realizamos a abertura habitual, anunciando as escalações das equipes, etc. A partida começou, o primeiro tempo terminou, começou o segundo e nada de ouvir-se o retorno nos fones do que se falava no microfone. Em voo cego narrei a partida até que, quando faltavam cinco minutos para o seu encerramento eis que uma voz, ouvida pela onda curta antes silenciosa, chegou aos nossos ouvidos. Não era, porém, a minha ou a do Ruy e sim a do colega Marcos Aurélio, em plena leitura do Jornal da Noite. O nosso voo não tinha apenas sido cego, mas mudo também.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

 

N.B: Quer ler outra boa história do rádio contada pelo Milton Ferretti Jung, clique aqui

Os libertadores da América e os donos do futebol

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

Leoz, Tupac Amaro, Simon Bolivar e Teixeira

 

Quem gosta e entende de futebol identifica a real importância deste campeonato cujo nome homenageia os heróis que libertaram a América espanhola e portuguesa. E como o seu gabarito é testado anualmente pelos resultados dos confrontos com os europeus, acrescido agora dos demais continentes, não há dúvida que o campeão da Libertadores é força proeminente no cenário do futebol mundial. Exceção feita aos recentes episódios protagonizados pelo Internacional e pelo Santos.

 

Mas quem são estes Libertadores da América? São dignos desta homenagem? Oportuna pergunta no momento em que na política os presidentes atuais da Venezuela, da Bolívia, do Equador, da Argentina cerceiam a imprensa; no futebol, a FIFA é posta em cheque pelos ingleses, e o principal dirigente da CBF e do COL para a Copa 2014 pré-anuncia o seu afastamento depois de 23 anos e, em seguida, renuncia ao mesmo. Tudo por conta de denúncias de irregularidades.

 

Infelizmente há uma extraordinária coerência neste mundo da bola, pois tanto alguns dos nomes homenageados dos Libertadores da América quanto determinados cartolas atuais tem a permanência no poder como ponto em comum. Além do pioneiro José Gabriel Condorcanqui, o indígena graduado pela Universidade de San Martin em Lima, também conhecido como Tupac Amaro II, José de San Martin, Manuel Belgrano, José Miguel Carrera, José Artigas e Ramón Cadilla, os demais libertadores da América Simon Bolívar, Bernardo O’Higgins, Antonio José Sucre e D. Pedro I, estavam em sintonia com o poder e sua longevidade.

 

Simon Bolívar além de ajudar San Martin na Argentina dominou a Venezuela, Bolívia, Colômbia, Equador, Panamá e Peru, tendo sido o segundo e terceiro presidente da Colômbia, além de presidente da Bolívia e do Peru onde mudou a Constituição e se auto-nomeou presidente Vitalício. D.Pedro I cercou o Congresso e instituiu o Poder Moderador que seria exercido por ele mesmo, acima de todos os demais poderes. Bernardo O’Higgins fez com que os governadores enviassem deputados que ele tinha indicado e com um congresso de cartas marcadas renunciou, de forma que com a combinada rejeição ficou com o mandato de Diretor Supremo do Chile.

 

No futebol, a Conmebol, entidade que responde pela Libertadores da América, é presidida por Nicolas Leoz há 25 anos que além da longevidade tem em comum com os demais o gosto pelos títulos de poder e nobreza. O inglês David Triesman, ex-presidente da Federação Inglesa de Futebol acusa-o de pedir o título de Cavaleiro do Império Britânico para pagar o seu voto para que Londres fosse sede da Copa 2018.

 

No aspecto político o Brasil está tranquilo e distante de outros países latino americanos, inclusive pela análise recente de Jim O’Neil, o criador dos Brics. Trata-se do Índice de Condições de Crescimento que envolve a estabilidade política. Entretanto no âmbito do futebol é preocupante, pois as possíveis alternativas giram em torno de José Maria Marin, o apanhador de medalha, e de Marco Polo Del Nero, o protagonista do ingresso para o show da Madona que quase queima a ultima partida do principal campeonato de futebol do país.

 

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feiras no Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de São Paulo: Brincadeira de rua

 

As ruas de terra batida se transformavam em campos de futebol e para tanto bastavam alguns pedaços de pau que ganhavam o formato de gol e o desejo da criançada se divertir. É deste tempo que o ouvinte-internauta Sebastião Martins Vieira lembra em trecho do depoimento que foi ao ar no Conte Sua História de São Paulo. Seu Sebastião, pauslistano, nascido em 1941, gravou suas histórias no Museu da Pessoa.

 

Ouça a história de Sebastião Martins Vieira, sonorizada pelo Cláudio Antônio

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, a partir das 10 e meia da manhã, no CBN São Paulo. Você pode contar mais um capítulo da nossa cidade enviando texto para milton@cbn.com.br ou agendando entrevista em áudio e vídeo no site do Museu da Pessoa.

O Retiro da moda popular em São Paulo

 

Por Dora Estevam

 

 

O que diriam paulistanos que conheceram as chácaras e fazendas do Bom Retiro, no Século 19, e encontravam no local refúgio para o descanso e a tranquilidade se visitassem o bairro nos dias atuais ? Definitivamente, descansar não é mais verbo a ser conjugado por lá, haja vista o enorme movimento de pessoas nas ruas deste distrito que faz parte do centro de São Paulo – cerca de 80 mil por dia. Calcula-se que 20 ônibus chegam diariamente de diversas partes do Brasil, em especial do Sul, trazendo consumidores que se somam aqueles que vão de carro e lotam os 30 estacionamentos que têm nas proximidades. A maioria destes é revendedor e responsável por 60% das compras feitas nas lojas do bairro.

 

O que mais atrai os milhares de visitantes, além da enorme concentração de lojas – cerca de 1.600 -, são as roupas baratas que há muito tempo deixaram de ser sinônimo de baixa qualidade. Este preconceito já está fora do dicionário da moda dos lojistas. Encontra-se no Bom Retiro produtos de acabamento invejável e é clara a preocupação com relação aos tecidos e aviamentos. No setor atacadista, a maioria das empresas tem estilista própria que viaja no mínimo duas vezes ao ano em busca de novidades e tendências, no exterior. Têm ainda empresas de consultoria que prestam serviço nesta área incentivando a criatividade e inovação. Todos os dias, as grifes abastecem as vitrines com seis novas peças o que atrai mais e mais clientes e gera empregos constantemente

 

No setor atacadista a maioria das empresas tem sua estilista que viaja no mínimo duas vezes por ano ao exterior em busca de novidades e tendências internacionais, além das empresas de consultoria que prestam serviços nesta área. Todos os dias tem novidade nas lojas, cada grife produz cerca de 6 peças novas por dia o que atrai mais e mais clientes, e também gera empregos constantemente – são 50 mil empregos diretos e 30 mil, indiretos. Um dos sinais de que os fabricantes estão conectados com o que há de mais novo é o surgimento de confecções preocupadas com a questão da sustentabilidade, caso da ADJI- Menswear.

 

Antenados, muitos lojistas desenvolveram sistemas de e-commerce, apesar de o maior sucesso ainda ser o telemarketing. Como as vendedoras conhecem o tipo de produto que atendem as necessidades de seus clientes, assim que chegam novos modelos elas entram em contato e, por telefone mesmo, fecham o negócio , sendo a mercadoria enviada pelo correio – 55% da moda feminina do Brasil saem do Bom Retiro. Os fabricantes da região faturam perto de R$ 3,5 bi por ano.

 

Um dos desafios dos empresários da região é com a manutenção do bairro e para que os problemas sejam resolvidos mais facilmente a Associação dos Lojistas do Bom Retiro têm mantido diálogo permanente com a prefeitura. Um dos resultados desta conversa foi a coleta de lixo pela manhã que impede o acúmulo de sacos com retalhos que antes acabavam abertos por catadores e se espalhavam pelas ruas. As calçadas são pouco confortáveis para o passeio, pois além da multidão que procura as lojas também existe uma série de barreiras como os postes de iluminação. Para amenizar este cenário, a Eletropaulo está fazendo o aterramento da fiação e os dois primeiros quarteirões do bairro já estão com energia sendo transmitida por baixo das vias. O custo para esta primeira parte da obra foi assumido pela Associação que agora espera que a prefeitura assuma seu compromisso e financie o restante do projeto. De acordo com informações da Subprefeitura da Sé ainda é preciso abrir o processo de licitação. A segurança melhorou um pouco com a Operação Delegada, da Polícia Militar, que reforçou o policiamento na região, mas muitas lojas ainda preferem manter equipe própria de vigilância.

 

Ufa! Se só de ler todos os aspectos que envolvem o Bom Retiro já dá fome, imagine caminhar por lá. Para matar a fome também não falta estrutura, são mais de 52 restaurantes, bares e lanchonetes para atender os visitantes. E com uma área dominada por coreanos – na maioria -, judeus, italianos e gregos, é possível imaginar a variedade de comidas. A culinária grega e italiana são minhas prediletas. Para você aproveitar melhor todo este espaço e não se perder na multidão, separei alguns endereços de lojas do atacado e do varejo. Aproveite o máximo e depois deixe aqui outras sugestões do Bom Retiro:

 

Jeans
Atacado: Di Collani – Rua Prof. Cesare Lombroso, 259 lj.,21 – 3224.0166
Varejo: Loony – Rua Jose Paulino, 190 – 3334.2050

 

Tricô
Atacado: Modelan – Rua da Graça, 42 – 3333-2193
Varejo: Rua Jose Paulino, 256  – 3223-7711

 

Camisaria
Atacado: Umen – Rua Jose Paulino, 140 – 3221-3203
Varejo: Fascynios – Rua da Graça, 450 – 3333-2000

 

Terninho
Atacado: Seiki – Rua Aimores, 143 – 3225-9214
Varejo: Karmiss – Rua Jose Paulino, 210 – 3331-6059

 


Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida, aos sábados, no Blog do MÍlton Jung

Rua Augusta e a Moda

 

Carlos Magno Gibrail

 

 

São Paulo assistiu à plenitude da Rua Augusta nos preparativos para a festa de Natal de 1973. A Lage & Damman, agência dos premiados publicitários Ronie Lage e Hans Damman exibia uma de suas artes ao acarpetar o asfalto para a campanha natalina com a frase: “O nosso visitante é tão ilustre que acarpetamos a rua”. Enquanto saudavam Cristo, personalidades da época eram frequentadores assíduos. Roberto Carlos, Wilson Simonal, Ronie Cord, Wanderléa, Ronie Von e Hervé Cordovil, autor da música “Rua Augusta”.

 

Definitivamente era um shopping center ao ar livre, pelas lojas de marcas famosas de moda, pelos restaurantes e lanchonetes, pelos cinemas e, principalmente, pela gente que circulava. Sem falar no auge dos sábados à noite, na tradicional subida e descida dos carros à procura de companhia, que sempre era recompensada.

 

A Augusta tinha desbancado a Rua Barão de Itapetininga, ícone da moda nas décadas de 50 e parte de 60, que abrigou a Casa Anglo Brasileira, posteriormente Mappin; a Galeria Califórnia projetada por Niemayer, local onde circulavam os astros do cinema nacional como Helio Souto e Aurora Duarte, que gravavam nos estúdios da Vera Cruz; e uma série inigualável de tradicionais lojas de moda.

 

A migração das butiques multimarcas da Barão de Itapetininga para a Rua Augusta, talvez para se aproximar dos moradores dos jardins, ou para centrarem as ofertas de moda em local mais nobre, fortaleceu a imagem da região. Além das lojas, incluindo a Galeria Ouro Fino, tínhamos o Ca’d’Oro primeiro hotel de luxo da cidade, que hospedou reis e presidentes, inclusive com a frequência de Tom Jobim, apreciador de seu restaurante com o especial Bolito servido pelo competente Ático, e a mesa permanentemente reservada aos Ermírio de Moraes; o sorvete de pistache da Bologna; o cine Astor com as imensas poltronas; a lanchonete Longchamps com um choppinho recomendável; o Frevinho com o insuperável beirute; o Flamingo do sorvete com farofa; e o Yara dos chás da tarde. Além de alfaiates e camiseiros dos mais habilitados.

 

A força como centro comercial de moda e de diversão para a classe abastada da cidade era tanta que os lojistas da Augusta não se interessaram pelo pioneiro projeto de Alfredo Mathias, que em 1966 abrira o Shopping Center Iguatemi, o primeiro no Brasil. A tal ponto que de forma pouco sagaz anteviam o insucesso para o empreendimento de Mathias: “Como alguém poderá encontrar prazer em comprar em um caixote fechado?”.

 

Talvez por isto, mas também pela crescente implantação de locais de diversões noturnas de menos qualificação, principalmente na parte mais central, as ruas transversais como a Oscar Freire, a Lorena e a Haddock Lobo começaram a receber novas lojas de moda. Já dentro dos modernos sistemas de monomarcas. Surgiram também as primeiras grifes internacionais.

 

Ao iniciar a década de 80, com a valorização das lojas de marca única e o avanço das marcas internacionais, o Shopping Iguatemi foi roubando o status da Rua Augusta. A excelência em Moda ganhava um novo endereço. O Iguatemi passava a receber a atenção da classe A de São Paulo, do Brasil e de todo o mundo. Hoje, boa parte dos grandes nomes da Moda está presente no Iguatemi, que embora no topo, divide as honras com a Rua Oscar Freire, o Shopping Cidade Jardim, e já esteve em ferrenha disputa com a Daslu.

 

À Rua Augusta resta esperar uma recuperação que São Paulo com toda sua pujança econômica ainda não viu. A cidade consegue reavivar o Mercado Municipal, a estação Sorocabana, a estação da Luz, mas quando depende da ação geral descarta o antigo e parte para o novo.

 

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas, no Blog do Mílton Jung

 

Conte Sua História de SP: Zuzu e Darwin

 

No Conte Sua História de São Paulo, Zuleide Oliveira Monteiro de Castro, nascida em 1948, na capital. Aos 12 anos conheceu o amor da sua vida. Eles quase dançaram juntos na festa junina da segunda série, mas alguém se intrometeu no romance, como ela contou ao Museu da Pessoa, em outubro de 2008:

Ouça o texto que foi ao ar no Conte Sua História de São Paulo, sonorizado pelo Cláudio Antonio

Fui da primeira turma da Escola Estadual Wolny de Carvalho Ramos, em 1958, quando da expansão do ensino no estado de São Paulo. O velho Wolny chamava-se Ginásio Estadual de Água Rasa e funcionava à noite no prédio do Grupo Escolar Professor Theodoro de Morais. Naquele tempo a escola era bem diferente. Embora mista, os meninos e as meninas não se comunicavam, ficavam segregados, meninas de um lado e meninos do outro de uma linha imaginária, mas muito respeitada, que dividia o pátio. Na sala de aula? Conversas? Nem pensar.

Com 12 anos eu já estava na segunda série do ginásio e estudava à noite! Havia um loirinho, lindo, de olhos azuis, na minha turma, que por sorte era mista. Eu o achava o máximo! Apesar de só olhar de longe e quase não ouvir a sua voz, pois era tímido e ficava absolutamente calado durante todas as aulas. A distribuição da sala de aula era assim: por ordem alfabética, quase duas fileiras de meninas. Eu lá, na última carteira de meninas, ao lado da Zilda. Atrás de nós sentava o Constantino e isso nos proporcionava a oportunidade de trocar umas palavrinhas e uns bilhetinhos com ele e seu parceiro. As carteiras, antigas, eram duplas.

Constantino, esperto como ele só, logo percebeu o meu interesse pelo Darwin, o loirinho de olhos azuis, e resolveu dar uma de cupido. Tentou marcar um encontro entre nós no Cine Vitória, lá na Álvaro Ramos, mas o cinema era um pouco longe da minha casa, o dinheiro era curto, e papai muito severo. Então, não deu certo.

Começou então a brincadeira. No início das aulas ele passava um bilhetinho: “O Darwin é casado”. No segundo, escrevia: “O Darwin é casado e tem um filho”. No terceiro: “O Darwin é casado e tem dois filhos”. E assim, sucessivamente. Ao final da quinta aula, o meu loirinho já tinha mais de 50 filhos, segundo as notícias do colega casamenteiro. Ríamos como só riem os adolescentes.

Mas, de repente… chega a grande oportunidade. A Professora Cida, de Português, prontificou-se em ensaiar a quadrilha para a Festa Junina. O Constantino seria o sanfoneiro, o que lhe deu um certo prestígio com a nossa mestra.

–- Professora, será que a Zuzu (esse era o meu apelido, como mascotinha da turma) poderia dançar com o Darwin?

Dona Cida, uma mocinha muito “pra frente”, topou na hora. Os ensaios eram aos sábados, no galpão, atrás da escola. Constantino no fole:

((Taratantan-tan-tan-tan. Taratantan-tan-tan-tan… Taratantan-tan-tan-tan, ra-ta-tan-tan-tan… ))
 
O baile na roça foi até o sol raiar… O loirinho, do alto de seu metro e sessenta, dançou o tempo todo calado, olhando por cima da minha cabecinha oca de menina. Não trocamos uma palavra sequer. Mas foi ótimo, não via a hora de chegar o próximo sábado para dançar com aquele garoto tão lindo!

No dia da festa eu estava uma maravilha, vestido estampado de florzinhas vermelhas, chapéu de palha com laço de fita, batom vermelho nos lábios e até uma pintinha feita com carvão na bochecha, para ficar bem catita. Ensaiei o dia inteiro o que iria falar para não perder a última chance de conversar com meu amado. Meus olhos brilhavam mais que a lua de inverno. Não é que a Lúcia, uma coleguinha bem mais velha e, portanto, bem mais alta, chegou na festa toda arrumadinha e sua mamãe foi pedir à professora Cida que ela participasse da quadrilha:

–- Sabe, professora, minha filha não veio aos ensaios porque ela me ajuda no salão. E a senhora sabe como é o movimento no fim de semana…

O pedido viera a calhar. Estava faltando uma dama para o terceiro par da fila, um garoto baixinho, que eu já nem lembro quem era, mas sei que era quase do meu tamanho. Foi quando aconteceu o pior: lá fui eu dançar com o nanico e a Lúcia saiu pelo terreiro nos braços do meu loirinho. Perdi a última oportunidade. Era junho, mas aquele namoro às antigas não conseguiu evoluir até o final do ano. O Darwin repetiu e eu fui para a terceira série.

Estamos em agosto de 2008, e enquanto digito este texto, o Darwin está dando mamadeira para uma das minhas netinhas gêmeas, de três meses. Ele é meu marido desde 1994. Como isso aconteceu? Isto é uma outra história de São Paulo. Ah, um detalhe: ele já não é tão alto assim ..

Conheça a segunda parte desta história aqui

O depoimento de Zuleide Oliveira Monteiro de Castro está no Museu da Pessoa. Você também pode contar mais um capítulo da sua cidade. Marque uma entrevista ou envie um texto para o site do Museu da Pessoa. Se quiser mande o texto para mim: milton@cbn.com.br, vou ficar bem feliz de conhecer a sua história.

Jânio da Silva Quadros e o marketing político

 

Por Nelson Valente
Professor universitário, jornalista e escritor

As peças publicitárias de caráter oficial apresentavam o candidato numa postura mais séria, em estilo tradicional, com cabelos penteados e roupas alinhadas. Já as peças publicitárias produzidas por simpatizantes demonstram um Jânio carregado de traços regionais, incorporando costumes e tradições das várias regiões do país em estilo bem populista. É o caso da capa de um pequeno livro, sem referência do local, mas pelas características da figura produzido a partir de um personagem típico do nordeste: o cangaceiro. Na animação é mostrada uma charge de Jânio com a barba por fazer, bigode desalinhado, olhos arregalados, usando um chapéu de cangaceiro e tocando uma sanfona. Logo abaixo vem a mensagem: “Ó xente! O povo falou tá falado!”.

Nas várias regiões do país o povo construía a imagem de JQ a sua maneira, as habilidades físicas e sensitivas do candidato produziam várias imagens no receptor que, de alguma forma, encontravam ressonância no povo. Ele soube compreender as tradições regionais do país e aplicá-las adequadamente conforme a sua intuição. Na propaganda soube, a partir de São Paulo, se desdobrar em vários “jânios” pelo resto do país, nunca perdendo a individualidade, mas incorporando outras características conforme os contrastes regionais.

A propaganda política de JQ em 1960 demonstrou que não se pode impor um estilo pasteurizado de valores e conceitos pré-estabelecidos. Mas que as referências devem ser trabalhadas considerando os diversos aspectos culturais, de modo a estabelecer uma relação entre o nacional e o local. O reforço e a solidificação de valores e atitudes foram explorados em detrimento da imposição de novos estilos. Entre os discursos de campanha, comia sanduíches de mortadela e pão com banana, numa tentativa de identificar sua imagem com o eleitorado mais pobre. Jânio procurou sempre se diferenciar dos outros políticos. Vestia roupas surradas, usava cabelos compridos, deixava a barba por fazer, os ombros cheios de caspa e exibia caretas aos fotógrafos.

Sua sintaxe era um caso à parte. Em seus discursos procurou sempre utilizar um vocabulário apurado, recheado por frases de efeito. É um enigma saber como conseguia se comunicar de forma eficiente com seus eleitores, a maioria sem instrução escolar.

Chefe do Executivo fosse municipal, estadual ou federal, o autoritarismo e o carisma foram seus traços característicos. Seus bilhetinhos, com ordens a subordinados, se tornaram célebres.

Segundo seus adversários, Jânio sempre demonstrou desprezo pelos partidos e pelo Poder Legislativo. Ao longo de sua carreira, trocou de legenda sucessivamente. Essas demonstrações de força aumentaram sua popularidade junto a diversos segmentos do eleitorado. Jânio parecia diferente dos outros políticos.

Eleito pela Segunda vez prefeito de São Paulo, em 1985, seu primeiro ato ao tomar posse, em 1º de janeiro de 86, foi desinfetar a cadeira de seu gabinete. Alguns dias antes da eleição, seu adversário de campanha, Fernando Henrique Cardoso, candidato do PMDB, ocupou a cadeira para ser fotografado pela imprensa.

J.Quadros, vereador

A imagem política de J.Quadros foi sendo composta associando-se modernização à eficiência da administração pública. Ele se apresentava como um político novo e refazendo a liguagem política no Brasil, com práticas voltadas para critérios impesssoais e na defesa da racionalização do Estado.

J.Quadros, deputado estadual

Para essa campanha  confeccionou cartazes com a frase: ” Jânio pede o seu voto ” e contou com simpatizantes para distribuí-los no interior do Estado de São Paulo. E como deputado, sempre defendendo o direito do consumidor.

J.Quadros, campanha à prefeitura de São Paulo

Surgiu um dos mais expressivos slogans de sua carreira política: ” A revolução do tostão contra o milhão” . Simbolizava a luta de um candidato humilde, sem o apoio da máquina política.
 
 
Em se tratando de simbologias, o maior símbolo politico de J.Quadros: A VASSOURA ( criação de Eloá do Valle Quadros, esposa de JQ). Ela se tornaria a maior referência eleitoral de sua carreira política e colaboraria para projetar JQ para as classes mais abastadas.

J.Quadros, campanha ao governo de São Paulo

Surge em sua campanha o seguinte slogan: ” Honestidade e Trabalho “. Na realidade JQ se apresentou novamente como um candidato pobre, de saúde combalida. Seu perfil magro lembrava um sujeito mal-alimentado. O jingle “Varre, varre, varre, vassourinha…” para a campanha política de Jânio Quadros a Governador de São Paulo, em 1954.

Os bilhetinhos de JQ foram uma excelente estratégia política para o governador atrair a imprensa, sem pedir que ela o procurasse.

Jânio – Deputado Federal


 
JQ lançou-se candidato a deputado federal pelo Paraná pelo PTB, em 1958. Venceu com a maior votação do Estado e passou a ocupar os dois cargos simultaneamente.

Jânio – Presidente da República

Nascia o MPQ – Movimento Popular Jânio Quadros – Slogan : ” Jânio vem ai ! (Ilustração que abre este artigo)). Vendas de botons e vassorinhas no famoso livro de Ouro. O jingle “Varre, varre, varre, vassourinha…” para a campanha política de Jânio Quadros à presidência da república, popularizando em nível nacional.

O jingle musical sobre a vassourinha de Jânio se popularizou muito na campanha presidencial de 1960, a ponto de surgirem pelo país compositores que produziram outras marchinhas e canções em oferecimento ao candidato J.Quadros. Em algumas ocasiões os autores mandavam as partituras para os coordenadores da campanha avaliarem se era possível transformá-las em material de campanha. As letras também endossavam as mensagens ideológicas de outras peças publicitárias. 



Museu da Pessoa, há 20 anos registrando história

 

O Museu da Pessoa é parceiro da Rádio CBN no programa Conte Sua História de São Paulo, há dois anos. A instituição que tem o maior acervo de histórias pessoais do país registra depoimentos de cidadãos em áudio e vídeo, além de desenvolver uma série de projetos voltado a memória das pessoas que, em seu conjunto, contam a nossa história. O Museu, assim como a CBN, completa 20 anos de existência.

Para participar do Conte Sua História de São Paulo você pode mandar um texto para milton@cbn.com.br ou agendar uma entrevista em áudio e vídeo no Museu da Pessoa.

Conte Sua História de SP: Cunha Lima e a cultura

 

No Conte Sua História de São Paulo, o poeta, jornalista e escritor Jorge da Cunha Lima fala de sua íntima relação com a cidade. A família sempre lidou com fazendas de café no interior. Mais tarde, o avô trouxe todos para morarem em São Paulo, na Aclimação, bairro que na época concentrava funcionários públicos graduados e alguns milionários. Lá, o garoto teve o gosto pela arte e pela cultura despertado ao acompanhar a avó ao piano.

Neste depoimento gravado pelo Museu da Pessoa, Cunha Lima, ex-secretário de Cultura do Estado de São Paulo, lembra como foi a educação no colégio São Bento e curiosidades do Largo São Francisco.

Ouça o depoimento de Jorge da Cunha Lima, sonorizado pelo Cláudio Antonio, que foi ao ar no Conte Sua História de São Paulo

Conte você, também, mais um capítulo da nossa cidade. Envie um texto ou agende uma entrevista em áudio e vídeo no site do Museu da Pessoa. O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP.

Conte Sua História de SP: Minha biblioteca

 

Paulo Pina

No Conte Sua História de São Paulo, Paulo Pina, 48 anos, nascido na capital, criado na zona leste e apaixonado pela cultura. Ele sonhava ser jornalista, mas ao conhecer a jovem Irene descobriu às artes. Formado em biblioteconomia, hoje é responsável pelo Museu Lasar Segall, uma relação que se iniciou na primavera de 1985 e foi contado em mais um capítulo da nossa cidade, em depoimento ao Museu da Pessoa:

Ouça o depoimento de Paulo Pina gravado pelo Museu da Pessoa, sonorizado pelo Cláudio Antônio e editado pela Juliana Paiva

Participe do Conte Sua História de São Paulo. Envie um texto para milton@cbn.com.br ou agende entrevista em áudio e vídeo no site do Museu da Pessoa. Este programa vai ao ar, aos sábados, logo após às dez e meia da manhã, no CBN SP.