“A gente deveria começar a trabalhar para que a gente tenha uma vida de interdependência.”
A discussão sobre saúde mental no ambiente de trabalho ganhou força nos últimos anos, mas convive com um fenômeno menos visível e cada vez mais presente: a solidão. Empresas investem em programas de bem-estar, falam sobre pertencimento e estimulam integração entre equipes, enquanto profissionais relatam isolamento, dificuldade de convivência e perda de vínculos humanos. O tema foi discutido por Rodrigo Rubido, arquiteto, cofundador e diretor do Instituto Elos, em entrevista ao Mundo Corporativo, da CBN.
Rubido relacionou esse processo à cultura de individualismo construída ao longo das últimas décadas. Segundo ele, a sociedade passou de uma lógica comunitária para uma dinâmica centrada na autonomia individual. Essa transformação trouxe avanços importantes, mas também enfraqueceu relações de convivência e colaboração. “O ser humano não estaria aqui se não fosse sua capacidade de viver em comunidade”, afirmou.
Para o diretor do Instituto Elos, as empresas acabam reproduzindo esse comportamento ao transformar competitividade em modelo dominante de gestão. Ele observa que muitos ambientes corporativos ainda estimulam disputas internas e dificultam relações de confiança e cuidado mútuo. Na visão dele, organizações ainda desconhecem o potencial que existe quando equipes passam a atuar verdadeiramente como comunidade.
A reflexão ganhou contornos mais concretos quando Rubido relembrou uma viagem que fez à Suécia, em 2007. Encantado inicialmente com o padrão de desenvolvimento social do país, acabou impactado ao descobrir um problema crescente de solidão entre idosos. Segundo contou, bombeiros instalavam sensores em residências para identificar se pessoas que moravam sozinhas continuavam vivas. O episódio serviu como contraste em relação às comunidades periféricas brasileiras com as quais o Instituto Elos trabalhava naquele período. Enquanto em países desenvolvidos a autonomia individual chegava ao extremo do isolamento, nas periferias brasileiras ainda existiam vínculos de vizinhança, troca e interdependência.
O valor da comunidade dentro e fora das empresas
O Instituto Elos nasceu nos anos 1990, quando um grupo de estudantes de arquitetura decidiu se aproximar das periferias urbanas para compreender melhor os desafios sociais das cidades. Rubido contou que havia uma inquietação em relação ao ensino tradicional da arquitetura, muito concentrado nas estruturas físicas e pouco atento à dimensão humana dos territórios.
A aproximação com comunidades periféricas acabou mudando o rumo do trabalho desenvolvido pelo grupo. Em vez de olhar apenas para carências e problemas, eles passaram a identificar potencialidades locais, formas de colaboração e capacidades coletivas já existentes. Essa percepção se transformou na base metodológica do Instituto Elos.
“A gente se dedicou a pesquisar o que tinha de melhor nesses lugares”, disse.
A metodologia desenvolvida pela organização parte justamente desse princípio: reconhecer potencialidades antes de tentar corrigir deficiências. O trabalho envolve fortalecimento de vínculos, construção de pertencimento e mobilização comunitária em torno de objetivos comuns. Segundo Rubido, o protagonismo coletivo surge quando pessoas passam a compartilhar sonhos, valores e responsabilidades.
Essa lógica também passou a ser aplicada dentro das empresas. Inicialmente, o Instituto Elos era procurado por organizações interessadas em apoiar projetos sociais. Com o tempo, as companhias começaram a solicitar treinamentos de liderança e apoio em conflitos com comunidades vizinhas às suas operações.
Rubido afirmou que muitas empresas ainda chegam aos territórios como estruturas isoladas, sem compreender que fazem parte de uma rede social mais ampla. Para ele, a ideia não deve ser apenas obter autorização para operar, mas construir relações permanentes de convivência e colaboração com as comunidades locais.
“A empresa precisa conhecer seus vizinhos, precisa entender os interesses, as necessidades, os desafios daquele bairro onde ela tá inserida”, afirmou.
Segundo ele, boa parte dos conflitos corporativos com comunidades surge justamente pela ausência de escuta e diálogo desde o início da operação. O resultado, muitas vezes, aparece em prejuízos financeiros, desgaste institucional e deterioração das relações locais.
Liderança, escuta e colaboração
Outro eixo central da entrevista foi a formação de lideranças. Rodrigo Rubido criticou modelos excessivamente hierarquizados, nos quais decisões estratégicas são tomadas por pessoas distantes da operação cotidiana das empresas. Ele defende uma lógica de “liderança distribuída”, em que a condução dos projetos circula de acordo com a experiência e a capacidade de realização de cada integrante da equipe.
Na prática, isso exige líderes menos concentrados em controle e mais preparados para escutar, dialogar e construir soluções compartilhadas. Rubido argumenta que fomos educados para identificar falhas e problemas, mas pouco treinados para reconhecer potencialidades humanas.
“A gente foi muito bem educado para identificar problemas”, observou.
Na metodologia aplicada pelo Instituto Elos, antes de qualquer ação prática existe um processo de fortalecimento de vínculos afetivos, identificação de valores comuns e definição coletiva de objetivos. Só depois dessas etapas acontece a execução do projeto.
Segundo Rubido, muitas organizações operam abaixo de seu potencial porque trabalham com pessoas desconectadas entre si, executando projetos nos quais não se reconhecem. Para ele, ambientes mais colaborativos produzem não apenas melhores relações humanas, mas também resultados concretos para os negócios.
Ao fim da entrevista, deixou uma provocação às lideranças empresariais: “O convite é que a gente aposte em melhorar as pessoas, ao invés de controlar as pessoas.”
Assista ao Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Karen Lemos, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.
