Robôs em alta, CEOs em baixa e o Brasil mal consegue ler o manual

Receber um bilhete com instruções simples ou calcular o troco de uma compra é um desafio para 29% dos brasileiros. Essa parcela da população, mesmo sabendo ler, não compreende frases mais longas, não interpreta textos, nem resolve problemas básicos de matemática. O dado, que informei hoje cedo no Jornal da CBN, a partir de reportagem do UOL Educação, mostra que o analfabetismo funcional permanece estagnado no Brasil desde 2018. Pior: só 1 em cada 4 brasileiros tem habilidades digitais consideradas elevadas.

Essas estatísticas preocupam diante do futuro do mercado de trabalho, que talvez chegue antes de estarmos preparados. E não virá com o aviso de “última chamada” para quem ainda não se alfabetizou digitalmente ou sequer consegue navegar com desenvoltura em um texto.

Tem emprego para robôs

Por uma dessas coincidências propositalmente provocadas pelos editores — jornalista é para essas coisas —, os dados do Indicador de Analfabetismo Funcional antecediam duas outras notícias na newsletter Espresso. Uma delas, originalmente publicada no Axios e com complemento no Business Insider, mostrava que o cenário industrial aponta para uma transformação já em curso: robôs humanoides e máquinas inteligentes estão assumindo tarefas antes feitas por pessoas — da montagem de peças à inspeção de qualidade em linhas de produção. Não pedem aumento, não entram em férias, não exigem plano de saúde. A economia para empresas é tão atrativa que, segundo estimativas, só no setor automobilístico a mão de obra automatizada pode gerar uma economia de até US$ 100 por carro.

Até 2030, cerca de 20 milhões de empregos industriais devem ser substituídos por robôs. E até 2050, o mundo poderá conviver com 1 bilhão de robôs em operação — a maioria dentro de fábricas. Essa mudança é inevitável. Mas não necessariamente é ruim para quem estiver pronto para comandar as máquinas, em vez de ser por elas substituído. Se você tem medo de ser trocado por um robô, talvez devesse começar a pensar em como se tornar o chefe dele. Tem vaga!

O cargo mais desejado está vago

Enquanto postos operacionais desaparecem, algo curioso acontece no topo da hierarquia corporativa — e esse era o tema da outra reportagem que me chamou atenção no Espresso: há vagas sobrando para o cargo de CEO. De acordo com o Wall Street Journal, em 2024, um número recorde de 2.220 executivos-chefes deixaram seus postos em empresas americanas com mais de 25 funcionários. Entre as empresas de capital aberto, foram 373 renúncias — 24% a mais que no ano anterior.

Os motivos vão além da remuneração. Mesmo com salários médios de US$ 16 milhões ao ano, muitos líderes decidiram trocar a sala de reuniões pelo tempo com a família, descanso ou, simplesmente, saúde mental. A pressão das mudanças pós-pandemia, o avanço da inteligência artificial, novas demandas por diversidade e o risco constante de exposição pública fizeram do cargo dos sonhos um lugar evitado até por quem chegou lá.

O curioso é que essa debandada não tem sido acompanhada por uma fila de sucessores prontos. Profissionais mais jovens, especialmente da Geração Z, não compartilham a ambição de escalar a pirâmide corporativa. Arrisco pensar que os velhos executivos e os novos profissionais fogem daquele que é o maior desafio dos líderes modernos: gerenciar seres humanos e suas idiossincrasias. Isso abre uma lacuna real e simbólica: os robôs sobem nas engrenagens da produção; os humanos descem — ou saem da fila antes de chegar.

O Brasil tropeça no alfabeto

É nesse ponto que voltamos ao Brasil, onde quase três em cada dez adultos não têm domínio suficiente de leitura e matemática para lidar com exigências básicas da vida cotidiana; onde apenas 6 em cada 10 universitários conseguem compreender textos complexos; onde a pandemia agravou ainda mais o distanciamento entre o discurso de inovação e a realidade da educação básica; e onde apenas um quarto da população é capaz de usar com desenvoltura ferramentas digitais — um pré-requisito elementar para ocupar os cargos que restarão ou que surgirão.

Enquanto, nos Estados Unidos, empresas tentam encontrar alguém disposto a liderar times humanos e tecnológicos, por aqui, boa parte da população ainda precisa ser equipada com o básico para se manter no jogo.

Antes de sonhar com o comando, leia o manual

O futuro do trabalho não é um conceito abstrato. Ele está nos robôs invisíveis das fábricas, nas renúncias silenciosas dos líderes, nos formulários que muitos brasileiros não conseguem preencher. Preparar-se para ele exige mais do que cursos de liderança ou promessas de inovação. Exige, antes, enfrentar o analfabetismo funcional — e dar às pessoas as ferramentas básicas para escrever seu próprio destino no mercado.

Porque, se o mundo caminha para ser liderado por quem entende de gente e saiba administrar algoritmos e máquinas, é melhor estar entre aqueles que mandam — e não entre os que apenas assistem, sem conseguir entender a legenda.

Mundo Corporativo: para Luiz Alberto Ferla, do Dot Digital Group, a educação digital é uma aceleradora de pessoas

Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“Precisamos acelerar as pessoas também para que elas se desenvolvam e estejam preparadas para todas essas transformações.”

Luiz Alberto Ferla, Dot Digial Group

A educação corporativa está passando por uma revolução tecnológica sem precedentes. Com a ascensão de novas ferramentas digitais, como inteligência artificial e realidade aumentada, empresas estão transformando a maneira como capacitam seus colaboradores. Segundo Luiz Alberto Ferla, CEO e fundador do Dot Digital Group, “o aprendizado ao longo de toda a vida é a palavra-chave do mundo corporativo hoje”. Essa abordagem, conhecida como lifelong learning, é essencial para que profissionais acompanhem as rápidas mudanças tecnológicas e permaneçam competitivos no mercado. O tema foi destaque na entrevista concedida ao programa Mundo Corporativo, da CBN.

Educação como estratégia de transformação

Ferla destacou que o propósito do Dot Digital Group vai além da capacitação técnica: “Nós transformamos a vida das pessoas por meio da educação. Esse é o nosso propósito”. A empresa, que já capacitou milhões de brasileiros, utiliza tecnologias como vídeos interativos, podcasts, realidade virtual e cursos via WhatsApp para tornar o aprendizado mais acessível e dinâmico. “Hoje, 98% dos brasileiros acessam o WhatsApp. Isso nos permite levar conhecimento a qualquer lugar”, explicou.

Outro ponto abordado foi a personalização dos conteúdos educacionais. Segundo Ferla, “as empresas querem soluções desenhadas especificamente para suas necessidades”. Essa customização garante maior eficácia no treinamento dos colaboradores e contribui diretamente para a competitividade das organizações.

O impacto da inteligência artificial

A inteligência artificial (IA) na educação corporativa está acelerando o desenvolvimento de conteúdos e permitindo maior personalização no aprendizado: “Essa é a maior revolução que estamos vivendo desde o advento da internet”, diz Ferla. Ele também ressaltou que a tecnologia não deve ser vista como uma ameaça aos empregos, mas sim como uma oportunidade de crescimento: “O risco não é a inteligência artificial, mas perder espaço para quem sabe usá-la”.

Para Ferla, o futuro da educação está cada vez mais ligado à integração entre tecnologia e aprendizado contínuo. Ele acredita que ferramentas como computação quântica irão potencializar ainda mais essa transformação nos próximos anos.

Ouça o Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir também em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Inteligência artificial não é fonte primária no jornalismo

Foto de Rahul Pandit

Se ainda havia dúvidas sobre os riscos de confiar cegamente na inteligência artificial para produzir notícias, um estudo da BBC tratou de dissipá-las. Ao testar quatro dos principais assistentes de IA – ChatGPT (OpenAI), Copilot (Microsoft), Gemini (Google) e Perplexity – a rede britânica identificou problemas em 51% das respostas geradas. Mais alarmante ainda, 13% das respostas mencionavam a própria BBC de forma errada ou simplesmente inventavam informações.

O alerta, trazido pelos meus colegas Leonardo Stamillo e Leandro Motta na newsletter Cartograma, não significa que a IA deve ser descartada pelos jornalistas. Pelo contrário, a questão central é saber como usá-la sem comprometer a credibilidade do nosso trabalho.

O Pulitzer Center propõe um critério simples:

  • Se a tarefa exige alta precisão e será consumida pelo público, o uso de IA deve ser cauteloso.
  • Se o conteúdo gerado será usado internamente, como análise de grandes volumes de dados, a tecnologia pode ser uma grande aliada.

A inteligência artificial não é inimiga do jornalismo, mas também não pode ser sua fonte primária de informação. Seu maior potencial está na automatização de tarefas mecânicas, na organização de grandes bases de dados e até na sugestão de pautas. Pode ajudar a redigir esboços de textos, revisar gramática e otimizar títulos para SEO. Mas a apuração, a contextualização e o olhar crítico seguem sendo prerrogativas exclusivamente humanas.

Se há uma lição nesse debate, é que não podemos tratar a IA com ingenuidade, mas também não devemos temê-la. O problema não é a ferramenta, mas como a utilizamos. A história do jornalismo está repleta de inovações tecnológicas que, inicialmente, causaram desconfiança. O rádio, a televisão e a internet foram recebidos com ceticismo e, hoje, são indissociáveis da prática jornalística. A IA, ao que tudo indica, seguirá o mesmo caminho.

A tecnologia avança, e o compromisso com a informação de qualidade permanece. E, para isso, o jornalista deve manter a postura que aprendeu desde seus primórdios: desconfiar, questionar, desenvolver olhar crítico e apurar a verdade. Assim como fazemos com as melhores fontes de informação, devemos agir, também, diante da IA.

Mundo Corporativo: Lucia Rodrigues, da Microsoft, explica como a IA pode impulsionar sua carreira

Reprodução do vídeo da entrevista do Mundo Corporativo

“Um profissional curioso é um profissional que se mantém mais relevante no mundo de hoje, onde as coisas mudam muito rápido.” 

Lucia Rodrigues, Microsoft

A inteligência artificial (IA) não é apenas uma ferramenta avançada, mas um divisor de águas no mercado de trabalho. Enquanto algumas funções desaparecem, novas surgem em ritmo acelerado. A questão não é mais se a IA afetará a carreira dos profissionais, mas como eles podem usá-la a seu favor. Esse foi o tema discutido no programa Mundo Corporativo, que recebeu Lucia Rodrigues, diretora de capacitação e inteligência artificial da Microsoft Brasil.

O temor de que a IA substitua profissionais é compreensível, mas a história mostra que grandes inovações tecnológicas costumam reconfigurar o mercado de trabalho, e não apenas eliminar vagas. Segundo Lucia Rodrigues, o relatório O Futuro do Trabalho, do Fórum Econômico Mundial, estima que 92 milhões de empregos serão eliminados até 2030. “Mas ele também traz um dado de que 170 milhões de novos empregos serão criados por conta da IA”, destacou. O saldo, portanto, é positivo, mas o caminho não será igual para todos.

A diferença entre um profissional que se adapta às novas exigências e aquele que fica obsoleto está na capacidade de aprendizado e adaptação. “O que vai diferenciar o profissional que vai ficar obsoleto do profissional que vai aproveitar a oportunidade que a IA vai trazer é aquele que se abre para aprender como ela pode agregar valor à sua profissão e, inclusive, mudar de carreira”, afirmou.

Habilidades mais valorizadas no mercado digital

Muitos imaginam que dominar ferramentas de IA seja a competência mais valorizada pelos empregadores, mas o que se destaca são habilidades exclusivamente humanas. “O pensamento crítico, analítico e as habilidades socioemocionais são as mais procuradas”, apontou Lucia. Isso significa que saber lidar com emoções, colaborar com colegas e manter um olhar crítico sobre as informações geradas pela IA são diferenças competitivas.

“A IA pode até te ajudar a aprender e a desenvolver essas habilidades, mas ela nunca vai fazer isso por você”, alertou.

Como se preparar para o futuro do trabalho?

Diante da velocidade das transformações, a educação continuada torna-se um requisito fundamental para qualquer profissional. A Microsoft, segundo Lucia Rodrigues, tem investido fortemente na capacitação. “Criamos um programa chamado Conecta IA, uma plataforma de aprendizagem com 42 parceiros, entre eles o Ministério do Trabalho, Sebrae e UNICEF.”

Para quem deseja dar os primeiros passos no aprendizado sobre IA, ela sugere cursos introdutórios que explicam desde os conceitos básicos até o uso prático das ferramentas. “Fizemos um curso chamado Fluência, que conta a história da IA, como ela funciona e como aplicá-la no dia a dia”, por exemplo.

Acesse aqui a plataforma de cursos da Microsoft

Como as empresas estão lidando com a revolução da IA?

As empresas estão em diferentes estágios de adoção da IA, mas a tendência é clara: quem não investir na tecnologia pode perder competitividade. “Vimos que 60% dos líderes não contratariam alguém que não tenha conhecimento de IA, e 89% acreditam que sua implementação é essencial para a competitividade da empresa”, apontou Lucia.

Por outro lado, muitos profissionais estão levando suas próprias ferramentas de IA para o trabalho, o que indica que as organizações ainda precisam investir em infraestrutura e capacitação. “Instrumentalizar as pessoas é fundamental. Não basta dizer que a IA é importante, é preciso criar um ambiente que permita seu uso eficiente e seguro”, ressaltou.

O futuro pertence aos curiosos

Ao final da entrevista, Lucia Rodrigues deixou um recado para aqueles que ainda não sabem como se encaixar nesse novo contexto: “Olhe para a IA como um aliado. Ela pode te ajudar em muitas coisas na sua vida profissional e pessoal. E divirta-se! Teste variadas ferramentas, veja onde elas são mais úteis para você.”

A curiosidade, segundo ela, é uma das chaves para se manter relevante. “Hoje é a IA, amanhã pode ser outra coisa. O que realmente nos torna profissionais preparados para o futuro é a vontade de aprender e se adaptar.”

Ouça o Mundo Corporativo

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Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Impactos no Brasil do afrouxamento da regulamentação da IA nos EUA

Pedro Capello

Photo by Markus Spiske on Pexels.com

A recente revogação, pelo governo norte-americano, de um decreto do ex-presidente Joe Biden, que visava garantir o uso seguro, protegido e confiável da IA nos EUA, representa uma mudança substancial na política norte-americana, ao extinguir, em nível federal, o arcabouço regulatório que Biden havia implementado para coordenar o setor de IA. Na prática, as empresas que atuam com IA podem enfrentar, agora, um cenário de incerteza regulatória, tendo em vista a possibilidade de surgirem padrões díspares tanto em âmbito estadual quanto internacional.

Sem um direcionamento federal unificado, diferentes estados e órgãos reguladores estrangeiros poderão estabelecer exigências diversas, potencializando a complexidade do compliance para organizações que desenvolvem e aplicam IA. Além disso, a falta de diretrizes uniformes pode acarretar lacunas na governança de dados, aumentando o potencial de vieses, falhas de segurança cibernética e utilização indevida de informações sensíveis.

Não obstante, empresas que adotarem padrões internos mais elevados de ética e segurança de dados, ou aquelas sediadas em países como o Brasil, que já possuem ou estão implementando legislações abrangentes para regulamentar o uso e o desenvolvimento de sistemas de IA, podem enfrentar desvantagens competitivas em relação àquelas que seguirem critérios menos rigorosos.

No âmbito nacional, em 10 de dezembro de 2024, o Congresso Nacional aprovou, no Brasil, o PL 2338/23 (“PL”), que estabelece normas gerais para o desenvolvimento e o uso ético e responsável da IA. Em contraste com a recente revogação da ordem executiva de Joe Biden nos EUA, essa legislação reforça a centralidade da pessoa humana e a proteção de direitos fundamentais como pilares de governança, além de introduzir a figura do Sistema Nacional de Regulação e Governança de Inteligência Artificial (“SIA”).

O PL tem como objetivo estabelecer diretrizes para a implementação de sistemas de IA seguros, confiáveis e alinhados ao respeito à privacidade, à inclusão e à não discriminação, além de prever a classificação de sistemas de alto risco e medidas como avaliações de impacto algorítmico e transparência nos processos decisórios automatizados, especialmente naqueles empregados no funcionamento de infraestruturas críticas, como controle de trânsito e redes de abastecimento de água e eletricidade.

Num cenário de rápidas transformações globais e de inovações disruptiva,s já evidenciadas nos últimos anos com a própria disseminação de ferramentas de IA, a decisão do novo governo dos Estados Unidos e a recente aprovação do PL no Brasil revelam caminhos contrastantes na abordagem regulatória da tecnologia. Enquanto o Brasil busca estabelecer um arcabouço sólido que equilibre inovação tecnológica e proteção de direitos fundamentais, a revogação norte-americana reabre o debate sobre a relação entre liberdade regulatória e os riscos éticos e sociais associados ao desenvolvimento de IA.

Esses movimentos ressaltam a importância de se refletir sobre as prioridades que cada país define em relação à inteligência artificial: como promover avanços tecnológicos sem comprometer valores éticos e democráticos? A resposta a essa pergunta moldará o impacto da IA em nossas sociedades e os desafios que teremos de enfrentar no futuro.

Pedro Capello é advogado no DSA Advogados – Donelli, Nicolai e Zenid Advogados

O que a IA não sabe sobre a linguagem humana

Photo by Markus Spiske on Pexels.com

A linguagem é a morada do ser”, escreveu o filósofo Martin Heidegger, e poucos conceitos me parecem tão essenciais quanto este. Nossa relação com as palavras define o mundo que habitamos. Elas moldam nosso pensamento, aproximam ou afastam, constroem e destroem. São, ao mesmo tempo, ferramenta e espelho de quem somos. Talvez por isso eu tenha ficado tão surpreso ao ler uma reportagem do jornal La Nación, publicada em janeiro, sobre uma análise de inteligência artificial que classificou ‘basicamente’, ‘óbvio’ e ‘simplesmente’ como três das seis palavras usadas por pessoas com menor capacidade intelectual.

Basicamente, fiquei perplexo.

Óbvio que fui conferir se havia algum fundamento na pesquisa.

Simplesmente, não encontrei.

A reportagem afirma que essas palavras são usadas por pessoas ‘menos inteligentes’ ou que tendem a fazer generalizações constantes sobre tópicos que não conhecem.

Fiquei imaginando um escritor, um professor ou até um grande cientista sendo julgado por um algoritmo por ousar resumir uma ideia com um ‘basicamente’. Será que Stephen Hawking jamais teria usado um ‘simplesmente’ para tornar uma explicação mais acessível? Ou será que Einstein, entre suas reflexões sobre espaço e tempo, nunca disse que algo era ‘óbvio’?

Intrigado, e nada convencido, busquei nos textos de meu poeta preferido argumentos para derrubar essa “tese artificial”.  Abri o arquivo com as poesias completas de Mário Quintana, um mestre das palavras simples e profundas. Passei os olhos pelas páginas (de verdade, usei o recurso de busca de meu computador) e lá estava ela: ‘simplesmente’. Não uma, nem duas, mas 59 vezes. E em um de seus versos, a palavra surge duas vezes, com uma força que só a poesia é capaz de dar:

A arte de viver
É simplesmente a arte de conviver…
Simplesmente, disse eu?
Mas como é difícil! …

Se ‘simplesmente’ fosse um indicador de menor capacidade cognitiva, teríamos que reavaliar a genialidade de Quintana. Mas a verdade é que vivemos uma época em que dados são tratados como verdades absolutas e, pior, quando esses dados vêm de uma inteligência artificial, a tendência é aceitar sem questionar. Se a IA afirma, deve ser real. Se uma análise estatística sugere um padrão, deve haver um significado profundo. Mas, na pressa de transformar palavras em evidências de QI, esquecemos que a linguagem não é uma equação. Ela é viva, mutável, cheia de nuances que nenhum algoritmo consegue capturar por completo.

E, por favor, não me entendam mal. O avanço da inteligência artificial é fascinante. Mas precisamos lembrar que, no fim das contas, a máquina só reflete aquilo que ensinamos a ela. Se dermos a ela um dicionário reduzido, ela nos devolverá uma visão limitada. Se programarmos para que encontre padrões onde eles não existem, ela os criará.

As palavras, todas elas, são bem-vindas. Desde que usadas apropriadamente, não há expressão inútil, insignificante ou indigna. O segredo não está em proibi-las, mas em saber quando e como utilizá-las. Porque o que define nossa inteligência não é a palavra que escolhemos, mas o pensamento que conseguimos expressar com ela. 

O poder da comunicação verbal

Na certificação internacional de comunicação estratégica, que apresento em parceria com a WCES, a importância da palavra bem dita é um dos destaques quando falamos dos três recursos da comunicação: o verbal, o não verbal e o vocal. 

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O impacto da IA na comunicação

Na edição revista e ampliada de “Escute, expresse e fale – domine a comunicação e seja um líder poderoso”, analisamos o impacto que a IA tem na comunicação e na forma como os líderes fazem a gestão de suas equipes nas empresas. A nova versão do livro escrito por mim, António Sacavém, Leny Kyrillos e Thomas Brieu está disponível no site da editora Rocco.

Nova edição de ‘Escute, expresse e fale!’ destaca o impacto da IA na comunicação e storytelling ao vivo

A editora Rocco lança, nesta semana, a nova edição de “Escute, Expresse e Fale!” que destaca o impacto da Inteligência Artificial na comunicação e ensina como construir um storytelling ao vivo.


A comunicação é a base das relações humanas e o pilar para liderar em tempos de transformação. Por isso, a versão revista e ampliada de “Escute, Expresse e Fale!” (Rocco) chega com novidades indispensáveis para líderes e profissionais que desejam aprimorar suas habilidades comunicativas.

António Sacavém, Leny Kyrillos, Thomas Brieu e eu apresentamos dois novos capítulos que respondem às demandas contemporâneas: Inteligência Artificial (IA) e Storytelling ao Vivo.

IA e a comunicação do futuro


A revolução da IA está transformando a maneira como nos conectamos e lideramos. Sistemas como ChatGPT e tecnologias de personalização estão remodelando interações, e trazem dilemas éticos: como equilibrar o uso de dados sem comprometer a privacidade? Como manter a humanidade no centro das decisões?

Neste novo capítulo, exploramos o conceito do “Líder AI-Driver”, um perfil que combina habilidades tecnológicas e humanas para liderar de forma ética e empática. É um convite para navegar pelos desafios e oportunidades da IA sem perder de vista a essência da comunicação: o fator humano.

Storytelling ao vivo: comunicação em tempo real


Histórias sempre foram uma ferramenta poderosa, mas o storytelling ao vivo eleva isso a outro nível. É uma abordagem dinâmica, em que narrador e público cocriam experiências únicas no momento.

Essa técnica dissolve conflitos, promove empatia e engaja equipes como nenhuma outra. No livro, apresentamos ferramentas práticas para aplicar o storytelling ao vivo em contextos corporativos e interpessoais, transformando simples conversas em experiências memoráveis.

Por que ler a nova edição?



Seja você líder, educador ou profissional, esta obra é um guia para quem deseja navegar com impacto pelas mudanças do mundo atual. A integração dos temas de IA e storytelling reflete as novas demandas de comunicação e liderança.

“Escute, Expresse e Fale!” é um mapa para fortalecer conexões humanas e transformar palavras em ações poderosas.

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Mundo Corporativo: Tatiane Tieme, do GPTW, fala de liderança humanizada

Tatiane Tieme conversou on-line com o Mundo Corporativo

“O líder que quebra o estereótipo do super-herói e humaniza as relações do dia a dia alcança resultados superiores.”

Tatiane Tieme, GPTW

Diante das transformações no ambiente de trabalho, a figura do líder evolui para lidar com equipes cada vez mais diversas e demandas organizacionais mais complexas. Seja na convivência entre gerações ou na adaptação a modelos híbridos e remotos, os líderes enfrentam desafios que exigem habilidades técnicas e uma capacidade singular de criar conexões humanas. Foi o que destacou Tatiane Tieme, CEO do Great Place To Work Brasil, durante sua entrevista ao programa Mundo Corporativo.

A executiva trouxe à tona questões fundamentais sobre como a confiança, a coerência e a consistência podem impactar diretamente o sucesso das organizações, tornando ambientes mais produtivos e saudáveis para todos os envolvidos.

A confiança como pilar da liderança

“A felicidade resultante desse modelo de confiança impacta diretamente o sucesso do negócio”, afirmou Tatiane. Segundo ela, o papel do líder hoje não se limita à gestão de tarefas. É preciso estabelecer uma relação de confiança com as equipes, criando um espaço onde a vulnerabilidade seja permitida e a colaboração, incentivada.

A diversidade também aparece como um dos grandes desafios. Equipes que incluem diferentes gerações e perspectivas têm o potencial de ser mais criativas e produtivas. Entretanto, sem políticas inclusivas e uma liderança humanizada, essa diversidade pode se transformar em conflito.

“As empresas precisam ir além de contratar grupos diversos; elas devem incluir essas pessoas no dia a dia, escutando suas necessidades e promovendo uma cultura de respeito e reconhecimento”, explicou Tatiane.

Tecnologia e humanização: o equilíbrio necessário

Com a crescente adoção de tecnologias e da inteligência artificial no ambiente corporativo, muitos profissionais se preocupam com o impacto dessas ferramentas em suas funções. Para Tatiane, o papel do líder neste contexto é essencial:

“Essa disrupção digital só aumenta a importância de construirmos relações de proximidade e confiança. É necessário garantir que as pessoas tenham espaço para expressar seus receios e buscar caminhos de desenvolvimento, adaptando-se às novas possibilidades que a tecnologia traz.”

Ela ainda destacou que o modelo de comando e controle — característico de uma era passada — não tem mais lugar nas organizações que querem prosperar. “A gestão deve ser baseada em engajamento e cooperação, não em controle. Isso gera não apenas mais produtividade, mas também uma equipe que inova e cria com mais liberdade.”

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Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Letícia Valente.

Mundo Corporativo: Fernando Pantaleão, da Visa, revela como IA e PIX revolucionam a segurança e a velocidade dos pagamentos no Brasil

Fernando Pantaleão no estúdio no Mundo Corporativo. Foto: Priscila Gubiotti CBN

“No final é usar o máximo de dados possível, com maior possibilidade de aproximação de hipóteses, para poder gerar um resultado melhor.”

Fernando Pantaleão, Visa

No mundo dos pagamentos digitais, a evolução vai muito além das maquininhas de cartão. Cada vez mais, tecnologias de ponta como inteligência artificial e machine learning redefinem o modo como consumimos, protegemos dados e aprimoramos a experiência de compra. Segundo Fernando Pantaleão, Vice-Presidente de Vendas e Soluções para Comércios da Visa do Brasil, esse avanço acelerado, impulsionado pela digitalização e por soluções como o PIX, está exigindo do setor uma adaptação rápida e constante. Ele compartilhou essas reflexões em entrevista ao programa Mundo Corporativo, ressaltando a importância de compreender e responder às novas demandas de segurança e conveniência para o consumidor.

IA e Machine Learning: Segurança e Eficiência no Combate às Fraudes

Para a Visa, a inteligência artificial e o machine learning não são apenas tecnologias de ponta, mas ferramentas essenciais para criar um ambiente de pagamento seguro. “A inteligência artificial e a história do machine learning… no final é usar o máximo de dados possível, com maior possibilidade de aproximação de hipóteses, para poder gerar um resultado melhor,” afirmou Pantaleão. Ele destacou que esses sistemas analisam volumes massivos de dados, permitindo uma resposta ágil e precisa na prevenção de fraudes. A Visa investe significativamente em inteligência artificial generativa, que, segundo Pantaleão, é uma das estratégias mais eficazes para antecipar e bloquear transações suspeitas antes mesmo que ocorram, garantindo que os consumidores possam contar com uma segurança robusta e invisível a cada compra.

Inovação e Velocidade: O Novo Desafio no Setor de Pagamentos

Pantaleão destacou a necessidade de investir na velocidade e empoderamento das equipes para implementação de tecnologias de pagamento seguras e eficientes. “A velocidade é fundamental, ou o poder de decisão é fundamental. E precisa disso. Senão você não tem velocidade de implantação de coisa nova,” afirmou ele, acrescentando que a Visa tem investido fortemente em soluções de segurança para minimizar fraudes e maximizar o índice de conversão nas vendas.

Outro ponto abordado foi o impacto da chegada do PIX, que ele classificou como um divisor de águas para o comércio eletrônico no Brasil. “A gente vê a chegada do PIX como muito importante para o Brasil, muito desafiadora,” mencionou Pantaleão, reforçando que a competição aumentou e a conveniência para o consumidor nunca foi tão grande. A digitalização promovida por essas novas formas de pagamento ampliou as oportunidades para empreendedores de diferentes portes, especialmente com a introdução de tecnologias como o “Tap to Phone”, que transforma o smartphone em uma máquina de pagamento.

Assista ao Mundo Corporativo

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Mundo Corporativo: Walter Longo nos ajuda a pensar sobre a IA e o futuro das relações humanas

Walter Longo no estúdio da CBN Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“Nós achamos que estamos livres em opinião, mas na verdade estamos cada vez mais fechados em nós mesmos.”

Walter Longo, especialista em inovação

Presente no seu WhatsApp, embarcada no celular novo e em diversos serviços do cotidiano, a inteligência artificial já nos transformou — embora muitos ainda não compreendam o impacto. Desde 30 de novembro de 2022, quando a OpenAI lançou sua IA generativa, essa tecnologia vem sendo explorada e multiplicada em ritmo acelerado. 

Para entender como essa mudança molda nossa interação com as pessoas, as empresas e as máquinas, o Mundo Corporativo foi em busca de alguém que tem feito profundas reflexões sobre este cenário: Walter Longo, especialista em inovação e transformação digital. Na entrevista, Longo nos convida a olhar além do potencial técnico da IA e nos desafia a utilizar essa tecnologia para resgatar uma parte essencial da humanidade.

Exteligência: a nova habilidade essencial

Walter Longo observa que, em um cenário de transformação digital acelerada, a capacidade de se integrar em rede, ou exteligência, tornou-se mais importante que a inteligência individual. “A grande missão de um líder é analisar não a inteligência do meu comandado, mas a exteligência dele”, explica. Para ele, a metáfora do “cinto de utilidades” do Batman captura bem essa nova realidade: a tecnologia, por meio de algoritmos e ferramentas digitais, oferece a cada profissional recursos para maximizar suas capacidades.

A tecnologia, segundo Longo, tanto substitui atividades repetitivas como nos devolve o recurso mais precioso: o tempo. Ele ressalta, no entanto, que essa liberdade implica uma nova responsabilidade: “O que você vai fazer com este tempo é uma decisão individual”. Com isso, Longo sugere que essa liberdade conquistada deve ser usada com propósito, equilibrando produtividade e tempo para atividades que nos enriquecem.

O vocabulário como ponte para interagir com a IA

Para Walter Longo, interagir de forma eficaz com a IA depende de um vocabulário rico e preciso. A qualidade das respostas, explica ele, depende da clareza e profundidade com que formulamos nossas perguntas. “A IA só nos devolve o que pedimos. Ter um vocabulário vasto e variado é fundamental para obter dela o melhor suporte.” Longo exemplifica essa precisão com a diferença entre “enfrentar”, “afrontar” e “confrontar” — palavras tratadas como sinônimos, mas com nuances distintas. Outros exemplos incluem “obsessão”, “compulsão” e “possessão”, três estados muitas vezes confundidos. “Esses detalhes do vocabulário melhoram a interação com a IA, garantindo que ela compreenda exatamente o que queremos, sem ambiguidades”, destaca.

Ele recomenda a leitura diária como exercício essencial para aprimorar o vocabulário e expandir o repertório linguístico. “Leia ao menos uma hora por dia; é um hábito que amplia seu vocabulário e treina a mente para reconhecer variações e significados.” Esse hábito, segundo Longo, permite que as pessoas aprimorem a comunicação com máquinas e também enriqueçam o diálogo com outros seres humanos. Ele argumenta que a leitura é uma prática necessária para a evolução da inteligência humana, especialmente em uma época em que a tecnologia avança rapidamente e nos exige adaptação.

A armadilha dos algoritmos

Longo alerta também para o risco de isolamento imposto pelas recomendações de algoritmos. Ele observa que esses sistemas limitam a pluralidade de opiniões ao exibir conteúdos com os quais já concordamos, reduzindo nosso contato com o contraditório e enfraquecendo o senso crítico. “Achamos que estamos livres em opinião, mas estamos cada vez mais fechados em nós mesmos.” Segundo ele, essa ilusão de “liberdade” reforça uma bolha de conveniência que nos afasta de desafios intelectuais.

Além disso, Longo ressalta o impacto da “gratificação instantânea” que caracteriza a era digital, transformando consumidores e colaboradores. Essa busca por recompensas imediatas revela uma aversão ao compromisso de longo prazo. Ele exemplifica com a moda do fast fashion e outras tendências passageiras, como o fenômeno dos food trucks, que explodem e desaparecem rapidamente. “Essa visão efêmera gera uma gratificação instantânea, mas nos deixa com a sensação de que tudo é passageiro”, comenta.

Assista ao Mundo Corporativo

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