A IA pode substituir o psicoterapeuta?


Por Beatriz Breves

óculos, celular no app do chatgpt, inteligência artificial
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A pergunta parece simples, mas toca em uma das questões mais profundas do nosso tempo. À medida que a inteligência artificial se torna mais sofisticada, cresce também a impressão de que ela poderia substituir atividades que, até pouco tempo, eram consideradas exclusivamente humanas.

A IA já consegue identificar padrões de linguagem, reconhecer emoções expressas no discurso, formular hipóteses interpretativas e até conduzir diálogos que, muitas vezes, parecem acolhedores e reflexivos. Está disponível a qualquer hora, responde sem julgamento aparente, possui acesso instantâneo a uma quantidade imensa de informações e não sofre os limites do cansaço ou da distração.

Diante disso, a pergunta que surge naturalmente é: seria possível substituir o psicoterapeuta por uma inteligência artificial?

A resposta exige compreender que a psicoterapia não se reduz a conselhos, interpretações ou à organização racional dos pensamentos. Ela é, antes de tudo, uma experiência de encontro. Um espaço relacional no qual uma pessoa pode entrar em contato consigo mesma por meio da presença de outra pessoa.

O que a IA já é capaz de fazer

Cabe aqui uma observação. A qualidade de um processo terapêutico não depende apenas da abordagem utilizada, mas também da formação, da experiência e da capacidade de escuta de quem o conduz. Existem profissionais altamente qualificados e pessoas que, após formações muito breves, oferecem atendimento clínico sem a preparação necessária para lidar com a complexidade do sofrimento humano.

Nesses casos, é possível que uma inteligência artificial, alimentada por um amplo conjunto de conhecimentos psicológicos e disponível continuamente, ofereça reflexões mais consistentes do que aquelas produzidas por profissionais insuficientemente preparados. Isso, porém, não diminui a importância da psicoterapia. Ao contrário, evidencia o quanto a formação, a supervisão clínica, a experiência pessoal de análise e o treinamento contínuo são fundamentais para o exercício responsável da profissão.

Digo isso porque a mudança terapêutica não ocorre apenas porque alguém recebe informações sobre seus problemas. Ela acontece porque determinados aspectos da experiência humana só se tornam acessíveis dentro de uma relação. É no encontro com o outro que percebemos padrões que, sozinhos, não enxergamos, reconhecemos sentimentos que evitávamos sentir e construímos novas formas de compreender nossa própria história.

O psicoterapeuta escuta não apenas o que é dito, mas também aquilo que se manifesta nas pausas, nas repetições, nas contradições, nos silêncios e nos afetos. Muitas vezes, a transformação não resulta de uma fala brilhante, mas da experiência de ser acolhido, compreendido e reconhecido por outro ser humano.

De fato, na psicoterapia, o próprio psicoterapeuta torna-se um instrumento de compreensão do outro, pois, na relação terapêutica, tudo aquilo que sente pode constituir um dado importante para compreender a comunicação que está sendo estabelecida. Daí a necessidade de anos de estudo, supervisão, psicoterapia e treinamento.

Às vezes, uma narrativa aparentemente tranquila desperta tristeza; outras vezes, um relato de sofrimento provoca estranhamento ou até uma sensação inesperada de leveza. Há momentos em que o paciente sorri enquanto comunica algo doloroso ou chora ao falar de algo que parece não lhe causar sofrimento. Tudo isso comunica.

Os afetos que emergem no terapeuta não são, necessariamente, respostas pessoais; muitas vezes, fazem parte da própria dinâmica relacional que se estabelece no encontro terapêutico. Por isso, a formação e a experiência pessoal de psicoterapia são fundamentais. Ao conhecer melhor seus próprios conflitos, limites e sensibilidades, o terapeuta torna-se mais capaz de distinguir aquilo que lhe pertence daquilo que emerge da relação com o paciente. Assim, pode envolver-se profundamente com o sofrimento do outro sem confundir-se com ele, transformando sua própria experiência emocional em um instrumento a serviço da compreensão e do cuidado.

O que acontece em uma relação terapêutica

A relação terapêutica é construída ao longo do tempo. Ela envolve confiança, vínculo, frustrações, descobertas, resistências e transformações. Não se trata apenas de um processo cognitivo, mas de uma experiência humana compartilhada. Em muitos casos, é justamente essa experiência relacional que promove mudanças profundas.

Isso não significa que a inteligência artificial não tenha valor. Ao contrário. Ela pode oferecer informações, auxiliar na organização de pensamentos, estimular reflexões, sugerir perspectivas diferentes e funcionar como um recurso acessível para quem busca compreender melhor a si mesmo. Em muitos contextos, pode representar um importante instrumento de apoio emocional e de ampliação do acesso ao conhecimento psicológico.

Entretanto, existe uma diferença fundamental. A inteligência artificial pode processar informações sobre a experiência humana, mas não possui experiência humana. Não sente medo, amor, perda, esperança ou sofrimento. Não atravessa conflitos existenciais. Não se transforma a partir do encontro com o outro.

É justamente nessa dimensão que a psicoterapia encontra uma de suas bases mais importantes. O psicoterapeuta não é apenas alguém que compreende teoricamente o sofrimento. É alguém que também participa da condição humana. Sua escuta é atravessada pela própria experiência de viver, sofrer, desejar, perder e transformar-se.

Talvez a questão mais importante não seja saber se a IA pode substituir o psicoterapeuta, mas compreender como ela pode contribuir para o cuidado psicológico. Ela pode tornar-se uma ferramenta valiosa de apoio, reflexão e autoconhecimento. Pode complementar processos terapêuticos e ajudar muitas pessoas a iniciar uma jornada de compreensão de si mesmas.

A psicoterapia, porém, em seu sentido mais profundo, continua sendo uma experiência humana. Uma experiência construída no vínculo, na presença, na confiança e na possibilidade de um ser humano encontrar a si mesmo por meio do encontro com outro.

Por mais sofisticada que seja uma tecnologia, ela ainda não ocupa o lugar de uma presença humana genuína. Talvez isso nos lembre de algo essencial: existem experiências cuja força não está apenas na informação que recebemos, mas na relação que nos transforma.

Na psicoterapia, a mudança não nasce apenas do que é dito, mas do que é sentido. É preciso sentir para mudar. O silêncio, a hesitação, um sentimento que surge sem nome, um afeto que atravessa a relação e encontra acolhimento: tudo isso comunica. E é justamente nessa linguagem dos afetos que a presença humana continua sendo insubstituível.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

Sobre o sentimento de mãe

Por Beatriz Breves

Foto de Ann Bugaichuk on Pexels.com

Sentir mãe é experimentar uma constante fonte de inspiração. E não estou falando da maternidade enquanto genética ou mesmo da maternidade escolhida, mas de um sentimento visceral, aquele que emerge de nossas entranhas e faz nascer e renascer.

De fato, falar do sentimento de mãe é falar do que é genuíno em nossa origem, visto que o primeiro instante de nossa existência, aquele que gera o fruto que servirá de base para o que iremos nos tornar, é vibrado no interior de uma fêmea. Interior que, independentemente de ser humano ou animal, se faz encantado e encantador.

Falar do sentimento de mãe é dizer a maestria de um sentimento que, apesar do medo, se realiza na entrega da doação.

Sendo na permanência, o sentimento de mãe, mesmo transitando nas frestas do mistério, gradualmente, vai se revelando por meio de uma força que se autoperpetua chamada VIDA.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Um novo ano, menos digital e mais humano

 

Por Ricardo Ojeda Marins

 

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Já estamos em 2016. Quantos de nós não recebemos mensagens de Boas Festas no fim do ano? Talvez todos nós. E percebi com mais nitidez uma diferença em relação ao ano passado. É incrivelmente espantoso como as pessoas cada vez mais utilizam-se das ferramentas online de forma impessoal.

 

Pelo aplicativo WhatsApp – sim, aquele que parou o Brasil no dia em que foi bloqueado pela justiça – recebi mensagens “copiadas” e “coladas” de Feliz Natal e Ano Novo. Mensagens grandes, muitas até mesmo lindas, reflexivas… mas sem sequer deixar o destinatário saber se era mesmo pra ele. Dá a sensação, óbvia eu diria, de que foi uma mensagem de uma lista de outros infinitos destinatários.

 

Isso mostra algo que já sabemos e é até lugar comum: as pessoas têm menos tempo e tentam otimizá-lo.

 

Claro que temos de otimizar nosso tempo; mas neste processo tem de se priorizar as pessoas. Por que não? Será que não vale mais a pena enviarmos uma mensagem dirigida para aquelas poucas pessoas que fazem a diferença na nossa vida? Ou por que não usar uma outra forma de mostrar que se lembrou dela? Me parece um comportamento que seria mais educado e elegante, além de, claro, verdadeiro, com real sentimento!

 

O mundo digital nos ajuda no cotidiano, nos conecta, nos aproxima, nos coloca em contato com pessoas que estão longe. Mas não podemos abrir mão do contato mais humano e pessoal, mesmo quando este ocorre através das ferramentas disponíveis.

 

Amizades, namoros, laços de família podem e devem fazer parte deste novo mundo. Não dá é para viver sem que essas relações ocorram também no “mundo real”. Afinal, toda essa tecnologia foi criada por nós, humanos. E assim devemos ser!

 

Ricardo Ojeda Marins é Coach de Vida e Carreira, especialista em Gestão do Luxo pela FAAP, Administrador de Empresas pela FMU-SP e possui MBA em Marketing pela PUC-SP. É também autor do Blog Infinite Luxury e escreve às sextas-feiras no Blog do Mílton Jung.

 

A imagem que ilustra este post é do álbum de Kira Okamoto, no Flickr

Mundo Corporativo entrevista Frederico Porto sobre como estar pronto para mudanças na carreira

 

 

“Não tem como a empresa garantir que ele vai estar naquele lugar para sempre, entendendo isso todos nós temos de ter uma perspectiva de médio, longo prazos de onde queremos chegar, quais etapas queremos galgar, e temos de ter a capacidade de lidar com as mudanças nas várias fases pelas quais vamos passar”. A sugestão é do médico Frederico Porto, entrevistado pelo jornalista Mílton Jung, no programa Mundo Corporativo, da rádio CBN. Porto é psquiatra, nutrólogo e professor convidado da Fundação Getúlio Vargas (SP) e da Fundação Dom Cabral (BH). Na entrevista sobre gestão do capital humano, ele traça características do comportamento de executivos dentro das empresa e como os profissionais devem se preparar para as mudanças que são inevitáveis na carreira.

 

O Mundo Corporativo vai ao ar, às quartas-feiras, 11 horas, e pode ser assistido, ao vivo, no site da Rádio CBN (www.cbn.com.br). Os ouvintes-internautas participam com perguntas enviadas pelo e-mail mundocorporativo@cbn.com.br e pelos Twitters @jornaldacbn e @miltonjung (#MundoCorpCBN). O programa é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN.

SOS Casas

 

Por Carlos Magno Gibrail

Há cem anos, a Cia. City iniciava um novo conceito urbanístico para as cidades de Londres e São Paulo: “Harmonizar o urbano com o humano”. Era a ideia da cidade jardim, onde o homem pudesse viver em residências construídas em ruas exclusivas, que limitassem pelo seu traçado o tráfego de veículos. Assim surgiu, vigoroso e formoso, o Jardim América na capital paulista. Pacaembu, Alto de Pinheiros e, posteriormente, Morumbi receberam o mesmo tratamento urbanístico.

Primeiro o automóvel, o inimigo aparente, depois o crime inimigo transparente e, agora, a especulação imobiliária, inimiga camuflada, são as grandes ameaças ao protótipo original. A novidade mais recente: o apoio da mídia. Talvez até com lobby e patrocínio das construtoras e imobiliárias paulistanas.

A revista Veja São Paulo do dia 30 não se fez de rogada e com a manchete “Duro de vender” utilizou duas páginas a dedurar com fotos algumas residências “invendáveis”. Uma delas há dez anos à venda. A segurança é um dos fatores determinantes alegados pela reportagem. O Estadão de domingo não deixou por menos e atacou de caderno imobiliário: “Preço de casa de alto padrão despenca”. Alegando que o alto custo de manutenção e as ondas de assaltos são as causas da queda.

Entretanto, toda esta cantoria está mais para o fator COPA 14 do que para uma abordagem policial.

De um lado, o aspecto da segurança é efetivamente crescente. Porém não é exclusivo de casas em bairros residenciais. Edifícios e condomínios horizontais apresentam conhecidas vulnerabilidades.

De outro lado, é visível a carência de áreas na capital para novos empreendimentos verticais ou mesmo horizontais. Os tão “populares” condomínios de luxo. Galinha dos ovos de ouro dos construtores da cidade.

Igualmente, o cidadão urbano atual, tende a se enclausurar cada vez mais em condomínios e abdicar do “urbano humano” preconizado pelos ingleses da Cia. City.

A continuar nesta tendência, São Paulo abdicará da ultima área verde, mantida pela região residencial. Com o apoio das incorporadoras, do governo, da população cada vez mais urbana e menos humana. E com o meu protesto. Aqui e agora.


Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung