Mundo Corporativo: Elcio Trajano Júnior, da Eldorado Brasil, explica por que formar líderes exige disposição para aprender

Elcio Trajano Jr Eldorado Celulose
Élcio Trajano Jr no estúdio de podcast da CBN Foto: Débora Gonçalves/CBN

“Eu posso tentar passar o meu conhecimento para alguém, mas se essa pessoa não estiver aberta para aprender, ouvir, questionar, fazer perguntas, ter uma escuta ativa, não funciona.”

A Eldorado Brasil Celulose reúne cerca de 6 mil funcionários e aproximadamente 800 deles ocupam posições de liderança. São profissionais responsáveis não apenas por resultados e eficiência, mas também pelo desenvolvimento das equipes em um ambiente que reúne até cinco gerações, incorpora novas tecnologias e exige atualização permanente. Preparar essas pessoas para liderar e, ao mesmo tempo, estimular cada funcionário a assumir responsabilidade pelo próprio desenvolvimento foi tema da entrevista de Elcio Trajano Júnior, diretor de Recursos Humanos, Sustentabilidade e Comunicação da Eldorado Brasil Celulose, ao Mundo Corporativo, da CBN.

A empresa criou uma Academia da Liderança que reúne diferentes programas de formação. Há iniciativas destinadas a quem se prepara para assumir pela primeira vez a gestão de uma equipe, ações para quem já toma decisões como líder e programas voltados à sucessão e à preparação de futuros executivos. A cada ano, entre 100 e 200 pessoas participam das formações e atualizações.

A estrutura inclui ainda mentoria interna, compartilhamento de experiências entre gestores e uma avaliação de comportamento feita em 360 graus. Nesse processo, o profissional avalia a si próprio e recebe a percepção do chefe, dos colegas e da equipe. Mais de 850 líderes passaram por essa avaliação, que serve de base para conversas de feedback e planos de desenvolvimento.

Saber fazer não significa saber liderar

Um dos riscos identificados na gestão de carreira é transformar automaticamente o profissional de bom desempenho técnico em gestor. Para Elcio, as duas competências não devem ser confundidas.

“Às vezes uma pessoa que tem um excelente resultado não quer dizer que ela vai ser uma excelente gestora de pessoas. E tudo bem, não há problema nenhum”, afirmou.

A empresa procura trabalhar com alternativas de carreira. Um profissional pode avançar como especialista sem necessariamente assumir a responsabilidade por uma equipe. Quando alguém chega à gestão e percebe que não se adapta à função, a primeira alternativa é desenvolver as competências necessárias. Se isso não funcionar, a trajetória pode ser revista para permitir a volta a uma função de especialista.

Esse cuidado ganha importância porque liderar se tornou mais complexo. Elcio chama a atenção para a convivência de quatro ou cinco gerações dentro da mesma empresa. São pessoas em diferentes momentos da vida, com expectativas distintas sobre carreira, velocidade para tomar decisões e maneiras de se comunicar.

Por isso, uma competência aparece repetidamente na conversa: saber ouvir. Tecnologia e ferramentas de gestão ajudam a organizar informações e processos, mas não substituem o tempo dedicado à conversa com a equipe e à compreensão das diferenças individuais.

“Porque aquela frase que ‘sempre foi assim’ não funciona mais para os dias de hoje. A frase que sempre deu certo não funciona mais para os dias de hoje. A gente tem que aprender muito com as pessoas de todas as gerações e isso se torna desafiador para liderança.”

“Atitude de dono” exige autonomia e espaço para errar

Entre os valores adotados pela Eldorado está a “atitude de dono”. Na definição de Elcio, a expressão significa olhar além das próprias tarefas e compreender o funcionamento da empresa como um todo.

Ele usa a própria função como exemplo. Embora seja responsável pelas áreas de Recursos Humanos, Sustentabilidade e Comunicação, entende que precisa acompanhar vendas, mercado de celulose, produção industrial, clima e outros fatores capazes de afetar os resultados. Não se trata de dominar tecnicamente todas as áreas, mas de compreender como a própria atividade se relaciona com o restante da organização.

Essa expectativa traz uma contrapartida. Se a empresa deseja que o funcionário tenha iniciativa e assuma responsabilidades, precisa oferecer autonomia e admitir a possibilidade de erros.

“Acho que o errar não é o problema, o persistir no erro que possa ser um problema”, disse Elcio.

Nesse processo, cabe ao líder transformar a falha em aprendizado: entender o que aconteceu, conversar com o profissional, identificar o que será feito de maneira diferente e evitar a repetição do mesmo problema.

Inteligência artificial aumenta a responsabilidade do líder

A incorporação da inteligência artificial e da automação não reduz, na avaliação de Elcio, a importância da liderança. O efeito tende a ser o contrário. A tecnologia pode aumentar agilidade, eficiência e produtividade, mas depende de profissionais preparados para utilizá-la e avaliar seus resultados.

Na Eldorado, aplicações de inteligência artificial já aparecem em diferentes atividades. Recursos Humanos utiliza People Analytics, análise de dados sobre pessoas e gestão, e passou a contar com uma assistente interna para responder dúvidas dos funcionários. Na operação florestal, há drones e sistemas de monitoramento do clima e do meio ambiente. Na indústria, ferramentas acompanham etapas da produção de celulose. Caminhões também dispõem de sistemas capazes de monitorar sinais de fadiga dos motoristas.

A tecnologia começa a ser usada também para repensar a capacitação. A intenção é tornar as trilhas de aprendizagem menos padronizadas, considerando que profissionais em posições semelhantes podem ter necessidades e interesses diferentes.

Para Elcio, esse movimento exige disposição para aprender. Informação e conteúdo estão amplamente disponíveis. O diferencial passa a ser a atitude diante do conhecimento.

“Mas o querer aprender coisas novas é fundamental. Então a atitude é algo importantíssimo.”

Comunicação também é competência de liderança

A diversidade das operações da Eldorado acrescenta outro desafio. Há profissionais em escritórios, fábricas, áreas florestais e unidades fora do Brasil. Isso obriga a empresa a combinar canais digitais com meios tradicionais, como murais, folhetos e comunicação durante o transporte das equipes. Parte do conteúdo interno passou também a ser produzida em dois idiomas para alcançar funcionários no exterior.

Para o líder, comunicar não significa apenas transmitir informação. É preciso considerar quem está ouvindo, adaptar a linguagem e verificar se a mensagem foi compreendida por públicos com diferentes níveis de formação e experiência.

“O líder que não saiba se comunicar, ele tem dificuldade de liderar”, afirmou.

A empresa pode criar cursos, avaliações, mentorias e oportunidades de carreira. Nenhuma dessas iniciativas garante que o funcionário queira aproveitá-las.

Elcio defende que o crescimento depende do encontro entre duas condições: existir uma oportunidade e o profissional estar preparado quando ela surgir. Se houver qualificação sem oportunidade, pode aparecer frustração. Se surgir uma vaga e a pessoa não estiver preparada, a promoção também pode se transformar em problema.

A recomendação, portanto, é não esperar que a empresa conduza sozinha a carreira. Isso inclui buscar conhecimentos além da função atual e observar oportunidades em outras áreas.

“Não se descuidem de se desenvolver … As oportunidades não necessariamente têm que ser na sua área, ela pode estar em outra área.”

A mensagem fecha o círculo da conversa: empresas precisam investir na formação de seus líderes, líderes precisam dedicar tempo ao desenvolvimento das pessoas e profissionais precisam assumir responsabilidade pela própria aprendizagem. Num ambiente em que máquinas aprendem cada vez mais depressa, a disposição humana para continuar aprendendo também passou a fazer parte do trabalho.

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Mundo Corporativo: Erika Magalhães, da Camil Alimentos, explica como integrar culturas após aquisições

Érika Magalhães, Camil Alimentos
Erika Magalhães em entrevisa online no Mundo Corporativo Foto: Débora Gonçalves CBN

“A gente não pode ter soberba de achar que somente quem tá comprando é o dono da razão.”

A Camil Alimentos realizou cinco aquisições no Brasil em cerca de quatro anos, ampliando sua atuação para categorias que vão de arroz e açúcar a pescados, massas, café e biscoitos. A expansão trouxe um desafio que não aparece necessariamente nas planilhas de uma operação desse tipo: como integrar pessoas, práticas e culturas diferentes sem destruir conhecimentos construídos pelas empresas adquiridas. A experiência da companhia na condução desses processos foi tema da entrevista de Erika Magalhães, diretora executiva de Gente e Gestão da Camil Alimentos, ao Mundo Corporativo, da CBN.

A executiva afirma que o trabalho de recursos humanos começa antes de a aquisição estar concluída. Assim que a operação permite o envolvimento das demais diretorias, o RH participa do planejamento, analisa políticas e procedimentos da empresa que será incorporada e procura entender como eles se relacionam com os processos da Camil.

Depois da assinatura, começa uma etapa que Erika define como os “primeiros 100 dias”. São estabelecidas atribuições e reuniões semanais para acompanhar a integração. O RH também se aproxima das lideranças e das equipes da empresa adquirida.

Essa presença tem uma razão prática: uma aquisição costuma ser acompanhada de dúvidas sobre empregos, funções, processos e mudanças na rotina.

“Eu vou pessoalmente naquela empresa adquirida, conversar com todas as lideranças e deixá-los à vontade também para se colocarem e colocarem suas questões do ponto de vista daquele momento, que é um momento que traz muita insegurança para quem tá sendo adquirido”, afirma.

Quem compra também precisa mudar

Um dos aprendizados relatados por Erika é que a integração não pode ser entendida como uma adaptação unilateral. Não basta ensinar aos profissionais que chegam como funciona a empresa compradora. A organização que recebe essas pessoas também precisa se preparar.

Ela usa a imagem de uma casa que receberá uma visita por bastante tempo. Os visitantes precisam compreender as regras daquele lugar, mas quem já mora ali terá de adaptar sua rotina à presença dos novos integrantes.

“Então, nunca num processo de aquisição é somente quem tá vindo que tem que se adequar. Quem tá aqui também precisa se adequar”, diz.

A lógica aparece também na capacitação profissional. A Camil criou mecanismos para preparar tanto os funcionários incorporados quanto aqueles que já estavam na companhia. Erika cita o exemplo de vendedores que passaram a trabalhar com categorias diferentes depois das aquisições.

“Não é só capacitar quem tá vindo para essa cultura Camil. É capacitar quem tá aqui dentro para absorver esse time e essa categoria ou essa nova empresa”, afirma.

Preservar o que funciona

A integração também exige decidir o que deve mudar e o que merece ser preservado. Um dos exemplos apresentados na entrevista surgiu com a aquisição da Mabel. A empresa tinha um programa de capacitação denominado Escola do Biscoito. Em vez de eliminá-lo para impor exclusivamente seus próprios processos, a Camil incorporou a iniciativa à Camil Academia.

Para Erika, o episódio traduz um princípio que deve orientar aquisições.

“A gente não pode ter soberba de achar que somente quem tá comprando é o dono da razão.”

Segundo ela, uma empresa adquirida pode ter processos próprios que carregam conhecimento e valor para o negócio.

“É uma fusão, é uma aquisição de conhecimento, de capital intelectual. Você não pode jogar tudo isso fora”, afirma.

A decisão sobre o que incorporar, segundo Erika, passa pelos valores e pelo propósito da companhia. Práticas compatíveis podem ser aproveitadas. As que entram em conflito com os valores da organização não são integradas.

Cultura colaborativa para aproximar empresas diferentes

A sequência de aquisições levou a Camil a reforçar internamente a discussão sobre cultura. A empresa desenvolveu uma jornada de cultura colaborativa, com pesquisas, grupos de discussão, revisão de competências, metas compartilhadas e treinamento de lideranças.

A proposta é estimular áreas e profissionais de origens diferentes a trabalhar em torno de objetivos comuns. O trabalho chegou também às equipes das fábricas, com jogos educativos presenciais e palestras online.

Os resultados da integração são acompanhados por diferentes indicadores. A companhia utiliza pesquisas de clima e engajamento, NPS, índices de rotatividade, avaliações por competências e planos de sucessão. Também observa a trajetória de profissionais provenientes das empresas adquiridas que passaram a ocupar outras funções e posições de liderança dentro da Camil.

Rotatividade zero não é necessariamente uma boa meta

Erika também contesta a ideia de que uma empresa deveria perseguir a ausência completa de rotatividade de funcionários. Para ela, mudanças fazem parte da vida profissional e podem ocorrer porque um ciclo terminou, o trabalhador deseja conhecer outro setor ou decidiu empreender.

“Você dizer que você não vai ter turnover, eu acho que é quase que romântico. Eu acho que nenhuma empresa não tem rotatividade de pessoas”, afirma.

O ponto central, segundo ela, é a maneira como as saídas são conduzidas. Isso vale também para aquisições, nas quais podem surgir sobreposições de funções e necessidade de reorganização das equipes.

“Acho que o mais importante para as áreas de recursos humanos, para as pessoas que trabalham com gente, é entender como este turnover que existe pode ser conduzido da forma mais respeitosa e correta possível.”

Quando o problema está na liderança

Um lugar-comum nas discussões sobre os motivos que levam os colaboradores a trocarem de emprego: as pessoas não deixam empresas, deixam seus chefes. Para reduzir esse risco, a Camil procura identificar problemas de liderança por meio de avaliações 360 graus, nas quais gestores são avaliados por subordinados, pares, superiores e por eles próprios.

Erika explica que algumas situações exigem intervenções específicas. A empresa utiliza programas de mentoria para gestores que precisam rever comportamentos e práticas de liderança.

“Existem gestores que precisam ser mentorados de forma metodológica, eles precisam passar por um mentor, seja externo, seja interno, para ele corrigir determinadas atitudes”, diz.

Para a executiva, tecnologia e inteligência artificial ampliam os recursos disponíveis às organizações, mas não eliminam a dimensão humana da gestão. Ela considera mais simples desenvolver conhecimentos técnicos do que modificar comportamentos.

“Eu acho que desenvolver o técnico é mais fácil. Você treina, você desenvolve uma habilidade técnica, mas as habilidades comportamentais são as mais difíceis. Esse é um papel que é indelegável, tanto do RH quanto da liderança.”

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Mundo Corporativo: Fabíola Menezes, da General Mills, diz como a economia dos criadores ajuda marcas tradicionais

Fabiola Menezes, CMO da General Mills
Fabíola Menezes entrevista no Mundo Corporativo. Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“Hoje a campanha começa quando a gente dá o primeiro play.”

As redes sociais transformaram a forma como as marcas se relacionam com os consumidores. Se antes uma campanha publicitária dependia principalmente de anúncios na televisão, no rádio ou em revistas, hoje ela se constrói em múltiplos canais, com a participação de influenciadores, criadores de conteúdo e consumidores que interagem em tempo real. Esse movimento, conhecido como economia dos criadores, foi tema de entrevista de Fabíola Menezes, CMO da General Mills Brasil, ao programa Mundo Corporativo, da CBN.

Responsável por marcas como Yoki, Kitano e Häagen-Dazs no Brasil, Fabíola explicou que a presença dos criadores de conteúdo não substituiu as celebridades tradicionais, mas ampliou as possibilidades de comunicação.

“Hoje é uma pluralidade de vozes com muita influência, que consegue conectar com os consumidores de uma forma muito genuína”, afirmou.

Segundo ela, a estratégia da companhia busca aproximar marcas que já fazem parte da rotina dos brasileiros há décadas de novos hábitos de consumo e de comunicação. “A gente tá buscando modernizar as nossas marcas”, resumiu.

Modernizar sem perder a essência

Um dos desafios enfrentados pela General Mills é atualizar marcas tradicionais sem abrir mão dos valores que construíram sua reputação ao longo do tempo. Fabíola destacou que esse processo exige clareza sobre o propósito da marca e consistência na mensagem transmitida pelos diferentes porta-vozes.

“Você precisa ter um posicionamento muito claro e esse posicionamento carrega uma tradição.”

Para ela, a multiplicação dos canais de comunicação tornou mais complexo o trabalho de construção de marca. “O desafio hoje é manter essa consistência, esse posicionamento, tendo tantas vozes falando sobre a sua marca e não mais uma única mensagem.”

A escolha dos influenciadores, portanto, vai muito além do alcance ou da popularidade. O principal critério é a autenticidade.

“O que o consumidor não aguenta mais é quando o influenciador está lá só mostrando o produto e não tem verdade.”

Por isso, a empresa realiza avaliações prévias, investiga possíveis riscos reputacionais e desenvolve briefings que permitam aos criadores adaptar a mensagem ao seu próprio estilo de comunicação.

O consumidor mudou

Ao longo da conversa, Fabíola observou que a transformação não ocorreu apenas nas estratégias das empresas. O comportamento do consumidor também mudou.

“Os consumidores ficaram mais exigentes.”

Na avaliação dela, o brasileiro tem hoje mais opções de escolha, compara produtos com mais facilidade e espera que as marcas sejam relevantes para sua vida.

Ao mesmo tempo, existe um desafio adicional: o excesso de estímulos.

“A gente está sobrecarregado com a quantidade de mensagem que a gente recebe todos os dias.”

Essa realidade obriga as empresas a buscar formas menos invasivas de comunicação, inserindo suas mensagens em contextos culturais, experiências e conversas que façam sentido para o público.

Foi nesse contexto que a General Mills apostou em ações ligadas a eventos culturais, como as festas juninas, e em parcerias com influenciadores capazes de criar conexões mais próximas com os consumidores.

Dados, inteligência artificial e proximidade humana

A tecnologia também passou a desempenhar um papel relevante no trabalho de marketing. A empresa utiliza inteligência artificial para acelerar pesquisas com consumidores e analisar comportamentos. Fabíola relatou que a ferramenta já permite entrevistar consumidores, gerar relatórios automáticos e até criar personas sintéticas baseadas em pesquisas quantitativas.

Mesmo assim, ela acredita que a experiência direta continua indispensável.

“Eu acredito ainda na sola do sapato.”

A expressão resume a importância de visitar pontos de venda, conversar com consumidores e observar a realidade além das planilhas e relatórios.

“É muito importante não perder esse olhar, não perder essa conexão, porque, sim, a gente pode ser distanciado do consumidor sem perceber.”

Liderança em um ambiente de mudança constante

A executiva também compartilhou sua visão sobre liderança em um ambiente marcado pela velocidade das transformações tecnológicas e pela convivência entre diferentes gerações.

Para ela, o líder precisa desenvolver uma relação mais próxima com as pessoas da equipe e compreender suas expectativas individuais.

“Hoje a gente tem que entender um pouco as pessoas, tem que se aproximar, conversar com as pessoas.”

Fabíola defende a prática da mentoria e da mentoria reversa como instrumentos de desenvolvimento profissional e atualização constante.

“Eu acredito muito na mentoria reversa também.”

Segundo ela, a troca entre profissionais mais experientes e os mais jovens ajuda a acelerar o aprendizado e amplia a compreensão das mudanças culturais e tecnológicas que impactam os negócios.

Ao olhar para o futuro, Fabíola resume sua ambição para as marcas da General Mills: fortalecer conexões emocionais com os consumidores sem perder a relevância construída ao longo da história.

“Hoje eu tenho uma conexão emocional muito maior com nossa marca, hoje ela não pode faltar na minha vida.”

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Mundo Corporativo: Valdenice Minatel, do Colégio Dante Alighieri, explica como funciona o modelo de liderança compartilhada

Valdenice Minatel Melo de Cerqueira, Dante Aligheri
Valdenice em entrevista ao Mundo Corporativo. Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“A liderança sem essa escuta ativa, é liderança estéril. Ela não promove a construção de novas lideranças, que é o que a gente precisa.”

Uma escola com 115 anos de história decidiu substituir a figura do diretor único por uma gestão compartilhada formada por três diretoras. A mudança reflete uma busca por decisões mais colaborativas, diversidade de perspectivas e maior conexão com os desafios contemporâneos da educação. 

Em entrevista ao Mundo Corporativo da CBN, Valdenice Minatel Melo de Cerqueira, diretora institucional e de tecnologia do Colégio Dante Alighieri, disse que a transformação começou a ser desenhada em 2019. Naquele ano, ela assumiu uma posição de liderança mais ampla na instituição. Após um período de estudo e observação da estrutura da escola, surgiu a proposta de criar um colegiado responsável pelas decisões estratégicas.

Segundo a diretora, a experiência acumulada na área de tecnologia ajudou a consolidar a convicção de que uma gestão eficiente não pode depender apenas de uma pessoa. “Não é possível fazer uma boa gestão de forma isolada e de maneira unilateral”, afirmou.

A estrutura atual reúne, além de Valdenice, Angela Martins, diretora pedagógica, e Helenice Ziziotti, diretora de admissões e cursos extracurriculares.

O valor das decisões compartilhadas

Um dos questionamentos mais comuns sobre modelos colaborativos é a possibilidade de tornar os processos mais lentos. Para Valdenice, o risco existe, mas pode ser administrado por meio de critérios claros de urgência e responsabilidade.

Ela reconhece que a mudança exigiu adaptação de todos os envolvidos. “Obviamente que toda mudança que é proposta  traz um desconforto. Inclusive para nós, que estávamos habituados a ter uma gestão mais centralizadora.”

Ao mesmo tempo, acredita que o desconforto faz parte da construção de novos caminhos. “Mas é a partir desse desconforto que a gente vai encontrar um conforto para seguir, considerando que a escola é um lugar do coletivo. Ninguém faz nada sozinho.”

A diretora relatou um episódio que ilustra os benefícios da gestão compartilhada. Diante de um aluno que acumulava problemas disciplinares, a equipe optou por oferecer uma nova oportunidade em vez de adotar medidas mais severas. A decisão foi tomada coletivamente.

Anos depois, o estudante se destacou na carreira acadêmica. Para Valdenice, o resultado reforçou a importância de diferentes perspectivas participarem do mesmo processo decisório.

Governança feminina e diversidade

O modelo implantado no Dante Alighieri também tem uma característica particular: é conduzido por três mulheres.

Segundo Valdenice, a composição do grupo não foi resultado de uma escolha planejada, mas da trajetória profissional das líderes que já atuavam na escola. Ainda assim, ela considera que a presença feminina amplia a qualidade das decisões.

A executiva também defende a ampliação da participação das mulheres em conselhos e espaços de governança.

“Eu defendo que essa diversidade é necessária sobre todos os aspectos, porque nós vamos entender o mundo de uma maneira mais plural.”

Para ela, a diversidade não se limita à questão de gênero. Envolve diferentes experiências, trajetórias, origens e formas de interpretar a realidade. Esse conjunto de perspectivas contribui para análises mais completas e decisões mais equilibradas.

Escuta ativa como prática de liderança

Entre os conceitos destacados ao longo da entrevista, a escuta ativa apareceu como um dos pilares da gestão.

Valdenice fez questão de diferenciar ouvir de escutar.

“Nós fazemos muito a escuta ativa. Não é simplesmente estar na sua frente e ouvir o que você vai falar, é genuinamente se interessar pelo que você está trazendo.”

A prática se estende aos alunos, às famílias e aos profissionais da escola. Na avaliação da diretora, organizações que desejam formar novas lideranças precisam criar ambientes em que as pessoas se sintam ouvidas e respeitadas.

Formação humana além dos vestibulares

Com cerca de 4.200 alunos e atividades que se estendem das sete da manhã às nove da noite, o Dante Alighieri, em São Paulo, enfrenta o desafio de equilibrar desempenho acadêmico e formação humana.

Valdenice reconhece que os vestibulares continuam exercendo forte influência sobre o trabalho das escolas. Ao mesmo tempo, considera insuficiente limitar a educação à preparação para exames.

“Não dá para pensar numa escola que só se preocupe com o vestibular. Acho que é muito reducionismo.”

Ela resume a proposta educacional da instituição na expressão “high tech, high touch”: combinar excelência acadêmica, tecnologia, criatividade, empreendedorismo e desenvolvimento socioemocional.

Segundo a diretora, o mercado de trabalho exige cada vez mais competências relacionadas à tomada de decisão, capacidade de colaboração, criatividade e liderança, habilidades que precisam ser desenvolvidas ainda durante a vida escolar.

Inteligência artificial e o papel da escola

Outro tema central da entrevista foi a inteligência artificial.

Valdenice classificou a chegada da IA generativa como um dos momentos mais disruptivos da história recente da educação, comparável ao impacto provocado pela popularização da internet nos anos 1990.

Desde 2023, o Dante Alighieri vem desenvolvendo iniciativas para integrar a tecnologia às atividades pedagógicas. A estratégia inclui formação de professores, orientação às famílias e definição de critérios para o uso das ferramentas pelos alunos.

Segundo ela, o princípio que orienta todas as decisões é simples: a tecnologia deve servir às pessoas.

“A prioridade é o humano. São as relações humanas e a tecnologia vem para melhorar, para potencializar.”

A escola adotou plataformas que permitem aos professores selecionar e organizar os conteúdos utilizados pela inteligência artificial, preservando a autoria e a participação ativa dos educadores no processo de aprendizagem.

Aprender continuamente

Uma lição que considera essencial para qualquer profissional, independentemente da área de atuação, foi destacada por Valdenice ao fim da entrevista: a aprendizagem contínua.

“Eu não vou me cansar. É o lifelong learner. A gente continua aprendendo o tempo todo.”

Para ela, escolas, empresas e profissionais precisam manter uma postura permanente de atualização, buscando novas práticas e novos conhecimentos sem perder de vista a importância das relações humanas.

“A escola é um espaço do coletivo, assim como é qualquer instituição e todos aprendem.”

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Mundo Corporativo: Rodrigo Rubido, do Elos, defende uma liderança distribuída nas empresas

Rodrigo Rubido, do Instituto Elos
Rubido em entrevista no estúdio de podcast da CBN. Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“A gente deveria começar a trabalhar para que a gente tenha uma vida de interdependência.”

A discussão sobre saúde mental no ambiente de trabalho ganhou força nos últimos anos, mas convive com um fenômeno menos visível e cada vez mais presente: a solidão. Empresas investem em programas de bem-estar, falam sobre pertencimento e estimulam integração entre equipes, enquanto profissionais relatam isolamento, dificuldade de convivência e perda de vínculos humanos. O tema foi discutido por Rodrigo Rubido, arquiteto, cofundador e diretor do Instituto Elos, em entrevista ao Mundo Corporativo, da CBN.

Rubido relacionou esse processo à cultura de individualismo construída ao longo das últimas décadas. Segundo ele, a sociedade passou de uma lógica comunitária para uma dinâmica centrada na autonomia individual. Essa transformação trouxe avanços importantes, mas também enfraqueceu relações de convivência e colaboração. “O ser humano não estaria aqui se não fosse sua capacidade de viver em comunidade”, afirmou.

Para o diretor do Instituto Elos, as empresas acabam reproduzindo esse comportamento ao transformar competitividade em modelo dominante de gestão. Ele observa que muitos ambientes corporativos ainda estimulam disputas internas e dificultam relações de confiança e cuidado mútuo. Na visão dele, organizações ainda desconhecem o potencial que existe quando equipes passam a atuar verdadeiramente como comunidade.

A reflexão ganhou contornos mais concretos quando Rubido relembrou uma viagem que fez à Suécia, em 2007. Encantado inicialmente com o padrão de desenvolvimento social do país, acabou impactado ao descobrir um problema crescente de solidão entre idosos. Segundo contou, bombeiros instalavam sensores em residências para identificar se pessoas que moravam sozinhas continuavam vivas. O episódio serviu como contraste em relação às comunidades periféricas brasileiras com as quais o Instituto Elos trabalhava naquele período. Enquanto em países desenvolvidos a autonomia individual chegava ao extremo do isolamento, nas periferias brasileiras ainda existiam vínculos de vizinhança, troca e interdependência.

O valor da comunidade dentro e fora das empresas

O Instituto Elos nasceu nos anos 1990, quando um grupo de estudantes de arquitetura decidiu se aproximar das periferias urbanas para compreender melhor os desafios sociais das cidades. Rubido contou que havia uma inquietação em relação ao ensino tradicional da arquitetura, muito concentrado nas estruturas físicas e pouco atento à dimensão humana dos territórios.

A aproximação com comunidades periféricas acabou mudando o rumo do trabalho desenvolvido pelo grupo. Em vez de olhar apenas para carências e problemas, eles passaram a identificar potencialidades locais, formas de colaboração e capacidades coletivas já existentes. Essa percepção se transformou na base metodológica do Instituto Elos.

“A gente se dedicou a pesquisar o que tinha de melhor nesses lugares”, disse.

A metodologia desenvolvida pela organização parte justamente desse princípio: reconhecer potencialidades antes de tentar corrigir deficiências. O trabalho envolve fortalecimento de vínculos, construção de pertencimento e mobilização comunitária em torno de objetivos comuns. Segundo Rubido, o protagonismo coletivo surge quando pessoas passam a compartilhar sonhos, valores e responsabilidades.

Essa lógica também passou a ser aplicada dentro das empresas. Inicialmente, o Instituto Elos era procurado por organizações interessadas em apoiar projetos sociais. Com o tempo, as companhias começaram a solicitar treinamentos de liderança e apoio em conflitos com comunidades vizinhas às suas operações.

Rubido afirmou que muitas empresas ainda chegam aos territórios como estruturas isoladas, sem compreender que fazem parte de uma rede social mais ampla. Para ele, a ideia não deve ser apenas obter autorização para operar, mas construir relações permanentes de convivência e colaboração com as comunidades locais.

“A empresa precisa conhecer seus vizinhos, precisa entender os interesses, as necessidades, os desafios daquele bairro onde ela tá inserida”, afirmou.

Segundo ele, boa parte dos conflitos corporativos com comunidades surge justamente pela ausência de escuta e diálogo desde o início da operação. O resultado, muitas vezes, aparece em prejuízos financeiros, desgaste institucional e deterioração das relações locais.

Liderança, escuta e colaboração

Outro eixo central da entrevista foi a formação de lideranças. Rodrigo Rubido criticou modelos excessivamente hierarquizados, nos quais decisões estratégicas são tomadas por pessoas distantes da operação cotidiana das empresas. Ele defende uma lógica de “liderança distribuída”, em que a condução dos projetos circula de acordo com a experiência e a capacidade de realização de cada integrante da equipe.

Na prática, isso exige líderes menos concentrados em controle e mais preparados para escutar, dialogar e construir soluções compartilhadas. Rubido argumenta que fomos educados para identificar falhas e problemas, mas pouco treinados para reconhecer potencialidades humanas.

“A gente foi muito bem educado para identificar problemas”, observou.

Na metodologia aplicada pelo Instituto Elos, antes de qualquer ação prática existe um processo de fortalecimento de vínculos afetivos, identificação de valores comuns e definição coletiva de objetivos. Só depois dessas etapas acontece a execução do projeto.

Segundo Rubido, muitas organizações operam abaixo de seu potencial porque trabalham com pessoas desconectadas entre si, executando projetos nos quais não se reconhecem. Para ele, ambientes mais colaborativos produzem não apenas melhores relações humanas, mas também resultados concretos para os negócios.

Ao fim da entrevista, deixou uma provocação às lideranças empresariais: “O convite é que a gente aposte em melhorar as pessoas, ao invés de controlar as pessoas.”

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Mundo Corporativo: Alcebíades Jr, da Libbs Farmacêutica, explica como criar uma mentalidade de excelência

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“Se você quer excelência, você não cobre excelência. Você tem que motivar as pessoas a se envolverem nesse movimento de querer melhorar.”

Desenvolver um medicamento exige anos de pesquisa, investimentos elevados e convivência permanente com o risco de fracasso. Em muitos casos, um projeto iniciado hoje só chegará ao mercado cinco anos depois — isso quando chega. É nesse ambiente de pressão constante que empresas farmacêuticas tentam equilibrar inovação, produtividade e segurança. O tema foi discutido por Alcebíades Junior, presidente-executivo da Libbs Farmacêutica, em entrevista ao programa Mundo Corporativo, da CBN.

Ao falar sobre a trajetória da companhia, Alcebíades apresentou a Libbs como uma empresa que buscou ocupar espaços pouco explorados pela indústria farmacêutica nacional. Citou o lançamento de medicamentos para arritmia cardíaca em um período em que laboratórios brasileiros ainda evitavam esse segmento, além do desenvolvimento de produtos para rejeição de órgãos e da produção nacional de anticorpos monoclonais usados no tratamento de câncer e doenças autoimunes.

Hoje, a empresa reúne cerca de quatro mil colaboradores, cem marcas e aproximadamente 250 apresentações de medicamentos. Atua em áreas como psiquiatria, saúde feminina, dermatologia, oncologia e doenças reumáticas. Mesmo assim, o executivo reconhece que inovar no setor continua sendo uma operação cercada de incertezas. Segundo ele, muitos projetos consomem tempo e recursos até que se perceba, no meio do percurso, que já não fazem mais sentido comercial ou científico.

A cultura organizacional além do discurso

Para enfrentar esse ambiente complexo, a Libbs estruturou internamente um modelo de gestão batizado de “Pirâmide Mentex”. A lógica é simples na aparência, embora difícil na prática: segurança vem antes de qualidade; qualidade vem antes de produtividade; e tudo precisa ser permanentemente revisado pela ideia de melhoria contínua.

A proposta surgiu da tentativa de transformar conceitos abstratos em critérios objetivos para a tomada de decisão. Na visão de Alcebíades, cultura empresarial não se sustenta em apresentações institucionais ou frases penduradas na parede. O teste real aparece nos momentos de pressão, quando a liderança precisa escolher entre acelerar resultados ou respeitar os princípios que diz defender.

Foi justamente dessa necessidade de coerência que nasceu a hierarquia da pirâmide. O executivo contou que parte dessa percepção foi influenciada por uma visita à Disney, onde ouviu que a segurança das pessoas era mais importante do que o próprio espetáculo. A ideia permaneceu com ele e acabou incorporada à forma como passou a enxergar gestão.

Na prática, isso significa que produtividade não pode atropelar segurança nem qualidade — uma lógica que ele tenta aplicar desde a contratação de funcionários até decisões operacionais e estratégicas.

Excelência não é perfeccionismo

Alcebíades fez questão de separar a busca pela excelência do perfeccionismo. Para ele, existe uma diferença importante entre tentar melhorar continuamente e perseguir um ideal inalcançável movido mais pela vaidade do que pela entrega concreta.

Segundo explicou, a excelência está ligada à capacidade de produzir a melhor solução possível naquele momento, dentro das condições existentes. Já o perfeccionismo, na visão dele, costuma gerar ansiedade, atropelar etapas e dificultar a evolução consistente dos processos.

“O perfeccionista já quer fazer o impossível. Ele pula etapas e quando você pula etapas, você nunca chega lá.”

A ideia de evolução gradual aparece com frequência na maneira como ele descreve sua própria forma de gestão. Alcebíades afirmou que desenvolveu o hábito de revisar continuamente decisões, textos e processos, procurando pequenas melhorias sucessivas em vez de mudanças radicais.

Essa lógica também foi aplicada em programas internos da empresa. Uma obrigação legal relacionada à semana de segurança do trabalho, por exemplo, acabou transformada em um programa mais amplo, que passou a discutir saúde, qualidade e prevenção durante a pandemia de Covid-19. O mesmo ocorreu com o programa Jovem Aprendiz, que deixou de ser tratado apenas como exigência burocrática para funcionar como espaço de formação e aproveitamento profissional.

Liderança construída ao longo do tempo

A conversa também abordou o processo de sucessão e profissionalização dentro da Libbs. Embora seja uma empresa ligada à história da família, Alcebíades defendeu que o fortalecimento da cultura organizacional depende da formação contínua de lideranças internas.

Ele afirmou que passou a ter mais sucesso nas promoções quando deixou de buscar executivos prontos para cargos elevados e começou a desenvolver profissionais que já conheciam profundamente os valores e o funcionamento da companhia. Muitos diretores atuais começaram décadas atrás em posições intermediárias e cresceram dentro da própria organização.

“Tem um pipeline de liderança, ou seja, você está sempre desenvolvendo, permitindo que as suas lideranças se desenvolvam para que um dia elas assumam todas as posições, inclusive a minha.”

Ao lembrar da influência do pai, que comandou a empresa antes dele, Alcebíades retomou uma frase que ouviu muitas vezes ao longo da vida: “Cada tijolo da Libbs foi colocado por um colaborador.”

A memória ajuda a explicar uma das ideias centrais da entrevista: empresas não existem sem pessoas. Em determinado momento da conversa, ele resumiu essa visão de maneira direta: “Se tirar as pessoas da Libbs, não existe Libbs.”

Escuta como instrumento de gestão

Entre as ferramentas usadas para manter proximidade com os funcionários está um programa interno chamado “Perguntar não ofende”. A iniciativa permite que colaboradores enviem perguntas anônimas diretamente à presidência da empresa.

Mais do que as respostas, Alcebíades disse prestar atenção às perguntas recorrentes. É nelas que identifica ruídos internos, preocupações coletivas e temas que exigem ação da liderança. Segundo ele, o crescimento da companhia tornou impossível conhecer pessoalmente todos os colaboradores, o que aumentou a necessidade de criar canais permanentes de escuta.

“As perguntas são mais interessantes, porque é ali que eu percebo onde é que as coisas podem estar pegando e onde é que eu posso melhorar.”

A partir dessas manifestações, a empresa encaminha cobranças e discussões para as áreas responsáveis. O executivo afirmou que ouvir sem responder ou agir acaba destruindo a credibilidade de qualquer iniciativa de comunicação interna.

Trabalho remoto e produtividade

Outro tema tratado na entrevista foi a manutenção do trabalho remoto em parte das operações após a pandemia. Alcebíades afirmou que a experiência mudou profundamente a dinâmica das reuniões e aumentou a produtividade.

Antes, grande parte do tempo era consumida em deslocamentos entre escritórios, fábricas e encontros presenciais. Hoje, segundo ele, reuniões com equipes de diferentes cidades acontecem em sequência, com intervalos mínimos entre uma conversa e outra.

Além disso, a empresa incorporou métodos inspirados em práticas adotadas por companhias de tecnologia. Um deles veio da Amazon: antes de cada reunião, os participantes recebem um memorando resumindo o problema que será discutido. O documento serve como ponto de partida para decisões mais rápidas e objetivas.

A adoção do trabalho remoto também alterou a visão do executivo sobre equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Na avaliação dele, as duas dimensões estão inevitavelmente conectadas e não fazem sentido como universos separados.

Assista ao Mundo Corporativo

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Letícia Valente, Rafael Furugen, Débora Gonçalves e Priscila Gubiotti.

Mundo Corporativo: para Cláudia Vilhena, VP da empresa dona do Outback, ouvir o cliente não é fazer o que ele pede

Cláudia Vilhena, do Ouback, no Mundo Corporativo
Cláudia Vilhena no estúdio de podcast da CBN Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“Não adianta você criar uma área que ouve o cliente, se você não vai fazer nada com isso.”

Cerca de 3 milhões de transações por mês passam pelos 207 restaurantes da Bold Hospitality Company no Brasil, em um sistema que depende diretamente da leitura constante do comportamento do consumidor. Esse movimento, que combina dados, escuta ativa e adaptação contínua, foi tema de entrevista com Cláudia Vilhena, sócia e vice-presidente de Marketing, Vendas e Growth da empresa, ao programa Mundo Corporativo da CBN. 

A empresa reúne marcas conhecidas do público, Outback, Abbraccio e Aussie, e estrutura sua estratégia a partir de um ciclo contínuo que começa na observação do cliente e termina na análise de resultados. Ao longo da conversa, Cláudia descreveu como esse processo exige coerência entre discurso e prática.

“Ouvir o que o cliente tem a dizer não necessariamente é fazer o que ele está pedindo”, afirmou. “Tem que fazer sentido para o seu negócio, seja ele qual for.”

Escuta ativa exige decisão

A escuta ativa aparece com frequência no discurso corporativo. Na prática, segundo Cláudia, ela só funciona quando está integrada à cultura da empresa. “Não adianta você criar dentro da sua organização uma área que ouve o cliente, se você não vai fazer nada com isso, porque você criou uma expectativa no seu cliente.”

Esse processo envolve mais do que pesquisas tradicionais. Não se resume a avaliações numéricas ou formulários. Exige interpretação e disposição para rever caminhos. “A sua empresa está aberta a realmente se transformar para o que faz sentido para ela, mas ouvindo o consumidor?”

Do comportamento ao produto

Na Bold, o trabalho começa antes mesmo da criação de produtos. A empresa observa tendências de consumo, avalia se elas se conectam com suas marcas e, só então, inicia o desenvolvimento.

“Como é que a gente entende isso fora das marcas da Bold? Como é que a gente traz isso e conecta com o nosso negócio?”

Esse processo inclui testes com consumidores, ajustes de produto e análise de viabilidade operacional. Só depois dessas etapas o item chega ao cardápio. “Para a gente não sair surfando os hypes e fazendo coisas que eventualmente não têm a cara das nossas marcas.”

Após o lançamento, o acompanhamento continua. A empresa monitora frequência de consumo, adesão ao produto e comportamento do cliente para avaliar se as expectativas foram atendidas. “Então você vê que é realmente um ciclo.”

Um dos pontos centrais da estratégia é fazer o consumidor perceber que participa do processo. “Se o consumidor percebe que ele está sendo ouvido, ele percebe que ele está realmente participando do processo, isso é muito rico.”

Essa percepção fortalece o vínculo com a marca e aumenta a recorrência de consumo. “Faz realmente a conexão da marca ser verdadeira com esse consumidor.”

Liderança começa pela escuta

A lógica da escuta não se limita ao cliente. Ela também orienta a gestão de equipes. Cláudia afirma que o papel principal da liderança é criar condições para que as pessoas consigam trabalhar bem. “Meu papel primordial é ser líder para o meu time. É ouvi-los.”

Esse processo inclui presença no dia a dia da operação. A executiva relata que costuma frequentar os restaurantes para observar o comportamento real dos clientes. “A campanha que eu pensei lá sentadinha na minha mesa, ela está funcionando na ponta?”. A pergunta resume um princípio simples: estratégia só se valida na prática.

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Mundo Corporativo: fonoaudióloga Juliana Algodoal alerta que a forma de falar impacta saúde e resultados

Mundo Corporativo com Juliana Algodoal
Juliana Algodoal em entrevista no estúdio da CBN Foto: Priscila Gubiotti/CBN

“A pessoa que fala é responsável por fazer o outro se sentir bem ou mal.”

A comunicação está no centro das relações de trabalho e influencia diretamente decisões, clima organizacional e saúde mental das equipes. Em ambientes pressionados por resultados e mudanças tecnológicas, a forma como líderes e profissionais se expressam pode fortalecer vínculos ou gerar ruídos que afetam o desempenho. Esse foi o tema da entrevista com Juliana Algodoal no programa Mundo Corporativo, da CBN.

Ao longo da conversa, Juliana destacou que a comunicação vai além da clareza. Envolve intenção, emoção e contexto. “Se uma pessoa que está na liderança não se preocupa em ter clareza na forma de falar e garantir a intenção, na emoção da voz que ela exprime, a pessoa que escuta pode interpretar de diversas formas”, afirmou.

Comunicação, percepção e responsabilidade

A autora do livro Inteligência Humana e Comunicativa: Potencialize sua voz (ed Memorável) chama atenção para um ponto sensível: quem fala precisa assumir a responsabilidade pelo efeito da mensagem. Isso inclui ajustar tom de voz, escolha de palavras e até o ritmo da fala. “Eu é que tenho que me preocupar em ter clareza na forma de falar para você se sentir bem ou mal”, disse.

Esse cuidado se torna ainda mais relevante em posições de liderança. A ausência de alinhamento entre o que se diz e como se diz pode gerar interpretações equivocadas e conflitos internos. Segundo Juliana, muitos problemas nas empresas começam na falta de clareza e na ausência de verificação do entendimento.

Ela também aponta que ouvir faz parte do processo. “A percepção que eu tenho quando eu escuto alguma coisa, ela é a partir da minha história de vida”, explicou, ao destacar que comunicação é sempre uma via de mão dupla.

Feedback: ponto de tensão e de desenvolvimento

Entre as situações mais desafiadoras no ambiente corporativo está o feedback. “Feedback sempre, porque as pessoas têm a imagem de que feedback é ruim e isso não é verdade”, afirmou.

Juliana apresentou três caminhos práticos para tornar esse processo mais produtivo:

  • começar por um ponto positivo, abordar o que precisa melhorar e encerrar com apoio;
  • entender a expectativa de quem pede o retorno;
  • ou tratar primeiro o ponto mais crítico e finalizar com reforço positivo.

A ideia é que a forma como o feedback termina influencia a forma como ele será recebido. “Se você termina com feedback positivo, a pessoa sai assim: ‘Ah, não tá tão ruim’. Deixa eu ver o que eu tenho que fazer agora”, explicou.

Para quem recebe críticas, a recomendação é ativa: perguntar, pedir exemplos e filtrar o que faz sentido. “Eu sou favorável de que as perguntas abertas fazem uma boa conversa”, disse.

O silêncio que atrapalha e o que ajuda

O silêncio também ganhou destaque na entrevista. Quando usado como ausência de liderança, ele desorienta equipes. “O líder que faz silêncio ele não lidera, ele não inspira, ele não leva o time para frente”, afirmou.

Por outro lado, há um silêncio produtivo: aquele que permite reflexão antes da resposta. “Espera, internaliza, pensa: o que é de verdade que essa pessoa tá me perguntando?”, orientou.

Esse equilíbrio entre falar e escutar, segundo Juliana, é essencial para melhorar a qualidade das interações.

A entrevista também abordou o impacto das mudanças no mundo do trabalho. Com o avanço da tecnologia, cresce a necessidade de fortalecer habilidades humanas. “A inteligência artificial cresceu, a empresa tá percebendo que ela tem que investir mais em comunicação. Por quê? Porque o relacionamento humano tá se tornando mais importante”, afirmou.

Nesse cenário, comunicação deixa de ser um complemento e passa a ser competência central.

Juliana resume esse movimento com uma provocação simples: “Todos nós podemos melhorar, basta querer e escolher um primeiro passo”.

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Avalanche Tricolor: mais que vitória, um grito por Marlon

Grêmio 2×0 Vitória

Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre RS

Gremio x Vitoria
Antes da lesão, Marlon participou da comemoração do segundo gol Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

A vitória do Grêmio, nesta noite de quinta-feira, era obrigação. O contexto pedia mais do que três pontos. Pedia resposta. O Grêmio entregou. E entregou bem. O time de Luis Castro não apenas venceu. Levou ao gramado da Arena um futebol qualificado, dominante.

A ideia que o treinador tem para esta temporada fica cada vez mais clara. Há sinais evidentes de um modelo em construção. A bola esticada pelas pontas, a tentativa constante de acelerar o jogo, a crença no poder do drible, a marcação alta que distribui responsabilidade a todos. Não é um desenho pronto, mas já tem traços reconhecíveis. E isso, no futebol, costuma ser meio caminho andado.

O resultado, no entanto, perdeu tamanho diante de uma cena que chocou a Arena – e todos nós apaixonados por futebol. Aos 25 minutos do segundo tempo, Marlon caiu. Não foi uma queda qualquer. Foi daquelas que fazem o estádio inteiro prender a respiração antes mesmo de entender o que aconteceu.

A imagem é difícil de esquecer. Preso entre dois adversários, tentando escapar em direção ao ataque, ele teve a perna retida no gramado, o corpo por cima, o pé em posição que não deveria existir. Há lances que dispensam laudo médico. O olhar já antecipa a gravidade.

Marlon é gremista de coração. É daqueles que carregam história junto com a camisa. Chegou aos 28 anos para viver o que muitos chamam de sonho. E tratou esse sonho com a seriedade de quem sabe o peso que ele tem.

Foi voz quando o silêncio seria mais confortável. Questionou arbitragem, assumiu responsabilidades em momentos difíceis, não se escondeu em uma temporada irregular. Dentro de campo, cresceu. Fora dele, se posicionou. Assim se constrói liderança — não com braçadeira, mas com atitude. A faixa, aliás, que carregava na noite de hoje, foi apenas um detalhe coerente com o papel que já exercia.

O estádio reagiu como se espera de quem reconhece os seus. Houve mãos na cabeça, olhos fechados, lágrimas soltas na arquibancada. Willian tentou esconder o choro sob a camisa. Cada um lidou à sua maneira com a cena. Nenhum de nós, no entanto, alcança a dor que ficou ali, naquele gramado.

A resposta veio em forma de canto. O nome de Marlon ecoou nas arquibancadas, transformando angústia em apoio. Um gesto simples, direto, que o futebol ainda sabe produzir quando tudo mais parece pequeno. E então, mesmo na dor, ele respondeu. Quando era levado para a ambulância, encontrou força, ergueu o corpo na maca, e com palmas agradeceu. Um gesto curto, mas cheio de significado. Há momentos em que o caráter se revela sem precisar de discurso.

A vitória fica registrada. O desempenho também. A noite, porém, será lembrada por outra razão.

Que Marlon encontre força para atravessar esse capítulo. O Grêmio e a sua gente estarão à espera. Não apenas pelo jogador. Pelo líder que fez da camisa algo maior do que um uniforme.

Quando a inteligência artificial bate à porta do RH

Reprodução da palestra no Open Talent Summit 2025


A inteligência artificial deixou de ser um assunto restrito a engenheiros, laboratórios e áreas de tecnologia. Ela passou a disputar espaço na mesa onde se tomam decisões sobre gente, cultura e liderança. Esse deslocamento muda o jogo dentro das empresas — e reposiciona o RH no centro da estratégia..

Essa percepção ficou clara para mim ao ouvir Ryan Bulkoski, da Heidrick & Struggles, executivo global da área de dados e inteligência artificial, um dos convidados do Open Talent Summit 2025. O evento promovido pea Chiefs.Group,  uma plataforma de “executivos sob demanda”, foi realizado em São Paulo. 

Ryan lida há anos com a contratação de lideranças em inteligência artificial para grandes companhias. Segundo ele, até pouco tempo atrás, esse tema ficava restrito aos times técnicos. Hoje, quem puxa a conversa é o RH. Não por acaso. A inteligência artificial não é apenas uma nova ferramenta. Ela muda a forma como as pessoas trabalham, aprendem e se relacionam dentro das organizações.

Um ponto me chamou atenção: Ryan insiste que o maior desafio da IA não é técnico, é mental. A ideia de que alguém “é dono” da inteligência artificial perdeu sentido. Ela atravessa todas as áreas. Por isso, passou a aparecer até em descrições de cargos que nada têm de tecnológicos. Espera-se que líderes compreendam, estimulem e saibam conversar sobre o tema — mesmo sem dominar o funcionamento interno das ferramentas.

Nesse cenário, a humildade virou ativo. Executivos que dizem “ainda estou aprendendo” criam ambientes mais seguros. Especialmente para os mais jovens. A liderança, aqui, deixa de ser a do especialista que sabe tudo e passa a ser a de quem convida para o aprendizado coletivo.

Ryan evita discursos grandiosos sobre resultados. Prefere exemplos simples. Recrutadores que ganham tempo com triagens automatizadas. Gestores que usam IA para estruturar feedbacks difíceis. Conselheiros que trocam horas de preparação por minutos de leitura assistida. O ganho aparece quando sobra tempo, clareza e energia humana.

Outro dado revelador: hoje, praticamente todas as buscas por executivos já incluem alguma exigência relacionada à inteligência artificial. Não apenas para cargos técnicos, mas para conselheiros, CEOs e líderes de áreas tradicionais. Não se trata de saber programar. Trata-se de não ficar fora da conversa.

O medo, claro, acompanha a mudança. Ryan defende que a melhor resposta não é discurso, mas exemplo. Líderes que mostram como usam IA — inclusive expondo dúvidas e limitações — ajudam a criar confiança. Vulnerabilidade, nesse caso, não enfraquece. Aproxima.

No fim, ficou uma ideia difícil de ignorar. O maior risco de não avançar na agenda de inteligência artificial não é tecnológico. É humano. Talentos deixam empresas que parecem lentas, fechadas ou pouco dispostas a aprender. A cultura envelhece antes do negócio.

A inteligência artificial pode até assustar. Mas, como lembrou Ryan, outras grandes transformações também causaram receio. Estradas, ferrovias, energia. Ajustes vieram, mas a infraestrutura ficou. Com a IA, tudo indica que estamos apenas no começo.

Cabe à liderança decidir como atravessar esse caminho: espalhando medo ou convidando à curiosidade. A tecnologia, no fim das contas, não escolhe – ao menos não deveria. Quem escolhe somos nós.