Quem você vê quando se olha no espelho?

Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de michael.handsome.gaida no Facebook/Pixabay
Foto de michael.handsome.gaida no Facebook/Pixabay

No conto “O espelho”, de Machado de Assis, durante uma reflexão filosófica sobre a existência, Jacobina — o protagonista — revela uma situação ocorrida na sua juventude para elucidar suas concepções sobre o tema abordado, alegando que os seres humanos teriam duas almas: uma interior, que olha de dentro para fora e outra exterior, que olha de fora para dentro.

  Jacobina conta que fora nomeado alferes da Guarda Nacional, causando muito orgulho a seus familiares e amigos. Eis que é convidado a passar uns dias no sítio de sua tia, sendo solicitado que leve sua farda, recebendo inúmeras cortesias por conta do cargo ocupado. 

No entanto, a tia precisa viajar às pressas e, em seguida, há uma fuga dos escravos. Na ausência das bajulações, Jacobina olha-se no espelho e não se reconhece na imagem refletida: danificada, com contornos imprecisos. Somente tem a sua imagem integralmente refletida quando se veste novamente com a farda.

A astúcia – ou provocação – de Machado de Assis nos aproxima de inquietações sobre nós mesmos: quem realmente somos?

Essa questão que poderia ser simples, a princípio, já que temos uma série de informações a nosso respeito, torna-se desafiadora quando compreendemos que a nossa identidade é construída diariamente, ou seja, apesar de sermos a mesma pessoa, estamos em constante transformação.

A construção da identidade envolve aspectos permanentes, como nome, parentescos, nacionalidade; além dos subjetivos, que permitem a compreensão de si mesmo e a consciência enquanto ser único, tais como os pensamentos, sentimentos e valores.

Entretanto, nossa identidade não está limitada apenas a esses aspectos subjetivos; compreende a relação constituída entre a subjetividade e as interações sociais.

É no processo de socialização, no encontro com o outro, com a sociedade, com a cultura, que a autoimagem vai se consolidando, permitindo a construção da nossa identidade social. 

Somos as características biológicas herdadas, somadas e transformadas pelas experiências vividas, como as oportunidades sociais, a profissão, os relacionamentos afetivos… Numa combinação que promove mudanças constantes e que guardamos na memória para nossa autorreferência.

Poderíamos então dizer que somos as memórias que temos sobre nós? O professor e cientista Ivan Izquierdo costuma dizer: 

“Somos o que lembramos e o que decidimos esquecer”

As memórias pessoais ou autobiográficas, de certo modo revelam nossas experiências de vida e permitem essa construção da nossa imagem; no entanto, pesquisas têm mostrado que não acessamos ou usamos todas as memórias disponíveis ao criarmos narrativas pessoais. 

Selecionamos como memória pessoal aquilo que de certo modo se ajusta à ideia atual que temos de nós mesmos, numa fusão entre memórias de quem fomos no passado e quem somos no presente, envolvendo a autoimagem, necessidades e objetivos. 

Somos aquilo que está dentro de nós e aquilo que o outro nos permite ser. 

Não podemos apenas ser. Mas também não podemos vincular quem somos exclusivamente ao desempenho de papéis estabelecidos e de atividades desempenhadas, que por vezes nos sufocam, nos engessam em cargos, títulos e organizações. Como numa engrenagem, as duas partes constituem um mecanismo que permite um movimento coerente e contínuo. Se uma das partes falhar, não conseguiremos nos reconhecer. Nossa imagem estará distorcida em formas e contornos.

Machado de Assis estava certo! 

“Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro (…). Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência”.

Resolvo encerrar o texto e ir para o espelho… Quem será que vejo?

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Sua Marca: as lições de Machado de Assis

 

 

“Entenda muito mais profundamente as pessoas, os consumidores, ao invés de vê-los superficialmente apenas” Jaime Troiano

No conto “O espelho — esboço de um nova teoria sobre a alma humana”, de Machado de Assis, o personagem principal é um alferes da Guarda Nacional, chamado Jacobina, que ficava encantando com a reverência dos outros diante de sua farda, e passou a se identificar não pelo que era, mas pelo que aparentava ser. Inspirados nessa que é uma das mais conhecidas histórias do escritor, Jaime Troiano e Cecília Russo chamam atenção dos gestores de marcas para a responsabilidade que devem ter na relação com os consumidores.

 

Em Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Cecília diz que quando usamos um relógio, um computador ou consumimos um determinado alimento, estamos pegando emprestado os atributos daquela marca. É como se fosse o fardamento de Jacobina ou a criação de um nova persona, que segundo Carl Gustav Jung, é uma máscara social com a qual nos apresentamos diante das outras pessoas:

“A armadilha, o perigo é quando essa máscara social, ou quando essa marca nos engole, ela representa quem eu sou, já não consigo me ver sem usar aquela marca”.

Os profissionais de branding precisam estar atentos aos efeitos dessa relação, tomando o cuidado para não permitirem que a marca provoque um eclipse ou uma ocultação da pessoa.

 

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso é apresentado por Mílton Jung e vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN.