Avalanche Tricolor: as poucas boas notícias no empate

Grêmio 1×1 Juventude

Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Gremio x Juventude
Monsalve comemora o gol no retorno ao time Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Foi apenas a sétima partida de Luis Castro como técnico do Grêmio, e essa realidade não pode ser ignorada. Ele ainda merece paciência, virtude cada vez menos presente na Arena. Para iniciar o jogo, o treinador português recorreu a um time alternativo, com poucos jogadores considerados titulares. A escolha fazia sentido: a classificação à próxima fase estava garantida, a manutenção do primeiro lugar na chave parecia tranquila e o jogo vinha espremido entre dois compromissos importantes do Campeonato Brasileiro.

Ainda assim, esperava-se mais do Grêmio, sobretudo por jogar em casa. Faltou pressão na saída de bola do Juventude e sobrou lentidão quando a posse era nossa. O primeiro tempo foi pobre. Quase não se criaram jogadas de ataque. Nada daquilo a que se assistiu animou o torcedor que foi à Arena.

A entrada do trio titular — Arthur, Amuzu e Carlos Vinícius — ao lado de Monsalve, que retornava de um longo período de lesão, abriu outra perspectiva, no segundo tempo. O time ganhou presença ofensiva e passou a ocupar melhor o campo adversário. A expulsão precoce de Arthur, porém, voltou a desorganizar o Grêmio. Mais do que o prejuízo imediato, a ausência do volante pesa na disputa pela vaga na semifinal, no próximo fim de semana. Com ele, o meio de campo ganha equilíbrio. Sem ele, o sistema entra em colapso.

Entre as poucas boas notícias, Miguel Monsalve foi a principal. Há tempos o torcedor aposta no colombiano como o jogador capaz de assumir o papel do camisa 10. Em dois ou três lances — especialmente no golaço que marcou — o jovem de 21 anos reacendeu a esperança de que esse protagonismo, enfim, possa se consolidar.

A outra rara boa notícia foi Noriega como volante. Forte na marcação e seguro no domínio da bola, mostrou credenciais que merecem atenção. Com o retorno de Balbuena — toc, toc, toc — talvez o nipo-peruano de 24 anos possa se firmar como parceiro de Arthur, oferecendo ao meio de campo uma alternativa mais consistente.

Aos trancos e barrancos, o Grêmio segue no Campeonato Gaúcho. No meio da semana, o compromisso pelo Campeonato Brasileiro exigirá entrega máxima. Com pouco tempo de trabalho e quase nenhum espaço para treinar, Luis Castro precisa ajustar o time sob a pressão de uma torcida ainda marcada pelos fracassos do ano passado e pelos tropeços deste início de temporada. O relógio corre mais rápido do que o calendário.

Stanford mandou avisar que ainda não sou velho; alguém pode contar para o plano de saúde?

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Acordei nesta manhã um pouco mais jovem. E não foi a sequência de exercícios, com musculação e bicicleta, a que tenho me dedicado nos últimos anos, que me concedeu esse prêmio. Nem a alimentação, que ainda precisa de um controle maior — desde que a Dra. Márcia não se atreva a mexer na minha taça de vinho. A juventude fora de hora me foi oferecida em formato de notícia.

Quando o dia está amanhecendo e estou à mesa de café da manhã, a Letícia Valente, produtora do Jornal da CBN, me envia pelo WhatsApp sugestões de assuntos para o bate-papo que faço na passagem do programa Primeiras Notícias para o Jornal da CBN. Uma das mensagens que chegaram hoje, publicada em O Globo, se destacava pela manchete: “Quando começa a velhice? Estudo indica marco biológico aos 78 anos”.

Sério? Faz uns dois anos que dizem que sou velho porque passei a marca dos 60. Agora vem essa novidade: velho mesmo só aos 78.

A reportagem fala de um estudo da Universidade de Stanford sobre o desenvolvimento biológico do envelhecimento. A conclusão dos pesquisadores veio da observação de mudanças bruscas nas proteínas plasmáticas, moléculas que circulam no sangue e indicam o estado geral de saúde do organismo. Essas proteínas são como ajudantes de bastidor: mantêm o equilíbrio de líquidos, carregam nutrientes, defendem o corpo de infecções. Quando mudam de comportamento — aos 34, 60 e 78 anos — sinalizam que o corpo virou a página e entrou em outra fase.

Se, do ponto de vista biológico, eu ainda não sou velho, do ponto de vista burocrático o sistema já me carimbou faz tempo. Ser 60+ nos oferece algumas vantagens: prioridade no recebimento da restituição do Imposto de Renda, gratuidade no transporte coletivo, meia-entrada em espetáculos, vaga privilegiada no estacionamento e fila preferencial nos serviços de atendimento (e no embarque do avião, também). Quem não gosta? Por outro lado, com o aumento dessa população — já somos milhões de pessoas acima dos 60 — tudo isso gera mais custos para quem concede essas vantagens.

Já assistimos a movimentos para que os direitos concedidos a idosos sejam limitados a pessoas um pouco mais velhas, tipo 65+. O estudo talvez possa ser usado para radicalizar ainda mais e convencer legisladores a adiar os benefícios apenas para aqueles que tiverem atingido os 78 anos.

A depender de mim, sem problema. Posso abrir mão de furar fila no embarque e no caixa — desde que os planos de saúde também abram mão de tratar quem tem 60 como se estivesse à beira do fim. Se biologicamente a velhice começa aos 78, a tabela de preços bem que podia acompanhar.

Avalanche Tricolor: Vini da Pose e o TRI-GOL que fez o Grêmio sorrir de novo

Grêmio 3×1 Juventude
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Brasileirão - Grêmio x Juventude - 26/10/2025
Carlos Vinícius, o artilheiro, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Foi antes do desastre do fim de semana passado que tive a oportunidade de conversar com Luciano Périco e Diori Vasconcelos, no Show dos Esportes, da Rádio Gaúcha. Ainda embalados pela vitória anterior na Nossa Arena, foi uma verdadeira colher de chá que os dois jornalistas me ofereceram, numa sexta-feira à noite. Havia motivo de sobra para estar animado com o que víamos, especialmente pela performance de Arthur, o maestro que fez o Grêmio renascer no Campeonato Brasileiro.

No bate-papo radiofônico, falei sobre a transformação que o time vem apresentando desde a vitória no Gre-Nal — o renascimento de alguns jogadores, o domínio da bola (olha o Arthur aí, gente!) e a consistência defensiva. Difícil prever, naquele momento, o que nos aguardava no domingo seguinte, em Salvador.

Durante a conversa, um dos colegas me perguntou se eu via semelhanças entre Carlos Vinícius e Jael, o Cruel — aquele centroavante que marcou época no Grêmio entre 2017 e 2019, com 14 gols em 67 jogos. Concordei. Fisicamente, são parecidos. Encaram a pancada do zagueiro com um sorriso maroto no rosto. Têm gana pelo gol. E carisma para conquistar o torcedor.

Mas, com todo o respeito e carinho que Jael sempre merecerá, há diferenças que jogam a favor de Carlos Vinícius. Mesmo corpulento, ele se movimenta mais entre os zagueiros. Consegue equilibrar o jogo pesado da marcação adversária com a leveza de quem sabe conduzir a bola em direção ao gol. Em resumo: combina força e talento — e isso complica a vida de qualquer marcador.

O atacante nascido em Bom Jesus das Selvas (MA), que rodou por diversos clubes no exterior antes de voltar ao Brasil, chegou recentemente ao elenco gremista. Em sete partidas, marcou seis gols — o primeiro deles em um Gre-Nal, o que por si só já carrega um peso especial para o torcedor. Contra o São Paulo — aquele jogo que motivou minha conversa na Gaúcha — fez os dois da vitória.

E hoje, Carlos Vinícius voltou a mexer com nossa memória afetiva. Não pela semelhança com Jael, mas por algo ainda maior. Com os três gols que garantiram a vitória sobre o Juventude, o “Vini da Pose” — apelido que ganhou pelo gesto característico nas comemorações — nos fez lembrar de Luis Suárez, o último atacante gremista a anotar um hat-trick (ou, em bom gauchês, um TRI-GOL).

Avalanche Tricolor: o Grêmio está estranho — e isso é bom

Juventude 0x2 Grêmio
Brasileiro – Alfredo Jaconi, Caxias do Sul RS

Cristian Olivera fez o 2º gol. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Um domingo estranho para os padrões gremistas dos últimos meses. Uma vitória por dois gols de diferença não acontecia desde o início de abril; a última vez que ganhamos três partidas consecutivas foi em janeiro; e agora completamos quatro jogos sem tomar gols — somados os resultados do Brasileiro, Copa do Brasil e Sul-Americana.

A sorte também esteve ao nosso lado, o que não víamos há algum tempo. O pênalti infantil cometido pelo goleiro adversário, ainda nos primeiros minutos, tornou o caminho da vitória mais fácil — e contou com o auxílio do VAR. O mesmo VAR que evitou que fôssemos prejudicados com o pênalti assinalado contra nós, quando ainda vencíamos por apenas um a zero — e parecia que a história de não sabermos segurar o placar favorável se repetiria.

Alguém pode dizer que o recurso do VAR não é questão de sorte. É auxílio técnico usado para ajudar os árbitros em lances difíceis e polêmicos. Primeiro: se você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, pensa assim, convido-o a puxar a “ficha corrida” dos lances de arbitragem em rodadas anteriores (com exceção do jogo contra o Bahia). Segundo: que um dos jogadores adversários estivesse em posição irregular no instante da jogada em que derrubamos o atacante deles na área é sorte, sim.

Ao falar de sorte, não estou reclamando. Fico bem feliz em saber quando ela decide trocar de lado. Porque, geralmente, quando isso acontece, é sinal de que o time começa a fazer por merecer. E hoje, fizemos.

Mesmo que o adversário estivesse fragilizado, é preciso considerar que continuava sendo uma fortaleza dentro do seu estádio. Mais do que isso, o Grêmio fez sua melhor partida dos tempos recentes, a começar por um sistema defensivo mais coeso. Houve intensidade na marcação, com a participação dos jogadores de ataque. Na maior parte do jogo, preferiu-se a troca de passes e, sempre que se chegava pelas alas, nossos atacantes foram atrevidos ao driblar. O meio de campo também participou ativamente, com destaques para Villasanti e Cristaldo.

Se o que assistimos foi circunstancial ou se estamos vendo o início de uma reação gremista, sob nova direção, teremos de esperar pela resposta que o tempo nos oferecerá. O Grêmio joga mais uma partida antes da longa parada para o Mundial de Clubes — tempo em que Mano poderá, se tudo correr bem, ganhar os reforços necessários e organizar melhor seu grupo. Com isso, quem sabe vitórias seguidas, defesa mais firme e boas arbitragens deixem de causar estranheza a este escrivinhador e torcedor.

Avalanche Tricolor: um time que jamais se renderá!

Juventude (2) 2×1 (3) Grêmio
Gaúcho – Alfredo Jaconi, Caxias do Sul, RS

Volpi comemora classificação à final. Foto: Lucas Uebel/GremioFBPA

A ausência de um futebol mais envolvente obrigou o Grêmio a ser mais guerreiro do que nunca nesta temporada. Sem espaço para o talento brilhar, a classificação veio na base da insistência e da resiliência. O time recém-formado, ainda sem pleno entrosamento, superou suas falhas com valentia e manteve viva a esperança do Octacampeonato Gaúcho.

Saímos de Caxias do Sul cientes de que será preciso mais equilíbrio para sustentar um futebol de alto nível nos 180 minutos decisivos. Alguns jogadores, especialmente na defesa, precisam se posicionar com mais segurança. No ataque, será essencial diversificar as jogadas, explorando melhor os dois lados do campo e movimentando-se com mais sintonia entre os marcadores para criar oportunidades de gol.

Não há ilusão. Há orgulho, porém, pela postura do time diante da adversidade. Com um jogador a menos na maior parte do jogo e sofrendo dois gols que nos desclassificariam, conseguir voltar à disputa com um gol de bicicleta nos acréscimos é feito para poucos.

O zagueiro Gustavo Martins, mesmo sob a desconfiança de parte da torcida, já havia arriscado um cabeceio, sem muito perigo. Usar o recurso do malabarismo para alcançar uma bola que escapava e colocá-la na rede, naquelas circunstâncias, foi coisa de quem nunca se entregará enquanto vestir a camisa gremista.

Impossível não lembrar que, no instante do gol salvador, quem estava na área adversária, porque também não aceita a rendição, era o nosso novo goleiro, Tiago Volpi. Foi ele, aliás, quem mais uma vez revelou coragem e talento quando mais precisamos. No tempo normal, já havia feito ótimas intervenções. Na decisão por pênaltis, voltou a brilhar com duas defesas e ainda marcou seu gol com uma cobrança precisa.

Estamos em mais uma final do Campeonato Gaúcho — pelo oitavo ano seguido. Mesmo com um futebol inconstante, de altos e baixos, levamos para esta decisão uma certeza: o Grêmio jamais desistirá!

Avalanche Tricolor: Grêmio se reinventa e sonha com o Octa

Grêmio 2×1 Juventude
Gaúcho – Arena Grêmio, Porto Alegre RS

Cristian Oliveira foi um dos destaques do time. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Temos um time para a temporada. Essa é a melhor notícia do fim da noite de sábado. Espero que Gustavo Quinteros tenha a oportunidade de construí-lo e dar consistência à equipe, a tempo de conquistar o octacampeonato. O tamanho dessa missão pode ser medido pela quantidade de jogadores recém-chegados que disputaram essa partida de semifinal: sete deles estiveram em campo, dos quais cinco como titulares. Alguns mal devem ter desfeito as malas. Alguns se comunicam apenas pela linguagem da bola.

Mesmo sem o devido entrosamento, a equipe já demonstra uma ideia clara de jogo, movimentação coordenada, jogadas ensaiadas e um futebol empolgante para o torcedor. Ainda há falhas na execução de algumas jogadas e ajustes a serem feitos na saída de bola da defesa. Quinteros tem alternativas no elenco, o que propicia mudanças conforme a necessidade da partida e substituições à medida que a intensidade do futebol proposto cause cansaço.

Com os reforços e o novo treinador, jogadores que antes já se destacavam ganharam ainda mais protagonismo: João Pedro, Villasanti, Monsalve e Braithwaite são exemplos disso. Na partida deste sábado, foram fundamentais para a vitória.

Dos reforços, Cristian Oliveira se destaca pelos gols decisivos que marcou nas duas partidas em que esteve em campo. Amuzu, mesmo com pouco tempo, consegue mostrar seu potencial — e o gol da vitória teve participação importante dele. Terá de mostrar se tem físico e dimensão para manter sintonia com a forma como o time marca e retoma a bola assim que o adversário planeja o ataque.

Cuéllar e Camilo, volantes com cara de volantes, tendem a dar a consistência que o setor defensivo busca há duas temporadas. Thiago Volpi tem feito defesas difíceis em momentos cruciais, sem contar o feito do meio da semana, na Copa do Brasil.

O placar da primeira semifinal poderia ter sido mais elástico, especialmente porque defenderemos a classificação na casa do adversário. Fizemos por merecer mais. Tivemos a oportunidade de abrir dois gols de vantagem, o que abateria o adversário logo cedo, mas, infelizmente, a incompetência de quem deveria sinalizar o pênalti, que aconteceu ainda no primeiro tempo, nos prejudicou. Sofremos o empate. No segundo tempo, dominamos a maior parte do jogo, passamos à frente do placar e por muito pouco não ampliamos.

Teremos uma tarefa difícil em Caxias do Sul. O caminho para o octacampeonato ainda vai nos impor muitos desafios. Quinteros, ao menos, terá uma semana livre para ajustar a equipe. E o fará com a certeza de que temos um time para a temporada. E essa é a certeza que anima os gremistas para o que vem pela frente.

Avalanche Tricolor: choque de realidade na hora certa

Juventude 2×0 Grêmio

Gaúcho – Alfredo Jaconi, Caxias do Sul RS

Arezo em tentativa de ataque é destaque em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Jogar às dez da noite pelo Campeonato Gaúcho é proibitivo. Protesto feito, vamos ao que interessa: a desinteressante performance gremista contra o primeiro time da Série A que enfrentou na temporada.

Chegamos à partida na Serra Gaúcha após uma sequência de vitórias, goleadas e novidades na forma do time se movimentar em campo. Havia entusiasmo nas arquibancadas, especialmente pelas mudanças de comportamento de alguns jogadores sob novo comando.

Na última edição desta Avalanche, alertei o caro e cada vez mais raro leitor, citando minha mãe, Dona Ruth: “Devagar com o andor que o santo é de barro”. A temporada estava apenas no início, e os adversários eram, em sua maioria, de divisões inferiores – constatação feita sem desrespeito, apenas baseada na posição deles no ranking nacional. A superioridade gremista era evidente e justificável.

Diante disso, o confronto desta quarta-feira trouxe um choque de realidade. Mesmo sem o time titular, o Grêmio enfrentou uma equipe mais bem organizada, que marcou a saída de bola, jogou com velocidade e mostrou talento. O resultado? O time tricolor foi inferior e incapaz de resistir à pressão, apesar de ter desperdiçado algumas boas oportunidades no primeiro tempo. Sofreu seus dois primeiros gols na competição, fruto de falhas na marcação que passaram despercebidas nos jogos anteriores muito mais pela fragilidade dos adversários do que por méritos defensivos do Grêmio.

Essa foi uma dura realidade para o Grêmio – e não deve ser ignorada. A boa notícia é que veio na hora certa. Quinteros, diante do que assistiu, poderá ajustar a equipe para o Gre-Nal, que, afinal, é o que realmente importa.

Avalanche Tricolor: faltam quatro jogos, contando e sofrendo

Grêmio 2×2 Juventude

Brasileiro – Arena Grêmio, Porto Alegre/RS

Diego Costa prepara assistência para Braithwaite. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

“E esse ano que não acaba…?”, escreveu meu amigo de sofrimento Sílvio no WhatsApp, logo após o apito final da partida em Porto Alegre. A ideia era encerrar hoje, com a conquista dos três pontos que colocariam o Grêmio em uma situação privilegiada diante dos demais candidatos ao rebaixamento do campeonato.

Mobilização não faltou: Braithwaite mandou recado pelo celular, ex-jogadores convocaram o torcedor nas redes sociais e a diretoria enviou e-mails aos sócios pedindo apoio total ao time. Mais de 40 mil pessoas foram à Arena, incentivaram enquanto tiveram paciência, soltaram fumaça e assistiram ao espetáculo de luzes de LED — recurso estreado neste início de noite.

As circunstâncias no início da partida pareciam promissoras. Depois de Rodrigo Ely cortar um cruzamento de cabeça na nossa área, Edenilson fez um lançamento primoroso para Diego Costa, que, com precisão, deixou Braithwaite na cara do gol. Com pouco mais de dois minutos, já vencíamos, e a sensação era de que uma festa de reveillon antecipada nos aguardava. Mas foi pura ilusão.

O Grêmio não soube aproveitar a vantagem no placar, tomou o gol de empate antes do fim do primeiro tempo, sofreu a virada no início do segundo e escapou de uma tragédia em plena Arena graças a uma rara defesa de pênalti do goleiro Marchesín. No fim, já nos acréscimos e no desespero, conseguimos empurrar a bola para dentro do gol adversário e arrancar o empate.

É isso, Sílvio, o ano insiste em não acabar. Temos pela frente mais quatro batalhas que prometem testar os nossos nervos e o nosso amor pelo Grêmio. Haja sofrimento!

Avalanche Tricolor: que inveja!

Grêmio 0x3 Juventude

Brasileiro – Alfredo Jaconi, Caxias do Sul/RS

Havia consistência na defesa, com marcação forte e pressão para impedir que o adversário chegasse ao gol. O meio de campo voltava bem para ajudar os jogadores defensivos na saída de bola e tinha velocidade ao levá-la à frente. O posicionamento dos atacantes permitia o passe rápido e a abertura de espaço para o chute a gol. Nem sempre a bola chegava perfeita, mas a presença de um centroavante de ofício levava perigo a todo momento.  Por baixo, por cima, de dentro ou de fora da área.

Dava gosto de perceber que em campo havia um time bem treinado. Jogadores que sabiam quais são suas funções em campo. Conscientes de seu potencial e limite. Dispostos a oferecer ao torcedor a certeza de que, a despeito do resultado alcançado, jamais faltará esforço e dedicação.

Havia entrega e talento. Não individual. Coletivo. Daquele tipo que faz com que a bola saiba de onde vem e para onde vai. Que passa de pé em pé. E dos pés de seus jogadores só parte em chutão para frente diante do risco iminente. Um futebol que se permite a “olé” para satisfazer sua torcida e não humilhar o adversário.

Como deve ser bom torcer para um time que ainda é visto como pequeno, diante dos grandalhões do futebol brasileiro, mas que não se apequena quando entra em campo, especialmente no seu próprio campo.

Hoje, tive inveja dos torcedores do Juventude!

Avalanche Tricolor: uma carta ao guri do Hepta de 68

Grêmio 3×1 Juventude

Gaúcho – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS

João Severiano entrega o troféu do Hepta a Geromel Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Meu Guri,

Vivi emoções que poucos vivenciaram, neste sábado. Comemorar o Heptacampeonato gaúcho é coisa rara de se sentir. Tu ainda eras guri de calça curta lá em Porto Alegre, tinhas cinco anos, quando ganhamos nosso primeiro Hepta. Vivias na Saldanha, pertinho do Olímpico. Não existia a perimetral nem a praça do Papa. Tu sujarias teus sapatos ortopédicos de pó e lama para passar pelo beco entre nossa casa e o estádio.

Escrevo para ti porque quando o sábado amanheceu pensava comigo aqui em São Paulo se ainda havia lembranças na sua memória daquele 1968 em que o Grêmio empatara com o mesmo adversário de agora para conquistar o título inédito. Remoí o pensamento e vasculhei o coração sem encontrar nada por lá.

Curioso é que na volta ao tempo, consegui retroagir minhas lembranças sobre ti apenas até o ano seguinte ao Hepta. E a gente sabe o motivo. Não posso dizer que só nós dois sabemos porque, desculpe-me, já confidenciei aquela história para os caros e cada vez mais raros viventes desta Avalanche. Foi quando fomos forjados gremistas pela mão disciplinadora do pai, após uma brincadeira ingrata de um dos primos que usurpou da sua ingenuidade e o induziu a tremular a bandeirinha encarnada e cantarolar uma música que não tinhas ideia do que significava — e tu pensando que era só uma homenagem ao (nosso) papai que era maior.

Alguns anos antes de morrer, o pai até disse que se arrependia daquele gesto mais ríspido. Sabendo que é nas derrotas que aprendemos, eu o agradeci em teu nome. Foi lição para a vida! Se hoje me emociono com o título conquistado da forma como me emociono tem muito a ver com aquele passado, em 1969, um ano após o Hepta inédito. 

Dos anos anteriores, porém, o vazio é preenchido pelas muitas histórias que o pai contava e pelos jogadores que ele fazia questão de te apresentar nos anos seguintes, quando a presença no estádio passou a ser  frequente. Cruzavas pelo Áureo e o pai lembrava: “foi Hepta!”. Encontravas o Altemir: “o lateral do Hepta”. Alcindo? “Goleador do Hepta”. Joãozinho, que ele fazia questão de chamar com nome e sobrenome: “esse é o João Severiano, tu tinhas que ver o que jogava  essa rapaz do Hepta!”. 

Bah, guri! E não é que o João Severiano estava em campo neste sábado?!? Que homenagem linda que o Grêmio fez ao tê-lo na cerimônia de entrega do troféu deste segundo Hepta que conquistamos na história. Chorei emocionado porque tu me fizeste lembrar de todas aquelas referências que o pai fazia desses jogadores que vestiram nossa camisa. Para coisa ficar ainda mais sentimental, Joãozinho passou a taça às mãos de Geromel. 

E aí, me dá licença guri: a partir daqui as lembranças são todas minhas.

Por amadurecido que estou, assisti à trajetória do Hepta, desde o campeonato de 2018. E essa memória levarei para sempre comigo até o dia de partir. O privilégio de ver Geromel e Kannemann erguendo cada um dos oito troféus gaúchos é incrível. Como espero aquele beijo duplo que virou clássico de nossas conquistas. Por estarem em campo desde o primeiro título da série, são o símbolo maior desse Hepta. 

Injustiça não citar outros tantos que estiveram com a gente nesses tempos recentes de vitórias. E para não esquecer nenhum deles, os torno redivivos na imagem de Luan, dos maiores craques que vestiram nossa camisa. Sem contar que seremos únicos neste Brasil todo a lembrar que na caminhada do Hepta tivemos Luiz Suárez a fazer gols decisivos.

Do time atual, além da dupla Geromel e Kannemann, há Villasanti, volante incontestável e incansável na arte de desarmar e de armar nossos ataques. Tem Cristaldo, com um talento que passa despercebido por muitos e se expressa de forma contundente no instante decisivo da jogada; tem Gustavo Nunes e Pavón com dribles que desconsertam a marcação; e tem Diego Costa, nosso Alcindo dos tempos modernos. 

Tem tanta outra gente que mereceria ser lembrada nestes sete anos de hegemonia, mas quero mesmo é focar na lembrança que tenho de ti, meu guri. Para te agradecer pelo que fostes e passastes naqueles anos iniciais de nossas vidas. Graças a ti sou o que sou hoje. E te agradeço, oferecendo a memória eterna deste Hepta de 2024!

Com carinho e saudades,

Mílton Jung, o ex-guri