A meia-entrada dos jovens e a perícia meia-boca

 

Por Milton Ferretti Jung

A SANÇÃO SELA UM PACTO COM A JUVENTUDE BRASILEIRA

Foi o que afirmou a presidente Dilma ao sancionar o Estatuto da Juventude na última segunda-feira. É o primeiro resultado positivo das manifestações dos jovens brasileiros em praticamente todo o Brasil. Tanto isso é verdade que um projeto esquecido há nove anos, repentinamente, acabou sancionado. Pergunto-me por que foi necessário que os moços e moças saíssem às ruas para que fosse atendida uma de suas reivindicações.

 

Embora as novas normas, entre elas a que prevê que 40% dos ingressos deverão ser reservados para meia-entrada, o que beneficiará 51 milhões de pessoas com idades entre 15 e 29 anos, só entrarão em vigor em 2014, trata-se de uma vitória incontestável da mocidade brasileira, conquistada contra o pouco caso demonstrado pelos políticos no que diz respeito a aprovação de projetos de grande interesse popular.

 

Os efeitos do Estatuto da Juventude sobre os preços dos ingressos de quem terá de pagar entrada inteira já começa, porém, a ameaçar essa parcela de público com aumentos por força dos descontos. Será que os “idosos” terão de pagar o pato? Não é de se duvidar. Aliás, quem paga todas as bolsas disso e daquilo existentes em nosso país são mesmo as pessoas com mais de 30 anos. Creio que seria demasiado, no entanto, que fosse aprovada a meia-tarifa no transporte interestadual. Afinal, o projeto previa subsídio governamental, sem repasse às empresas.

 

Permitam-me, sem estranhar, que trate ainda de um episódio vivido por uma senhora de 88 anos, residente em Caxias do Sul, cidade onde nasci. Dona Odete Hoffman confessou ter matado um bandido, que havia invadido o apartamento no qual morava sozinha, alvejando-o com três três tiros disparados por um revólver Smith & Wesson, calibre 32. Ela foi acordada pelo invasor e reagiu em legítima defesa. O caso aconteceu no dia 9 de junho de 2012. Mais de uma perícia foi efetuada e até agora a polícia não decidiu se foi mesmo Dona Odete a autora do homicídio. Tivesse ela sido vítima do ladrão e não o contrário, esse já estaria em liberdade condicional. Que baita incompetência pericial!

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

Conte Sua História de São Paulo: Dos velhinhos

Por César Cruz
Ouvinte-internauta do CBN SP

Ouça o texto “A história dos velhinhos” de César Cruz

Como são gostosas as histórias que os velhinhos contam!

Quando eu era menino lembro de ouvir meu pai dizer a cada vez que perdíamos um ancião da família: “Que pena, mais um velhinho que parte levando suas histórias!”. Uma grande pena mesmo!

Meu tio Milton, irmão mais velho do meu pai, contava causos sensacionais passados na meninice deles. Tais histórias envolviam tios e parentes que eu e meus primos nem havíamos conhecido! Era sempre uma delícia ouvir relatos de uma época tão diferente da nossa, e de imaginar nossos pais ainda crianças, aprontando as mais diversas safadezas em uma cidade tão diferente da que conhecemos hoje, com poucos carros, outros hábitos de vida… Tão ingênua!

Minha mãe também era dona de histórias ótimas. Eu gostava de uma em especial.   Nela, papai e mamãe ainda namorados, no final dos anos 50, foram certa tarde ao cinema e depois a uma lanchonete no centro da cidade comer um hot dog, programa típico de casaizinhos jovens da época.

Pouco antes de irem embora, já à noitinha, minha mãe, que era linda – e as fotos não desmentem -, levantou-se e desfilou em direção ao banheiro. Na outra extremidade do estabelecimento havia um grupo de 4 sujeitos mal-encarados rindo e bebendo. Quando ela passou toda graciosa em sua saia e blusa, um deles curvou-se para trás na banqueta e segurou-a pela cintura: “oi chuchuzinho, vem comigo, vem…”. Minha mãe, temperamento forte que sempre teve, não titubeou, desceu-lhe um sonoro tapa na cara.

Meu pai que terminava seu cachorro-quente na outra ponta da lanchonete ouviu o bafafá e quando se virou viu parte da cena. Tomado por uma ira explosiva, característica de sua personalidade, não contornou o balcão em formato de “U” duplo, preferiu ir saltando-o olimpicamente, pisando alternadamente nas banquetas fixas e nas mesas, para desespero dos casais de namorados que, assustados, tiravam da frente suas garrafas de Grapete e Coca-caçula e seus pratos com misto-quente! Em segundos estava cara a cara com os sujeitos!

Deste momento em diante, minha mãe dizia que sua vista havia escurecido e que ela não conseguiu ver mais nada. Apenas alguns flashes teriam ficado tatuados em sua lembrança. Neles via homens sendo arremessados pelo ar e se estatelando sob pilhas de copos e pratos, como nos filmes de saloon.

Em certa parte do relato, Dona Diva passava a falar baixinho e a espiar por cima do ombro, como se houvesse o perigo de alguém, 50 anos depois, ouvi-la. Confidenciava que, na escuridão do seu pânico, pode escutar os sons dos murros, os gritos abafados de dor na voz dos homens e os ruídos secos de maxilares e ossos sendo quebrados… Terminava dizendo que não esqueceria aqueles sons ainda que vivesse 100 anos, e que desde aquele dia, passou a morrer de medo a cada vez que meu pai ficava nervoso: “ninguém segura ele, Cesar… ninguém!”.

No final da história, o jovem Aloísio, atleta praticante de judô e boxe, deixara os 4 maus-elementos moídos no chão em meio aos escombros.

Partiram correndo a tempo de pegar o bonde andando.

Minha mãe, assim como o meu tio Milton, já se foram. Partiram levando com eles todas aquelas apaixonantes histórias… Irrecuperáveis, por mais que nós, os filhos, tentemos reproduzi-las.

Eu, infelizmente, não tenho mais avós nem pais vivos. Transformei-me precocemente em um órfão de causos sensacionais como estes… Arrependo-me tanto por não ter gravado os meus velhos contando alguns deles!

O autor de hoje foi César Cruz. A sonorização é de Cláudio Antonio. Você também participa enviando seu texto ou arquivo de áudio para  contesuahistoria@cbn.com.br.