Conte Sua História de SP: nossas mudanças, e as do Carnaval, também

 

Por Elmira Pasquini

 

 

Em 1937, quando nos mudamos de Itaquera, que era um lugar muito agradável com suas chácaras, sem luz elétrica, sem calçamento e sem água encanada, muito diferente da Itaquera de hoje,fomos morar na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, número 146.

 

Era uma casa pequena, de sala, dois dormitórios e banheiro, cujas cozinha e área da lavanderia ficavam no alto, com vistas para um matagal que mais tarde veio a tornar-se a Avenida 23 de Maio.

 

Estávamos felizes, perto do centro da cidade, a 140 metros do largo São Francisco, bem perto da já famosa Faculdade de Direito 11 de Agosto.

 

Após quase dois anos, recebemos um convite para desocuparmos essa residência pois acabava de ser aprovada a construção de um viaduto que iria passar por cima da Avenida 23 de Maio, ainda a ser construída, ligando a Rua Cristovão Colombo, que sai do Largo São Francisco, com a Avenida Brigadeiro Luiz Antonio.

 

Hoje ambos são partes importantes no centro da cidade de São Paulo.

 

Logo conseguimos um belo sobrado na própria Avenida Brigadeiro Luiz Antonio número 254, onde, na parte de baixo, havia a loja da companhia  Gessy. Lá nos acomodamos com muita facilidade e conforto, morando quase em frente ao Restaurante e Pizzaria Giordano, apenas a cem metros do Cine Teatro Paramount. Quanto conforto, quanta facilidade. Tínhamos diversas linhas de bonde para diversos lados da cidade.

 

No Carnaval, assistíamos ao desfile de blocos em carros conversíveis. Um carnaval bem diferente dos dias de hoje. Eram grupos de jovens uniformizados como marinheiros, havaianos, soldados romanos, damas antigas, clubes esportivos … que passavam cantando as gostosas marchinhas de carnaval: “o Jardineira porque estás tão tristes”… “Mamãe eu quero”,  Eu fui a touradas de Madrid…” e outras mais. De vez em quando paravam, desciam de seus carros e formavam alegres blocos, atirando serpentina, lança perfume e confetes.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, no CBN SP, logo após às 10h30 da manhã. A sonorização é do Cláudio Antonio.

Conte Sua História de SP – 462 anos: aprendi a nadar no Rio Tietê

 

Por Elmira Pasquini

 

 

Em 1937, quando morávamos em Itaquera, zona leste, só havia um grupo escolar, ou seja até o 4o. ano primário, o que levou meus pais a mudar para a cidade afim de eu prosseguir nos estudos. Se arriscaram, e vou adiantar que em pouco tempo começaram a sentir falta da tranquilidade da chácara onde tínhamos tudo que precisávamos, fresquinho sem sair de casa, e sem gastar.

 

Na cidade, a primeira coisa que preocupou papai foi fazer parte de um clube para nadar e praticar exercícios, assim como fazia na chácara. Íamos de bonde para o clube Guarany .no bairro do Tatuapé. Logo. papai comprou um barco fininho e comprido, com rodinhas no assento. Tinha remos bem longos, que papai sabia fazer deslizar na água de forma muito elegante.

 

Meu irmão e eu sentávamos um em cada ponta do barco, enquanto descíamos o Rio Tietê, que de tão limpo enxergávamos através de suas águas. De remo, chegávamos a Ponte das Bandeiras, no Clube de Regatas Tietê. Ali, papai dava meia volta e começava o nosso exercício. Com os remos, gentilmente, ele nos empurrava para dentro do rio, e do nosso jeito íamos nadando ao lado do barco. De vez em quando, ele colocava o remo à nossa disposição para fazermos um rápido descanso e retomar o fôlego, pois estávamos nadando rio acima.

 

Papai nos orientava: braçadas curtas, mais devagar, batendo os pés, calma, mais perto do barco… fazíamos tudo que aprendíamos num quadrado, cercado e forrado de madeira, que ficava dentro do rio, chamado de “cocho” – próprio para menores que estavam aprendendo a nadar.

 

Apesar de gostarmos e nos esforçarmos para fazer tudo direitinho, ficávamos animados mesmo é quando víamos que o clube estava chegando.

 

Assim era o Rio Tietê, quando ainda tinha suas margens cheias de mato.

 

Elmira Pasquini é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A narração é de Mílton Jung e a sonorização de Cláudio Antonio. Para participar do Conte Sua História de São Paulo, envie texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de São Paulo: a primeira pizzaria da cidade

 

Por Elmira Pasquini

 

 

Nasci no Paraíso, em Janeiro  de 1927. Com  10 meses, meus pais mudaram para Itaquera, subúrbio da cidade de São Paulo, a apenas 45 minutos de trem. Naquele tempo, um lugar lindo e gostoso  de se viver.   As ruas eram de terra, não havia luz elétrica nem água encanada. Nossa água de poço era uma delícia, pura, leve e sempre geladinha, muito bem cuidada por papai que era caprichoso em tudo que fazia.  Nossa chácara era à esquerda  da ladeira que saía da estação do trem e terminava no alto onde havia uma igreja católica. Ficava no centro da segunda grande quadra,  sem vizinhos em volta, Tinha um belo jardim, uma gostosa casa, quintal todo cultivado, com horta, pomar e um grande galinheiro, onde até peru tínhamos. Havia muitas chácaras  espalhadas  e uma grande colônia de japoneses, que cultivavam e ainda cultivam flores.

 

Para irmos a cidade dependíamos da Maria Fumaça que descia a ladeira chegando de São Paulo, apitando lá em cima do morro: PIiiiiiiiiiiiiiiiiiiii  … anunciando que estava  pronta com seus vagões para deixar ou pegar passageiros na estação. Quando subia a pequena mas íngreme ladeira puxando o comboio, ia gemendo: “muito peso, pouca força, muito peso pouca força”… e mais lenha na caldeira era colocada.

 

Quando crianças, nossas idas à cidade eram raras, porém anualmente,  uma delas sempre foi marcante. Era na semana entre Natal e Ano Novo. Era um passeio muito aguardado. Papai trabalhava no jornal ” As Folhas” onde, após 36 anos, se aposentou. Quando o bonde que nos trazia da estação do Norte chegava no ponto final, papai já nos aguardava ao lado do relógio da Praça da Sé. Meus dois irmãos e eu vestidos para a ocasião especial, felizes ao lado de mamãe, o procuramos. Ele sempre estava lá, sempre elegante, feliz e sorridente. Por toda nossa vida, isso sempre nos deu muita segurança.
Toda essa expectativa era para, em família, saborearmos uma bela pizza na famosa Cantina do Papai, que era a primeira e única pizzaria de São Paulo na época. Nos acomodávamos, observando tudo ao nosso redor. Pessoas chegavam, saiam e o ambiente era sempre agradável.  Pizza só havia de mussarela,  com ou sem aliche. Estas eram um pouco maiores do que as grandes pizzas de hoje. Papai sempre pedia meio a meio. Era tão saborosa… Para beber, só havia Guaraná e Soda Limonada.

 

Era tão bom ver a família reunida, alegre e feliz. Saboreávamos sem pressa, pois sabíamos que papai voltaria no trem para casa conosco. A festa era completa por tê-lo conosco. Aliás, ele e  mamãe eram lindos e seus rostos transmitiam muita paz.

Conte Sua História de SP: Itaquera, a capital do mundo

 

Por Daniel Sena Serafim
Ouvinte da rádio CBN

 

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Lembro-me como se fosse hoje, eu e minha família residíamos no bairro de Artur Alvim, em 1989 ainda criança por volta dos 7 anos caminhava de mãos dadas com minha mãe à beira da Av. Radial Leste próximo ao metrô Corinthians – Itaquera. Ela fanática por futebol, apontou para uma planície cheia de morros e mata irregular dizendo: “Olha filho, aqui um dia será construído o estádio do Corinthians, imagine como ficará grande e bonito”.
Ainda criança, tentava imaginar como seria este lugar, quando o estádio fosse construído, pequeno, porém com a imaginação fértil de uma criança imaginava um castelo, grande e bonito onde os jogos seriam realizados. Mas como a infância em uma periferia reserva particularidades adversas e estatísticas, logo tive que abandonar a imaginação e interagir com a realidade. Aos 13 anos já começaria a trabalhar e a estudar, mas o gosto pelo esporte e o afeto pelo local onde morava continuaram, como também uma espécie de lenda urbana, ouvida e reproduzida pelos populares que insistiam em dizer: “É lá em Itaquera, do lado do metrô que vai ser construído o estádio”.

 

A mídia especulava e alimentava este imaginário ao passar das décadas, eu continuava a me lembrar do que minha mãe havia dito a mim quando criança. Entre tantos encontros e desencontros da realidade de uma periferia, um belo dia, leio no jornal sobre a candidatura do Brasil para sede da Copa do Mundo de Futebol da FIFA de 2014 e a possibilidade da construção de um estádio em Itaquera para o Sport Clube Corinthians Paulista, sendo o palco do jogo de abertura da Copa do Mundo e me pergunto com um sorriso travado no canto na boca: “Será?”.

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Conte Sua História de SP/460: Itaquerão, no olho d’água da Pontinha Preta

 


Por Marcos Falcon
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 


 

 

Ao passar por áreas reurbanizadas da nossa São Paulo, por edifícios importantes e marcantes de nossa cidade, sempre me pergunto: como deveriam ser esses lugares antes? Quem morava nessa região? Como era a topografia, a vegetação…? Enfim, o que existia por aqui?
 

 

Tendo o privilégio de nascer em Itaquera, na zona Leste, e ter vivenciado toda a transformação do local onde hoje está sendo construído o Itaquerão, julguei por bem deixar registradas aqui respostas às perguntas acima, para que um dia algum curioso ou pesquisador possa usá-las.
 

 

Vamos lá… Na década de 50, havia uma grande área que se estendia da Vila Corberi, em Itaquera, até as proximidades da estação da Central do Brasil, em Artur Alvim. Do lado direito, fazia fronteira com a linha do trem, e do esquerdo, com o bairro Cidade Líder. Uma área de aproximadamente 25 mil metros quadrados, que pertencia ao IAPTEC (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Estivadores e Transporte de Carga). Toda a sua extensão era plantada com eucaliptos, e por isto ficou popularmente conhecida como “Calipal”.
 

 

Calipal… quanta saudade guardo desse espaço… Para nós, crianças, parecia tão imenso que seria impossível atravessá-lo de um lado a outro sem se perder, ou sem correr o risco de ser vitimado por uma onça, um leão, que os pais garantiam existir ali, só para que não nos aventurássemos em suas profundezas.
 

 

O Calipal sempre foi o campo de batalhas das turmas de garotos de diferentes vilas, pois nenhum moleque ousava entrar lá sozinho – de modo que as peregrinações eram feitas em bando. Quando as turmas se encontravam, a maior tratava logo de fazer correr a menor, e ali eram ocorriam grandes disputas de estilingue entre os garotos do Falcão do Morro, do Serrana e da AE Carvalho.
 

 

Dois córregos cortavam nossa floresta: o Areião e o Pequeno. Areião tinha esse nome porque sua formação era muito diferente dos demais córregos. Ele tinha pouca profundidade, algo em torno de 15 centímetros, mas uma largura de mais de 5 metros. Seu fundo era formado por uma espessa camada de areia amarela. Alguns moradores retiravam, diariamente, dezenas de caminhões de areia apenas na base da pá. Entre eles, destacava-se o Dodô. Negro forte, corpo de halterofilista, corintiano roxo e o melhor tocador de contra-surdo da Escola de Samba do Falcão do Morro.

 

Embora menor, o Córrego Pequeno é mais importante para esta narrativa, principalmente sua nascente: a Pontinha Preta, um local mágico, que marcaria a vida de todos os garotos de Itaquera e região. Tratava-se de um pequeno lago de águas cristalinas, e foi nosso clube privado, onde todos nós aprendemos a mergulhar e a nadar, exatamente nesta ordem. O nome Pontinha Preta foi dado em função do fundo do lago ser formado por argila negra – ao primeiro mergulho, suas águas cristalinas tornavam-se turvas, da cor do carvão. Era uma delícia nadar por ali e, após alguns mergulhos, deitar no gramado que a margeava, curtir o sol batendo papo, contando vantagem entre os garotos.
 

 

Em certa oportunidade, fomos até ali numa turma de uns cinco garotos. Lembro que lá estavam o Giba, o Clóvis, o Alemão, eu e mais alguém, de quem agora não me recordo. Era fim de semana, provavelmente domingo. Todos nós tomávamos banho pelados, pois não poderíamos chegar em casa com roupa molhada ou suja, para não denunciar nossa façanha. Meu pai sorrateiramente nos descobriu lá e tratou de apanhar todas as nossas roupas, levando-as embora. Os garotos imploraram para o seu Antônio devolver, não teve jeito. Já que havíamos sido descobertos e estávamos sem roupa, só nos restava continuar nadando até o fim do dia.

 

Mas chegou a hora de ir para casa. Como passar pelado por toda a Vila Corberi? Logo iria escurecer, e não tínhamos coragem de atravessar o Calipal no escuro, pois os leões e onças atacavam durante à noite. A salvação foram as bananeiras do brejo e suas belas e grandes folhas espalmadas. Cada moleque arrancou duas ou três folhas de banana e com elas tapando a frente e a traseira, fomos embora sendo alvo de gozação por onde passávamos.
 

 

Ali pesquei o meu primeiro lambari, com uma vara de galho de eucalipto, linha de costura e anzol feito de alfinete de cabeça. Muitas cobras habitavam a região para se alimentarem das rãs que lá viviam. Num fim de tarde, muitos anos depois, fui lá com meu sobrinho Rafael, caçar borboletas para a coleção que ele estava preparando, para a feira de ciências do Liceu Camilo Castelo Branco. Distraídos e olhando apenas para o alto à procura das borboletas, fomos surpreendidos pelo guizo de uma enorme cascavel, que estava de espreita no trilho, no meio do sapezal. Foi um baita susto, quase pisamos na cobra. Quando ela ergueu a cabeça para dar o bote no Rafael, sem pestanejar enfiei o cabo do coador de borboleta no meio da víbora. Rafael não levou borboleta para a feira de ciências, e sim a cobra exposta em um grande vidro com formol. Foi o maior sucesso daquela exposição.
 

 

No início da década de 70, teve início a construção da primeira Cohab em Itaquera, e nossa floresta encantada foi derrubada para a construção dos apartamentos populares entre Artur Alvim e Itaquera. Toda a área foi alvo de terraplanagem, sem a preservação dos pequenos córregos e da Pontinha Preta.
 

 

Para atender ao crescimento da população de Itaquera com transporte de qualidade, surgiu a Radial Leste, e foi construída a Estação Corinthians do Metrô. Em seguida, Itaquera ganharia seu grande shopping, que também foi edificado ali. A pedreira de Itaquera, que deu nome ao bairro (pedra dura em tupi-guarani) e que forneceu as pedras para a construção da Catedral da Sé, foi desativada e soterrada na mesma época.
 

 

Nos dias atuais, tenho passado pelo local rodando sobre as pistas da Radial Leste. Fica claro para mim que a área não era tão grande assim. Que seus limites não eram tão distantes e inalcançáveis. Pude perceber como é florida a imaginação das crianças. Como foi bom ser criança ali e desfrutar daquele lugar.
 

 

Na semana passada, parei bem em frente à obra do Itaquerão e me permiti meditar sobre como era o lugar antes. Olhei o entorno, a linha do trem, o Morro do Falcão, consultei o meu “Google Maps” imaginário e tive certeza absoluta: o centro do gramado do Itaquerão é exatamente no olho d’água da Pontinha Preta.
 

 

Agora por ali irão desfilar muitas cobras, peixes, gaviões, vindos de todas as partes do mundo, para brincar com o que mais gostamos: jogar futebol nos gramados da Pontinha Preta… quero dizer, do Itaquerão.
 

 

Marcos Falcon é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. O texto completo você lê no meu blog, o Blog do Mílton Jung. Conte mais um capítulo da nossa cidade: mande seu texto para milton@cbn.com.br. Ou marque uma entrevista em áudio e vídeo pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net.
 

Conte Sua História de SP: A chácara do Seu João das Vacas

 

Por Marcos Falcon
Ouvinte-internauta da CBN

 


 
Se existir o paraíso ali foi o da minha infância.
 

 

Na época, que minha recordação consegue as primeiras lembranças, eu um garoto de apenas cinco anos e aquela chácara um mundaréu de terreno que não tinha mais fim, onde eu, se sozinho, poderia me perder com facilidade e nunca mais ser encontrado. Hoje lá existe uma pequena vila residencial de não mais que um alqueire e a grande maioria de seus moradores nem sabe que ali foi o paraíso.
 

 

Cortada de ponta a ponta por um córrego de águas cristalinas que serpenteava por entre os eucaliptos e as árvores frutíferas e que em determinados pontos ampliava-se formando singelos lagos. Nestes lagos a garotada e principalmente eu e o meu amigo Giba demos os nossos primeiros mergulhos e primeiras braçadas desengonçadas ao que dizíamos estar nadando.
 

 

Bater peneira ou na falta desta bater saco, uma forma de pesca em que dentro do riacho com a peneira ou com o saco de estopa, raspávamos o fundo do rio em direção as bordas e levantávamos nossos instrumentos até a flor d’água por debaixo das ramadas e delirávamos com os guarús, lambaris, pequenos carás e muitos girinos.
 

 

O pé de caqui chocolate, daqueles legítimos, que mesmo verdes por fora eram marrons por dentro. Ali ficava nossa torre de observação, pois do alto de seus galhos podíamos ver a chácara toda, inclusive a casa do Seu João, e ao menor sinal da saída do velho de dentro da casa nós já dávamos o alerta, pois ele andava sempre com uma espingarda velha carregada com sal e prometia atirar na garotada que roubava suas frutas.

 

Um dia ele nos pegou roubando, ou melhor, colhendo suas pêras sem autorização. Não deu tempo de fugir nem mesmo de descer da pereira. Seu João com a espingarda na mão ameaçando a mim e ao Clóvis. Ficamos tão assustados que deixamos cair todas as pêras e prometemos a ele que nunca mias iríamos apanhar suas frutas. Ele falou que contaria até cem para que nós descêssemos da árvore e sumíssemos de sua frente, pois a partir dos cem atiraria na gente. Provavelmente antes de ele contar até vinte já estávamos em casa.
 

 

Ali montei as minhas primeiras cabanas de índio armadas com varas de cana do reino e trançadas com folhas de taboa e dentro delas muita conversa de moleque e planos para grandes aventuras produzidas por nossa fértil e pura imaginação.

 

Já moleques mais velhos beirando a fase dos doze anos lá era o esconderijo onde amarrávamos os cavalos das olarias que fugiam e apareciam na redondeza e desta forma garantíamos montaria para todos podermos nos aventurar em passeios e explorações mais distantes montados a pêlo.
 

 

Construímos armadilhas para pegar lobisomem, laços para pegar pássaros, caçamos muitos preás com ajuda de nossos fiéis cachorros vira-latas. Brincamos de índio e mocinho, tiramos guerra de estilingues com mamonas até que um dia fomos interrompidos pelo ruidoso barulho de um motor gigante que mais parecia um destes monstros de filmes japoneses. Um monstro devorador de árvores, arbustos, riachos, cabanas e armadilhas.

 

A chácara foi planada, loteada e sem nosso consentimento destruíram o quintal de nossa infância. Tentamos protestar e por algum tempo durante a noite destruíamos as pequenas paredes que começavam a serem erguidas, porem no dia seguinte lá estavam elas novamente brotando do chão regadas pela energia das águas cristalinas de nosso córrego que hoje corre apenas em minhas lembranças.
 

 

A  Chácara ficava em Itaquera muito próximo onde hoje está sendo construído o Itaquerão.
 

 

Marcos Falcon é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: agende entrevista em audio e video no Museu da Pessoa pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou envie seu texto para milton@cbn.com.br. Ouça outras histórias de São Paulo no meu Blog, o Blog do Mílton Jung.

Conte Sua História de SP: a revolução nas minhas aulas de taquigrafia

 

Por Neide de Souza Praça
Ouvinte-internauta

 

Ouça este texto que foi ao ar na CBN, sonorizado pelo Cláudio Antonio

 

Há algumas semanas ouvi de uma participante deste quadro que, em 1968, ela presenciou as manifestações estudantis que dominaram o país naquele período. Ao contrário dela, não tive a oportunidade de ver o presidente da UNE, mas também tenho recordações daquele tempo.

 

Nasci em São Paulo na década de 1950. Em 1968, cursava o quarto ano do ginásio (atual oitava série do ensino fundamental), e morava em Itaquera, bairro do subúrbio do município de São Paulo. Na época, o bairro era servido por trens da Central do Brasil, que precedeu a CPTM. Eram trens que, partindo da estação Roosevelt, no bairro do Brás, chegavam à cidade de Mogi das Cruzes. Itaquera ficava no meio deste trajeto, a trinta minutos do Brás. Outro meio de transporte eram os ônibus que ligavam o subúrbio ao centro da cidade transitando pela Avenida Celso Garcia, como rota principal, já congestionada. Os carros ainda eram bens de poucos.

 

Com o propósito de me preparar para o futuro, frequentava o ginásio pela manhã, no mesmo bairro onde residia, e às terças e quintas-feiras, juntamente com uma colega, fazia um curso de taquigrafia, cuja escola situava-se à Rua Riachuelo, no centro da cidade. Para chegarmos até ela, íamos de trem até o Brás, e depois pegávamos um ônibus até a região central, num percurso total de aproximadamente uma hora e meia. A Rua Riachuelo se localiza exatamente atrás da Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco. As aulas terminavam em torno de cinco da tarde, horário difícil para o retorno à Itaquera. Na época, meu pai era motorista em uma empresa que permitia que ele levasse para casa o carro que dirigia, de modo a facilitar seu acesso. Só que seu dia de trabalho se encerrava às sete da noite. Portanto, às terças e quintas, eu e minha colega esperávamos por ele para nos levar para casa. No intervalo entre o final da aula e a “carona”, passeávamos pelo centro da cidade visitando as lojas da Rua Direita, Rua José Bonifácio, Rua São Bento. Toda semana, calmamente, olhávamos as mesmas vitrines até que meu pai nos pegava em um determinado ponto na Rua Boa Vista.

 

Quando nosso curso de taquigrafia estava próximo do final, começaram as manifestações. Estávamos em sala de aula e ouvíamos os estrondos das bombas disparadas pelos militares contra os estudantes que se reuniam no Largo São Francisco. Os estrondos eram tão altos que pareciam que ocorriam na sala ao lado. O medo tomava conta dos alunos que teriam de sair às ruas após o término da aula, correndo o risco de se ver em meio ao tumulto. O que fazer para esperar pela carona de meu pai, por duas horas, em um clima tão hostil?

 

Tínhamos conhecimento do que estava ocorrendo, porém, ainda adolescentes, não dimensionávamos a situação. Ao sair às ruas, por várias vezes nos deparávamos com jovens correndo em várias direções e quase sempre havia muita fumaça. Não me lembro se as lojas fechavam as portas, provavelmente sim, mas não seriam lugar seguro.
Neste contexto, quando a aula terminava, eu e minha colega, rapidamente nos esgueirávamos pelas ruas menos tumultuadas e nos escondíamos no local que nos parecia o mais apropriado, pois o julgávamos livre de invasão: a Igreja de São Bento, no Largo São Bento, próximo à Rua Boa Vista onde às 19 horas meu pai nos apanharia.
Lembro-me que o interior da igreja era escuro, silencioso e sombrio, mas nos fazia sentir seguras. Ficávamos lá, de onde, por vezes, ouvíamos gritos e estrondos pelas ruas da região. Quando os grupos eram dispersos, saíamos de nosso refúgio, embora temêssemos ser abordadas pelos militares, ou cair no meio de novo conflito, que a cada semana se intensificava. Quando escurecia, o medo era ainda maior. Enfim, o curso terminou e voltamos ao nosso cotidiano em Itaquera, distantes das manifestações.
Foi dessa maneira que conheci a Igreja de São Bento. Hoje sei que ela é um marco da história da cidade.

 

O curso de taquigrafia valeu para eu captar com maior rapidez o conteúdo dos cursos que frequentei, mas por outro lado, me levou a ser um ator daquele momento histórico inesquecível do país.

 

Neide de Souza Praça é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. Ou agende uma entrevista, em áudio e vídeo, no Museu da Pessoa. Para ouvir outras histórias de São Paulo vá no blog, o Blog do Mílton Jung

Conte Sua História: Nos tempos de Itaquera

 

Wilson De Oliveira Souza

As ruas não eram asfaltadas quando Wilson De Oliveira Souza foi morar em Itaquera, na zona leste. Havia poucos serviços à disposição e os amigos inventavam todo tipo de brincadeira pelo direito de se divertir. Ter crescido no bairro e conhecido as dificuldades que muitas famílias enfrentam levaram Wilson a realizar trabalhos comunitários. Hoje, ele não vive mais por lá, foi para o centro da cidade, mas não esquece de Itaquera e torce para que a Copa do Mundo de 2014 mude o destino da região. Estes desejos e lembranças estão registrados no depoimento gravado para o Conte Sua História de São Paulo.

Ouça trechos do depoimento de Wilson de Oliveira Souza, gravado pelo Museu da Pessoa e sonorizado pelo Cláudio Antonio

Conte você, também, mais um capítulo da nossa cidade. Envie um texto ou agende uma entrevista em áudio e vídeo no site do Museu da Pessoa. O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP.

Conte Sua História de São Paulo: Coisas de meninos

 

No Conte Sua História de São Paulo, Aldo Della Monica que nasceu em 1952 aqui na capital e passou quase toda a infância no Tatuapé – momentos que foram lembrados no texto enviado ao Museu da Pessoa:

Ouça o texto de Aldo Della Monica sonorizado por Cláudio Antônio

Parece que certas coisas nunca mudam. Soltar pum, por exemplo, sempre foi um negócio engraçado. Os meninos são mestres nessas coisas. Os garotos daqueles tempos também. Aliás, também tínhamos nossos heróis japoneses. National Kid voava sobre Tóquio e sempre detonava os monstros vilões ao final do filme. Outro dia, revi um trecho do National Kid: vai voar mal assim lá nas arábias…

Outros tempos. No começo dos anos 60, computador era palavrão. O que se diria de computação gráfica e outros desses bichos tecnológicos modernos.

Bem, voando mal ou não, ele era nosso herói japonês.

Bairro de operários e pequenos comerciantes, o Tatuapé parecia uma dessas pequenas cidades interioranas. Quando alguém precisava ir á Praça da Sé, no Centro, dizia: eu vou à cidade. Como se vivêssemos em outro local que não na própria cidade de São Paulo.

A rua Bom Sucesso, asfaltada e recém iluminada, terminava em uma pracinha de terra. Os poucos automóveis que ali passavam pertenciam aos moradores daquele trecho de rua. Não havia movimento de veículos e, nos finais de tarde, dava pra se ouvir muito bem o barulho dos grilos lá da pracinha.

Tal silêncio só era interrompido, vez ou outra, pelo som do trem da Central do Brasil, que passava mais à frente, logo depois da praça.

É… bons tempos, mesmo! A gente nem precisava ter medo de sair à rua.

Lá pelas seis da tarde, banho tomado e com a série do National Kid devidamente atualizada, a garotada saía à rua. Brincava-se no meio da rua mesmo.

Não sei se a idéia foi do Francisquinho, o mais gordinho da rua. Mas, resolvemos promover um concurso de puns. O responsável pelo pum mais barulhento seria o campeão.

Havia uns dez garotos em nosso quarteirão. Todos mais ou menos entre os 9 e 10 anos.

Meninas?… nós só começávamos a reparar que elas existiam: a Miriam, a Denise, Angela, Ilze, Angelina…

Mas foi por causa da Dorinha, a mais velha delas – uns 12 anos- que um garoto passou a frequentar nossa turma: o Dagmar morava lá em cima, quase no final da rua e devia ter a mesma idade da Dora.

Nos intervalos das façanhas do National Kid, os reclames na TV tentavam vender os drops Dulcora, aquele que era embrulhado um a um. Era um tablete de drops que usava o slogan: Drops Dulcora a delícia que o paladar adora! Não demorou para que um de nós democratizasse a idéia: Dulcora, a delícia que o Dagmar a Dora. A gozação não abalou o Dagmar. Ele parecia mesmo apaixonado. Mas, tímido, não conseguia se declarar à Dorinha.

Paulinho, apesar do diminutivo, era o mais alto de nós. Magro e meio despachado, Seu pai era feirante. Vendia balas, doces biscoitos. Vez por outra, quando os sacões de biscoito de polvilho estavam no fim, o pai do Paulinho deixava ele trazer as sobras para a turma. Era apenas o farelo dos biscoitos mas… e a farra? O desafio era fazer alguém encher a boca com o farelo e dizer: minha mãe é rica porque pode. Invariavelmente o p de pode acabava virando ph, ou…f, pra se mais moderno.

Não sei se há explicação científica, mas tenho provas empíricas suficientes de que, depois de comer tanto farelo de polvilho, acabávamos todos, por assim dizer, virando um bando de balões de gás. Acho que foi daí que tiveram a idéia do concurso de puns.

Sábado, final de tarde. Minha tia Inês já tinha voltado da permanente na cabeleireira. Tio Zé Carlos engraxava seu mais novo par de botas. No baile iria rolar Ray Conniff para dançar de rosto colado e Chubby Checker, pra esquentar as cadeiras.Nós, no entanto, estávamos preocupados com outras emoções: hoje, o Dagmar iria se declarar à Dorinha.

Ficamos todos atrás do caminhão que o Seu Mário deixava estacionado na frente de sua casa.

Do outro lado da rua ( em frente à casa da Dona Aracy), o Dagmar: cabelo com corte americano curto máquina 1, calça nova com barra, camisa branca e pulover azul marinho.

– Olha lá, a Dorinha vem vindo!

Ela morava na pracinha.

Dava pra ler os lábios do Dagmar tentando relembrar o que ele devia ter ensaiado nos últimos quinze dias: você tem namorado; qual a sua religião (coisas de nossa educação no colégio das Irmãs); você quer namorar comigo?!

A Dorinha se aproximou.

Mal o Dagmar pôs as mãos nos bolsos, mostrando que iria começar a sua declaração e… uma explosão familiar ecoou pela silenciosa Bom Sucesso.

– O que foi isso?! gritou assustada a Dorinha.

Nada não! Era o Paulinho que acabava de vencer o concurso…

Você também pode contar um capítulo da nossa cidade. Escreva para www.museudapessoa.net. Ou agende uma entrevista, em áudio e vídeo, pelo telefone 2144-7150.

Arena do Corinthians em Itaquera interessa à São Paulo

 

Estadio Corinthians

Desde que Ricardo Teixeira descartou o Morumbi para a Copa do Mundo, surgem ideias de todos os lados. A última é a construção do estádio do Corinthians no bairro de Itaquera, na zona leste da capital paulista. Não sei quanto de fantasia existe na proposta que estaria conectada as comemorações dos 100 anos do clube, mas que investidores coloquem dinheiro naquela região me parece mais interessante para a cidade.

Em 2002, o fundo americano Hicks Muse negociou com a prefeitura terreno ao lado da rodovia Raposo Tavares para levantar uma arena esportiva que seria usada pelo Corinthians. Na época, lembrei várias vezes do erro estratégico para a cidade se aceitasse a proposta.

Já que é para levantar um estádio – sem dinheiro público, é lógico – que o seja onde mais possa interessar a São Paulo. A Arena do Corinthians poderia induzir o desenvolvimento da zona leste, alvo de uma série de projetos que pouco andam por falta de interesse do poder público. Com Poá, Ferraz de Vasconcelos e parte de Guarulhos e Itaquaquecetuba, o leste metropolitano de São Paulo tem a maior concentração populacional da região.

O aeroporto internacional de São Paulo está para aquele lado, assim como as rodovias Dutra, Fernão Dias e Airton Senna, o que facilita o acesso de outras partes do País. Já existem linhas de metrô e trem atendendo aqueles bairros. Teriam de aumentar sua capacidade de transportar passageiros.

Há carência de equipamentos culturais, artísticos e esportivos na zona leste paulistana. A Arena atenderia esta demanda transformando-se em boa opção para os moradores que, atualmente, precisam cruzar a cidade em busca de atrativos.

Melhoria da estrutura viária, saneamento e rede hospitalar seriam bem-vindos para aqueles moradores, também.

Os recursos voltados à zona leste teriam reflexo no mercado de trabalho e, a partir de ações bem planejadas, se teria um plano de expansão que poderia tornar a região auto-sustentável, benefício para toda a cidade com renda mais bem distribuída, redução no número de viagens e qualidade de vida.

Duvido muito da capacidade de se construir um estádio com 65 mil lugares que comporte a abertura da Copa do Mundo de 2014, já que o projeto corintiano chega ao máximo de 45 mil. Verdade que, há dois anos, o jornalista Victor Birner divulgou um esboço da Arena que poderia ter até 77 mil assentos – é o desenho que você vê reproduzido aqui no post.

Não, sei também, se há dinheiro para tocar esta obra em tempo de receber jogos do Mundial. Há quem aposte que sim.

Mas quanto a Copa da Fifa que se preocupem aqueles que se comprometeram em fazê-la. Eu, ao acreditar no desenvolvimento da zona leste, tendo a Arena do Corinthians como âncora, penso em São Paulo e seus moradores, apenas.