Por Diego Felix Miguel
Estamos no mês historicamente dedicado ao Orgulho LGBT+, movimento que, desde o fim da década de 1960, ganha visibilidade e protagoniza uma luta legítima por representatividade e equidade de direitos.
Mesmo em uma data com tamanha relevância, uma questão me inquieta como ativista dos direitos da pessoa idosa, especialmente daquelas que permanecem vulnerabilizadas e invisibilizadas pelas políticas públicas: qual é o lugar ocupado pelas Velhices LGBT+ durante o mês do Orgulho — e nos outros onze meses do ano?
Recentemente, fui atravessado pelos discursos de artistas como Gretta Star e Márcia Pantera, figuras que marcaram gerações e foram fundamentais na construção de laços identitários para parte da comunidade que, durante muito tempo, viveu aprisionada por normas sociais, em um processo de autoviolência negação de si mesma. Elas denunciam algo perverso: além da LGBTfobia, enfrentamos também o idadismo.
A discriminação por idade nem sempre aparece de forma explícita. Muitas vezes, manifesta-se em atitudes sutis que reforçam o sofrimento e ampliam a exposição à violência em suas diferentes formas, inclusive a financeira.
É inadmissível que artistas tão importantes para a nossa comunidade sejam colocadas em posição de desvalorização em eventos voltados à celebração da própria identidade LGBT+. Assistimos a um cenário em que pessoas mais jovens da comunidade supervalorizam talentos contemporâneos — o que é legítimo —, mas relegam ao esquecimento ou a um segundo plano aquelas que abriram caminhos para que hoje pudéssemos ocupar espaços, conquistar direitos e sermos vistos e ouvidos.
São artistas que fizeram e continuam fazendo história. Abriram caminhos para que pudéssemos viver com mais liberdade e seguem sendo referências no processo de envelhecer e na própria velhice. Mantêm vivo o orgulho de sermos quem somos e ajudam a preservar uma trajetória que integra a cultura construída pela comunidade LGBT+, distante de todo e qualquer “armário”.
Na velhice, continuam sendo mestras e mestres. Ensinam sobre o direito de viver plenamente essa etapa da vida e denunciam que as desigualdades persistem, muitas vezes sustentadas por empresários e “ícone$” que consumimos em casas noturnas, shows, bares e saunas.
“Um povo que não conhece sua história está fadado a repeti-la.”
A frase atribuída ao filósofo Edmund Burke ajuda a compreender o cenário que vivemos.
Até quando abandonaremos aquelas e aqueles que são parte fundamental do legado do qual usufruímos?
Qual o sentido de ocuparmos as ruas com bandeiras se não honramos nossa história e não garantimos proteção às pessoas que iniciaram essa trajetória?
Não se trata de “velhinhos e velhinhas LGBT+”. Trata-se de pessoas idosas empoderadas, ativistas que chegaram à velhice desprotegidas pelo Estado e, muitas vezes, pela própria comunidade, que não oferece oportunidades de trabalho, não remunera com dignidade e não reconhece suas trajetórias.
Os ídolos atuais têm seu valor e sua legitimidade. Entretanto, sem aquelas pessoas que vieram antes, dificilmente estariam hoje mostrando seus talentos na mídia e ocupando espaços de grande visibilidade.
Como comunidade, no verdadeiro sentido de apoio mútuo e fortalecimento identitário, o que faremos para mudar essa realidade?
Quais estratégias adotaremos no ativismo para garantir segurança financeira, proteção patrimonial e acesso a serviços para as nossas velhices?
Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP, especialista em Gerontologia pela SBGG e presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG-SP.
