Avalanche Tricolor: mantida a tradição!

Grêmio 0x1 Inter

Gaúcho — Arena Grêmio

Geromel em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Estou diante de uma página em branco há algum tempo, a espera de criatividade para conversar com você sobre o Gre-Nal Corujão que assistimos na noite de ontem, disputado em Porto Alegre. Pode ser falta de foco, provocada  pelas poucas horas de sono; pode ser falta de inspiração, por não ter encontrado em campo a mesma precisão no ataque que nos garantiu a passagem à final do Gaúcho, ainda no primeiro jogo da semifinal. Talvez, porque fiquei tentado a falar da violência que voltamos a assistir dentro do estádio, e, confesso, o assunto não me é atrativo, a despeito da sua relevância e necessidade de encontrarmos alguma saída civilizada — até porque essas cenas tem se transformado em marca do clássico, e isso é ruim. Uma tradição a ser abandonada o mais breve possível!

Sobre o tema, a fala de Geromel ao fim do jogo além de cirúrgica foi simbólica ao ser interrompida por outro inusitado caso de violência, em que um funcionário, contratado pela administração da Arena Grêmio, e colorado pelo que se pode entender, resolveu “zoar” os jogadores gremistas ao fim da partida e provocou a reação agressiva de agentes de segurança e atletas. 

“Infelizmente, teve confusão desnecessária, a gente cobra paz, mas tem que começar pela gente para dar exemplo. Conversar para não acontecer novamente. Como eu disse, temos que ser exemplo. A gente reclama, cobra paz e chega aqui e dá mau exemplo”.

Antes de ser interrompido, Geromel falava do embate dos jogadores quase ao fim da partida em que Ferreirinha foi derrubado com um encontrão por um adversário em resposta a comemoração efusiva por alguma conquista que a televisão não me mostrou muito bem. Nosso atacante acabou expulso sem sequer ter reagido a agressão. Punido e fora da primeira partida da final por vibrar em um jogo vibrante? Estranho! Depois, como dois moleques de colégio, os envolvidos e expulsos tentaram se engalfinhar no corredor do vestiário. Dessa vez, os agentes de segurança fizeram seu papel. Proteger!

Quem se protegeu bem foi o Grêmio, apesar do sofrimento que ofereceu aos torcedores — achei que teve proteção de mais para ataque de menos. 

Fiquemos com a parte boa da proteção: Breno está de volta, ganha segurança, fez uma defesa importante e no gol que tomou nada podia fazer. Geromel … esse é gigante! Impressionante o que joga nosso zagueiro, além de ser uma pessoa exemplar dentro e fora de campo. Colocou mais um atacante no bolso; e com o apoio de Bruno Alves que tem se mostrado cada vez mais equilibrado na posição. Quem também não deu chance enquanto esteve em campo, foi Rodrigues que, claramente, tem apoio total do torcedor. 

No meio de campo, Lucas Silva jogou por dois — se é que você me entende. E com a bola no pé, mesmo que mais lento na saída de jogo, soube acionar Campaz, nosso melhor jogador do ataque. O colombiano está cada vez mais à vontade jogando pelo lado direito e tem uma fome de gol que impressiona. Chutar é quase uma obsessão!

Se a vitória não veio, o resultado foi na medida certa. Manteve a decisão na Arena e a tradição: pelo sexto ano consecutivo estamos na final do Campeonato Gaúcho. Essa sim uma tradição que podemos manter por um bom tempo!

Avalanche Tricolor: o Gre-Nal de Roger!

Inter 0x3 Grêmio

Gaúcho – Beira-Rio, Porto Alegre/RS

Roger em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Roger completou, neste sábado, um mês no comando do Grêmio, nesta sua segunda passagem como técnico. A estreia dele na ‘casamata’ foi em 19 de fevereiro, com uma goleada pelo Campeonato Gaúcho. Quatro semanas e seis jogos depois, voltou a golear, agora no clássico e na casa do adversário —- um resultado que deixa o time muito próximo da final da competição.

Se Elias, Bitello e Diego Souza foram os jogadores que fizeram os três gols gremistas, a goleada foi por obra e graça de Roger, que soube, no pouco tempo que teve para trabalhar, entender o elenco que tem em mãos e construir uma estratégia apropriada para essa primeira “semi-decisão”.

A mão do técnico começou a funcionar nas escolhas que passou a fazer algumas partidas atrás, quando ainda estava tateando o grupo e tentando enxergar as soluções disponíveis. No gol, deu segurança a Breno, definindo-o como titular. 

Não se acanhou em deslocar o zagueiro Rodrigues para a lateral direita, ao perceber que ele tem força na marcação, habilidade para levar a bola e velocidade para sair de trás. Com isso, ainda pode contar com o cacoete do zagueiro que fecha na área, ao lado de Geromel e Bruno Alves. Eles, a dedicação de Nicolas na esquerda, e o sistema defensivo de Roger foram imbatíveis, nesta tarde de sábado.

Roger também mexeu no meio de campo, recuando Lucas Silva e deixando Villasanti e Bitello um pouco mais à frente — os dois com boa saída de bola e chegando rápido ao ataque. Todos com a missão de não dar espaço ao adversário —- o que havia sido fatal no último clássico. 

No ataque, mesclou o talento de Campaz, a velocidade de Elias e o incômodo que Diego Souza provoca nos marcadores — só de estar em campo já causa frisson entre os zagueiros que conhecem o histórico de gols dele em clássicos. Como nosso treinador sabia da necessidade de um sistema compacto para evitar o toque de bola adversário, fez com que os dois atacantes que jogavam aberto, se revezassem na volta para a defesa; sempre ficando um mais à frente para escapar em direção ao gol. 

Foi em uma dessas escapadas, ainda aos dez minutos de partida, que se iniciou a goleada, construída por Roger no vestiário. Depois de a defesa interceptar duas tentativas de ataque, Nicolas encontrou Elias correndo por trás dos marcadores. Aos 22, foi a vez de Bitello fazer o seu com mais um chute atrevido de fora da área, em uma bola que o Grêmio interceptou quando forçava a marcação perto do gol adversário. O terceiro, já no segundo tempo, também foi fruto de uma roubada de bola, que culminou no pênalti em Elias, muito bem cobrado por Diego Souza.

Roger ainda tem muito a fazer neste time. E sabe disso. Está ainda tentando implantar o futebol de aproximação, triangulação e movimentação rápida do qual é admirador. Precisará de um pouco mais de tempo, apesar de nos poucos lances em que estivemos com a bola, se perceber que alguns jogadores já conseguem rascunhar a ideia do treinador. 

Com um mês ao lado do campo, Roger corrigiu defeitos, ajustou peças, e tirou o que pode de cada um dos jogadores à disposição. 

O Gre-Nal 436 foi o Gre-Nal de Roger!

Avalanche Tricolor: onde está você?!?

Inter 1×0 Grêmio

Gaúcho – Beira Rio, Porto Alegre/RS

Foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Abri a porta do armário e na terceira gaveta de cima para baixo, encontrei minha coleção de camisas tricolores. Lá tem modelos de anos históricos e outros esquecíveis. Todas devidamente dobradas, com o escudos à mostra. 

Fui até a sala de televisão e encontrei a camisa de Geromel, estendida, e emoldurada na parede, com destaque para o autógrafo de nosso zagueiro. Ao lado dela, está a de Danrlei, com o branco em destaque e listras transversais em preto e azul nos braços e no peito. Foi de um dos muitos títulos conquistados pelo goleiro que fez história no Grêmio.

No outro canto, encontrei a icônica cadeira de metal que adornava o saudoso estádio Olímpico, devidamente recuperada e repintada no azul claro original, com meu nome. No encosto dela, tem a camisa com o número e nome de Pepê às costas.

Os LPs com o registro de áudio de glórias passada, como o do título brasileiro de 1981, uma série de livros contando nossa história e mais algumas quinquilharias em azul, preto, branco seguiam sobre a estante, que fica abaixo da televisão de tela ampla onde assisto aos jogos do Grêmio.

Depois de me certificar da presença gremista nos armários, paredes e estantes, deitei, fechei os olhos e vasculhei meu coração. E, claro, lá estava meu Grêmio.

Fui dormir com a certeza de que o Grêmio segue por aí, só não foi mesmo a campo, ontem à noite, na rodada do Campeonato Gaúcho! Que volte logo!

Avalanche Tricolor: de experiência, esperanças e fracassos

Inter 1×0 Grêmio

Brasileiro – Beira Rio, Porto Alegre/RS

Kannemann em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Das boas coisas que o tempo nos oferece, a experiência é uma delas, a despeito de saber que essa também é feita da intensidade com que se vive as coisas — senão, como explicar jovens capazes de transformar o mundo como temos vistos recentemente.  No que se refere ao tema de sempre desta coluna,  sou muito experiente — e não escrevo isso para me gabar, apenas para constatar que de Grêmio já vivi muito e intensamente. Sofri como a maioria de vocês, nascidos nestes anos de 2000, nunca sofreram. Chorei na arquibancada, ao lado do gramado e dentro do vestiário, abraçado a meus ídolos. Chorei de dor e de amor. Vivenciei a escassez e a abundância de títulos — sequências que nos ensinam que nada daquilo que experimentamos no momento será eterno (vai passar!). 

Derrotas em clássicos sempre ocorreram. E em uma quantidade inimaginável para os tempos atuais. O que assistíamos até recentemente beirava o ineditismo, chegava ao limiar do impossível, a medida que falamos de uma das maiores rivalidades do futebol brasileiro. Há quem diga que é a maior. Humilde, como os gaúchos devem ser, a coloco entre as maiores do futebol mundial. Portanto, não surpreende a turma do lado de lá ter dado volta olímpica, desfraldado bandeira, tocado tambor e até feito pose de foto do título(?). Das galhofas com símbolo adversário, prefiro não comentar. Me falta isenção. 

E por isento que não sou, uso a experiência em situações como essa. Em lugar de iniciar meu texto assim que o árbitro encerrou a partida e os jogadores ainda se engalfinhavam no gramado, preferi contemplar o cenário com um copo de vinho em mãos. Ao mesmo tempo que o álcool percorria meu corpo e ascendia ao sistema límbico, atingindo meu senso crítico, meu sangue corria menos quente entre as veias e esfriava meu ânimo. Nesse jogo de compensações que a biologia humana disputa em situações como essa, meu desejo de dizer algumas “verdades” arrefeceu – sim, entre aspas, porque a verdade a que me refiro tem a ver com a reação que costumamos expressar quando a razão se cala e a emoção exacerba, geralmente traduzida em ataques desnecessários, palavras deseducadas, e injustiças. Embevecido – ou seria embebido – preferi a cama às palavras. Deixei para escrever essa Avalanche em momento mais oportuno.

Que bela decisão tomei – pensa o humilde escrevinhador cá com as listras tricolores da sua camisa.

Hoje cedo, quando ninguém ainda estava acordado em casa, deparei com a crônica do colunista de esporte dominical de O Globo, Marcelo Barreto, que tinha como cena de fundo o clássico carioca Botafogo e Vasco, e protagonista, um torcedor vascaíno, desses que se apresentam como “doentes”, apesar de já dar sinais de consciência. O time carioca caiu quatro vezes para a Série B e a possibilidade de permanecer por lá ano que vem chega a ser maior do que a nossa de cair, nesta altura da competição. Ou seja, o clássico de hoje deve ser determinante em diversos aspectos.

Marcelo descreve as reações do amigo vascaíno que fez de sua paixão, resignação — a medida que a idade avançava. Hoje, com o coração endurecido no tempo e na intensidade, não impõe mais medo nos amigos, que temiam atos extremos e vida colocada em risco como resposta às frustrações em campo. O cronista diz que “meu amigo aprendeu a esperar. E ainda não perdeu a esperança. Mas está a um passo de normalizar o fracasso.” As duas primeiras frases guardarei como lição nesta tristeza que me abate; a última, lutarei até o fim para não me dominar. Porque se tem algo com que não devemos jamais nos contentar é com o fracasso, sob o risco de perdemos o título que realmente conta na nossa história: o da imortalidade.

Avalanche Tricolor:  Scolari e Chapecó garantem invencibilidade gremista em Gre-Nais, na Arena

Grêmio 0X0 Inter

Brasileiro — Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Felipão voltou! Felipão voltou!

Ouviríamos este grito da torcida se torcida houvesse na Arena, nessa tarde de sábado. E a volta não era apenas física, era comportamental. O time cabisbaixo das últimas rodadas, não teve vergonha de dar bico para fora quando necessário nem de trocar o domínio da bola sem sentido por um chutão para o ataque, se preciso fosse. Perder divididas seria crime de lesa pátria, e cada um, ao seu jeito, assumiu esse compromisso do início ao fim da partida.

Scolari, como prefiro chamar nosso treinador, se fez notar na forma do Grêmio se comportar, mesmo que os analistas insistissem em dizer que com apenas um treino nada teria a fazer de diferente. Fez, sim. No vestiário. Na conversa. No incentivo. No sotaque marcado e no conhecimento de quem foi campeão do mundo.

Se é verdade o que diz o ditado que “o diabo está nos detalhes” foi neles que percebi Scolari atuar: nos palavrões repetidos à beira do gramado em toda bola de ataque desperdiçada; na conversa de pai para filho encerrada com um tapa de carinho na cabeça de Ferreirinha; e na ordem para que Geromel voltasse para a defesa a qualquer custo, quando nosso capitão se lançou ao ataque para receber o cruzamento de um falta a ser cobrada a dois minutos do fim da partida. 

Scolari não estava apenas no vestiário ou dando ordens ao lado do campo. Estava redivivo na postura de Kannemann que fez, sem dúvida, sua melhor partida de todos os últimos tempos.

A força mística de nosso técnico e a influência que ele, aos 72 anos, é capaz de impor a seus comandados foram fundamentais para que o Grêmio mantivesse a escrita de não perder um Gre-Nal há 17 partidas em sua casa — é a maior invencibilidade já escrita na história desse confronto que chegou ao número de 433. Pra que ninguém esqueça, também: nos últimos 15 clássicos perdemos apenas um e, se sua memória é boa, você deve lembrar como o VAR e o árbitro nos impuseram aquele único revés.

Em um jogo de pouco brilho e muito esforço, de lado a lado, Gabriel Chapecó merece também os méritos pela invencibilidade mantida. Foi dele os lances mais incríveis, no primeiro e segundo tempos do clássico. Com 21 anos e 1,92 de altura, Gabriel Hamester Grando foi gigante ao defender com os pés a primeira estocada perigosa do adversário. Já havia desviado para escanteio um chute que se encaminhava para o gol. Mais à frente, voltou a salvar nossa cidadela. Uma delas com a mão trocada em um chute forte e com endereço certo —- que considerou ser a mais bonita do jogo, em declaração marcada por um largo sorriso, ao fim da partida, enquanto segurava nas mãos o troféu de melhor jogador do clássico.

vamos para mais de sete anos sem derrota em clássico Gre-Nal na Arena. E a dupla Geromel e Kannemann jogando junta até hoje não sabe o que é perder para o arquirrival. 

Sei que nada disso elimina o sufoco de estarmos onde estamos no campeonato, mas nos dá a esperança de que o futebol aguerrido e a alma tricolor que forjou nossa história serão redescobertos com a volta de Luiz Felipe Scolari. 

Felipão voltou! Felipão voltou!

Avalanche Tricolor: de futebol, de Bruno Covas e da alegria de viver

Inter 1×2 Grêmio

Gaúcho — Beira-Rio, Porto Alegre/RS

Ricardinho comemora gol da virada em homenagem ao pai morto por Covid-19 Foto Lucas Uebel GrêmioFBPA

Deve achar estranho o caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche que depois de mais uma vitória em clássico, de virada, na casa do adversário e em final de campeonato, eu tenha demorado tanto para me apresentar neste espaço. Em outros tempos, a publicação viria ainda com o suor encardido do jogo sofrido e a emoção aflorando do coração à mente e da mente aos dedos que digitam cada palavra deste espaço. Estranho não é meu comportamento. São os tempos em que vivemos.

Estranhos e complexos. Difíceis de serem digeridos. Tomados de absurda desconsideração com o outro. Com a vida. Com a gente querida. Noticiamos mortes e a elas —- sim, com direito a pronome pessoal de tão familiares que se tornaram — somamos outras tantas. E de tanto que noticiamos, passamos a traduzir a tragédia sanitária vivida apenas em números: um + um + mil + uma centena de milhares …

Quando os corpos ganham nomes e histórias, a realidade se apresenta. Foi o que aconteceu comigo neste domingo ao acordar com a informação da morte de Eva Wilma, aos 87 anos, por câncer no ovário. Ela fazia parte da família, não fazia? Se não pelo teatro —- onde tinha talento impressionante, quase sempre ao lado do amado Carlos Zara —, certamente pela televisão que transformou seu rosto e sorriso populares. Familiares.

O almoço de domingo ainda não estava servido, quando chegou a notícia da morte esperada de Bruno Covas, aos 41 anos, também vítima de câncer. A doença do prefeito acompanhamos mais de perto. Desde que a descobriu, em outubro de 2019, tornou-a pública e a tratou com transparência —- apenas uma das muitas lições que aprendeu com seu avô e guia Mário Covas. Com seu exemplo, deve ter fortalecido muitas outras pessoas que sofrem do mesmo mal. Revelou resiliência e desejo de estar vivo — e isso é um mérito diante de atos que colocam dúvidas sobre a sanidade mental de algumas pessoas que parecem prezar a morte (a dos outros, lógico).

O domingo não havia terminado quando soubemos da morte de MC Kevin, aos 23 anos, vítima aparentemente de sua própria vontade, em situação ainda estranha ao nosso conhecimento. Confesso que do músico do funk sabia pouco. Mas era mais uma cara a ilustrar a morte. E isso tudo me impacta sobremaneira. 

A amenizar a dureza da realidade, havia o futebol na televisão, assistido ao lado do filho mais velho, que há algum tempo tem-se revelado tão ou mais gremista que o pai. Conhece cada jogador. Sabe quem deve entrar. Quem deve sair. Qual o caminho do gol a fazer e o do gol tomado. O futebol em família é outro dos fenômenos que fazem este jogo ultrapassar as fronteiras do esporte — e não vou me atrever a destrinchar essa teoria porque já foi feita por gente de alta qualidade como Gilberto Freyre, Eduardo Galeano e Franklin Foer. Dê um Google neles. Valem a pena!

Nos dois gols que marcamos, depois da decepção de sair atrás no placar, comemoramos juntos em pé no sofá da sala. Batemos as palmas das mãos. Nos abraçamos. Beijamo-nos. Fomos cúmplices no sofrer diante da tela quando aquela bola, quase no fim da partida, relou o travessão — se entrasse resultaria em um empate até aceitável, mas amargo para quem estaria próximo da vitória.

Mesmo naquela alegria fugaz do futebol e talvez até por isso, uma imagem não me saía da cabeça: a do dia em que o prefeito Bruno Covas apareceu ao lado de seu filho Tomás, de 15 anos, na arquibancada do Maracanã, semi-fechado devido a pandemia.

Apenas alguns poucos tiveram aquele privilégio. E a crítica sobre o prefeito foi intensa, pois enquanto ele estava por lá, deixava para trás a ordem de todos ficarmos em casa, aqui em São Paulo. Parecia uma contradição. Um desrespeito. Devia solidariedade ao povo paulistano, dizia-se. 

Covas explicou que seria uma oportunidade única torcer pelo Santos ao lado do filho, em uma final de Libertadores. Nunca disse, mas deixava explícito que lá estava não porque seria a única, mas porque seria a última. Ele tinha consciência do avanço da doença. Do drama pessoal que passava. Da dor de perder os momentos mais intensos de nossas vidas. Que em breve, não sabia quando, mas em breve, teria de abrir mão tão cedo de tudo aquilo que só nós que estamos vivos podemos usufruir, mesmo que não saibamos valorizar. 

Estar na arquibancada ao lado do filho era um prazer do qual Covas não queria abrir mão, a despeito das críticas que ouviria. Fui cúmplice dele ao não criticá-lo. Ele tinha esse direito. E o exerceu. Quem já se deu a oportunidade de pular na arquibancada e abraçar seu pai pelo gol assinalado ou o título conquistado, vai me entender. Já o fiz como pai e como filho. Tomás levará para a vida o gesto e o exemplo do pai, que nos deixa muitas lições — a começar a de termos consciência do que realmente é importante no nosso cotidiano, a quem devemos prezar e dedicar o nosso amor.

Espero um dia aprender essa lição por completo. Que não seja tarde.

PS: Ricardinho, que ilustra foto deste post, perdeu o pai e o avô recentemente e segue compartilhando com eles a alegria de cada gol.

Avalanche Tricolor: que a alegria dessa gurizada seja eterna enquanto dure

Grêmio 1×0 Inter

Gaúcho – Porto Alegre, Arena Grêmio

Léo Chu comemora em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Havia Brenno no início da jogada, Ricardinho  e Léo Pereira  no meio do caminho e Léo Chu para limpar e concluir o lance que culminaria em um dos mais belos gols que assistimos nos últimos tempos em um Gre-Nal. Um gol com DNA tricolor. De uma gurizada, que tem em média pouco mais de 20 anos, que nasceu ou floresceu dentro do clube, disposta a manter a hegemonia regional e a beleza de um jogo que, há muito, já conquistou outros rincões.

Com o devido respeito e reconhecimento de todos que chegaram depois, que forjaram suas histórias antes de vestir nosso azul, preto e branco —- uma gente da qual também temos orgulho pelas conquistas alcançadas —-, o que mais me alegra nessa gurizada é a reverência aos craques do passado. 

Léo Chu é o mais expressivo —- mesmo que não seja o único. Ele se inspira em Tarciso, a quem foi apresentado pelas histórias que o avô contava e conheceu pessoalmente na Arena, alguns meses antes da morte do Flecha Negra. Admira Renato e não escondeu a alegria de poder abraçar o ídolo ao lado do campo ao comemorar seu gol, como se estivesse redivivo no time que nos levou à glória mundial, em 1983. Pensa em repetir a façanha de Luan que se transformou em Rei da América ao levantar a Copa Libertadores, de 2017.

Tricolor de nascença, aprendeu a sofrer logo cedo, quando assistia ao rival vencer campeonato após campeonato. Calejado pela provocação dos amigos de rua, que torciam para o adversário, e disposto a dar aos pais, avós e afins a alegria que eles contavam ter sentido naquela transição dos anos 70 para os 80, insistiu em permanecer no Grêmio, após o ano de empréstimo no Ceará. Teria chance de ir para o exterior, mas pediu para ficar. Quer realizar o sonho de ser campeão pelo time que ama.

No início da madrugada de Domingo de Páscoa, Léo Chu sonhou acordado quando recebeu a bola dos pés de Léo Pereira —- outro recém-entrado na partida. Havia a possibilidade de retribuir o passe ao colega de ataque, que já se deslocava em direção à área, ou superar os dois marcadores que estavam à sua frente. Preferiu a segunda opção. E no corte para dentro enxergou espaço para colocar a bola longe do alcance do goleiro adversário.

Como um súdito que sabe onde quer chegar, na comemoração do gol, já sem camisa, correu em direção a faixa pendurada por torcedores em homenagem a Tarciso e repetiu o gesto da semana passada, em que esboça o movimento de um arqueiro lançando sua flecha. Não passou despercebida a tatuagem desenhada no ante-braço direito, na qual ele aparece como um menino, pendurado no alambrado do campo de futebol e vestindo a camisa de número sete.

Assim com Léo Chu, muitos dos guris que hoje servem ao Grêmio querem deixar sua marca tatuada no coração dos torcedores. No momento do gol, nove deles estavam no time. E começam agora uma trajetória que costuma ser breve, pela incapacidade de mantermos os talentos entre nós por muito tempo. Assim como o amor de Vinicius de Moraes, em Soneto do Infinito, que a alegria dessa gurizada ao nosso lado seja eterna enquanto dure.

Avalanche Tricolor: não vai deixar saudades

Bragantino 1×0 Grêmio

Brasileiro — Nabizão, Bragança Paulista/SP

Foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Cuspida e escarrada! A última rodada foi a cara do Campeonato Brasileiro, que, ao longo da temporada, desdenhou a gravidade da pandemia, teve jogos suspensos devido a “contaminação em rebanho” em alguns times, jogadores expostos a risco e traduzindo essa apreensão no campo com performance abaixo da esperada, estádios com arquibancadas vazias e com aglomeração de torcedor do lado de fora.

O Covidão-2020, apelido que meu amigo Juca Kfouri deu ao campeonato, terminou sem direito a gol do título. O campeão perdeu na partida final, marcando uma campanha claudicante o suficiente para superar em pontos ganhos todos os demais adversários. Quem poderia ser campeão em lugar do campeão, não foi capaz de vencer mesmo jogando em casa e contra um time que nada mais tinha a ganhar. Quase ganhou, mas o VAR impediu que a injustiça fosse concretizada, primeiro em um pênalti sinalizado pelo árbitro, que voltou atrás ao ser chamado para rever na televisão, ao lado do campo, e depois em dois gols marcados em posição de impedimento, que foram anulados com o certificado do VAR.

Quem diria, depois de uma competição em que faltou verificação do VAR, houve erros com o apoio do VAR e descobrimos que o VAR só funciona se estiver bem calibrado, foi o VAR quem salvou a lisura do resultado nos acréscimos do Campeonato. Nesse caso, justiça seja feita, o auxiliar sinalizou a irregularidade do gol e se não foi agredido — como ameaçaram alguns jogadores — deve agradecer ao VAR que ele, aos gritos, anunciava que seria consultado.

Sem gol do título, sem torcida, sem futebol qualificado e com Covid-19, o Campeonato Brasileiro terminou com o mesmo campeão da temporada anterior. Ou seja, enfrentamos toda essa maratona para entregar o título ao mesmo time. Pode isso, Juca?

E se estou aqui a falar de dois jogos que não tinham a presença do Grêmio, protagonista de sempre nesta Avalanche, é porque nada tenho a registrar do desempenho do meu time na rodada final da competição.

O Campeonato Brasileiro de 2020, que já vai tarde, não me deixará saudades.

Avalanche Tricolor: Deus me livre!

Inter 2×1 Grêmio

Brasileiro – Beira Rio, Porto Alegre/RS

A bola está no alto e a frente de Ferreirinha, do Grêmio, enquanto Nonato, do Inter, empurra o gremista pelas costas dentro da área
Será que o VAR viu esta foto do LUCAS UEBEL ?

 

Nem omelete comi neste domingo para não arriscar que o ovo caísse fora do prato, o que —- como o caro e raro leitor desta Avalanche sabe —- é determinante no resultado do futebol dominical. Já falamos disso aqui. Caso seja necessário posso me estender no assunto … ok, deixemos para outra oportunidade. O que interessa é que o meu cuidado neste domingo era não permitir que nenhum fator externo interferisse no resultado do jogo. Preferi até ir à missa mais cedo em vez de deixar para o fim da tarde quando a partida já tivesse se encerrado. Não me perdoaria. Não que ao me ajoelhar, eu reze pela vitória gremista, porque —- também já disse a você — é melhor não preocupar Deus com essas coisas comezinhas. Mas sabe como é que é … vai que o Homem resolvesse me puxar a orelha. 

Pode parecer exagero, mas cresci sabendo que Domingo de Gre-Nal não é um dia qualquer na vida dos gaúchos. Lá nas bandas da Saldanha, onde morei, em Porto Alegre, no meio do caminho do Olímpico Monumental e do Beira Rio, fosse onde fosse a partida, era dia de torcedor desfilar camisa nova do seu clube e bandeira ainda com vinco de tanto tempo dobrada. Pais passavam em direção aos estádios levando seus filhos pela mão, com peito em riste e contando histórias experimentadas em clássicos passados —- sempre daqueles em que saímos vitoriosos, é claro. Reveses? Deixemos que os outros contem. 

Ao longo da minha carreira de vida tricolor assisti a todo tipo de clássico e nas mais diversas situações. Posso até colocar nesta lista um que joguei: foi quando fazia parte do elenco do time de basquete do Grêmio e fomos ao Gigantinho fazer a espera do show dos Globetrotters, aqueles malabaristas americanos que encantavam crianças e adultos fazendo estripolias nas quadras pelo mundo. Ganhei (e ai de quem me desminta).

Fui a Gre-Nal no Olímpico, no Beira-Rio e em estádio pelo interior gaúcho. Fui com o pai, com amigos, sozinho, com cartolas e com a delegação de futebol. Fui torcer nas cadeiras, nas sociais, nos vestiários e nas arquibancadas. Acompanhei jogos das cabines de rádio, como repórter dentro de campo e até como gandula.  

Hoje mesmo, no início da tarde, por obra e arte do Edu Cesar, que mantém canal no Youtube, no qual preserva a memória do rádio esportivo, deparei com uma transmissão que há muito vinha procurando sem sucesso. A do único Gre-Nal em que trabalhei com meu pai, na rádio Guaíba de Porto Alegre. Era final do Campeonato Gaúcho de 1986, no Olímpico. Ele narrava e eu era um dos repórteres de campo, em uma época em que eu ainda atendia por Mílton Júnior. 

Assim que Osvaldo marcou o gol, no início do segundo tempo, ele correu em direção ao pavilhão da social do Grêmio, diante do qual eu estava com o microfone da rádio. Com os dois braços erguidos para o céu, o meio-campista gritava: “obrigado, meu Deus!”. Ao registrar seus gritos e ser chamado pelo pai para descrever o lance do gol, iniciei minha participação repetindo o agradecimento do jogador. Até hoje, há quem jure que Osvaldo nunca disse aquilo. Eu teria sido flagrado comemorando com o céu o gol que nos daria o bicampeonato gaúcho. Pura maldade (como você pode conferir no vídeo que reproduzo a seguir). Mesmo que seja justo imaginar que por dentro era o que fazia com meu coração tricolor saltando pela boca. 

Se já vivenciei todo tipo de Gre-Nal, evidentemente também sofri muito, chorei mais um tanto e sorri como nunca. Vencer o clássico é muito especial. Por isso, neste domingo em que mesmo com todos os cuidados que eu tomei aqui em casa e o time no campo, mesmo que estivéssemos melhor quando sofremos a virada e mesmo que o VAR estivesse de folga, assim que o árbitro deu o apito final —- sem direito a acréscimos depois de toda a parada do pênalti —, pensei cá com minhas camisas tricolores: não deve ter sido fácil a vida dos colorados que ficaram tantos anos e jogos sem vencer uma só vez o Grêmio. Deus me livre ter de passar por isso um dia (ops, desculpe, sei que o Senhor não tem nada a vera com isso: é só força de expressão)

Avalanche Tricolor: o Gre-nal é mesmo um jogo único

Grêmio 1×1 Inter

Brasileiro — Arena Grêmio

Mais um gol de Pepê, em foto de LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Um gol para cada um.

Cada um com um gol de goleador.

Uma expulsão para cada lado.

E um só ponto na tabela.

 

O Gre-nal é mesmo um jogo único. 

Tanto faz quem tá melhor na temporada. 

 

Se Gaúcho ou Brasileiro.

Se Copa do Brasil ou Libertadores.

Se no Humaitá ou na várzea.

 

Gre-nal é …. bem, você sabe o quê.

Sempre vai ter um gol de Pepê.

 

Pra fechar esta Avalanche,

Mesmo sem a alegria de uma vitória:

tem mais dois “uns” para entrar na história.

 

Verdade, saímos de campo sem vencer,

Mas já faz 11 clássicos

Que o Grêmio de Renato 

Não sabe o que é perder.