Autonomia de vôo

 

Por Christian Jung
Do Blog Mac Fuca

Foto do álbum digital de Rayani no Flickr (http://www.flickr.com/photos/rayani/)

Foto do álbum digital de Rayani no Flickr (http://www.flickr.com/photos/rayani/)

Hoje, fui surpreendido com um aviãozinho de papel cruzando em céu de brigadeiro pela minha sala de estar, bem dizer dando uma rasante na mesa da cozinha. Depois, claro, lá estava o piloto, todo bobo me mostrando que tinha aprendido a fazer um avião de papel. Era o “Ajudante Nota Dez”, Fernando, meu filho. Já não precisou mais da ajuda do pai para dobrar a folha de papel e transformar material reciclável em um meio de transporte. Tá certo, de brinquedo, porém com poder e deslocamento.

(Hoje, li uma boa dele na prova do colégio. Perguntado sobre qual seria um meio de transporte que carrega carga, ele respondeu: “O Correio!”)

Apreciada a engenhoca de bom acabamento, vi um bom número de vôos para chegar à conclusão que Fernando já adquiriu autonomia. A liberdade de não precisar mais da ajuda do velho (nem tão velho, pai). E, assim como dobrar uma folha de papel, a vida vai tomando liberdade e cumprindo o ritual de se ver independente. Primeiro, os gestos; depois, os sons; o controle dos membros; a independência das fraldas, permitindo que o cocô e o xixi passem a ser administrados da forma que o ser humano quiser, guardar pra mais tarde e ficar soltando puns, fazer pontaria com o pinto pra urinar onde quiser, enfim esse tipo de coisas tão simples e complexas ao mesmo tempo, as quais, quando envelhecemos, temos pavor de perder. E pior perdemos mesmo.

Mas o fato em questão está no crescimento. Depois destes controles, vem a conjunção das palavras e, claro, as perguntas, e como tem perguntas, algumas até nem tenho a resposta e sequer parei pra pensar um dia. Depois, a autonomia das frases escritas, palavras que eram difíceis de escrever vão fluindo com alguns erros, por incrível que pareça não muito diferente dos meus neste texto.

É a autonomia de vôo com toda a certeza.

Tenho a partir daquela passagem do aviãozinho de papel a noção complexa de que o meu “Ajudante Nota Dez” cada vez precisa menos de mim e eu muito mais dele (que ele não saiba). É a vida que não se cansa de se repetir. Fez me lembrar os tempos em que acompanhava meu pai na leitura de seu Correspondente Renner na Rádio Guaíba, sábados à noite, e naqueles 10 minutos de noticiários que ele lia (e ainda lê tão bem que em 50 anos não apareceu um que fosse melhor, aliás, só pioram). Eu ia pra sacada do prédio na Caldas Júnior arremessar minhas engenhocas voadoras na cabeça dos que formavam fila para entrarem no cinema Cacique. Era um vôo lindo, duas ou três voltas e a esperança de que acertasse alguém bem na cabeça, de preferência. Espírito de porco quando se é criança sempre tem outra conotação, não é mesmo ? É sempre mais engraçado até porque era só uma folha de papel com um piloto Kamikaze ilusório que ao cair no chão já era. Corria novamente e pegava mais uma lauda (porque a sala ficava na redação da rádio) pra virar um super jato imaginário.

Viram, só ? A vida se repete mesmo, menos mal que o “Ajudante Nota Dez” ainda não descobriu a maravilha de se jogar um aviãozinho bem na calva de alguém, porque com certeza a minha seria a primeira.

E com isso vou assistindo às aquisições e a liberdade que aquele serzinho pequenino que dependia tanto de mim, querendo mais saber das minhas experiências passadas do que as que lhe vão servir para conduzir o futuro. Na verdade, para saber do futuro se pergunta aos jovens porque eles sabem o que irá acontecer de verdade. Os velhos sabem o que fazer, mas não como vai ser. Pra se saber exatamente o que não vai acontecer no futuro, escute uma projeção estatística dos mais velhos. É sempre o contrário!

Bom, me estendi muito hoje, mas senti a necessidade de reproduzir o meu sentimento que se encontra, se perde e se expande com a mesma autonomia de vôo do “Ajudante Nota Dez”!

Christian Jung é mestre de cerimônia, pai e meu irmão. Este texto foi escrito originalmente no Blog Mac Fuca do qual ele é o autor

Adeus pátria amada

 

Por Carlos Magno Gibrail

Das lágrimas de Cielo no podium olhando a bandeira brasileira e ouvindo o hino nacional, ao esquecimento da mídia e dos seus patrocinadores da maior data nacional, um curto espaço e um profundo e inexplicável fosso.

Por que a pátria emociona os campeões, atrai o público e afasta a mídia e seus senhores ?

Pela leitura a olho nu percebemos que a diferença entre os campeões e os demais é que cumpriram suas missões com sacrifício, objetivos sadios, honestidade e patriotismo. Daí a se emocionarem é bem explicável. Dever cumprido, emoção de realização.

” Sete de setembro banalizado. Nenhum canal de TV aberta (com exceção da TV Brasil) transmitiu o desfile militar em Brasília na íntegra, nem a TV Cultura. No momento do desfile, canais passavam desenhos animados, programas de variedades e religiosos. Os flashes dos desfiles pelo país tiveram pouco destaque”. Site poder naval.

A verdade é que das pessoas envolvidas no processo do desfile de sete de setembro devemos ter tido semelhante opinião ao do ex presidente FHC, segundo relato de Paulo Henrique Amorim:

“Numa entrevista à revista Piauí – aquela de banqueiros, por banqueiros, para banqueiros; aquela que trata o Daniel Dantas com especial deferência –, o Farol de Alexandria, também conhecido como Fernando Henrique Cardoso, disse que odiava as celebrações do Sete de Setembro, quando era Presidente. Aquilo é uma palhaçada, disse ele”.

Com certeza não era assim que pensava quando criança, ainda inocentemente patriota, como os 50 mil de Brasília presentes patrioticamente no desfile militar, os 35 mil de São Paulo, os 70 mil de Curitiba, os 10 mil do Rio etc.etc.

Também patriotas, na Esplanada dos Ministérios, cerca de 150 manifestantes, de acordo com a Polícia Militar, romperam uma das grades de segurança, invadiram o gramado e conseguiram chegar a menos de cem metros do palanque onde estava o presidente Lula.

Eles cobravam a saída de Sarney da presidência do Senado. “Sou brasileiro, sou patriota, mas eu não sou idiota”, gritavam os manifestantes, em sua maioria estudantes de escolas secundárias e da Universidade de Brasília, com as caras pintadas e narizes de palhaço. Sarney, como Serra em São Paulo, não compareceu ao desfile. A assessoria dele informou que estava descansando, a de Serra, que teve mal estar. Talvez precaução contra tomates e ovos, de Sarney, e de vaias, de Serra.

O desfile de Brasília, orçamento 28% menor que do ano passado, embora tivesse a França, de presidente presente, não agradou:

“Desfile militar pobre e descaso das TVs.
Um LIXO e uma VERGONHA COMPLETA o desfile deste ano em Brasília. Outra lástima: o narrador da TV Brasil, única a transmitir o desfile, não entende absolutamente NADA DE NADA, estava mais perdido que cego em tiroteio. A TV quase perdeu a passagem dos aviões da FAB, e o narrador não sabia qual que era qual. Porque não teve um adido militar esse ano junto ao narrador, pra explicar o quê era o quê?”Do site forças terrestres.

Quando Samuel Johnson escreveu que “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas” não estava afirmando que todo patriota é um canalha, mas que o canalha, em última instância, busca guarida no patriotismo, o que vamos convir é o auge da canalhice.

Onde então estão os nossos canalhas?

Sumiram?

Metamorfosearam-se?

Ou nem é preciso refugiar-se mais?

Sim, parece que é isso.

Adeus pátria desolada e mal amada!

Salve o patriotismo que poderá combater a corrupção impregnada.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feiras no Blog do Mílton Jung