Luxo pode ser para poucos, mas honestidade é para todos

 

Por Ricardo Ojeda Marins

 

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“O jeitinho brasileiro” é um dos principais slogans que acompanham o Brasil. Pode ser interpretado de várias formas: boas e ruins, claro. Se por um lado, o brasileiro tem garra e luta por seus objetivos – o que é incontestável -, infelizmente, essa expressão também nos remete a algo que ocorre comumente por aqui: “dar um jeito” carrega consigo a ideia de burlar leis, furar filas, encontrar atalhos, ser favorecido, ter atendimento privilegiado em prejuízo a outros cidadãos.

 

Observando os protestos realizados no último domingo, 15 de março, bem como as manifestações que marcaram 2013 – e, diziam, ironicamente, terem se iniciado pelos famosos 20 centavos na passagem do ônibus -, noto que as pessoas tem comportamentos contraditórios, algumas chegam a assustar tamanho o desconhecimento. É fundamental que nosso povo seja politizado (quem sabe um dia) e lute por seus direitos, mas é lamentável ver que se cobre do governo o que muitos de nós não exercemos: a honestidade. Pouco adianta pedir mudanças no comportamento das autoridades, se no dia a dia agimos com desonestidade. Um dinheiro para o guarda de trânsito nos livrar da punição, propina para liberar a carteira de habilitação cancelada por excesso de multas, estacionar em vagas para pessoas com deficiência, gorjeta para agilizar o atendimento na delegacia ou repartições públicas são apenas alguns exemplos de atos ilegais que ocorrem no cotidiano.

 

O problema é que para desenvolvermos uma consciência cidadã é preciso muita educação. E com o governo que temos atualmente, inclua-se nesta crítica todos os que vieram antes, investir nesta área não é prioridade. Por isso, difícil ter alguma previsão de que um dia nos tornaremos politizados. Também acho incrível a quantidade enorme de brasileiros que postam artigos em seus perfis nas redes sociais muitas vezes sem saber exatamente o que estão falando ou sem conhecer nossa história. Deixo claro que sou a favor dos protestos e, obviamente, não estou satisfeito com a situação atual do país e da forma como vem sendo governado (ou seria, roubado?). Porém, penso que devemos fazer nossa parte, mudar essa mentalidade de querer levar vantagem em tudo. Não apenas pregar e cobrar honestidade, mas agir com honestidade, ensinar às próximas gerações de que este valor não é um luxo, coisa para poucos. É uma obrigação de todos!

 

Ricardo Ojeda Marins é Professional & Self Coach, Administrador de Empresas pela FMU-SP e possui MBA em Marketing pela PUC-SP. Possui MBA em Gestão do Luxo na FAAP, é autor do Blog Infinite Luxury e escreve às sextas-feiras no Blog do Mílton Jung.

O 'jeitinho brasileiro' é inimigo da prevenção

 

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Somos o país do ‘jeitinho’ e nos orgulhávamos disso, pois sinalizava nossa capacidade de improvisar, encarar as situações mais complexas e oferecer soluções práticas. Nos tornamos refém desta história quando a exceção passou a ser regra e transformamos em definitivas medidas que tinham caráter provisório. Poucos duvidam que o Brasil não consiga realizar a Copa do Mundo ou os Jogos de 2016, pois sabem que na hora certa faz-se um puxadinho, pede-se emprestado, decreta-se feriado ou se oferece atendimento especial para privilegiados e pedimos compreensão aos demais, em nome da nação. Na boate Kiss não era diferente a “boa intenção” em manter a casa aberta para a gurizada se divertir, mesmo porque quando somos mais jovens basta um bom som e uma ótima companhia para a festa rolar.

 

O ‘jeitinho brasileiro’ deixa aberta a porta corta fogo do prédio para o ar circular, faz galhofa com as simulações de incêndio organizadas por solitários brigadistas (quando eles existem); entrega para o mestre de obra a função de engenheiro e substitui o projeto do arquiteto por rabiscos no papel de pão (esse não existe mais com certeza). As placas de trânsito são meramente ilustrativas: se o limite é 60km, andamos a 80Km, pois temos certeza de que não haverá problema; se o sinal é de “Pare”, lemos reduza a velocidade. Problemas de saúde, resolvemos no balcão da farmácia; exames preventivo são perda de tempo.

 

Em um resort no litoral baiano, construído com dinheiro de fundo de pensão, as normas de seguranças eram muito rígidas a ponto de me chamar atenção. Não precisei muito tempo para descobrir o motivo: o seguro de vida feito por executivos estrangeiros exige a estrutura para pagasr indenização em caso de acidente. A obscesão pela prevenção que nos causa incomoda é obrigatória em países da Europa e nos Estados Unidos. Por isso, enquanto no Brasil tanto faz como tanto fez, nos prédios americanos as portas abrem para fora. É para a rua que se vai quando há situação de risco e o acesso tem de ser facilitado.

 

Precisamos implantar a cultura da prevenção e as escolas serão importantes nesta iniciativa. Não defendo a criação de uma matéria específica para o assunto, a grade escolar já está completamente ocupada. Podemos, porém, discutir o assunto com os alunos de forma interdisciplinar, em palestras, atividades extra-curriculares e campanhas internas. Que escola realiza treinamento de fuga, preparando seus estudantes para casos de risco? Curitiba, na administração Jaime Lerner, levou o tema da reciclagem à sala de aula e mudou o comportamento das famílias.

 

Os governos – União, Estado e Municípios – devem usar as verbas publicitárias, desperdiçadas em “propaganda política” para mobilizar a sociedade. São Paulo, ano passado, incentivou o respeito à faixa de segurança e diminui os acidentes nos pontos em que a campanha se concentrou.

 

Em casa, na empresa, na Igreja, na sociedade em que atua, é sua a responsabilidade. Com seus filhos, pais, parentes, amigos e colegas insista na ideia de que o “jeitinho brasileiro” é inimigo da cultura da prevenção.