3.107 dias depois, Igor cumpre pena por assassinato

 

Oito anos mais velho, pesando pouco menos de 50 quilos, o que o fez parecer ainda menor do que já era, com os cabelos ralos de sempre, dentes apodrecidos e visivelmente extasiado. Com toda esta aparência de derrota, o ex-promotor de Justiça Igor Ferreira da Silva não perdeu a arrogância ao ser preso oito anos depois de fugir da condenação pelo assassinato da mulher que estava grávida. Convenceu a delegada que teria lhe dado voz de prisão a não colocá-lo no camburão da polícia, anunciou que estava se entregando e denunciou ter sido vítima de desrespeito aos direitos humanos durante a prisão.

Igor terá de cumprir os 16 anos e poucos meses de prisão, mas pode alegar problemas de saúde para ter a situação amenizada. Vai manter a tese de que a mulher foi morta por um assaltante e defender sua inocência. Todos os recursos possíveis e impossíveis serão usados por ele e família para tornar a condenação mais branda. Será persuasivo como já havia sido com seu advogado de defesa, o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, a quem convenceu de que ficaria em casa enquanto o Órgão Especial do Tribunal de Justiça julgava seu destino, em abril de 2001. Tinha o direito de não comparecer diante dos colegas promotores. Assim que a sentença foi anunciada ele desapareceu.

Há oito anos, a polícia recebe notícias do paradeiro de Igor, algumas vezes policiais disseram ter estado muito próximos dele, mas nunca conseguiram colocar as mãos no ex-promotor. Teria tido aparições em Florianópolis e no Chile. Jamais confirmadas. Ele alega que sempre permaneceu no Brasil. A maneira como foi preso, após denúncia anônima, na calçada de uma rua da Vila Carrão, na zona leste, como se esperando a Justiça chegar, sinaliza que tenha cansado de fugir.

Durante três anos, os ouvintes-internautas do CBN SP acompanharam contagem progressiva do tempo de fuga do ex-promotor. A cada aniversário da condenação, realizávamos entrevistas com autoridades e especialistas no tema. Quase sempre o programa era seguido de um telefonema de membros da família de Patrícia Longo afirmando que confiavam na inocência de Igor Ferreira da Silva. Sim, os pais dela e irmão nunca acreditaram que o ex-promotor tenha sido o assassino. O pai dele, advogado, chegou a escrever um livro sobre o assunto acusando procedimentos ilegais da polícia e dos promotores que o julgaram.

Nos últimos anos, confesso, havia desistido de falar do caso.

A prisão aconteceu após 3.107 dias de fuga e concluiu o árduo trabalho da procuradora Valderez Deusdedit Abbud, que sustentou a acusação contra ele, convenceu os 25 desembargadores mais antigos da corte paulista, superou todas as barreiras impostas pelas manobras do experiente acusado e o desgaste de ter de condenar um colega do Ministério Público Estadual, mas que até esta segunda-feira não havia tido a oportunidade de ver a pena sendo cumprida.