As criações que colocaram o mundo dentro do seu bolso

 

Por Calos Magno Gibrail

 

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No dia 27 fevereiro, o inventor da primeira calculadora eletrônica faleceu aos 86 anos, em Dallas. O fato que chama a atenção é que não houve repercussão — nem nos Estados Unidos.

 

Jerry Merryman, pesquisador da Texas Instruments, recebeu, em 1965, a tarefa de diminuir o peso da menor calculadora existente que era de 20,4 kg. Em 18 meses, Merryman apresentou um artefato que cabia no bolso e pesava 1,3 kg — mantendo a tradição da Texas que tinha lançado, em 1954, o rádio transistorizado com a função de portabilidade. Já era um ensaio para o bolso com o seu Regency TR – 1. Embora a Sony afirmasse, em 1957, que o Sony TR -63 era o rádio que “vai caber no bolso de sua camisa” — acontece que o bolso da camisa da Sony era enorme.
A segunda metade do século passado dá uma ideia da velocidade da evolução da tecnologia que se iniciava. O rádio, descoberto pelo gaúcho Roberto Landell de Moura, que comprovou quando apresentou uma transmissão na Avenida Paulista, em 1893, foi vendido comercialmente por Guglielmo Marconi, em 1912. E sua evolução veio em 1954.

 

 

Felizmente para o rádio, como mídia, a portabilidade chegou num momento excepcionalmente estratégico, pois a televisão se firmava. Para os negócios, a calculadora de bolso era uma feliz alternativa aos equipamentos existentes, desde que a régua de cálculo há muito já tinha sido aposentada.

 

A realidade é que a ideia de possuir produtos que pudessem ser carregados permanentemente dava uma sensação de eficiência e conforto inigualáveis.
De outro lado, os produtos recebiam inovações em ritmo cada vez mais acentuado. E vieram os novos, já aperfeiçoados, que convergiram nos iPhones.

 

Assim, rádio, calculadora, telefone, relógio, câmera, televisão, bússola, termômetro, cabem no iPhone —  o computador de bolso.

 

Portanto, o bolso que já era tido como o órgão mais sensível do corpo humano ganhou um componente essencial e vital. E graças aos pesquisadores da Texas Instruments ao portabilizar o rádio e com o mérito de Jerry Merryman ao desenvolver a calculadora de bolso.

 

Ao lado do tributo a Merryman, fica aqui os cumprimentos ao Rádio, como equipamento e instrumento, que desponta agora como a fonte de maior credibilidade, diante de tantas FAKE NEWS.

 

Leia “Adivinha em que os brasileiros mais confiam quando querem notícia de verdade

 

Carlos Magno Gibrail, Consultor e autor do livro “Arquitetura do Varejo”, é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung

Mundo Corporativo: a importância da inovação nos negócios

 

 

“Inovação é quando o conhecimento tem aplicação de mercado, gera faturamento, receita, redução de custo e aumento de produtividade. Se difere de invenção que é quando o conhecimento é apenas aplicado a um produto. Para ser inovação precisa ter valor de mercado”. A definição é do diretor de inovação da CNI – Confederação Nacional da Indústria, Paulo Mol, entrevistado do Mundo Corporativo, da rádio CBN. Para ele, a inovação é algo que acontece nas empresas, jamais pode estar desconectado do mundo empresarial. Nesta entrevista o dirigente mostra experiências inovadoras e estratégias que as empresas devem desenvolver para terem um ambiente criativo que proporcione ideias geradoras de novos negócios e melhores resultados.

 

O Mundo Corporativo vai ao ar às quartas-feiras, 11 horas, no site da rádio CBN. E o programa é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN

A versão brasileira do Barão de Münchhausen

 

Por Milton Ferretti Jung

 

Os mais novos, imagino, jamais ouviram falar no Barão de Münchhausen e, muito menos, de Karl Friedrich Hieronymus Von Münchhausen. Mas essa pessoa, com nome difícil de pronunciar, a menos que se tenha algum conhecimento de sua língua – a alemã – existiu e entrou na história. O Barão nasceu no dia 11 de maio de 1720 e viveu durante 77 anos. Foi militar e senhor rural alemão. Sua vida rendeu, inicialmente, uma série que ficou célebre ao ser compilada por Rudolf Erich Raspe, com o título de “As Loucas Aventuras do Barão de Münchhausen”. Os livros destinavam-se, de maneira especial, a leitores juvenis. Contavam histórias fantásticas, alegadamente vividas pelo Barão que, em sua carreira militar, serviu não apenas ao exército do seu país, mas ao da Rússia. Depois de participar de duas campanhas contra os turcos, retornou para casa e começou, sabe-se lá por que, a espalhar relatos inacreditáveis, como, por exemplo, o de uma fuga durante a qual entrara em um pântano e, para não afundar e se afogar, puxou-se pelos próprios cabelos ou, dependendo da versão, pelo cardarço de suas botas.

 

Quem conta um conto, aumenta um ponto. Ou vários pontos. No caso de Münchhausen, tantos foram os exageros, que até o Barão os achou demasiados. Diziam que ele fizera viagens em balas de canhão e jornadas para a lua. Suas histórias, no entanto, não foram postas somente em livro e traduzido em várias línguas, mas rendeu um filme. Esse chegou aos cinemas da Alemanhã no auge da Segunda Guerra – 1943 – e foi usado pelo governo nazista para celebrar os 25º aniversário da UFA, a principal companhia cinematográfica do país. O Barão voltou ao cinema em 1989, quando Terry Gillian, que havia integrado o grupo cômico Monty Python, lançou a sua versão das “Aventuras do Barão de Münchhausen”.

 

Tenho um querido colega, cujo nome prefiro omitir, não vá ele pretender me cobrar direitos autorais, que é um emérito contador de histórias em que é protagonista, segundo ele, todas “reais”. Não são tão fantásticas quanto as do Barão, algumas das quais que me permiti apresentar aos leitores mais jovens deste blog, se é que esses existem. Aí está a primeira. Falávamos sobre aviões, se a memória não me falha, quando o nosso ou o meu Barão – como acharem melhor – contou-me que já havia sido piloto. E lembrou de uma ocasião em que o aparelho sofreu uma pane e ele se obrigou realizar pouso de emergência: desceu sobre uma rede de fios elétricos. Não deu, e não pedi maiores detalhes. Creio que, depois daquela aterrissagem, perdeu o jeito de voar: sentiu-se mal na primeira viagem aérea que fizemos juntos.

 

Esta é a segunda e, quem sabe, possa ser considerada mais “creativa” do que a primeira história. Adiléia Silva da Rocha, que ficou famosa com o nome artístico de Dolores Duran, cantora que nasceu no dia 7 de janeiro de 1930 e morreu com 29 anos, fez sucesso na sua época. Entre suas canções,havia uma que, relatou-me o Barão, ela fez em sua homenagem: “A noite do meu bem”. Ao ouvir a peta, fiquei imaginando o meu colega dançando com Dolores Duran e essa lhe sussurando ao ouvido que a música havia sido composta quando ela pensava nele.

 

A terceira história de hoje é a mais fantástica deste texto. O Barão, em uma de suas idas a serviço para os Estados Unidos, desembarcou em Washington. Nunca explicou direito como JF Kennedy ficou sabendo de sua presença em um hotel da capital americana. Não demorou, o telefone de seu apartamento tilintou. Imaginem, um assessor de JFK, falando português, transmitiu-lhe um convite do Presidente. Este queria recebê-lo nos jardins da Casa Branca…para um cafezinho.

 

Para encerrar as baronescas criações ou, melhor dizendo, invenções, existe a que o colega relatou quando foi à Argentina para cobrir uma competição automobilística. Depois de realizar o seu trabalho, contou-me que não encontrava condução para retornar ao seu hotel, no centro de Buenos Aires. Resolveu, então, seguir a pé até o seu hotel no centro de Buenos Aires. Eis que, de repente, um carro que ia na mesma direção, parou ao seu lado. O senhor que estava ao volante abriu a porta e, ”hablando español”, o convidou para entrar:

 

– Amigo,venga conmigo!

 

O Barão olhou para o gentil cavalheiro e, espantado, o reconheceu. O cidadão era, adivinhem, o lendário campeoníssimo Juan Manuel Fangio.

 


Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

O rádio completa 90 anos no Brasil

 

 

Três capítulos do livro Jornalismo de Rádio (Editora Globo) que lancei em 2004 e falam do surgimento dese veículo no Brasil, há 90 anos, e como foi sua invenção:

 


SÍMBOLO DA MODERNIDADE

 

Imagine se visitando uma dessas feiras de informática. Centenas de pessoas cruzando os corredores e você lá no meio, com os olhos arregalados para os equipamentos de última geração, duvidando que um dia se tornem acessíveis ao público.

 

Lembro do sucesso que fez a edição do Jornal 60 Minutos, da TV Cultura de São Paulo, quando durante a transmissão conversei ao vivo, através de um videofone, com um repórter que participava de uma exposição de tecnologia. O equipamento era novidade, isso pouco antes do fim do século XX.

 

Cito essa passagem para convidá-lo a voltar quase um século no tempo e se pôr no lugar das pessoas que, em 7 de setembro de 1922, tomaram as dependências do pavilhão da Exposição Internacional do Rio de Janeiro. O ambiente era festivo, o país comemorava o centenário da Independência. Pelos alto-falantes era possível ouvir transmissões feitas alonga distância, sem fio — ou wireless, para usar expressão da moda, na época. O mesmo som chegava a receptores espalhados em outros pontos da Capital Federal, além de Niterói, Petrópolis e São Paulo.

 

Roquette Pinto esteve por lá e se encantou com o que ouvia, apesar de ser ruim o som que saía dos alto-falantes instalados na exposição. O barulho era infernal, com muita gente falando ao mesmo tempo, e a música e os discursos reproduzidos arranhavam os ouvidos. No meio da multidão também estava Renato Murce, que dedicaria a vida ao rádio. No depoimento registrado no livro Histórias que o rádio não contou (Harbra, 1999), de Reynaldo C. Tavares, Murce afirma ter percebido logo que algo novo surgia. Menos preocupado com a confusão, viu a curiosidade e a desconfiança dos rostos ao redor.

 

A primeira pessoa que falou ao microfone de rádio, em uma estação instalada no Sumaré, pela Western Eletric, foi o presidente Epitácio Pessoa. E o povo,que se juntava na exposição do centenário, uma multidão incalculável, era pior do que São Tomé. Estava vendo, ouvindo e não acreditando. Como que em um aparelhinho, pequenino, lá longe, sem nada, sem fio, sem coisa nenhuma, podia ser ouvido à distância? E ficava embasbacado. Mas não nasceu para o Brasil propriamente o rádio, porque não havia ainda quase nenhuma rádio receptora. Era de galena, muito complicado. E quase ninguém podia ouvir a não ser aqueles que estivessem ali presentes. E os que ouviram, ouviram o Guarani, de Carlos Gomes, irradiado diretamente do Teatro Municipal. Esta foi a primeira experiência do rádio no Brasil.

 

Vale ressaltar: há quem defenda que a primeira emissora do Brasil foi a Rádio Clube de Pernambuco, fundada por jovens do Recife, em abril de 1919. Apesar de os registros mostrarem que a experiência estava mais próxima da radio telefonia, não deixe de citar o fato, principalmente se falar de rádio por aquelas bandas. A propósito, como veremos a seguir,a história da radiodifusão é marcada por dúvidas e controvérsias.


 

PADRE E BRUXO

 

Uma conversa do presidente da República Rodrigues Alves com um de seus assessores, no Palácio do Governo, no Rio de Janeiro, em 1905, pode ter tirado de um brasileiro o direito de ser reconhecido como o inventor do rádio. O representante do governo havia acabado de visitar o padre Roberto Landell de Moura, de quem ouviu explicações sobre algumas geringonças inventadas por ele. Coisas como telefônio, teleauxifônio e anematofono, espécies de telefone e telégrafo sem fio e de transmissores de ondas sonoras — a maioria já patenteada por ele, nos Estados Unidos, em 1904.

 


Jamais escreva o nome desses aparelhos em texto a ser transmitido pelo rádio. Se tiver que fazê-lo, grife as palavras. A norma serve para demais palavras estranhas e/ ou estrangeiras.Os locutores agradecem.

 

Bem que o padre de 44anos, nascido em PortoAlegre, se esforçou para convencer o enviado do Palácio que os aparelhos montados por ele poderiam estabelecer comunicação com qualquer ponto da Terra, por mais afastados que estivesse um do outro.

 

Não se sabe se foi devido às limitações intelectuais do assessor, que talvez não tenha entendido o que lhe era apresentado; se pelo fato de o padre ter solicitado dois navios da esquadra brasileira para uma demonstração pública dos seus inventos; ou se o assessor ficou assustado ao ouvir que um dia ainda seriam possíveis comunicações interplanetárias. Certo é que, ao voltar ao Palácio, o burocrata, a exemplo de um carimbo de repartição pública, foi taxativo:”esse padre é um maluco”.

 

Não era novidade para Landell de Moura. Ele já fora várias vezes transferido de paróquia, ou mesmo de cidade, acusado de ser impostor, herege e bruxo. Acusações dirigidas a ele, em 1892, quando, utilizando uma válvula amplificadora com três eletrodos, transmitiu e recebeu a voz humana. O feito se deu em Campinas, interior paulista, e nem mesmo ouvindo as pessoas foram capazes de acreditar.



 

FEZ-SE O SOM

 

O mérito de Landell de Moura, reconhecido apenas após a morte, em 1928, é evidente quando se pesquisa a história do surgimento do rádio. Do telégrafo, termo que surgiu no fim do século XVIII à telefonia, já no século XIX, muitos avanços levaram à radiodifusão. Estudos sobre a eletricidade e suas características se somaram até chegar ao aparelho que, atualmente, existe na casa da maioria dos brasileiros e nos carros, também.

 

O professor de física James Clerk Maxwell, em 1863, mostrou como a eletricidade se propagava sobre forma de vibração ondulatória. Teoria usada 24 anos depois pelo físico alemão Heinrich Rudolf Hertz, e desenvolvida pelo francês Edouard Branly, em 1890, e pelo britânico Oliver Lodge, em 1894.

 

Naquela época, Landell de Moura já havia assustado muita gente por aqui com seus inventos, e feito, inclusive, suas primeiras experiências com transmissão e recepção de sons por meio de ondas eletromagnéticas. Há registros de que usou a válvula amplificadora em testes pelo menos dois anos antes do equipamento ter sido apresentado ao mundo pelo americano Lee DeForest.

 

Não cabe aqui discutir de quem é o mérito da invenção, pois há muita controvérsia, mesmo entre os estudiosos do tema.

 

Até o nome de Guglielmo Marconi como inventor do rádio é contestado. Mas o italiano teve seus méritos — e como teve. Industrial com visão empreendedora, percebeu em vários inventos já patenteados a possibilidade de desenvolver novos aparelhos, mais potentes e eficazes. Foi o que fez para chegar à radio-telegrafia, em1896.

 

Já no início do século XX, o russo David Sarnoff, que trabalhava na Marconi Company, afirmou ser possível desenvolver uma “caixa de música radio-telefónica que possuiria válvulas amplificadoras e um alto-falante, tudo acondicionado na mesma caixa”. Tal equipamento seria o protótipo do rádio como veículo de comunicação de massa.

 

A indústria de radiodifusão nasceu, de fato, em 2 de novembro de 1920, em Pittsburgh, quando a KDKA foi ao ar, graças a Harry P. Davis, vice presidente da americana Westinghouse. Essa mesma empresa, dois anos mais tarde, traria equipamentos para a Exposição Internacional do Rio de Janeiro, ao lado da Western Eletric. Harry acompanhava com entusiasmo o resultado do trabalho artesanal de Frank Conrad, que transmitia músicas e notícias captadas por receptores de galena, inicialmente construídos pelos próprios usuários e, em seguida, produzidos em série pela empresa.

 


Para não cometermos injustiça, combinamos assim: na hora de redigir um texto deixe os títulos de lado. “Marconi, o inventor do rádio”, “Landell de Moura, o homem que apertou o botão da comunicação” e “Roquette Pinto, o pai do rádio brasileiro” são clichês que devem ser substituídos por informações que agreguem valor à notícia e ajudem a esclarecer o ouvinte. Lembro de um boletim que gravei para a TV Globo, em 1991, antes de uma reunião do Mercosul, em São Paulo, e disse que o Paraguai era o “Paraíso do Contrabando”. Na ocasião, um correspondente internacional comentou, balançando a cabeça em sinal de reprovação: “o que seria dos jornalistas sem os clichês…”. Aprendi a lição e reproduzo o fato para que você não passe pelo mesmo constrangimento.