Reginaldo e Mônica, na alegria e na falência

 

Por Frederico Mesnik

Mônica estava desolada. Com o casamento marcado para o fim do ano, sua festa, que há pouco saciava todas as suas fantasias de princesa, estava agora,reduzida ao quintal de casa. Nada de cornetas reais para sua entrada suntuosa, garçons com bebidas exóticas, ou o amigo DJ para agitar a pista até o amanhecer. A nova realidade comportava somente poucos convidados para uma recepção modesta, sem muita pompa, somente o necessário. A lua-de-mel, antes um cruzeiro pelo Caribe, estava agora transferida para a casa de Peruíbe – e com os sogros, para cortar custos.

Da euforia vieram os planos e da fragilidade das decisões veio à decepção. Com pouco mais de R$ 50.000 resgatados do seu FGTS meses antes, Reginaldo foi seduzido pelo glamour da bolsa de valores. O caminho era fácil. Abre-se uma conta em uma corretora, faz-se a transferência do dinheiro e, em pouco tempo, vem a possibilidade de comprar e vender ações. Como toda corretora moderna, sua plataforma eletrônica dava acesso a um mundo de informações, de dados macroeconômicos a opiniões e recomendações de analistas, grafistas e palpiteiros em geral, via fórum de discussão. Balela para um engenheiro hábil em matemática, capaz de digerir e dominar o mercado financeiro em pouco tempo.

Por que não investe em um bom fundo de ações? Cogitou seu irmão mais novo, Márcio. Hoje, a internet disponibiliza um acervo de informações e rankings sobre os melhores gestores com anos de experiência, toda uma formação específica e habilitação pelos orgãos competentes.

Nada disso, replicou Reginaldo! Já estou dominando o processo. Tenho acesso às informações de que preciso tudo on-line e “de graça”. Porque vou pagar 2% ao ano de taxa de administração se eu sei fazer sozinho?

E foi assim, com toda prepotência de uma mente brilhante e inexperiente que Reginaldo debutou pelos meandros fascinantes dos mercados. O mesmo analista que há pouco recomendara a venda de Petrobras agora mandava comprar. Dizia que o aumento dos preços do minério de ferro já estavam precificados e Vale não era uma boa opção. Do vizinho veio a dica de Varig que subia sem parar com rumores de venda. Nos fóruns discutia-se Itaú. Montou sua carteira ao ponderar tantas ideias de tantas fontes diferentes e ganhou dinheiro. Dobrou seu capital em pouco mais de três meses ao mergulhar no boato da empresa e soube conter sua ganância ao realizar o lucro. Marcou o casamento e deu a Mônica um orçamento dos sonhos, que como já sabemos, estava com os dias contados.

Estava confiante, sentindo-se poderoso e apto para arriscar. Do grafista veio o cenário de realização e do analista uma operação de volatilidade, envolvendo o mercado de opções. Abriu seu Excel e “planilhou” tudo. Calculou os retornos, os riscos, o VAR, as gregas e tudo que havia aprendido com todos os canais disponíveis. Montou sua posição, tomou banho e foi para uma entrevista agendada com uma empresa multinacional de bens de consumo. Ganho fácil com operação casada de mercado à vista e derivativos, difícil errar. Márcio, te dou uma comissão de 1% se você ficar aqui monitorando o mercado para mim, disse Reginaldo. Fique de olho na planilha, e se acender alguma luz vermelha você me liga.
Foi para entrevista com um pé em cada canoa. De um lado o mirabolante mundo dos ganhos fáceis; do outro, a árdua tarefa de arrumar um emprego. Afinal, o casamento estava marcado.

Começou a entrevista e Reginaldo percebeu que seu celular estava sem sinal. Suou frio e perdeu a concentração bem como qualquer chance de receber uma proposta de trabalho. Saiu correndo para ligar para casa e gelou ao ouvir as inúmeras mensagens desesperadas do irmão comissionado. O mercado tinha virado com a descoberta do pré-sal, as gregas abriram, houve chamada de margem e Márcio, sem titubear, zerou as posições com 80% de prejuízo! Era tarde demais.

Os sonhos construídos nas últimas semanas ruíram como a fragilidade de um castelo de areia, junto com os sonhos maritais de Reginaldo e Mônica.

Do surgimento da internet veio a facilidade de acesso às mais diversas informações. A Geração Y mergulhou no mundo virtual e o acesso à bolsa via plataforma eletrônica de home broker cresceu vertiginosamente. Estima-se hoje que aproximadamente 200 mil investidores entre 16 e 35 anos trocam suas posições diariamente na Bovespa, algo como 8% do volume mensal de negociação, ou R$ 8 bilhões. A expectativa de ganhos rápidos e fáceis é um atrativo para uma geração afoita que consegue ouvir música, trabalhar, acessar o Facebook ao mesmo tempo em que opera seu capital nos mercados.

Não sou contra o uso do home broker e para cada regra há exceções com a revelação de talentos. Por outro lado, a grande maioria costuma tomar um tombo grande para depois reavaliar. Já ouvi muitas histórias parecidas – óbvio que usei aqui um exemplo caricato – e todas tem um ponto em comum: investidores educados que vão ganhando confiança com o tempo e percebem, de uma maneira bem cara, que o mercado financeiro é ambiente para profissionais. Operar sozinho é como auto-medicação. Começamos com uma simples aspirina e, em pouco tempo, o farmacêutico indica aquele remédio novo para dor nas pernas. Doses erradas, combinação com outros medicamentos e efeitos colaterais são os ingredientes para comprometer a saúde física.

Não vamos também comprometer a saúde financeira e mental. Para operar sozinho, use uma quantia pequena para brincar e se divertir. Deixe a gestão do seu patrimônio para profissionais! Sabemos que o ser humano tem o viés de esquecer as perdas e de dar mais valor aos ganhos, o que dificulta a auto-análise e a visão real de que sozinho é muito difícil ganhar dinheiro na bolsa com consistência e segurança de longo prazo.

Esperamos que Reginaldo tenha aprendido uma lição, pois o primeiro prejuízo costuma ser o menor e, quem sabe, com sorte e um bom gestor ele e Mônica possam comemorar o primeiro ano de casados com muito estilo.

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Frederico Mesnik é gestor de recursos, mestre em Administração de Empresas pela London Business School, especialização em Finanças pela Universidade de Chigago, GSB, e escreve no Blog do Mílton Jung

Falta de visão prejudica tecnologia limpa, no transporte

 

Executiva da Eletra avalia os investimentos no sistema de ônibus e aponta equívocos nas políticas públicas de transporte de passageiros em entrevista exclusiva ao “Ponto de Ônibus”

Trólebus Caio Millenium II - Mercedez Benz/Eletra

Por Adamo Bazani

O Brasil erra e erra feio quando o assunto é política de transportes. A opinião é da gerente geral da Eletra, Ieda Maria Alves de Oliveira, companhia nacional especializada em fabricação de ônibus com tecnologia limpa. Para ela, há uma visão imediatista num setor que necessita de soluções emergenciais, é verdade, mas também de planejamento para que o serviço alcance níveis de excelência, economia e velocidade, além de benefícios ambientais.

“Hoje houve uma mudança de comportamento da sociedade. A questão ambiental, antes esquecida, agora é uma cobrança e as autoridades devem corresponder a isso. Os gastos com poluição são enormes e a queda de qualidade de vida é notória. Assim, na hora de optar por um sistema convencional e de tecnologia limpa, não basta ver qual é o simplesmente mais barato, mas o mais vantajoso. O dinheiro que se gasta na adoção de um sistema de trólebus ou de ônibus híbrido, retorna através de gastos menores no sistema de saúde, economia operacional maior e vida útil mais longa dos veículos”

Ieda disse ter visto exemplos claros de como a aplicação em tecnologias poluentes tem impacto não apenas ambientais, mas na estrutura das economias locais, também.

“Um dos casos que mais me chamaram a atenção foi no corredor da Avenida Santo Amaro (zona Sul da Capital Paulista). Há alguns anos, foi retirada toda a rede de trólebus e as operações começaram a ser somente com veículos a diesel. Muitos estabelecimentos comerciais que mexiam com alimento, simplesmente fecharam suas portas. Com o número maior de veículos a diesel, as pessoas não suportavam se alimentar com tanta fumaça e calor no ar. Os comércios que vendiam roupas também foram prejudicados. Donos de lojas de roupas me disseram pessoalmente que não davam conta de limpar os produtos. Passava um pano, um espanador, uma hora depois estava empoeirado. Assim, tecnologia limpa em relação a transporte público, não é somente um papo de ambientalista. Representa qualidade de vida e melhoria econômica”

A gerente da empresa afirma, no entanto, que a questão ambiental é grave, mas não tem sido vista de maneira séria pelo poder público.

“Um veículo a diesel produz por litro de combustível consumido aproximadamente 2,7 kg de carbono que são jogados na atmosfera. Isso tudo vai para o pulmão das pessoas. E nesse caso, a poluição é democrática. Ela atinge tanto o rico, dentro de seu carro, proporcionalmente mais poluidor que o ônibus diesel, como o pobre. Agora, vamos fazer a conta, se um ônibus convencional urbano roda cerca de 6 mil quilômetros por mês, e o consumo de diesel é de cerca de 1,8 km por litro, imagine quanto carbono é lançado na atmosfera. Por isso, as medidas devem ser levadas a sério, o que não acontece.

A qualidade do diesel produzido no Brasil é um exemplo disso:

“Atualmente, os motores têm de seguir o Padrão Euro III, com menos emissões. Mas nosso diesel, em todo o País, não é de qualidade. O que adianta termos motores bons com combustível ruim. É só olhar para o escapamento de um ônibus novo. Perceba a fumaça que ele solta. Nunca que este veículo está seguindo os padrões mais modernos. O que acontece, no meio ambiente e no transporte, é que se pratica a política do faz de conta. Trazem à população uma informação, uma ilusão, mas a realidade da rua, de quem respira o ar das grandes cidades, é totalmente diferente”.

Ieda Maria Alves de Oliviera ao lado do colega José Antônio do Nascimento, da Eletra

Nem a forma de concessão para explorar o serviço de transporte, escapa do olhar crítico de Ieda Maria Alves de Oliveira:

“A maioria dos contratos se dá de forma emergencial e é dado pouco prazo de concessão para o operador. Sem a certeza de que vai continuar em determinado mercado por um bom tempo, o dono de empresa de ônibus não vai investir num veículo como o trólebus, que pode durar até 30 anos, mas é mais caro. E se no final do contrato ele não consegue renovação? O que ele vai fazer com um veículo que ainda vai durar um bom tempo, mas não tem mercado de revenda? Assim, contratos por períodos curtos, de sete, dez anos, não dão estabilidade para investimentos maiores” .

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Seleção brasileira de ativos

 

Por Frederico Mesnik

Quando perguntaram a Albert Einstein qual era a força mais poderosa do universo, ele respondeu: “os juros compostos!”. A alocação inteligente de ativos traz a oportunidade de ver nossos investimentos crescendo com a mágica dos juros sobre os juros.

Durante anos, grandes fortunas foram perdidas porque gestores ignoraram os preceitos básicos de uma boa alocação de ativos: diversificação, rebalanceamento e análise de riscos. No longo prazo é preciso dar atenção a cada uma destas variáveis.

Na sua base, alocação de ativos é buscar aplicações que não só podem se valorizar como também se comportar de uma maneira diferente das outras aplicações na carteira. Quando um ativo está perdendo seu valor por algum evento econômico-financeiro, é bom ter outro na carteira que sobe de valor no mesmo cenário. Chamamos isto de não-correlação. No fundo, a essência da diversificação é a busca pela não-correlação. A boa diversificação é aquela que envolve várias classes de ativos que têm resultados diferentes nos diversos cenários de mercado.

Vamos pensar em uma seleção de futebol: para vencer no mundo dos investimentos precisamos de um time forte e balanceado. Precisamos de bons atacantes quando o tempo está favorável e de bons defensores que protegem o nosso campo quando as coisas não vão bem. Do mesmo jeito que um time precisa ter um goleador, nossa carteira precisa de ativos que entregam resultados constantes acima da média, independentemente das condições de mercado.

Um técnico monta sua equipe avaliando cada jogador. Seus pontos fortes e fracos, histórico de desempenho e acima de tudo sua integração com a equipe. O técnico precisa saber o que cada jogador pode e não pode fazer, quais são os seus limites e sua posição ideal. Construir uma carteira é a mesma coisa. A combinação de ativos precisa ter harmonia e integração para atacar no momento propício e defender em momentos de turbulência. Desta maneira, teremos um retorno consistente com os nossos objetivos e sem surpresas.

De tempos em tempos devemos olhar nossa carteira para realizar os lucros daqueles investimentos que subiram acima da média e comprar aqueles que estão abaixo. O rebalanceamento faz com que a carteira mantenha suas alocações originais. O famoso mantra “Compre na Baixa e Venda na Alta” é alcançado com esta atividade. Conforme os ativos vão se valorizando e ocupando uma porção grande da carteira, a boa alocação manda vender e reinvestir em ativos que não estão indo bem, e assim por diante, pois o cenário é dinâmico.

Um bom técnico está sempre atento ao jogo pensando em coisas que podem dar errado, e é assim que devemos pensar. Analisar o risco não é nada mais do que avaliar o quanto estamos dispostos a perder. Devemos sempre estar atentos aos tipos de risco que estamos correndo e como eles podem afetar nosso portfólio para tomar medidas e reduzí-los ou até anulá-los.

Não há muito segredo para se ter sucesso na alocação de ativos. O processo exige muita arte, paciência, perspicácia, curiosidade e inteligência profissional. Como um terno feito sob medida: em alocação de ativos todos temos o mesmo tecido, mas cada um tem seu gosto e seu corte. Para os bons ternos busquemos um bom alfaiate para nossa carteira, um bom gestor!

Obrigado leitor pela atenção.

Frederico Mesnik é gestor de recursos, mestre em Administração de Empresas pela London Business School, tem especialização em Finanças pela Universidade de Chigago, GSB, e escreve no Blog do Mílton Jung

A Copa de 2014 e o Adote um Vereador

adote.pngA oficialização de São Paulo como cidade-sede da Copa do Mundo de 2014 trará investimento para a capital paulista e mexerá com diferentes interesses. Massao, que adotou o vereador Jooji Hato, postou texto em seu blog sobre o tema:

A FIFA, neste domingo dia 31/05, anunciou as 12 cidades brasileiras que serão sedes da Copa do Mundo de 2014. A meu ver, momento importante para que todos fiquem de olho no seus “tamaguchis” políticos.Pêra ai, o que tem a ver política e consequentemente o “Adote um Vereador” com a Copa do Mundo?Tem tudo a ver, porque é neste mandato dos vereadores que será feita os preparativos para a Copa, pois haverá muito investimento para modernizar os equipamentos públicos, melhorar as vias de transportes, a segurança pública e da rede de turismo.

E com isso haverá muito dinheiro sendo investido, o que obviamente haverá grandes interesses econômicos em jogo. Os lobistas, verdadeiros cartolas, vão tentar influenciar os nossos representantes do legislativo e executivo de forma mais agressiva, usando como justificativa a Copa na nossa cidade, que projetos de leis e permissões sejam facilitadas para a suas áreas de interesse.

Mas o simples fato da Copa estar já perto (afinal são apenas cinco anos até lá) não significa que pode ser que o que eles querem é de interesse de todos os cidadãos paulistanos.

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Nos trilhos: De dar inveja

A programação das emissoras de rádio e TV e as páginas de jornal e revista estão cheias de anúncios do Governo do Estado de São Paulo sobre a expansão das linhas de trens e metrô, programa no qual devem ser investidos cerca de R$ 20 bi até o fatídico ano de 2010.

Eric Camara, correspondente da BBC Brasil, informa no Blog Planeta & Clima que os jornais da Grã-Bretanha  “não pouparam espaço para a notícia de investimentos” no sistema ferroviário britânico. O programa por lá vai movimentar R$ 120 bi.  Diz no post que “entre os grandes projetos, está uma nova linha para cruzar Londres de leste a oeste, no valor de R$ 7 bilhões, uma grande reforma na estação londrina de King’s Cross e várias melhorias na rede ferroviária nacional”.