Intimidade é pra ter filhos ou brigar

 

Por Abigail Costa

Certo dia, um político jantava na casa de amigos quando alguém chegou até ele:

– O que o senhor pensa ?

Logo foi interrompido.

– Meu caro, senhor não. Quando se referir a mim, por favor, Presidente.

E olha que ele já estava distante daquela foto que enfeita toda a
repartição pública há décadas.

O ex-com-vontade-de-ser-eterno continuou:

– Meu filho nunca se esqueça de um detalhe importante. Intimidade
serve para duas coisas: Gerar filhos e criar brigas. E nenhuma delas eu quero com você.

Nunca votei nesse cara, nem mesmo o admirava como político, mas essa frase é demais.

Há algum tempo, ele partiu dessa para uma melhor mas volta e meia estou com ele na cabeça por conta dessa “intimidade”.

E não é que a maioria entra na onda da intimidade sem ser convidado?

Decidi certa vez pintar o cabelo de vermelho, (desculpe estava na
moda, pode perguntar pra Dora Estevan). Cheguei no trabalho e um colega e soltou na lata:

– Não gosto desta cor pra você.

Foi assim, na lata. E eu nem perguntei nada. Aliás nem o sobrenome dele sabia.

Mandei o troco:

– E você sabe que essa franja não combina com o seu rosto?

Ele ficou sem graça. Era careca, daquelas que emanam brilho. Não fui, digamos sem educação. Não tínhamos intimidade pra essa
conversa.

Quer ver outra? Acontece sempre.

– Comprou outro vestido? De sapato novo? A carteira é só pra
combinar com a bolsa?

Por acaso te mandei a fatura do meu cartão de crédito? Te pedi opinião? Então, me deixa.

É sempre assim, as pessoas falam o que querem. Chegam e despacham. Mas quando o outro lado devolve, o grosso é você.

Muitos não se contentam em ser apenas amáveis, discretos. Tentam entrar na sua vida sem ter recebido convite. Se esquecem que liberdade vai e vem, na mesma medida.

E que intimidade coletiva, não dá. Ela pede “eleitos”. E eu já tenho o meu.

Resultado: Dois filhos, lembra?

Intimidade…… filhos.

Nesse caso, ainda bem sem brigas.

Abigail Costa é jornalista, escreve às quintas no Blog do Mílton Jung e ao enviar o texto disse para o editor ficar tranquilo, cortar o que quiser, pois temos intimidade pra isso. Temos mesmo, mas não havia o que tirar nem por.