As estrelas da mostra de antiguidades

 

Por Adamo Bazani

Exposição Viver, Ver e Rever reunirá ônibus do início do século passado que, preservados, ajudam a contar a história do desenvolvimento urbano e do transporte de passageiros

Jardineira de 1923

Serão dezenas de ônibus de diferentes anos que “contarão histórias” para o público que participar da exposição V.V.R – Viver, Ver e Rever – organizada pelo primeiro Clube do Ônibus Antigo, uma criação de Antônio C. Kaio Castro (conheça a história dele acessando aqui). Algumas dessas estrelas chamam atenção desde a primeira edição do evento.

Na foto que abre este post você vê o tataravô dos ônibus: uma Jardineira, de madeira, mantida pela Viação Capriolli, do ano de 1923 – uma das mais velhas em boas condições de todo o País.

JARDINEIRA DA CAPRIOLI DE 1928-1

Será possível também conhecer uma estrela de novela, que recepcionará o público. Quem, com mais de 25 anos, não se lembra de Tieta, da Rede Globo de Televisão, nos anos 80 ? Pois é, na pequena “Santana do Agreste”, lugar fictício onde se desenvolveu a trama havia uma jardineira azul, simpática, chamada Marinete, o único ônibus da cidade, dirigido por Jairo, interpretado por Elias Gleizer. Essa jardineira também pertence a Viação Capriolli e foi locada para as gravações.

Um papa fila, uma espécie de ônibus gigante tracionado por caminhão, também chamou a atenção nas edições anteriores. Kaio conta que a história da vinda desse exemplar para a Exposição no ano passado foi bem peculiar. Um empresário do interior de São Paulo, do setor plástico, soube da exposição e disse que ia mandar um Papa Fila. Como até então não havia registro de veículos desse tipo conservados (eles foram muito comuns nos anos 50 e 60 nas grandes cidades do País), ele não acreditou muito, mas aceitou a vinda do empresário, que é um apaixonado por ônibus. “Quando vi aquela carroceria Cermava enorme chegando ao pátio do Memorial me impressionei e me emocionei. Temos um Papa Fila no Brasil ainda inteiro” – disse Kaio. A importância do Papa Fila na história dos transportes é marcante. Isso porque, apesar de não muito bem sucedida, pelo desconforto, foi a primeira experiência de um ônibus de alta capacidade de passageiros (mais de 100 em alguns casos). “O Papa Fila foi precursor do ônibus articulado” – afirma Kaio.

Ônibus GMPD Coach

Há uma estrela internacional também. A Viação Santa Rita, que ao lado da Capriolli possui um dos maiores acervos de veículos antigos restaurados e bem conservados, conseguiu importar uma preciosidade: um GMPD Coach de 1956. O veículo, bastante mal conservado, pertencia a Congregação Batista dos Estados Unidos para transporte de religiosos. Um amigo do dono da empresa viu o veículo lá e o proprietário da Santa Rita não teve dúvidas: importou o ônibus, que se destaca pelas chapas de alumínio polido, que brilham a luz do sol ou a luzes artificiais.

E para os mais jovens, porém não menos nostálgicos, a estrela é um gigante Nielson Diplomata 380, com cerca de 4 metros de altura, de 1984, motor potente, Scania BR 116, que mostra que desde os anos 80, o Brasil tem condições de fazer “aviões de estrada”. O ônibus da Expresso Brasileiro Viação toda foi um dos principais marcos da glamourização e aumento dos serviços de luxo na ligação rodoviária entre Rio e São Paulo.

O Grassi da Itapemirim, um ônibus simples e pequeno, todo prateado também, de alumínio polido, mostra o quanto as viagens entre Sudeste e Nordeste eram difíceis, estafantes e não muito confortáveis. O espaço interno pequeno e o motor na frente chamavam motoristas e passageiros a uma missão corajosa. Mas o veículo tem beleza por conta disso, de suas linhas e foi por causa de veículos assim, que depois foram desenvolvidos e modernizados que hoje os ônibus rodoviários brasileiros são considerados os melhores do mundo.

Todas estas atrações estão a sua espera nos dias 21 e 22 de novembro na maior amostra de ônibus antigos do país, que se realizará no Memorial da América Latina, em São Paulo.


Adamo Bazani é repórter da CBN e busólogo. Às terças-feiras escreve no Blog do Mílton Jung.

Jardineira faz viagem ao passado em São Paulo

Por Adamo Bazani

Passeio de Jardineira em Tradicional Bairro de São Paulo é uma viagem na história da cidade. O ronco do motor remete a uma época saudosa, mesmo que desconhecida para muitos.

É possível mesmo com o corre-corre de São Paulo, os imóveis e prédios modernos e a grande população, dar uma volta ao passado? Matar saudade ou sentir um pouquinho de uma época que muitos admiram, mas não viveram?

Sim, é possível. E as “máquinas do tempo”, são duas Jardineiras, ônibus antigos, bem diferentes da configuração dos veículos atuais. Uma de 1931 e outra de 1932.

O passeio nestes ônibus é uma dica para quem gosta de veículos de transporte coletivo, para quem é interessado na história da cidade de São Paulo ou, simplesmente, para quem está cansado da mesmice do Shopping e Cinema.

E os simpáticos ônibus parecem uma máquina do tempo mesmo.

Quando os motores Ford dos anos 30 são ligados e os veículos começam a transitar pela região do Ipiranga, tradicional bairro de São Paulo, palco da Independência do Brasil, a sensação é de estar numa época gostosa.

É claro, os velhos ônibus são ultrapassados pelos novos, como os Caio Mondego Articulados de última geração da Viasul, que passam pela região. É possível ver trânsito, o caos da cidade, mas, também, com as vagarosas avançadas das Jardineiras, pode-se notar uma São Paulo diferente, que passa rápido pela nossa frente, mas que não é percebida.

A começar pelas ruas de paralelepípedo que ainda são conservadas no bairro.

A guia da viagem mostra edificações que nos fazem imaginar como era uma São Paulo mais tranqüila, mais simples, mas ao mesmo tempo, mais clássica.

E na viagem no tempo, que dura 25 minutos em média, é possível ver que desde o início do século passado, São Paulo já era a cidade das diversidades.

Em algumas ruas, casas ainda com a janela e a porta que dão direto para a calçada, bem no estilo operário do bairro. Construções simples e aconchegantes. Em outras ruas, grande edificações, como o próprio Museu do Ipiranga, o Mosteiro onde viveu e morreu a beatificada Madre Paulina, hoje ocupado por uma faculdade, mas com as características mantidas, o casarão onde morou o famoso advogado e figura importante na história de São Paulo, Ricardo Jafet, entre outras preciosidades do bairro do Ipiranga, escondidas pelas modernidades e principalmente pela correria do cotidiano.

E dirigir uma Jardineira dessa é uma arte.

Para se ter idéia, a direção do veículo de menos de 6 metros de comprimento é tão pesada, que é mais confortável fazer as estreitas curvas do Ipiranga com os gigantes Caio Mondego, de 18 metros. As quatro marchas têm de ser trocadas no tempo certo. A suspensão é dura, mas o balanço da Jardineira é gostoso.

O ronco do motor é diferente e chama a atenção, mesmo de quem não é busólogo. Prova disso foram as pessoas que tiravam fotos e faziam perguntas nas paradas das Jardineiras.

Mas por que Jardineira? Porque não eram chamadas de ônibus, nome de origem francesa, do final do século XIX, que significa “para todos”, remetendo a algo coletivo.

Mais uma vez a história explica. Segundos profissionais mais antigos e a guia do passeio, o nome se dá por causa das operárias dos anos 30, da região da Mooca e Ipiranga, bairro cujo nome era escrito com Y (Y significava Rio, e o restante do nome, vermelho).

Os ônibus com as laterais abertas transportavam na ida e na volta as operárias, que usavam chapéus floridos. Por este formato de carroceria, toda aberta na lateral e pelas flores dos chapéus, taxistas, artesãos, padeiros e até os próprios motoristas falavam que os ônibus pareciam Jardineiras, e o nome pegou.

O cheiro da gasolina (nesta época no Brasil os ônibus não eram a Diesel) misturava-se com o perfume das operárias.

Ser cobrador era uma profissão de risco. Ele andava no estribo do veículo em movimento, que patinava nas subidas de barro,como da Rua Bom Pastor.

O passeio vale a pena.

Para quem é da época, saudades; para quem gosta de ônibus e de história, uma mina de ouro; para a criançada, uma diversão. Aliás, para ver como o passado tem vida: quando viajamos na Jardineira, crianças de 5, 6, 7 anos, diziam coisas do tipo: “Andar de ônibus antigamente era legal” – falavam alegres, como se de alguma maneira tivessem vivido a época.

As Jardineiras percorriam o Ipiranga, Mooca, Brás, Praça João Mendes até o centrão de São Paulo.

São mais de 70 anos de ônibus muito bem preservados. Será que em 2079, se houver um Caio Mondego preservado, hoje um dos mais modernos, haverá um passeio assim? Que sensação ele deve passar?

Serviço

Operarias e seus chapeus floridos deram nome a estes onibus

Operárias e seus chapéus floridos deram nome a estes ônibus

Os passeios são feitos aos finais de semana, das 9h às 16h. A passagem é de 5 reais, para manter os veículos, o passeio pelas ruas do Ipiranga (que se transforma do Ypiranga) e do Sacomã dura cerce de 25 minutos. Apesar de parar no Museu do Ipiranga e em outros pontos, o embarque só é possível na Rua Huet Bacelar, 407 – Ipiranga, em frente ao Aquário de São Paulo.

Adamo Bazani, é busólogo, repórter da CBN e um jovem saudosista.