Mundo Corporativo: Nelcina Tropardi e a governança como eixo das decisões no Carrefour Brasil

Nelcina Tropardi
Bastidor da entrevista com Nelcina Tropardi Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“Hoje em dia não é mais o resultado pelo resultado. O resultado a qualquer custo. É o resultado que passe pelo propósito.”

Empresas de grande porte operam sob pressão constante: resultados trimestrais, exposição pública, cobrança de investidores, vigilância social permanente. Nesse cenário, decisões tomadas no calor do momento tendem a ampliar riscos e comprometer reputações construídas ao longo de décadas. Foi a partir dessa tensão entre resultado, propósito e governança que se desenvolveu a entrevista com Nelcina Tropardi, vice-presidente de Assuntos Corporativos, Jurídico e ESG do Carrefour Brasil, no Mundo Corporativo, da CBN.

Ao reunir sob a mesma liderança áreas que tradicionalmente funcionam de forma isolada, o Carrefour optou por tratar reputação como um ativo transversal. Segundo Nelcina Tropardi, jurídico, ESG e assuntos corporativos têm um ponto em comum: “elas cuidam, protegem a reputação da companhia”. A decisão de integrá-las responde à necessidade de coerência entre discurso, processos internos e práticas do dia a dia.

Governança como base do ESG

Na conversa, Nelcina defendeu que governança não é um elemento acessório das estratégias de sustentabilidade. É a base. Sem regras claras, processos bem definidos e responsabilidades estabelecidas, iniciativas ambientais e sociais perdem consistência. “Não existe uma estratégia que olhe para o meio ambiente e para o social que seja bem-sucedida se não estiver calcada numa boa governança”, afirmou.

Ela observou que, muitas vezes, a governança é confundida com burocracia. Para Nelcina, trata-se de um equívoco comum. Regras internas não servem para travar decisões, mas para garantir que elas sejam tomadas por quem tem competência e responsabilidade para isso. Quando esses mecanismos falham, o resultado costuma aparecer mais adiante, em crises que poderiam ter sido evitadas.

Crise exige escuta e racionalidade

Responsável por áreas que atuam diretamente na gestão de crises, Nelcina destacou que o primeiro risco, em situações extremas, é o descontrole emocional. “Para você fazer uma boa gestão de crise, você precisa manter a calma, manter a capacidade de ouvir e manter a capacidade de raciocinar. Seu desespero, por pior que seja a situação, não leva a lugar nenhum”, disse.

A escuta, segundo ela, não pode ser apenas formal. É preciso ouvir de forma desarmada, sem preparar respostas enquanto o outro fala. Esse tipo de postura, afirmou, amplia a capacidade de compreender cenários complexos e reduz a chance de decisões precipitadas.

Reputação, aprendizado e responsabilidade

Ao ser perguntada sobre episódios críticos enfrentados pelo Carrefour nos últimos anos, Nelcina reconheceu a gravidade dos casos e afirmou que eles não devem ser apagados da memória da organização. “São episódios terríveis, que não podem ser apagados e não devem ser apagados”, disse. Para ela, o aprendizado passa pela criação de processos mais robustos, treinamentos contínuos e monitoramento permanente.

Ela lembrou que o grupo opera mais de mil lojas no país, recebe cerca de dois milhões de clientes por dia e emprega aproximadamente 120 mil pessoas. Essa escala amplia a responsabilidade da empresa e exige atenção constante à cultura interna. Programas de letramento racial, uso de câmeras corporais por equipes de segurança e revisão de procedimentos fazem parte desse esforço, que, segundo ela, precisa ser contínuo.

Maturidade e diversidade geracional

Outro ponto abordado foi a convivência entre diferentes gerações no ambiente corporativo. Nelcina afirmou que empresas precisam valorizar tanto profissionais mais jovens quanto aqueles com mais de 50 anos. Para ela, maturidade e resiliência são ativos relevantes em contextos de instabilidade. “A empresa de sucesso do futuro será a empresa que souber lidar com essas diferenças geracionais”, afirmou.

Ao falar de carreira, destacou que trajetórias profissionais são construídas por escolhas conscientes. Relatou o momento em que decidiu ampliar sua formação para permanecer no mundo corporativo, buscando conhecimentos além do direito. Segundo ela, gostar de pessoas, saber traduzir conceitos técnicos e atuar como facilitador são condições essenciais para quem ocupa funções estratégicas.

Sustentabilidade na prática

Nelcina também detalhou os três pilares da estratégia de ESG do Carrefour Brasil: combate à fome e às desigualdades sociais, diversidade e inclusão, e enfrentamento das mudanças climáticas. Entre as iniciativas citadas estão programas de doação de alimentos, contratação de beneficiários do Bolsa Família, metas de diversidade e monitoramento da cadeia de fornecimento de carne para evitar desmatamento.

Ela destacou ainda o acordo firmado com o governo do Pará para apoiar produtores rurais na regularização ambiental, com uso de monitoramento em tempo real. Segundo Nelcina, essas ações só se sustentam no longo prazo quando estão integradas à estratégia de negócios e apoiadas por governança sólida.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.