Foto-ouvinte: Árvore acorrentada

 

Árvore na Ladeira da Memória

Por Devanir Amâncio

Uma grande árvore com  tronco oco  está segura por uma corrente  na Ladeira da Memória,  ao lado do Metrô Anhangabaú, centro de São Paulo. A corrente amarrada no muro do monumento está no limite de sua resistência . Em caso de queda da árvore, danos materiais e humanos serão inevitáveis.

Conte Sua Historia de SP: As crianças, a chuva e a ladeira

 

Débora Dias Carneiro
Ouvinte-internauta

Ouça o texto “As crianças, a chuva e a ladeira” sonorizado por Cláudio Antonio

Ríamos, ríamos muito…. nem vovó Cecília escapou às nossas incontroláveis gargalhadas, vitimada que foi por um tombaço que, por sorte, só lhe quebrou os óculos de grau.

O motivo de tanta alegria era a incrivelmente íngreme e assustadora ladeira da Rua Caiowáa (chamada por muitos de Caiovas), ali entre as ruas Cajaíba e Capital Federal, rua essa muito conhecida lá pelas bandas do bairro do Sumaré por começar praticamente em frente à entrada principal do Palestra Itália. A única que conheci, até hoje, a contar, em um de seus lados, com um reforçado corrimão!

Tínhamos, eu e meus dois irmãos mais novos, Cláudio e Guto, aproximadamente nove, cinco e três anos, respectivamente, lá pelos idos de 1975. Morávamos com nossos pais e irmãs mais velhas, Fernanda e Cecília, de dezenove e dezessete anos, no primeiro sobrado de um dos topos da ladeira. Dois quartos, sala, copa/cozinha e banheiro e dependências de empregada. Obviamente, pouco espaço para brincar. Mas não importava. A nossa rua era a nossa maior diversão.

Nos dias de sol, despencávamos ladeira abaixo, a pé ou a bordo de carrinho de rolimã, tábua parafinada ou bicicleta (o que custou, num tombo tipo “beija-lona”, os dois dentes da frente do Cláudio), para nos reunirmos com os amigos na primeira transversal, conhecida como “Moitinho”. Travessinha pacata, poucas casas, muito mato e areia. Perfeita.

Mas bom mesmo eram os dias de chuva… acontece que a tal ladeira era toda revestida de paralelepípedos, que, molhados, transformavam-se em verdadeiras placas de sabão. E a calçada, do lado onde hoje está o corrimão, inexistente à época, era feita de cimento e pedrinhas lisas, arredondadas, que mesmo secas já escorregavam um bocado. Ou seja, quedas e acidentes eram inevitáveis naqueles dias.

Ao primeiro sinal de uma simples garoa, íamos, eu e os dois irmãos mais novos, para a sacada do quarto de nossos pais, Arlette e Narciso. E lá permanecíamos até que ocorresse o sinistro. E quantos houve! Kombi capotada, caminhão-baú tombado no topo da pirambeira, bloqueando a rua; motoqueiros em quedas cinematográficas; carros que queimavam os pneus, tentando subir; mulheres se equilibrando em sandálias-plataforma imensas; homens engravatados, deslizando feito sabonete em seus sapatos de sola de couro; bombeiros, ambulâncias, polícia… uma verdadeira festa para crianças de um tempo em que não havia video-game, computador ou TV a cabo!

Aí veio o progresso, a ladeira foi asfaltada – o Moitinho também –, crescemos e mudamos cada qual para o seu canto. Mas ficaram as lembranças.

E os dias de chuva em São Paulo, antes de me causarem a inevitável irritação com o trânsito ainda mais caótico do que de costume, me levam de volta àquelas tardes úmidas e felizes da minha infância… mas trazem, também uma pontinha de culpa por haver, mesmo criança, me divertido tanto com a desgraça alheia!

Conte Sua História de São Paulo vai ao ar sábados, logo após às 10 e meia da manhã, no CBN SP. Você participa enviando seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br. Conheça outros capítulos da nossa cidade aqui no Blog.