ILPIsmo: o preconceito que distancia as instituições da comunidade

Por Ciro Férrer Herbster Albuquerque

Senhoridade

Imagem produzida em IA

Nem todo preconceito tem um nome conhecido. O que atinge as Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) já tem: ILPIsmo. Mais do que um estigma, ele influencia decisões familiares, dificulta a formulação de políticas públicas e contribui para o isolamento social de quem necessita de cuidados continuados.

O conceito foi criado pela médica geriatra Karla Giacomin e se refere ao preconceito dirigido às ILPIs e às pessoas que nelas vivem. Essa percepção faz com que a institucionalização seja frequentemente interpretada como um “fracasso familiar”, despertando sentimentos de culpa entre parentes que optam por essa modalidade de cuidado.

O envelhecimento da população brasileira amplia a demanda por cuidados de longa duração e coloca em evidência o papel das Instituições de Longa Permanência para Idosos. Definidas como serviços de natureza residencial, elas destinam-se a pessoas idosas que necessitam de cuidados continuados, temporários ou permanentes, oferecendo moradia, proteção social e assistência.

Apesar disso, essas instituições continuam marcadas por um imaginário social construído em torno dos antigos asilos, historicamente associados à pobreza, ao abandono e à negligência.

Não por acaso, a busca por uma ILPI costuma ocorrer apenas quando o cuidado no domicílio já chegou ao limite. Soma-se a isso a ideia, ainda difundida, de que a mudança para uma instituição representa, inevitavelmente, o rompimento dos vínculos familiares e comunitários.

Essa percepção ignora uma transformação demográfica importante. A redução progressiva da disponibilidade de cuidadores familiares fará com que a demanda por cuidados de longa duração aumente de forma expressiva nas próximas décadas. Diante desse cenário, cabe ao Estado e à iniciativa privada ampliar e qualificar a oferta de serviços capazes de atender a essa realidade.

O Manifesto pelo Fortalecimento do Cuidado Integrado, elaborado pela Associação Cuidadosa em conjunto com a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, destaca que o ILPIsmo está intimamente relacionado ao idadismo e acaba sendo reforçado quando episódios de violência ou negligência recebem mais visibilidade do que experiências bem-sucedidas de cuidado.

Como explica Albuquerque (2026), “o conceito de idadismo, introduzido em 1969 pelo gerontólogo Robert Butler, descreve a discriminação, o preconceito ou os estereótipos baseados na idade, especialmente contra as pessoas idosas”.

Esse estigma produz efeitos que vão muito além da imagem das instituições. Ele influencia a formulação de políticas públicas, dificulta investimentos e, muitas vezes, legitima práticas que restringem direitos em nome da proteção.

O cuidado pressupõe prevenir riscos. Isso, porém, não deve significar limitar a liberdade, as escolhas cotidianas ou a participação social. Quando a segurança se sobrepõe indiscriminadamente à autonomia, o cuidado corre o risco de se transformar em tutela.

Outro aspecto frequentemente negligenciado é o afastamento entre a pessoa institucionalizada e a vida da cidade. Ao ingressar em uma ILPI, muitos residentes reduzem seu contato com o bairro, os espaços públicos, os equipamentos culturais e até mesmo com relações construídas ao longo da vida. Essa ruptura favorece o isolamento social e a sensação de solidão, condições associadas ao aumento do risco de depressão, ansiedade, declínio cognitivo e demência. Além de reduzir as interações sociais, ela enfraquece o sentimento de pertencimento ao bairro, à cidade e ao território onde essas pessoas continuam vivendo.

Essa realidade vem sendo questionada por diferentes iniciativas nacionais e internacionais. Ao promover o programa Cidades e Comunidades Amigas da Pessoa Idosa e a Década do Envelhecimento Saudável (2021–2030), a Organização Mundial da Saúde defende que os cuidados de longa duração sejam organizados de forma integrada à comunidade, preservando vínculos sociais e oportunidades de participação.

No Brasil, o Manifesto pelo Fortalecimento do Cuidado Integrado propõe uma mudança semelhante ao defender instituições mais abertas às famílias, à comunidade e às relações intergeracionais. O documento também sugere a adoção da expressão Unidades Residenciais de Cuidados, ressaltando seu caráter de moradia e sua inserção na rede de cuidados da cidade.

Diversas experiências demonstram que essa aproximação é possível. Projetos que estimulam a circulação dos moradores pelo território, promovem atividades culturais, incentivam o voluntariado e ampliam o convívio entre diferentes gerações mostram que a institucionalização não precisa representar uma ruptura com a vida comunitária.

O Pedalando sem Idade é um programa de voluntariado inspirado no movimento internacional Cycling Without Age, que usa triciclos adaptados para oferecer passeios a pessoas idosas, especialmente às institucionalizadas. No Rio de Janeiro, a iniciativa coordenada por Clélia Maria de Andrade permite aos residentes voltar a percorrer espaços públicos, revisitar paisagens da cidade e estabelecer novas interações com a população.

No Japão, o Restaurant of Order Mistakes é uma iniciativa social em que pessoas com demência atuam como garçons. A proposta parte da possibilidade de o cliente receber um prato diferente daquele que pediu, transformando o erro em um convite à empatia e à compreensão. Idealizado pelo jornalista Shiro Oguni durante uma campanha de conscientização sobre a doença de Alzheimer, o projeto busca desconstruir o estigma associado à demência ao demonstrar que o comprometimento cognitivo não impede a participação ativa na vida em comunidade.

Superar o ILPIsmo implica reconhecer que a necessidade de cuidados continuados não elimina o direito à convivência, à participação e ao exercício da cidadania. As ILPIs devem ser compreendidas como lugares de moradia, onde cuidado e proteção caminham lado a lado com a autonomia possível, o respeito às escolhas individuais e a manutenção dos vínculos sociais.

Afinal, viver em uma residência coletiva não significa deixar de pertencer à cidade. Significa continuar fazendo parte dela, sob novas condições de cuidado.

Ciro Férrer Herbster Albuquerque é mestre em Arquitetura, Urbanismo e Design pela Universidade Federal do Ceará, especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e coordenador da Comissão de Normatização, Fiscalização e Cadastro do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa de Fortaleza (CE).

Quem cuida do homem gay quando ele envelhece?

Por Diego Felix Miguel

Foto de Valeria Machado na Unsplash

Prezada leitora e prezado leitor,

Nos últimos meses vivi algumas situações que me provocaram uma reflexão especial sobre o cuidado.

Ao longo deste texto, compartilho uma narrativa baseada na minha experiência como homem gay. O que apresento aqui, porém, também alcança — em diferentes nuances e, talvez, de forma ainda mais intensa — pessoas lésbicas, bissexuais, transgêneras e não binárias.

Durante esse período, recorri aos abraços e à escuta de pessoas que pudessem, ao menos, acolher a ansiedade que eu enfrentava. Por sorte, ou por mérito, tenho por perto amigas e amigos que não mediram esforços para estar comigo e me fortalecer naquele momento.

Um aspecto, porém, chamou especialmente a minha atenção: a dificuldade de compreender, na prática, o contexto da interseccionalidade. E vejam: grande parte das minhas amizades é formada por pessoas que estudam esse tema, atuam na defesa dos direitos humanos e participam do ativismo.

A interseccionalidade é a compreensão de como diferentes dimensões que moldam nossa identidade — como gênero, raça, classe social, geração e orientação sexual, entre outras — se cruzam e produzem experiências específicas.

Ainda assim, vale o velho ditado: é fácil medir a intensidade da pimenta quando ela está no corpo do outro. Não por maldade, evidentemente, mas porque reproduzimos comportamentos socialmente aprendidos sem o exercício permanente da empatia.

Não escrevo isso por ingratidão nem para desmerecer esses encontros. Muito pelo contrário. Vejo essa experiência como um laboratório social que nos convida — e me convida também — a refletir sobre a forma como acolhemos as pessoas. Afinal, o mundo não se resume à nossa própria realidade.

O que mais me incomodou foi perceber que, ao expor meus medos e vulnerabilidades, eu precisava reiterar constantemente algo fundamental: como homem gay da geração dos anos 1980, minha rede de apoio e minhas perspectivas para o futuro não são as mesmas vividas, em sua maioria, por pessoas heterossexuais.

Não me refiro apenas aos aspectos econômicos. Refiro-me a uma pergunta que se torna cada vez mais urgente com o passar do tempo: com quem realmente podemos contar quando precisamos ser cuidados, sem ter de justificar uma existência que tantas vezes já foi colocada em xeque?

Contar com o apoio de uma família de origem homofóbica, que não nos aceita em nossa plenitude, jamais deveria ser visto como uma possibilidade. Quem nunca experimentou a violência da homofobia dificilmente compreenderá toda a dor e o adoecimento que ela produz ao longo da vida.

Também nem sempre encontramos pessoas amigas capazes de formar uma família afetiva — a família de escolha — que ofereça suporte emocional e prático nos momentos de fragilidade e durante o envelhecimento.

A nós também costuma ser negado o conforto religioso. Em muitos espaços de fé, perpetuam-se a discriminação e o incentivo à autonegação. E não me refiro apenas às religiões cristãs. Infelizmente, muitos líderes religiosos ainda são guiados por concepções ultrapassadas e autoritárias, que reforçam desigualdades de poder e restringem o acesso ao acolhimento espiritual.

O letramento em direitos humanos ainda é insuficiente, sobretudo quando se limita a práticas meramente ritualísticas e deixa de considerar os aspectos socioculturais e políticos que sustentam as estruturas de opressão.

No mundo do trabalho, a garantia de emprego formal com proteção social também está longe de ser uma realidade para todos. Ainda persiste um silêncio em torno da homofobia velada nos processos seletivos e em práticas corporativas que padronizam identidades e anulam a diversidade. Nem todo discurso inclusivo vem acompanhado de ações efetivamente comprometidas com a equidade e com a segurança de pessoas LGBT+ no acesso e na permanência no mercado de trabalho.

Como se isso não bastasse, a reprodução de estereótipos sobre a homossexualidade continua sendo perversa. Quando alguém acredita estar acolhendo ao dizer frases como “eu amo meus amigos gays, eles são os mais divertidos e confiáveis”, revela uma espécie de “homofobia cordial”. Esse lugar de adereço ou de “gay funcional” reduz nossa humanidade, como se não tivéssemos direito às vulnerabilidades, às fraquezas e à necessidade de sermos cuidados. É mais uma forma de desumanizar quem não corresponde ao padrão da cisheteronormatividade — estrutura social hegemonicamente organizada a partir da cisgeneridade e da heterossexualidade.

A estrutura tradicional de cuidado foi construída tendo como referência a família nuclear heteronormativa. À medida que o tempo passa, a pergunta sobre quem cuida de quem ganha contornos dramáticos para a população LGBT+, exigindo redes de apoio que a sociedade e o Estado ainda relutam em construir.

Não pretendo reduzir essa dor a uma questão de privilégio velado. Sei que fui acolhido, sou amado e disponho de uma rede de apoio importante. Minha reflexão vai além disso. Se alguém com as condições que tenho já atravessa esse processo deixando marcas profundas, o que acontece quando essa realidade se cruza com marcadores como raça, identidade de gênero, classe social e velhice? Se o acolhimento já falha em espaços relativamente protegidos, ele se transforma em um abismo de invisibilidade para quem vive às margens.

Até quando fingiremos que a solidão e o desamparo no envelhecimento de pessoas LGBT+ são falhas individuais de trajetória, e não resultado de uma estrutura social que insiste em descartar corpos que não reproduzem o modelo heteronormativo?

Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP e especialista em Gerontologia pela SBGG. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Dez Por Cento Mais: Ciro Férrer explica como arquitetura pode favorecer um envelhecimento com mais autonomia

“A casa pode tanto prejudicar quanto auxiliar nesse processo que é da longevidade qualitativa e digna.”

O Brasil envelhece rapidamente, mas casas e cidades ainda são projetadas, em grande parte, sem considerar as mudanças físicas, cognitivas e emocionais que acompanham o passar dos anos. Pequenas adaptações nos ambientes podem reduzir riscos, preservar a independência e melhorar a qualidade de vida. Esse foi o tema da entrevista de Ciro Férrer, arquiteto, urbanista, especialista em gerontologia, neurociência e neuroarquitetura ao programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa.

Ao longo da conversa, Ciro desmontou a ideia de quem vê a arquitetura apenas pelo viés da estética. Segundo ele, a forma como uma casa é organizada influencia diretamente o comportamento, a saúde e a autonomia das pessoas, especialmente durante o envelhecimento.

O interesse de Ciro pelo tema nasceu de uma experiência pessoal. Durante a graduação em Arquitetura, ele acompanhou a mudança radical na vida da avó após uma queda dentro de casa. Até então independente, ela passou a enfrentar limitações impostas pelo próprio ambiente onde sempre viveu.

“A casa passou a dominá-la”, resume.

A experiência revelou obstáculos que costumam passar despercebidos: portas estreitas para cadeiras de rodas, banheiros com circulação limitada, pisos escorregadios e mobiliário que dificulta os movimentos. Ao mesmo tempo, ele percebeu que sua formação acadêmica pouco abordava a relação entre envelhecimento e ambiente construído.

Leia, também, os artigos de Ciro Férrer no Blog do Mílton Jung

Adaptações simples fazem diferença

Durante a entrevista, Ciro destacou que muitas melhorias podem ser feitas sem grandes reformas. Entre elas estão a instalação de fitas antiderrapantes em pisos lisos, proteção para quinas de móveis, reorganização da circulação da casa e escolha de cadeiras com braços, altura adequada e apoio para as costas.

Ele também alertou que cada adaptação deve respeitar os hábitos e a história de quem mora no local.

“Não adianta a gente pegar a norma. Cada pessoa é única e a casa dela tem que ser única.”

Por isso, antes de definir onde instalar barras de apoio ou alterar a disposição dos móveis, ele observa como a pessoa realiza atividades do cotidiano, como tomar banho, preparar um café ou levantar-se do vaso sanitário.

Outro ponto enfatizado por Ciro é que a casa guarda lembranças, afetos e referências que ajudam na orientação espacial, especialmente para pessoas com comprometimento cognitivo. Ao comentar o hábito de retirar tapetes de residências de pessoas idosas, ele defendeu uma análise individual de cada caso.

“Esse tapete é importante para você? Tem sentido para você? Tem? Vamos manter.”

Quando o objeto representa um risco, a solução nem sempre é descartá-lo. Segundo ele, o tapete pode ganhar uma nova função, como peça decorativa na parede ou sobre um móvel, preservando seu valor afetivo.

A iluminação tem um capítulo especial nesta conversa, seja pela visibilidade do espaço seha porque influencia o nosso cérebro.

Ciro explicou que o organismo humano continua regulado pelo ciclo natural entre claro e escuro. A exposição à luz pela manhã ajuda a sincronizar o ritmo biológico, melhora o estado de alerta e favorece funções como memória, atenção e planejamento. Já durante a noite, a recomendação é reduzir a intensidade da iluminação e evitar luzes fortes diretamente nos olhos.

Como alternativa, ele sugeriu o uso de luzes de vigília próximas ao piso, instaladas entre o quarto e o banheiro. Dessa forma, a pessoa consegue caminhar com segurança sem comprometer o ciclo do sono.

Cidades também precisam envelhecer

Para Ciro Férrer, pensar apenas na casa não é suficiente. O envelhecimento depende também da qualidade dos espaços públicos. Ele afirmou que muitas cidades brasileiras continuam priorizando o deslocamento por automóveis, enquanto calçadas irregulares, falta de acessibilidade e insegurança limitam a circulação das pessoas.

“O desenho da cidade não pode se limitar ao concreto.”

Integrante do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa de Fortaleza, ele defendeu maior investimento em políticas públicas voltadas ao envelhecimento e lembrou que acessibilidade envolve muito mais do que rampas e barras de apoio. Inclui comunicação, atendimento respeitoso, sinalização adequada e condições para que as pessoas exerçam plenamente sua cidadania.

Ao citar uma pesquisa realizada durante seu mestrado, Ciro observou que muitas pessoas idosas convivem com o medo de cair, mas continuam frequentando praças e espaços públicos porque esses locais representam convivência, pertencimento e qualidade de vida.

Ciro reforçou que o envelhecimento não deve ser tratado como responsabilidade exclusiva de profissionais da saúde ou da arquitetura.

“Todos somos seres envelhecentes e todos queremos ser cuidados e acolhidos de maneira independente e autônoma.”

Para ele, construir ambientes mais seguros e cidades mais inclusivas significa criar condições para que as pessoas possam envelhecer com autonomia, dignidade e participação na vida em comunidade.

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Arquitetura hostil: a exclusão planejada dos mais vulneráveis

Por Ciro Férrer Herbster Albuquerque

Bancos na praça são para promover o encontro, a permanência e a convivência

A arquitetura hostil, também denominada arquitetura defensiva, reúne estratégias projetuais e elementos físicos incorporados ao espaço urbano com o objetivo de restringir determinados usos e afastar grupos considerados indesejados no espaço público. 

Em vez de promover acolhimento, convivência e permanência, esse tipo de intervenção utiliza o desenho da cidade como instrumento de controle, condicionando quem pode permanecer, descansar ou circular em determinados espaços.

Sob a perspectiva do geógrafo Milton Santos, o espaço urbano resulta da interação permanente entre os fixos e os fluxos. Os fixos correspondem aos elementos materiais da cidade, como edifícios, praças, calçadas, mobiliário urbano, vias e equipamentos públicos. Os fluxos representam a circulação de pessoas, informações, mercadorias e serviços que dão vida a esses lugares. 

Quando os fixos são concebidos para restringir determinados usos, também passam a controlar os fluxos, influenciando quem pode transitar, permanecer e exercer plenamente o direito à cidade.

Essa lógica torna-se evidente na arquitetura hostil. Bancos divididos por barras metálicas, superfícies inclinadas sob marquises, grades pontiagudas, blocos de concreto instalados em áreas de permanência e obstáculos distribuídos ao longo das calçadas são exemplos de fixos urbanos que limitam os fluxos cotidianos.

Embora frequentemente justificados por razões de segurança ou ordenamento urbano, esses dispositivos produzem uma seleção silenciosa dos usuários do espaço público, restringindo a presença daqueles considerados inconvenientes ou economicamente “improdutivos”.

As pessoas em situação de rua, hoje estimadadas entre 365 mil a 389 mil no Brasil, são as mais diretamente atingidas por essas intervenções. Seus efeitos, porém, alcançam um conjunto muito mais amplo da população. Pessoas idosas, com deficiência e mobiliade reduzida, além de gestantes e crianças, também encontram dificuldades para caminhar, descansar e utilizar os espaços urbanos com autonomia e segurança. 

Dessa maneira, a arquitetura hostil transforma elementos que deveriam promover o encontro, a permanência e a convivência — como um simples banco de praça — em barreiras físicas e simbólicas que restringem a acessibilidade e dificultam o direito de ir e vir

Esse direito, embora formalmente assegurado há 38 anos, torna-se um privilégio cada vez mais distante da experiência cotidiana dos grupos vulnerabilizados.

No caso das pessoas idosas, que hoje representam cerca de 16,6% dos brasileiros, essa realidade é ainda mais preocupante. O envelhecimento, especialmente nas idades mais avançadas, pode estar associado à redução da velocidade da marcha, ao aumento do tempo de resposta diante de obstáculos, à necessidade de pausas durante os deslocamentos, à diminuição da acuidade visual e ao maior risco de quedas, sobretudo entre pessoas sedentárias. 

Essas mudanças, por si sós, não comprometem a autonomia nem a independência. Tornam, entretanto, os indivíduos mais suscetíveis às barreiras impostas por ambientes urbanos pouco acessíveis e inadequadamente desenhados. 

A partir do momento em que a cidade oferece bancos desconfortáveis, calçadas repletas de obstáculos e espaços concebidos para desencorajar a permanência, os deslocamentos a pé tornam-se mais difíceis e inseguros. 

Como consequência, os moradores tendem a caminhar menos, permanecer mais tempo em casa e recorrer com maior frequência ao transporte motorizado, mesmo para percursos curtos. Os fixos urbanos passam a interromper os fluxos cotidianos dessas pessoas, restringindo sua independência, reduzindo as oportunidades de interação social e desencorajando a ocupação dos espaços públicos.

Essa dinâmica evidencia que o espaço urbano não é neutro. As escolhas projetuais influenciam diretamente a forma como os diferentes grupos vivenciam a cidade. Quando os fixos são planejados para excluir, os fluxos tornam-se seletivos, favorecendo determinados usuários em detrimento de outros. O resultado é uma cidade menos diversa, menos acessível e menos democrática — realidade presente na maior parte dos municípios brasileiros. 

O direito de circular, permanecer e participar da vida urbana deixa de ser uma condição universal para transformar-se em um privilégio condicionado às características do corpo, à condição social e à capacidade funcional de cada indivíduo.

Enfrentar a arquitetura hostil exige repensar os elementos que estruturam o espaço urbano para que os fixos deixem de atuar como mecanismos de exclusão e passem a favorecer fluxos mais diversos, seguros e inclusivos. 

Para as atuais e futuras pessoas idosas, isso significa preservar a independência, ampliar o acesso aos serviços públicos, fortalecer os vínculos sociais e participar ativamente da vida comunitária

Assim, o direito à cidade deixa de depender apenas da garantia legal e passa a exigir uma ambiência urbana capaz de promover mais saúde, autonomia e dignidade ao longo da vida de cada cidadão.

Ciro Férrer Herbster Albuquerque é mestre em Arquitetura, Urbanismo e Design pela Universidade Federal do Ceará, especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e coordenador da Comissão de Normatização, Fiscalização e Cadastro no Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa em Fortaleza, Ceará. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Cidadania mutilada: o desencontro entre o corpo envelhecido e a cidade contemporânea

Por Ciro Férrer Herbster Albuquerque

Foto: Georgy Druzhinin

A experiência cotidiana da pessoa idosa na cidade revela que o exercício da cidadania ultrapassa a garantia formal de direitos e depende, sobretudo, das condições concretas de apropriação do espaço urbano. 

Nessa perspectiva, a noção de cidadania mutilada, desenvolvida por Milton Santos, evidencia que parcela significativa da população não vivencia plenamente os direitos assegurados pela legislação, em razão das desigualdades produzidas pela organização do território. 

A cidade, longe de constituir um espaço neutro, expressa relações de poder que distribuem oportunidades, recursos e barreiras de maneira desigual, condicionando as possibilidades de inserção social de seus habitantes.

No envelhecimento, essas limitações tornam-se ainda mais evidentes.As transformações fisiológicas, sensoriais e cognitivas próprias dessa etapa da vida ampliam a dependência em relação às características do ambiente construído. 

A população idosa, que em 2025 representava 16,6% do total de brasileiros, estabelece uma relação distinta com a cidade, exigindo maior previsibilidade espacial, segurança, acessibilidade e conforto para realizar as atividades do dia a dia com autonomia. Quando esses requisitos não são atendidos, o ambiente urbano deixa de promover inclusão e passa a atuar como um agente de exclusão.

Essa realidade manifesta-se em ações aparentemente simples, como caminhar até uma padaria, uma farmácia ou uma praça. Calçadas irregulares, percursos interrompidos, obstáculos físicos, travessias inseguras, iluminação insuficiente, mobiliário inadequado e a ausência de locais para descanso transformam deslocamentos curtos em experiências marcadas pelo esforço físico, pela insegurança e pelo medo de quedas.

O espaço que deveria favorecer o encontro, a convivência e a vida cotidiana, converte-se em um ambiente de constante negociação entre as capacidades individuais e as barreiras impostas pela cidade.

O transporte coletivo amplia essa condição de vulnerabilidade. Longas distâncias até os pontos de embarque, veículos superlotados, intervalos prolongados, dificuldade para subir e descer nos ônibus, falta de assentos disponíveis e viagens desconfortáveis comprometem não apenas a mobilidade, mas também a saúde física e emocional da população idosa. O tempo excessivo dedicado aos deslocamentos reduz as oportunidades de participação social, limita o acesso à cultura e ao lazer e dificulta a manutenção de vínculos comunitários.  Nesse contexto, o direito à cidade deixa de ser apenas uma questão de circulação e passa a significar a possibilidade concreta de permanecer, usufruir e participar da vida coletiva.

Sob essa perspectiva, a cidadania mutilada não decorre exclusivamente da ausência de direitos formais, mas da incapacidade da cidade de proporcionar condições efetivas para seu exercício. O ambiente urbano atua como mediador entre o indivíduo e suas possibilidades de participação social, podendo ampliar ou restringir autonomia, capacidades e bem-estar. A distribuição desigual da infraestrutura, dos serviços públicos e das oportunidades produz diferentes experiências de envelhecimento, determinadas não apenas pelas características biológicas de cada pessoa, mas também pelas relações de poder materializadas no território.

No caso da pessoa idosa, a experiência corporal evidencia essas assimetrias de forma particularmente intensa. O corpo envelhecido torna perceptíveis obstáculos frequentemente invisíveis para outros grupos populacionais, revelando que acessibilidade, segurança, proximidade dos serviços, qualidade dos espaços públicos e mobilidade representam condições indispensáveis para o exercício da cidadania. 

Promover cidades mais inclusivas significa, portanto, superar a cidadania mutilada por meio de uma organização territorial que reconheça a diversidade das capacidades humanas e assegure que o direito à cidade possa ser efetivamente vivenciado ao longo de todo o curso da vida.

Ciro Férrer Herbster Albuquerque é mestre em Arquitetura, Urbanismo e Design pela Universidade Federal do Ceará, especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e coordenador da Comissão de Normatização, Fiscalização e Cadastro no Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Idosa em Fortaleza, Ceará. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

No diálogo do silêncio, uma lição de vida

Por Beatriz Breves

Era uma tarde de domingo quando fui visitar algumas senhoras muito idosas no Amparo Thereza Christina, instituição filantrópica fundada em 1924 para acolher a velhice desamparada. Acontecia um baile vespertino, onde um rapaz, tocando órgão eletrônico, cantava, convidando as senhoras a dançarem.

— Tem dias que dá uma dor no peito, que não dá vontade de fazer nada! Essas palavras vieram de Rosa. Disse e, assim como falou, calou-se em um silêncio profundo.

Sem saber o que fazer, afinal, eu nunca estivera com ela antes, coloquei minha mão sobre seu ombro. E fiquei ali.

O rapaz continuava a cantar músicas que, se não me engano, eram do tempo de minha avó. Algumas senhoras dançavam, outras apenas observavam, e algumas dormiam profundamente. Arrisco dizer que a média de idade era de 85 anos.

Depois de um tempo, Rosa voltou a falar, com um tom sofrido:

— Acho muito triste a cadeira de rodas

Havia várias senhoras em cadeiras de rodas. Mas, bem à nossa frente, uma delas chamava atenção: tão magra que era possível quase ver seu esqueleto. Devia ter mais de 90 anos.

Disse a Rosa que tudo dependia do ponto de vista: se não houvesse cadeiras de rodas, muitas daquelas mulheres estariam confinadas às camas. Acrescentei:

— E você não está numa cadeira de rodas.

Ela suspirou fundo:

— Graças a Deus!

Depois das palavras de Rosa, meus olhos não podiam mais se desviar daquela senhora à nossa frente. Com seus pouquíssimos cabelos brancos, faces “chupadas”, parecia mais um cadáver vivo. Aquela cena começou a despertar o sentimento de uma profunda dor no meu peito. Como uma pessoa tão magra poderia carregar um corpo tão pesado?

Senti que ela representava, em si mesma, a convergência entre a fragilidade de uma idade muito avançada e o peso de uma longa história de vida. E com a dor aumentando em meu peito, eu pensei: “o que é que eu estou fazendo aqui?” Era um domingo de sol. Sentia vontade de sair correndo, queria fugir daquele lugar.

Foi então que eu disse a Rosa:

— É… você tem razão, cadeira de rodas é muito triste e eu entendo a dor que você está sentindo.

Ela permaneceu em silêncio por um longo tempo, até murmurar:

— Às vezes tenho vontade de ir embora desse lugar!

Eu não consegui responder. Ela sentia o mesmo que eu. A diferença é que eu tinha para onde ir. Rosa, não.

Comecei a me projetar no futuro e percebi meu pânico: o medo de um dia estar daquele jeito. O pavor de perceber que, para não estar como aquela senhora, só havia uma opção: a morte.

Uma revolta tomou conta de mim. Que grande escolha a vida me oferecia: morrer ou ficar daquele jeito, um pedaço de carne viva. Que direito a vida tinha de exercer tamanho poder sobre mim? O que ela poderia fazer com meu corpo, minha alma?

Meu consolo era que, diferentemente de Rosa, eu ainda estava longe daquela situação. Ironicamente, a morte parecia uma sorte.

Foi então que compreendi: Rosa não se entristecia com a cadeira de rodas em si, nem com o lugar — limpo, acolhedor, cheio de cuidado e afeto. Ela falava da cadeira em que todos nós estamos sentados para assistir à nossa própria decadência na roda da vida. Falava do lugar humano que ocupamos dentro de nós mesmos.

E minha angústia aumentou, porque percebi que eu também não tinha para onde ir. Ir para onde? Eu poderia passar a vida inteira mudando de endereço, mas jamais poderia me mudar de mim.

A saudade tomou conta de mim diante do poder mágico e cruel da vida de transformar anos em segundos. Quando olhei para trás, minha história inteira parecia ter acontecido num instante. Então, seria apenas uma questão de segundos até eu estar daquele jeito..

Compreendi que o que eu projetava para o futuro, caso não morresse antes, não era o futuro: era o meu presente em poucos instantes; e mais, que não estava bem à minha frente, mas dentro de mim.

Para aliviar o que sentia, perguntei a Rosa quantos anos tinha.

Com dificuldade e constrangimento, respondeu:

— Não estou escondendo minha idade de você. Eu realmente não sei quantos anos tenho. Eu perdi a minha idade.

Aquilo me desconcertou. Ela não dizia que havia esquecido, dizia que havia perdido. E o que significava perder a idade? Como aquilo tudo doía dentro de mim..

Concluí que, um dia, todos começamos a perder a nossa idade. E isso começa devagar, no instante em que a memória parte levando consigo nossa história. Ah, meu Deus, como isso dói.

Os meus sentimentos fervilhavam quando Rosa, após um longo silêncio, virou-se para mim e disse:

— Estou começando a colher o que você plantou!

Perplexa, perguntei o que eu havia plantado. Ela apenas sorriu e não respondeu. Poucos minutos depois, levantou-se e foi dançar. Percebi então que, apesar da tristeza, ela estava viva, e por isso também podia se alegrar.

Quando voltou a sentar-se ao meu lado, minha mão começou a formigar. Contei a ela. Generosamente, começou a friccioná-la para fazer a circulação voltar.

Entendi que, assim como algumas senhoras dormiam profundamente, eu tentava adormecer meu corpo para não enfrentar a dor de estar ali. Mas Rosa me mostrou que, abrindo espaço interno para sentir, mesmo que fosse apenas um sentir sensorial, como o da senhora na cadeira de rodas, ainda era possível, apesar de tudo, sentir alegria e dançar ao som da vida.

E então percebi o quanto eu estava sendo cega ao olhar aquela senhora como um pedaço de carne viva. Eu nunca olhei para um bebê assim. A diferença é que um bebê desperta a ilusão dos meus sonhos; aquela senhora, a desilusão deles. E só por isso ela me assustava tanto.

Ela vibrava nos semitons da vida, contrariando meu desejo de que a vida tocasse apenas na escala principal. E só por isso me assustava tanto.

Aquela senhora ainda poderia me ensinar muito, se eu estivesse disposta a aprender.

Descobri que aquela conversa não acontecia a duas, mas a três: eu, Rosa e a senhora da cadeira de rodas. E que não era só eu quem havia plantado algo. Nós três plantamos e colhemos, uma na outra, um dos sentimentos mais profundos do ser humano: a solidariedade.

Aprendi que não adianta fugir da possibilidade da minha velhice avançada. Naquele dia, conheci um pouco mais de mim mesma, do respeito e do amor. E isso foi muito bom.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad

Manifesto de um ativista: quem cuida das velhices LGBT+?

Por Diego Felix Miguel

Estamos no mês historicamente dedicado ao Orgulho LGBT+, movimento que, desde o fim da década de 1960, ganha visibilidade e protagoniza uma luta legítima por representatividade e equidade de direitos.

Mesmo em uma data com tamanha relevância, uma questão me inquieta como ativista dos direitos da pessoa idosa, especialmente daquelas que permanecem vulnerabilizadas e invisibilizadas pelas políticas públicas: qual é o lugar ocupado pelas Velhices LGBT+ durante o mês do Orgulho — e nos outros onze meses do ano?

Recentemente, fui atravessado pelos discursos de artistas como Gretta Star e Márcia Pantera, figuras que marcaram gerações e foram fundamentais na construção de laços identitários para parte da comunidade que, durante muito tempo, viveu aprisionada por normas sociais, em um processo de autoviolência negação de si mesma. Elas denunciam algo perverso: além da LGBTfobia, enfrentamos também o idadismo.

A discriminação por idade nem sempre aparece de forma explícita. Muitas vezes, manifesta-se em atitudes sutis que reforçam o sofrimento e ampliam a exposição à violência em suas diferentes formas, inclusive a financeira.

É inadmissível que artistas tão importantes para a nossa comunidade sejam colocadas em posição de desvalorização em eventos voltados à celebração da própria identidade LGBT+. Assistimos a um cenário em que pessoas mais jovens da comunidade supervalorizam talentos contemporâneos — o que é legítimo —, mas relegam ao esquecimento ou a um segundo plano aquelas que abriram caminhos para que hoje pudéssemos ocupar espaços, conquistar direitos e sermos vistos e ouvidos.

São artistas que fizeram e continuam fazendo história. Abriram caminhos para que pudéssemos viver com mais liberdade e seguem sendo referências no processo de envelhecer e na própria velhice. Mantêm vivo o orgulho de sermos quem somos e ajudam a preservar uma trajetória que integra a cultura construída pela comunidade LGBT+, distante de todo e qualquer “armário”.

Na velhice, continuam sendo mestras e mestres. Ensinam sobre o direito de viver plenamente essa etapa da vida e denunciam que as desigualdades persistem, muitas vezes sustentadas por empresários e “ícone$” que consumimos em casas noturnas, shows, bares e saunas.

“Um povo que não conhece sua história está fadado a repeti-la.”

A frase atribuída ao filósofo Edmund Burke ajuda a compreender o cenário que vivemos.

Até quando abandonaremos aquelas e aqueles que são parte fundamental do legado do qual usufruímos?

Qual o sentido de ocuparmos as ruas com bandeiras se não honramos nossa história e não garantimos proteção às pessoas que iniciaram essa trajetória?

Não se trata de “velhinhos e velhinhas LGBT+”. Trata-se de pessoas idosas empoderadas, ativistas que chegaram à velhice desprotegidas pelo Estado e, muitas vezes, pela própria comunidade, que não oferece oportunidades de trabalho, não remunera com dignidade e não reconhece suas trajetórias.

Os ídolos atuais têm seu valor e sua legitimidade. Entretanto, sem aquelas pessoas que vieram antes, dificilmente estariam hoje mostrando seus talentos na mídia e ocupando espaços de grande visibilidade.

Como comunidade, no verdadeiro sentido de apoio mútuo e fortalecimento identitário, o que faremos para mudar essa realidade?

Quais estratégias adotaremos no ativismo para garantir segurança financeira, proteção patrimonial e acesso a serviços para as nossas velhices?

Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP, especialista em Gerontologia pela SBGG e presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG-SP.

O perigo dos “especialistas” em longevidade

Por Diego Felix Miguel

Foto de Can Ceylan on Pexels.com

Nunca foi tão fácil se apresentar como especialista em longevidade; e tão difícil sustentar esse título na prática. 

Deixo um aviso direto: trabalhar com pessoas idosas ou vender produtos e serviços para esse público não torna ninguém, automaticamente, especialista.

Prezada leitora, prezado leitor, não leia este início como arrogância. Pelo contrário: trata-se de um alerta necessário diante da urgência do tema.

Nos últimos anos, ganhou força um movimento essencialmente mercadológico, formado por profissionais que se apoiam em termos de impacto para projetar autoridade. Dominam o tom de voz e as redes sociais, mas não se sustentam quando convidados a aprofundar o tema.

A Gerontologia é uma ciência. Exige uma compreensão que perpassa a dimensão biopsicossocial e um olhar apurado sobre demandas e políticas públicas — especialmente em um país marcado por desigualdades profundas. Não se trata de uma disputa de mercado ou de protagonismo profissional.

O fenômeno é perigoso: distorce a compreensão do envelhecimento, compromete a qualidade dos serviços ofertados e pode impactar diretamente decisões em saúde, cuidado e políticas públicas.

Não há compreensão real do envelhecimento sem estudo e rigor científico. Experiência prática e leitura são valiosas —, mas não substituem formação consistente quando o tema é complexo. O que está fora disso pode contribuir, mas não confere, por si só, o título de especialista.

Escrevo com a experiência de mais de 20 anos de atuação e estudo em Gerontologia.

Há casos de livros em circulação escritos por inteligência artificial, com textos bem estruturados à primeira vista, mas que, ao menor aprofundamento, revelam erros conceituais graves, referências inexistentes e até nomes de autores grafados incorretamente.

Em muitos espaços, a produção acadêmica e os títulos formais passaram a disputar atenção, em desvantagem, com o número de seguidores e a estética de vídeos bem editados. O resultado é uma informação conceitualmente fraca, generalista e, muitas vezes, sem compromisso ético.

Se você está organizando um evento ou buscando referências na área, vale adotar alguns critérios simples — e cada vez mais necessários:

Observe a aderência à realidade — verifique se há compreensão da diversidade das velhices. No Brasil, é um erro tratar pessoas idosas como um grupo homogêneo ou pressupor acesso universal a serviços privados.

Vá além do currículo visível — investigue a formação e a prática profissional. Especialização exige foco; ninguém domina todos os temas.

Considere o vínculo institucional — priorize profissionais ligados a universidades, sociedades científicas ou serviços de referência. Solicitar comprovação de formação é uma medida legítima e valoriza a qualidade da atividade.

O objetivo aqui não é desqualificar indivíduos, mas valorizar quem realmente investiu tempo, pesquisa e dedicação à ciência da longevidade. Em meio à superficialidade, o conhecimento fundamentado segue sendo o melhor filtro.

Em um país que envelhece a passos largos e de forma desigual, vamos continuar valorizando quem edita melhor vídeos ou quem se compromete com a ciência e a ética das nossas velhices?

Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP, especialista em Gerontologia pela SBGG e presidente do departamento de Gerontologia da SBGG-SP.

Stanford mandou avisar que ainda não sou velho; alguém pode contar para o plano de saúde?

Photo by Hasan Albari on Pexels.com

Acordei nesta manhã um pouco mais jovem. E não foi a sequência de exercícios, com musculação e bicicleta, a que tenho me dedicado nos últimos anos, que me concedeu esse prêmio. Nem a alimentação, que ainda precisa de um controle maior — desde que a Dra. Márcia não se atreva a mexer na minha taça de vinho. A juventude fora de hora me foi oferecida em formato de notícia.

Quando o dia está amanhecendo e estou à mesa de café da manhã, a Letícia Valente, produtora do Jornal da CBN, me envia pelo WhatsApp sugestões de assuntos para o bate-papo que faço na passagem do programa Primeiras Notícias para o Jornal da CBN. Uma das mensagens que chegaram hoje, publicada em O Globo, se destacava pela manchete: “Quando começa a velhice? Estudo indica marco biológico aos 78 anos”.

Sério? Faz uns dois anos que dizem que sou velho porque passei a marca dos 60. Agora vem essa novidade: velho mesmo só aos 78.

A reportagem fala de um estudo da Universidade de Stanford sobre o desenvolvimento biológico do envelhecimento. A conclusão dos pesquisadores veio da observação de mudanças bruscas nas proteínas plasmáticas, moléculas que circulam no sangue e indicam o estado geral de saúde do organismo. Essas proteínas são como ajudantes de bastidor: mantêm o equilíbrio de líquidos, carregam nutrientes, defendem o corpo de infecções. Quando mudam de comportamento — aos 34, 60 e 78 anos — sinalizam que o corpo virou a página e entrou em outra fase.

Se, do ponto de vista biológico, eu ainda não sou velho, do ponto de vista burocrático o sistema já me carimbou faz tempo. Ser 60+ nos oferece algumas vantagens: prioridade no recebimento da restituição do Imposto de Renda, gratuidade no transporte coletivo, meia-entrada em espetáculos, vaga privilegiada no estacionamento e fila preferencial nos serviços de atendimento (e no embarque do avião, também). Quem não gosta? Por outro lado, com o aumento dessa população — já somos milhões de pessoas acima dos 60 — tudo isso gera mais custos para quem concede essas vantagens.

Já assistimos a movimentos para que os direitos concedidos a idosos sejam limitados a pessoas um pouco mais velhas, tipo 65+. O estudo talvez possa ser usado para radicalizar ainda mais e convencer legisladores a adiar os benefícios apenas para aqueles que tiverem atingido os 78 anos.

A depender de mim, sem problema. Posso abrir mão de furar fila no embarque e no caixa — desde que os planos de saúde também abram mão de tratar quem tem 60 como se estivesse à beira do fim. Se biologicamente a velhice começa aos 78, a tabela de preços bem que podia acompanhar.

Quem você levaria para a sua velhice?

Diego Felix Miguel

Foto de Juan García

“De repente fico rindo à toa

Sem saber por quê

E vem a vontade de sonhar

De novo te encontrar”

“Cheiro de Amor” – Maria Bethânia

Prezada leitora, prezado leitor,

Quero te fazer um convite para iniciarmos essa conversa.

Feche os olhos por alguns instantes e reflita:

Quem você gostaria de levar com você na sua velhice?

Confesso que, no meu caso, a resposta não seria singular, e sim plural.

Lembrei de Spinoza, filósofo holandês que nos ensina sobre os afetos, essas transformações que ocorrem em nós, boas ou ruins, quando estamos em contato com outras pessoas e com o mundo. Afeto é justamente isso: o ato de afetar e ser afetado, registras em nós as marcas deixadas pelas experiências.

Ao pensar nisso, vários nomes vieram à mente. Memórias que relaxaram meu rosto e abriram um riso fácil, despretensioso. São vocês que nortearam meus pensamentos e que, em minha imaginação, gostaria de ter comigo daqui a 20 ou 30 anos.

Mas será que é assim que a vida funciona?

A vida nos ensina constantemente com os imprevistos e incertezas. Até lá, será que essas pessoas permanecerão ao meu lado? Continuarão sendo capazes de me fazer sorrir apenas por existirem nas minhas lembranças?

Não sei. Talvez seja pouco provável. Afinal, a vida não é linear. tudo se transforma, novas relações surgem, vivências inéditas nos atravessam.

Somos afetados o tempo todo. Descobrimos afinidades inesperadas, criamos laços que antes nem imaginávamos. Nesse curso imprevisível da longevidade, somos também ressignificados.

Com certeza essas pessoas estarão comigo de alguma maneira, seja presencialmente na minha vida ou nos afetos que se eternizaram no curso da vida, sejam eles positivos ou negativos.

Às vezes penso que os afetos são eternos, mas isso não significa que mantenham a mesma intensidade. O importante é não nos fecharmos ao novo, às experiências que, no passado, talvez não estivéssemos prontos para viver, mas que podem se tornar significativas o suficiente para permanecerem vivas até nossos últimos dias.

Os amores e os afetos que vivenciamos são diferentes, possuem intensidades distintas. Podem coexistir ao longo das décadas. Amar uma pessoa não anula a possibilidade de amar outra. Que garantia temos de permanecer com as mesmas pessoas até a velhice?

Pois é. Muitas perguntas, poucas respostas.

Como princípio básico, vale, então, considerar: mantenha sua rede afetiva nutrida de bons encontros e memórias, e esteja aberto a ressignificar as possibilidades de afeto conforme cada experiência. Não desperdice os vínculos que são verdadeiramente significativos para sua vida, eles podem, sim, ser eternos.

E você? Quem levaria para a sua velhice?

Diego Felix Miguel é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG-SP. Mestre em Filosofia e doutorando em Saúde Pública pela USP. Escreve este artigo a convite do Blog do Mílton Jung